Prólogo — O Último Correio
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Selma Rook tinha dezenove cartas na bolsa, e nenhuma era dela.
Era por isso que tinham dado a bolsa a ela. O comandante não disse assim, porque o comandante não dizia as coisas assim, mas ela entendeu na hora em que ele estendeu a correia de couro por cima da fogueira, de manhã cedo, sem olhar: quem não tem para quem escrever não abre a carta dos outros para ver se a sua está melhor. Não perde a hora chorando em cima do papel. Não esquece de entregar.
— Até o navio subir — disse ele. — Quem não entregou até lá, não entregou.
Ela pendurou a bolsa no ombro, do lado oposto ao da lança, e saiu recolhendo. Era alta, de ombros largos de quem cresceu puxando rede, com uma trança grossa já riscada de branco aos trinta e poucos anos e um casaco de couro fechado até o queixo por uma fileira de botões de chifre.
O platô era pedra. Cinzenta, nua, lisa de vento, encostada na muralha de montanhas como o primeiro degrau de uma escada feita para outra coisa que não gente. Não havia árvore. Não havia mato. Havia argolas de ferro cravadas na rocha, umas novas, outras comidas de ferrugem até virarem uma mancha vermelha no chão, e anéis de pedra preta onde outras pessoas, em outros anos, tinham acendido outras fogueiras. E havia o navio.
Estava preso a quatro argolas, com o balão cinza-chumbo enchendo metade do céu, gemendo baixinho a cada rajada como um bicho grande que não gosta de ficar amarrado. A tripulação descia a última carga pela rampa: fardos, barris, dois caixotes compridos de ferramentas. As montarias já estavam no chão desde a madrugada: aves altas como cavalos, de pernas compridas de corredor, que não voavam. Sacudiam a viagem das penas, enfiavam o bico debaixo das asas curtas e arranhavam a pedra com as garras, como se quisessem conferir se ela era de verdade. Os carregadores as puxavam pela rédea e falavam com elas baixinho, chamando de Seikret, de menina, de desgraçada.
Selma também tinha conferido. Tinha descido a rampa, na noite anterior, e se agachado e posto a palma da mão no chão, e ficado assim, sem vergonha nenhuma, até sentir a pedra fria e parada debaixo dela. Quatro dias de chão que respirava. Ninguém tinha rido. Metade da expedição tinha feito a mesma coisa.
Na ponta norte do platô, a muralha se abria.
Ela tinha evitado olhar para lá a manhã inteira, e agora olhou. Era uma fenda. Só isso. Uma rachadura reta na montanha, estreita, escura, alta, tão alta que lá em cima o céu virava uma linha. Saía dela um vento fino, constante, que não mudava de direção quando os outros ventos mudavam, e que cheirava a ferro.
A Garganta. Ninguém precisava ter dito o nome. Dava para ouvir no jeito como os carregadores não falavam dela.
Recolheu as cartas uma por uma.
A do cozinheiro, que tinha três páginas e uma receita na última. A dos irmãos Varga, uma só para os dois, porque a mãe era a mesma. A do rapaz magro de Ponte Seca, que pediu a carta de volta duas vezes para acrescentar alguma coisa e na terceira deixou que ela levasse sem acrescentar nada. A do velho Ferro, que não sabia escrever e tinha ditado a dele a um soldado, e que fez questão de pôr a marca do polegar embaixo, com fuligem, para a mulher saber que era ele.
— Você não tem nenhuma? — perguntou o velho, enquanto limpava o dedo na calça.
— Não.
— Nenhuma mesmo? Mãe? Uma tia? Um homem?
— Tive um homem — disse Selma. — Ele não lê.
Ferro riu, uma risada boa, desdentada, e não perguntou mais. Ela gostou dele por isso.
No meio do platô, a pedra grande estava cheia de gente.
Era uma rocha da altura de dois homens, com um lado liso, como se alguém tivesse passado uma lâmina enorme e aplainado a face. Esse lado estava coberto de riscos. Nomes. Centenas. Feitos com ponta de faca, com prego, com a ponta de uma flecha, agrupados em colunas, e cada coluna com um número no alto. Os de baixo, de cento e tantos anos, eram só sombras na pedra, que o vento já tinha quase lambido de volta. Os de cima ainda brilhavam brancos.
Do lado de alguns, poucos, havia um traço curto, riscado depois.
Selma tinha contado os traços na noite anterior, com a lanterna, enquanto os outros dormiam. Depois tinha parado de contar, porque a conta não melhorava.
