Capítulo 1
O Desenho na Carta
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O Aptonoth estava morto fazia menos de uma hora quando eu o encontrei, e não havia uma única pegada em volta dele.
Sei disso porque procurei. Rodei o corpo três vezes, agachado, com o nariz quase na grama, do jeito que eu tinha aprendido sozinho em quinze anos de encosta. A grama me contou o que a grama sempre conta: por onde o bicho tinha vindo, onde tinha parado para arrancar um tufo de trevo, onde tinha se assustado e desatado a correr. A trilha dele entrava naquele pedaço de campo e terminava ali, no corpo.
Nenhuma outra trilha chegava. Nenhuma saía.
Levei muito tempo para aprender o nome do que tinha feito aquilo. Naquela manhã, eu só sabia que minhas mãos estavam frias, e que não era por causa do vento.
Em Pedravento, o vento é a primeira coisa que se aprende e a última que se esquece. Ele desce das montanhas do norte todas as noites, varre as encostas, assobia nas frestas das casas de pedra e, de manhã, sempre falta alguma coisa. Uma telha. Uma roupa do varal. Um Aptonoth que se assustou com o barulho e arrebentou a cerca.
Naquela manhã tinha faltado a Teimosa.
— Ela sempre volta — disse a velha Maren, sem tirar o cachimbo da boca, quando bati na porta dela antes do sol. — Sempre volta quando tem fome.
— Faz dois dias que ela não come direito — respondi. — Está pesada. Vai parir antes da lua.
Maren me olhou por cima do cachimbo com aqueles olhos que pareciam duas pedras de rio, lisas de tanto uso. Eu trabalhava para ela desde os onze anos. Ela me pagava em queijo, lã e, de vez em quando, em moedas que ninguém sabia de onde vinham. Nunca me elogiou uma vez, e eu gostava disso nela. Elogio em Pedravento é coisa de gente que vai pedir alguma coisa depois.
— Então vai — disse ela. — E volta antes que o vento vire.
Fui.
Rastrear um Aptonoth não é difícil. Um animal daquele tamanho, com aquele rabo pesado e aquela cabeça que vive enfiada no chão, deixa o mundo inteiro para trás de si. O difícil é rastrear um Aptonoth assustado, porque o medo muda o jeito de andar. O passo fica mais curto, as patas da frente afundam mais, o bicho começa a subir. Todo animal de pasto sobe quando tem medo, como se o alto fosse mais seguro. Eu nunca entendi isso. Em mim, o alto só dava vontade de sentar e esperar alguém me buscar.
A trilha da Teimosa começava na cerca quebrada, atravessava o riacho do moinho e seguia pelo capim alto em direção às pedras da Cabeça-de-Boi, o lugar mais alto do nosso lado da encosta. Ali ela tinha parado, mastigado alguma coisa sem vontade, deixado um monte de esterco ainda morno e voltado a subir.
— Claro que você ia subir — eu disse para ninguém. — Por que ia ser fácil?
Tenho essa mania. Quando estou nervoso, falo sozinho. Minha mãe dizia que era para espantar os maus pensamentos. Maren dizia que era para espantar as ovelhas. Eu nunca soube para que servia. Só sabia que calado era pior.
O caminho até a Cabeça-de-Boi passa por uma saliência de rocha de uns dois palmos de largura, com a parede de um lado e, do outro, nada. Um nada comprido, cheio de vento, que termina lá embaixo, nas pedras do riacho. As crianças da vila atravessam aquilo correndo, rindo, jogando pedrinhas no vazio só para ouvir quanto tempo elas levam para chegar. Eu atravesso de lado, com as costas coladas na parede e a respiração presa entre os dentes.
— Não olha para baixo — eu disse. — Não olha para baixo, não olha para baixo, você tem dezenove anos, pelo amor de...
Olhei para baixo.
O mundo inclinou. Por um segundo, tive certeza de que a saliência estava se soltando da montanha, devagar, com a paciência das coisas muito grandes, e que eu ia junto. Fechei os olhos, contei até dez, depois até vinte, e a pedra continuou onde estava. Quando abri os olhos de novo, a primeira coisa que vi foi a marca da pata da Teimosa bem na frente do meu pé, afundada, torta, escorregada. Ela tinha passado ali correndo.
Fiquei um tempo olhando aquela marca. Um Aptonoth prenhe, pesado, que odiava subir, tinha corrido por uma beirada de dois palmos.
Do que ela estava fugindo?
Depois da Cabeça-de-Boi, a encosta se abre num campo alto que a gente chama de Mesa. É plano, verde e cheio de trevo, e no fim do verão fica coberto de flores amarelas que só abrem quando o sol bate. Quando cheguei lá, o sol já batia. As flores estavam fechadas.
Foi a primeira coisa estranha, e eu quase não reparei. A segunda foi o silêncio.
Na Mesa sempre tem barulho. Insetos, pássaros-de-pedra, o vento no capim, o chiado dos pequenos lagartos que se escondem nas fendas. Naquela manhã, não tinha nada. Eu ouvia meus próprios passos. Ouvia o sangue batendo nos ouvidos. Ouvia, lá longe, lá embaixo, o sino da vila marcando a hora, e ele parecia vir de outro mundo.
Parei de falar sozinho. Não sei por quê. Só sei que alguma parte de mim, uma parte mais velha do que eu, achou que não era hora de fazer barulho.
A trilha da Teimosa atravessava a Mesa em linha reta, sem parar para comer, sem desviar das pedras. Segui. E, no meio do campo, encontrei o terceiro sinal, aquele que até hoje me volta à cabeça quando não consigo dormir.
A grama estava branca.
