Capítulo 6

Os Rejeitados

16 min de leitura

A Seikret que me deram já tinha quebrado três costelas. Nenhuma delas era dela.

— Um cavaleiro da escolta de Varnhal, no primeiro dia — disse Nessa, lendo de um caderno, com a voz de quem preferia estar lendo qualquer outra coisa. — Um soldado da guarnição, que tentou montar à força. E um caçador reintegrado da 33ª, na semana passada. Esse também quebrou o pulso.

— E ela?

— Ela o quê?

— Ela se machucou?

Nessa levantou os olhos do caderno e me olhou por cima dos óculos tortos, como se eu tivesse perguntado alguma coisa numa língua estrangeira.

— Ninguém nunca perguntou isso — disse ela.


Eu tinha chegado cedo. Muito cedo. Antes do sol, antes do sino, antes até do cozinheiro enorme acender a primeira lareira do refeitório. Tinha passado a noite num beliche duro, no alojamento dos voluntários, ouvindo o velho Custódio tossir e o Ruivo falar dormindo, e, assim que o céu pela janela estreita ficou cinza, me levantei, vesti o casaco de pele de ovelha e desci para os estábulos.

Não adiantou.

Os estábulos de Varnhal eram uma construção comprida de pedra e madeira, encostada na muralha norte, com baias dos dois lados de um corredor largo e o cheiro quente e forte de palha, esterco e pena molhada. Quando cheguei, já havia uma fila. E a fila não era por ordem de chegada.

— Por rank — explicou Nessa, na porta, com o caderno aberto e uma pena atrás da orelha. — Primeiro os reintegrados. Depois os designados com experiência de campo. Depois os voluntários, pela nota da prova. Depois os... — Ela olhou para o fundo do pátio, onde os condenados esperavam em fila, com dois soldados de cada lado. — Os outros.

— E eu sou o último dos voluntários.

Ela fez uma careta de desculpa.

— Combate: nota dois. Rastreio: nota dez. — Ela mostrou o caderno. Estava escrito ali, na letra do Gault, que eu reconheci pelas voltas feias. — A média é seis. Só que a Guilda não usa média. Usa a menor.

— Claro que usa.

Esperei. Vi Brann receber um Seikret enorme, macho, de plumagem cor de ferrugem, que abaixou a cabeça para ele como um cachorro velho que reconhece o dono. Vi Veyra Holt, a Comandante, que eu ainda não conhecia a não ser de longe, entrar no estábulo, pegar pelas rédeas uma Seikret branca e cinza sem dizer uma palavra a ninguém e sair. Vi os Gêmeos Dace brigarem pelo mesmo animal até Nessa lhes dar dois idênticos, só para calar a boca deles. Vi Tami receber uma Seikret pequena e malhada, e um Palico branco com manchas pretas que se chamava Nabo e que começou a lamber a mão dela imediatamente.

Vi até os condenados receberem montarias: as mais velhas, as mais magras, as que ninguém mais queria. Sila Varn, com as mãos ainda presas por uma corrente curta entre os pulsos, recebeu uma Seikret preta, de olhos vermelhos, que um tratador tinha chamado de demônio dois minutos antes. A Seikret olhou para Sila. Sila olhou para a Seikret. E a Seikret abaixou a cabeça.

Quando chegou a minha vez, o sol já estava alto, e o estábulo, quase vazio.

— Então... — disse Nessa, e passou três páginas do caderno para frente e duas para trás. — Sobrou a Catorze.


A Catorze estava na última baia do corredor, no fundo, onde a luz não chegava direito.

Ouvi antes de ver. Um barulho de madeira batendo, de garras arranhando pedra, de penas se debatendo. Depois, um som que eu nunca tinha ouvido de nenhum animal: um trinado agudo, trêmulo, que subia e descia e subia de novo, sem parar, como alguém tentando cantar e chorar ao mesmo tempo.

Os dois tratadores que estavam ali perto recuaram quando nos viram chegar.

— Senhorita Orlen — disse um deles —, eu não chegaria perto. Ela está pior hoje.

A baia tinha as paredes arranhadas até a madeira clara. O chão estava coberto de penas, marrons, cinzentas e algumas brancas, tantas que parecia que alguém tinha estripado um travesseiro. E, no meio delas, encostada no canto do fundo com o corpo todo encolhido, estava a Seikret.