O comandante estava diante da pedra, com a faca na mão, terminando o número da coluna nova. Fazia os algarismos do mesmo jeito que fazia tudo, sem pressa e sem enfeite, e o 2 e o 7 saíram quadrados, retos, fundos, como se ele estivesse riscando uma ordem e não um nome. Era um homem largo, de pescoço curto, a barba cortada rente com a mesma faca, e tinha uma letra que parecia de pedreiro. Selma já tinha visto a letra dele no caderno de capa vermelha que ele carregava no peito e onde escrevia todas as noites, sem falhar, a lista de quem estava vivo.
— Rook. — Ele estendeu a faca para ela, com o cabo para a frente. — Você não riscou.
— Vou riscar depois do correio.
— Risca agora. Depois a gente esquece.
Ela pegou a faca e procurou um lugar na coluna. Já havia vários nomes, uns caprichados, outros tortos, um ou outro só com as iniciais. Riscou o dela embaixo dos irmãos Varga, SELMA ROOK, apertando a ponta na pedra até a mão doer, e achou, quando terminou, que parecia pequeno. Todos pareciam. Uma coluna inteira de gente viva que, escrita ali, já tinha cara de lista.
Devolveu a faca. O comandante não a guardou logo. Tinha tirado o caderno vermelho de dentro do casaco e o segurava aberto na mão esquerda, na contracapa, onde ainda não havia nada.
Ela o viu esquentar a ponta da faca na fogueira mais próxima, até o ferro ficar escuro, e encostá-la na capa de couro, por fora. Duas vezes. A fumaça subiu fina, com cheiro de sola queimada. Quando ele afastou a faca, havia um número na capa: 27, marcado a fogo, um pouco torto no 7.
Depois ele molhou a pena e escreveu na contracapa, por dentro, com a letra de pedreiro, uma linha só.
Para quem vier depois.
— Quem vem depois? — perguntou Selma.
O comandante soprou a tinta.
— Sempre vem alguém — disse. E guardou o caderno no peito, e a faca na bota, e foi gritar com os carregadores por causa de um barril mal amarrado.
Faltava uma carta.
Selma contou duas vezes. Dezenove. Deviam ser vinte. Passou os olhos pelo platô, pelos Seikrets, pelos carregadores, pela gente do navio, e não precisou procurar muito, porque sabia quem era. Tinha sabido desde a primeira noite a bordo.
Estava deitado de bruços na beira do platô, quase na boca da Garganta, onde ninguém mais queria ficar. Com o rosto virado de lado e a orelha colada na pedra.
Era um homem comprido, mais comprido deitado do que parecia em pé, de pele curtida de sol e de vento até ficar cor de couro de sela, e cabelo castanho desbotado nas pontas, como capim no fim do verão. As mãos, abertas no chão dos dois lados da cabeça, eram as mãos de alguém que tinha carregado peso a vida inteira antes de carregar uma arma: grossas nos nós, rachadas, cheias de risquinhos brancos de cicatriz pequena, de espinho, de cerca, de pedra. Tinha vindo de uma vila de pastor no sul, de encosta, dessas que ninguém na capital sabe o nome. Selma não lembrava qual. Lembrava que ele falava sozinho quando ficava nervoso. E que, no navio, não tinha enjoado nem uma vez.
Tinha passado as três noites da viagem do mesmo jeito. Deitado na proa, com o ouvido no casco.
O capitão tinha perguntado o que ele estava fazendo. Selma tinha ouvido a resposta, de passagem, e preferido esquecer.
Parou do lado dele. Ele não se mexeu.
— Kest.
— Hum.
— O navio sobe ao meio-dia. Cadê a sua?
— Já vai.
Ela esperou. Ele não levantou. O vento da Garganta passava por cima dos dois, frio e fino, e mexia o cabelo dele, e ele continuava ali, de olhos meio fechados, com uma ruga funda entre as sobrancelhas, como quem tenta entender uma conversa no quarto ao lado.
Selma se agachou. Não ia perguntar. Tinha decidido no navio que não ia perguntar.
— O que você está ouvindo?
Ele abriu os olhos. Olhou para ela de baixo, de lado, com a cara amassada contra a pedra, e por um instante pareceu envergonhado, como um menino pego roubando ovo.
— Nada — disse. Depois, porque ela não se mexeu: — Não sei. Uma coisa batendo.
— O vento.
— É. — Ele se sentou, devagar, e esfregou a orelha, que estava vermelha e marcada pelo grão da pedra. — Deve ser. Ou é a comida do navio voltando.
Riu. Ela não riu. Ele parou de rir, olhou para a boca da Garganta, depois para a mão, aberta no chão, e a tirou da pedra como quem tira a mão de cima de uma panela.
— Desculpa — disse. — Tenho mania. Lá em casa a minha mulher diz que eu escuto até o que não fala.
Enfiou a mão dentro do casaco e tirou a carta.
Estava dobrada em quatro, gasta nas dobras, com uma mancha escura num canto. Ele a abriu no joelho. Selma não quis olhar e olhou assim mesmo, porque estava perto, e porque ele não escondeu.
A frente estava escrita com uma letra grande, inclinada para a direita, apressada. Letra de quem escreve de pé. No verso, um desenho ocupava a folha inteira: um anel de montanhas em triângulos tortos, feitos por alguém que claramente não sabia desenhar montanha, e dentro dele linhas, manchas, palavras pela metade com pontos de interrogação.
E, no meio, uma espiral.
Era a única coisa no papel feita com cuidado. Três voltas apertadas, uma quarta mais larga, aberta. E uns traços pequenos saindo dela, como raios.
— Que é isso?
— Não sei. — Ele olhou para a espiral como se ela tivesse aparecido ali sozinha. — Sonhei com ela. Duas noites. Antes de embarcar.
— E desenhou.
— Desenhei. — Coçou a cabeça. — A minha mulher vai achar que eu fiquei doido. Ela já acha.
Selma ia devolver uma graça qualquer, e não devolveu. Ele tinha parado de olhar para o desenho e estava olhando para o canto de baixo do verso, espremido debaixo das montanhas tortas, onde ainda havia um pedaço de papel em branco do tamanho de uma mão.
— Me dá um instante, Rook.
Não era um pedido. Ele já tinha se levantado, ido até uma pedra baixa a uns passos dali e se sentado nela, com a carta no joelho e um toco de lápis na mão. Sentou direito, com as costas retas, os pés juntos, como as crianças da escola sentam quando a professora está olhando. Selma tinha visto aquele homem escrever a carta inteira em pé, encostado no muro do último posto, na véspera do embarque, em pouco mais tempo do que se leva para comer, rindo sozinho de alguma coisa que ia pondo no papel.
Agora ele escrevia devagar.
Muito devagar. Uma palavra. Uma pausa. Outra palavra. A mão parava no ar, sobre o papel, e ficava parada, e depois descia. Uma vez ele olhou para a Garganta. Outra vez fechou os olhos, e ela achou que ele ia deitar de novo para escutar a pedra, e ele não deitou. Só ficou de olhos fechados, com o lápis encostado no papel, sem escrever.
Selma virou as costas. Não sabia ler muito bem a letra dos outros, mas sabia ler o bastante, e aquilo não era dela. Ficou olhando para o navio, para o balão cinza, para a tripulação soltando a primeira argola, e contou as cordas, e contou os homens, e contou as nuvens, e esperou.
Quando se virou, ele estava dobrando o papel. Nas dobras velhas, uma por uma, com cuidado, para não rasgar.
Veio até ela e estendeu a carta. E não soltou.
Ficaram os dois segurando, um de cada lado, um instante. Selma sentiu o papel puxar de leve, como se ele fosse tomar de volta. Viu a mão dele, a dos risquinhos brancos, apertar. Depois afrouxar.
— Liora Kest — disse ele. — Pedravento. Desce pela estrada de Três Pontes e pergunta. Todo mundo conhece.
— Mulher?
— Mulher. — O rosto dele mudou, ficou mais novo. — E um menino. Dois anos. Ainda chama tudo de bicho. A vaca é bicho, o cachorro é bicho, eu sou bicho.
— Você é bicho — concordou Selma.
Ele riu, e foi uma risada de verdade dessa vez, e soltou a carta.
Ela a guardou na bolsa com as outras. Vinte.
O capitão desceu a rampa para buscar o correio em pessoa. Era um homem baixo, de rosto já marcado de vento mas ainda não curtido de todo, com uma barba escura onde o fumo começava a deixar uma mancha amarela em volta da boca. Pegou a bolsa, pesou na mão e a pendurou no ombro sem dizer nada. Depois olhou por cima da cabeça de Selma, para a beira do platô, onde o homem comprido tinha voltado a se deitar de bruços na pedra.