Era menor que as outras. Mais magra. Tinha a plumagem de um marrom-acinzentado de terra molhada, com a crista da cabeça branca, espetada, eriçada até a última pena. As pernas compridas tremiam. Os olhos, grandes, dourados e redondos, giravam sem parar, de mim para Nessa, de Nessa para os tratadores, dos tratadores para a porta da baia, como os de um bicho que procura por onde fugir e não encontra.

Havia marcas nos flancos dela. Cicatrizes finas, paralelas, em fileiras, onde as penas não tinham crescido de volta.

— Espora — disse eu.

— Como? — perguntou Nessa.

— Aquilo. — Apontei com o queixo, devagar. — Marca de espora. Alguém enfiou muita espora nela. Muito tempo.

Nessa olhou. Depois olhou para os tratadores, que desviaram os olhos.

— Ela veio da escolta do sul — disse um deles, baixo. — Já veio assim.

Fiquei um tempo olhando a Seikret. Ela me olhava de volta, tremendo. Não era raiva. Eu conhecia raiva de bicho. Raiva baixa a cabeça, crava as patas, mostra o bico. Aquilo era outra coisa. Era o jeito da Teimosa na saliência da Cabeça-de-Boi. O jeito de um animal que aprendeu que o mundo inteiro machuca e que só está esperando para saber de onde vem a próxima.

— Tudo bem — eu disse, baixinho. Não sei se para ela ou para mim. — Tudo bem.

— Kest, eu não acho que...

— Pode me dar um tempo? — Olhei para Nessa. — Só um tempo. Sem ninguém por perto.

Ela hesitou. Depois fez um gesto para os tratadores, e os três recuaram até a metade do corredor. Eu soltei o escudo do Tadeu das costas e o encostei na parede, longe da baia. Tirei a espada da cintura e a pus em cima dele. Depois me sentei no chão, do lado de fora da porta da baia, de lado, sem olhar para ela.

E comecei a cantarolar.


Não era uma música de verdade. Era uma coisa que a minha mãe cantava quando eu era pequeno, e que os pastores de Pedravento cantam para os Aptonoth na época de parir, quando eles ficam nervosos e ninguém consegue chegar perto. Não tem letra. É só um som baixo, contínuo, que sobe um pouco e desce um pouco, sempre no mesmo lugar, como o vento quando ele está cansado.

Cantarolei aquilo por muito tempo. Olhando para o chão, para as penas, para as minhas mãos. Nunca para ela.

O trinado dentro da baia continuou, agudo, trêmulo. Depois, bem devagar, começou a baixar.

— Isso é ridículo — disse uma voz ao meu lado, bem alto. — Você vai ficar aí o dia inteiro fazendo hmmmmmm para uma galinha?

Quase morri do coração.

Estava sentado em cima de um barril, a dois passos de mim, com as pernas curtas balançando. Um Palico. Pequeno, até para um Palico, com o pelo de um laranja tão forte que parecia fogo, e uma mancha branca em volta de um dos olhos, como se alguém tivesse errado a pintura. Tinha as orelhas grandes demais para a cabeça e um rabo comprido, que se mexia sem parar. Usava um avental de couro sujo de gordura, e, preso no cinto do avental, um cutelo de cozinha quase do tamanho dele.

— Quem é você? — sussurrei.

— A pergunta certa é: quem é você? — Ele pulou do barril com uma cambalhota que não precisava existir e aterrissou na minha frente. — Porque eu sei quem eu sou. Eu sou o Brasa. Palico. Ex-cozinheiro da estalagem do Sapo Gordo, em Varnhal-de-Baixo. Caçador de coisas pequenas, cozinheiro de coisas grandes, especialista em temperos, em facas e em conversa. E, segundo a senhorita Orlen ali, que acha que eu não estou ouvindo, sou o que sobrou.

Olhei para Nessa, no meio do corredor. Ela fez um gesto de desculpas com as duas mãos e mexeu os lábios sem som. Ele é seu.

— Você também sobrou? — perguntei para o Palico.

— Eu fui devolvido — corrigiu Brasa, com o dedo levantado. — É diferente. Três vezes. O primeiro caçador disse que eu falava demais. O segundo disse que eu cozinhava demais, o que eu nem sabia que era possível. E o terceiro não disse nada. Só fugiu, de noite, e deixou um bilhete. — Ele coçou a orelha. — Não sei o que dizia o bilhete. Não sei ler. Mas a senhorita Orlen leu e ficou vermelha.

Dentro da baia, a Seikret tinha parado de trinar. Estava olhando para o Palico com os olhos dourados arregalados.

— Você pode falar mais baixo? — pedi.

— Por quê?

— Porque ela está com medo.

— De mim? — Brasa olhou para a Seikret, depois para mim, com ofensa sincera. — Eu sou do tamanho de um pão.

— Ela está com medo de tudo.

Brasa parou. As orelhas grandes giraram para a frente, na direção da baia. Olhou para a Seikret por um tempo, para as penas no chão, para as cicatrizes nos flancos. E alguma coisa na cara dele mudou.

— Ah — disse ele, bem mais baixo. — Ah. Tá.

E sentou do meu lado no chão, de pernas cruzadas, e não disse mais nada.


Levou a manhã inteira.

Cantarolei até a garganta secar. Depois fiquei em silêncio, só respirando devagar, alto o bastante para ela ouvir. Depois voltei a cantarolar. Brasa, do meu lado, ficou calado por um tempo que, depois eu descobri, era o maior silêncio da vida dele. Em algum momento, ele tirou de um bolso do avental um pedaço de carne seca, cheirou, suspirou como se estivesse se despedindo de um amigo, e o jogou devagar, rolando pelo chão, para dentro da baia.

A Seikret olhou para a carne. Olhou para nós. Não se mexeu.

Mais tarde, quando o sol já entrava pelas frestas do telhado em fatias finas, ela esticou o pescoço, bem devagar, e pegou a carne com a ponta do bico. Engoliu de uma vez. E ficou olhando para o Brasa.

— Ela gostou — sussurrou ele. — Ela gostou do meu tempero.

— Não tinha tempero nenhum.

— Tinha, sim. Tinha amor.

Foi então que eu fiz a coisa que qualquer tratador de Varnhal teria dito que era loucura. Me levantei devagar, estiquei o braço e abri o trinco da baia.

— Kest! — ouvi Nessa sussurrar lá do corredor.

Não entrei. Só abri a porta, toda, e dei três passos para trás, para o meio do corredor, e voltei a sentar no chão, de lado, sem olhar.

Porque eu tinha entendido uma coisa, olhando para as paredes arranhadas até a madeira clara. Ela não estava tentando atacar ninguém. Estava tentando sair.

Por um tempo, nada aconteceu. Depois ouvi um passo. Garras na pedra, hesitantes. Outro passo. Pelo canto do olho, vi a cabeça dela aparecer na porta aberta, a crista branca eriçada, os olhos dourados olhando para o corredor comprido, para a luz lá no fim, para o pátio.

Ela saiu. Um passo de cada vez, tremendo. Passou por mim tão perto que senti o vento das penas no rosto. Andou pelo corredor inteiro, olhando para cada baia, para cada tratador encolhido contra a parede, para Nessa, que tinha parado de respirar. Chegou até a porta do estábulo, onde a luz do sol batia em cheio no chão de pedra, e parou ali, no limite, com metade do corpo no escuro e metade na luz.

E aí se virou. E voltou.

Veio andando pelo corredor, devagar, de volta até mim. Parou do meu lado. Abaixou o pescoço comprido. E encostou a ponta do bico, de leve, quase sem peso nenhum, no meu ombro.

Uma pena branca da crista dela se soltou e caiu no meu colo.

— Pena — eu disse, antes de pensar. Peguei a pena e mostrei para ela. — Olha isso. Você vai ficar careca se continuar assim.

Ela soltou um trinado curto. Diferente do outro. Mais baixo, quase uma pergunta.

— Pena — repeti. — É esse o seu nome agora. Tudo bem?

Não sei se ela entendeu. Acho que não. Mas encostou o bico no meu ombro de novo, e ficou.

Lá no fundo do corredor, ouvi Nessa soltar o ar, bem devagar, e escrever alguma coisa no caderno. Muito tempo depois, ela me mostrou o que tinha escrito naquele dia. Estava lá, na letra redonda e caprichada dela, embaixo do meu nome:

Kest — Seikret: Pena (ex-Catorze). Palico: Brasa. Três rejeitados. Que os ventos nos ajudem.


— Três rejeitados — disse Brann naquela tarde, no pátio, olhando para nós com a caneca de latão na mão. — Combina.