— É aquele — disse o capitão. — O do casco.
— É.
— Perguntei o que ele estava ouvindo, a primeira noite. — O capitão cuspiu de lado, longe da rampa. — Disse que o navio tinha um coração. E que estava batendo errado.
— E estava?
O capitão olhou para ela como quem olha para uma criança.
— Madeira não tem coração, moça. — Subiu dois passos da rampa. Parou. — Mas avisa a ele que, quando voltar, eu quero saber o que era. Não guardo nome de ninguém. Mas desse eu ia gostar de saber o fim.
Subiu. A rampa subiu atrás dele. As argolas foram soltas uma a uma, com gritos que Selma não entendia, e o navio, que tinha passado a manhã gemendo amarrado, ficou de repente em silêncio, como se respirasse fundo. E subiu.
Ela ficou olhando. A gente do platô inteira ficou olhando. Ninguém acenou. O comandante tinha dito, na noite anterior, que não se acena para navio no Degrau, que dá azar, e ninguém sabia se era verdade, e ninguém quis descobrir.
O balão foi ficando pequeno contra o céu claro. Virou um ponto. Virou nada.
Com ele foram as vinte cartas. A receita do cozinheiro. O polegar de fuligem do velho Ferro. O desenho das montanhas tortas, com a espiral no meio e, embaixo, espremida, uma linha numa letra pequena e lenta que Selma Rook nunca leu.
Entraram na Garganta logo depois do meio-dia, quando o sol ainda alcançava o fundo.
Em fila. Os caçadores na frente, os Seikrets puxados pela rédea, os carregadores no meio com os fardos, o comandante por último, contando cabeças em voz baixa, com a mão no peito, em cima do caderno. Os carregadores tinham amarrado um fio vermelho no pulso, todos, e um deles jogou uma pitada de sal na boca da fenda, e outro disse para ninguém olhar para trás.
Selma olhou.
Não tinha para quem. Por isso olhou. Viu o platô vazio, os anéis de fogueira, as argolas soltas, a pedra grande com a coluna nova brilhando branca no sol. Vinte e tantos nomes, frescos, sem traço nenhum ao lado. Ainda.
Depois se virou e subiu o primeiro trecho, que era íngreme e solto, de cascalho que rolava debaixo da bota, e na terceira vez em que precisou se segurar na parede com as duas mãos, ouviu um estalo pequeno no peito e sentiu o casaco se abrir.
O botão de chifre rolou pelo cascalho, quicou numa pedra e sumiu numa fresta.
— Não — disse Selma. — Não, não, não.
Atrás dela, alguém riu. Era ele. O homem comprido, que tinha entrado na fila logo depois dela sem que ela visse. Estava parado no cascalho, com a mão na parede, e ria com a boca fechada, de olhos baixos, como quem não quer ofender.
— Faltam quantos? — perguntou.
Selma olhou para baixo. Para o casaco, para a fileira de botões de chifre que tinha costurado ela mesma, num inverno, com linha encerada, e que de repente pareciam velhos, frouxos, cada um pendurado por um fio.
— Todos — disse.
— Eu anoto. — Ele tirou o toco de lápis do bolso e escreveu alguma coisa na palma da mão esquerda, rindo ainda. — Na próxima lista, botão para a Rook. Meia dúzia.
— Não tem próxima lista. O navio foi embora.
— Sempre tem próxima lista — disse ele, e era a mesma coisa que o comandante tinha dito, de outro jeito. Guardou o lápis. Passou na frente dela pelo trecho ruim, firmou o pé, estendeu a mão para trás. — Vem. Segura o casaco com a outra.
Ela segurou o casaco com a outra. Pegou a mão dele. Subiu.
Lá embaixo, na boca da Garganta, o vento fino que cheirava a ferro, e que não mudava de direção quando os outros ventos mudavam, parou de soprar. De uma vez. Como quem prende a respiração.
Ninguém reparou. Estavam todos olhando para os pés.
Dezessete anos depois, num começo de outono, outro navio desceria naquele platô e outra gente pararia diante da pedra grande, com o dedo em cima dos nomes. Acharia a coluna da vigésima sétima gasta de vento, com o líquen já comendo as curvas das letras, e nenhum traço ao lado de nenhum deles.
E, numa fresta do primeiro trecho da Garganta, debaixo de dezessete anos de cascalho, continuaria lá um botão de chifre que ninguém teria motivo para procurar.
Entre para avaliar este capítulo.
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