Pena estava do meu lado, com o bico enfiado debaixo do meu braço, porque tinha descoberto que ali era mais escuro e mais quente. Brasa estava empoleirado nas costas dela, porque ela tinha descoberto que o gosto dele, ou o cheiro de carne seca dele, era bom, e agora não deixava ele sair de perto. De vez em quando, ela o bicava de leve na cabeça, e ele reclamava, e ela trinava, e eu ria.

— O senhor acha que ela vai aguentar? — perguntei. — Na viagem. No vale.

Brann bebeu. Olhou para Pena de um jeito mais sério do que eu esperava.

— Garoto, os bichos que mais aguentam não são os mais fortes. São os que já apanharam e continuaram de pé. — Ele deu de ombros. — Igual gente.

E foi embora, assobiando, antes que eu pudesse perguntar se ele estava falando da Pena ou de si mesmo.


Pena fugiu naquela noite.

Não a culpo. Os estábulos de Varnhal ficavam encostados na muralha norte, e à noite o vento que subia do vale batia nas três torres de atracação e fazia os cabos de ferro gemerem, um som comprido, grave e metálico que atravessava as paredes de pedra como se elas não existissem. Eu mesmo, no alojamento, acordei com aquele som duas vezes, com o coração disparado, sem saber onde estava.

Na terceira vez que acordei, foi com o Brasa pulando na minha barriga.

— Chefe! — Ele tinha resolvido, em algum momento daquela tarde, que ia me chamar de chefe. — Chefe, chefe, a galinha fugiu!

— Não chama ela de galinha.

— A Pena fugiu! A tratadora deixou o trinco aberto porque você disse que ela gostava de porta aberta, e o vento bateu nos ferros, e ela saiu correndo, e eu tentei segurar, mas ela é grande e eu sou do tamanho de um pão, e...

Eu já estava de botas.

Seguimos o rastro dela pelo pátio escuro. Não foi difícil. As penas iam caindo pelo caminho, brancas e marrons, brilhando fracas na luz das poucas tochas que ainda estavam acesas. Iam em direção ao lado oeste do posto, onde ficavam os armazéns e, depois deles, a base das torres de atracação.

Encontrei-a entre duas pilhas de caixotes, encolhida no escuro, na base da primeira torre, tremendo de novo. Lá em cima, bem alto, o Andorinha-Cinza balançava no vento, preso pelos cabos, e cada vez que ele balançava os cabos gemiam, e cada vez que os cabos gemiam a Pena encolhia mais.

— Ei — sussurrei, me agachando. — Ei, ei, ei. Tudo bem. Sou eu.

Ela me viu, e o trinado baixou. Comecei a cantarolar, bem baixo. Brasa se encolheu do meu lado, sem dizer nada, pela segunda vez na vida.

E foi assim, agachado no escuro entre dois caixotes, cantarolando para uma Seikret apavorada, que ouvi as vozes.


Eram duas. Vinham do outro lado das pilhas de caixotes, de perto da porta de um dos armazéns, onde havia uma lanterna pendurada.

— ... para o senhor e somente para o senhor. — Era uma voz de homem, seca, sem sotaque nenhum, a voz de quem aprendeu a falar para não ser lembrado. — Abertas depois da Garganta. Não antes.

— E se eu precisar delas antes? — A segunda voz era mais velha. Mais macia. Educada, quase gentil, com um jeito de pronunciar as palavras que eu só tinha ouvido nos poucos professores da capital que tinham passado por Três Pontes. — Se as condições mudarem? O vale não costuma respeitar cronogramas.

— Então o senhor improvisa. Como sempre fez.

Uma pausa.

— E a Comandante Holt?

— A Comandante Holt comanda a expedição. O senhor comanda a pesquisa. — A voz seca não mudou de tom. — São coisas diferentes, doutor. Sempre foram.

Me estiquei devagar, muito devagar, até conseguir ver por uma fresta entre dois caixotes.

Os dois homens estavam na luz fraca da lanterna, perto da porta do armazém. Um era alto e magro, de uns sessenta anos, com uma barba grisalha bem aparada, óculos de aro de prata e um casaco longo de lã escura, de bom corte, com os bolsos estufados de cadernos. Tinha um lápis atrás da orelha e, mesmo ali, mesmo no escuro, mesmo naquela conversa, segurava na mão esquerda um caderno aberto, como se não conseguisse ficar sem ele. Eu ainda não sabia o nome dele, mas o reconheci: tinha visto de longe, naquela tarde, chegando ao posto com uma carroça cheia de caixas com cantos de metal e um rapaz assustado de óculos que carregava tudo sozinho.

O outro homem vestia uma capa cinza-escura, comprida, sem nenhuma insígnia. Nem da Guilda, nem de posto, nem de nada. Tinha o capuz levantado, e eu não vi o rosto. Só as mãos, com luvas de couro fino, estendendo alguma coisa para o homem dos óculos.

Um envelope.

O homem dos óculos o pegou com a mão livre, sem pressa. Por um instante, só um instante, virou-o na luz da lanterna para ver o outro lado, e eu vi o selo.

Era de cera. Grosso, apertado contra a dobra do papel. E era cinza.

O mesmo cinza. A mesma cera. O mesmo lacre, com um círculo em relevo no centro e, dentro do círculo, alguma coisa que eu agora, com a cera nova e intacta, consegui ver melhor do que na caixa gasta do Osmar: uma forma fechada, curva, com pontas. Podia ser uma chama. Podia ser uma garra fechada em volta de alguma coisa.

Senti o frio subir pela nuca.

Foi nessa hora que a Pena trinou.

Foi um trinado curto, assustado, porque o Andorinha-Cinza tinha balançado de novo lá em cima e os cabos tinham gemido. Mas, no silêncio da noite, soou alto como um grito.

As duas cabeças se viraram para os caixotes ao mesmo tempo.

— Quem está aí? — disse a voz seca.

Não respirei. Não me mexi. Sentia o bico da Pena tremendo contra o meu braço. O homem de capa deu um passo na nossa direção. Depois outro. Ouvi o som de uma lâmina saindo de uma bainha, suave, bem cuidado.

E então Brasa saiu de trás dos caixotes.

Saiu correndo, com o cutelo no alto, gritando a plenos pulmões.

— RATO! RATO! RATO DESGRAÇADO, VOLTA AQUI! — Ele passou em disparada pela luz da lanterna, entre os dois homens, quase batendo nas pernas do de capa, e bateu o cutelo no chão de pedra com um estalo. — Ah, perdão, senhores, perdão! Rato! Enorme! Deste tamanho! Roubou meio queijo da cozinha, eu vou pegar ele, eu juro pela minha avó que eu vou pegar...

E sumiu do outro lado do armazém, ainda gritando, batendo o cutelo em tudo que encontrava.

Silêncio.

— Palicos — disse o homem dos óculos, depois de um momento, com um suspiro que era quase uma risada. — Nunca me acostumei com eles.

O de capa não respondeu. Ficou parado mais um instante, olhando para os caixotes. Para mim. Eu tinha certeza de que ele estava olhando para mim, embora não pudesse ver os olhos dele por baixo do capuz. Depois ouvi a lâmina voltar para a bainha.

— Depois da Garganta, doutor — disse ele. — Não antes.

E foi embora, sem barulho, a capa cinza se confundindo com o escuro.

O homem dos óculos ficou sozinho na luz da lanterna. Guardou o envelope no bolso de dentro do casaco, perto do peito, no mesmo lugar onde eu guardava a carta do meu pai. Depois abriu o caderno que segurava, tirou o lápis de trás da orelha e escreveu alguma coisa. Uma linha curta. Fechou o caderno.

Por um momento, antes de apagar a lanterna, ele olhou na direção dos caixotes. Não para mim. Para a Pena, acho, ou para as penas brancas no chão. Sorriu de leve, um sorriso educado, gentil, de professor.

Depois apagou a luz e se foi.


Fiquei muito tempo agachado ali, no escuro, com a Pena encostada em mim e o coração batendo nos ouvidos. Depois de um tempo, Brasa voltou, sem fôlego, com o cutelo pendurado na mão, e se sentou do meu lado.

— Não tinha rato nenhum — sussurrou ele.

— Eu sei.

— Eu menti.

— Eu sei. Obrigado.

Ele ficou quieto por um tempo. Depois perguntou:

— Chefe, quem era aquele?

Olhei para o lugar onde a lanterna tinha estado. Pensei no Muro, no círculo do lado do nome do meu pai, na caixa no alto da prateleira de Osmar, com um lacre igual àquele, velho e rachado, posto ali dezesseis anos antes por uma autoridade sem nome.

— Não sei — respondi. — Mas eu já vi aquele selo antes.

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