Não era a grama inteira, só um círculo, talvez de uns vinte passos de diagonal. No meio do círculo estava a Teimosa, deitada de lado, com as pernas esticadas como se tivesse caído dormindo. Em volta dela, cada fio de capim, cada flor fechada, cada pedrinha estava coberta por uma camada fina de geada.
Geada. No fim do verão, com o sol batendo na minha nuca.
Me aproximei devagar. Pisei na borda do círculo, e o capim estalou debaixo da minha bota como vidro fino. O frio subiu pela sola. Não era o frio de uma manhã de inverno, que morde e vai embora. Era um frio que entrava e ficava, como água num barco furado.
— Teimosa — eu disse, baixo. Estúpido. Como se ela fosse responder.
Me agachei do lado dela e coloquei a mão no pescoço.
Estava gelado. Não frio como bicho morto, que esfria devagar, de fora para dentro. Estava gelado como uma pedra tirada do fundo do riacho em pleno inverno, frio de dentro para fora, como se alguém tivesse bebido todo o calor que havia nela e deixado só a casca.
Os olhos estavam abertos e brancos como leite.
Procurei a ferida. Todo animal morto tem uma, e a ferida conta a história: dentes, garras, chifres, queimadura. Um Rathalos deixa a carne tostada e leva metade do corpo. Um bando de Jagras deixa marcas pequenas por todo lado e não deixa sobrar muita coisa. Um Anjanath, quando desce das florestas, esmaga. Eu conhecia essas histórias. Todo pastor conhece. Era a nossa religião.
A Teimosa não tinha ferida nenhuma.
Tinha as costelas afundadas. Não quebradas para fora, como quando um predador abre a presa para comer, e sim para dentro, todas juntas, num padrão quase bonito, como se alguma coisa muito pesada tivesse pousado em cima dela com cuidado e depois ido embora. E não tinha comido nada. Nem um pedaço. Aquilo tinha matado um Aptonoth de vinte arrobas e deixado a carne toda ali, intocada, fria, servida para ninguém.
Foi aí que eu rodei o corpo três vezes procurando pegadas. Foi aí que a grama não me contou nada.
Me levantei. Minhas pernas tremiam. Olhei em volta, para a Mesa vazia, para as flores fechadas, para as pedras. Depois olhei para cima.
Só céu. Um céu azul-claro de fim de verão, sem uma nuvem. E, lá no fundo, depois das últimas encostas, depois das florestas, depois de tudo que eu conhecia, a linha escura das montanhas do norte, onde começam as terras que ninguém de Pedravento visita.
Eu não vi nada. Juro que não vi nada. Mas senti, do jeito que se sente alguém parado atrás da gente numa sala escura, que alguma coisa lá em cima tinha acabado de passar. E que ela sabia que eu estava ali.
Voltei correndo. Atravessei a saliência da Cabeça-de-Boi quase sem encostar na parede, e só percebi isso quando já estava do outro lado. O medo é engraçado. Às vezes um medo maior come o menor inteiro.
— Rathalos — disse o Bento, dono do moinho, pela terceira vez, quando terminei de contar.
Estávamos na cozinha da Maren, eu, ela, o Bento e mais dois ou três vizinhos que tinham ouvido o barulho da minha chegada. Eu ainda estava com as mãos em volta de uma caneca de leite quente que não conseguia beber.
— Rathalos queima — respondi. — Rathalos come. Ela estava inteira, Bento. Inteira e gelada.
— Então foi o frio da montanha. Ela subiu demais, pegou um vento ruim...
— Ao meio-dia? No verão?
O Bento abriu a boca, fechou, abriu de novo. Era um homem grande e bom, que tinha medo de tudo que não coubesse no moinho dele. Não era culpa dele. Em Pedravento, a gente precisava que as coisas tivessem nome. Coisa com nome dá para cercar, espantar, rezar contra. Coisa sem nome fica rondando a casa.
Quem acabou com a conversa foi a Maren. Ela tirou o cachimbo da boca, bateu o fornilho na beira da mesa e disse, sem olhar para ninguém:
— O mascate que passou semana passada disse que coisas andam descendo do norte.
Silêncio.
— Que coisas? — perguntou alguém.
— Coisas grandes. Coisas velhas. — Ela deu de ombros. — Disse que a Guilda anda nervosa. Que estão pregando papel em tudo que é poste lá em Três Pontes, chamando gente para a prova.
Senti meu coração dar um pulo esquisito, fora do ritmo.
— Prova para quê? — perguntei, embora eu soubesse.
A Maren finalmente olhou para mim. Os olhos de pedra de rio.
— Para caçador. Daqui a três dias, no posto. — Ela botou o cachimbo de volta na boca. — Tua mãe não ia gostar de te ver com essa cara, Ilian.
— Que cara?
— Essa.
Não respondi. Ninguém respondeu. O Bento se benzeu do jeito antigo, tocando a testa e depois o chão, e alguém disse que era melhor juntar os rebanhos mais cedo aquela noite. Todos concordaram depressa, aliviados por ter uma coisa com nome para fazer.
Quando saí, a Maren segurou meu braço na porta. A mão dela era seca e forte como raiz.
— A Teimosa ia parir — disse ela. — Eu sei que você gostava dela.
— Eu gostava de todas.
— Eu sei. — Ela apertou um pouco mais. — Por isso não vai atrás do que matou ela. Me ouviu?
— Ouvi.
Não era mentira. Eu tinha ouvido.
A casa onde eu morava ficava na parte baixa da vila, perto do riacho, onde o vento chega mais cansado. Era de pedra cinza, com telhado de turfa e duas janelas que meu avô tinha aberto na parede com as próprias mãos. Era grande demais para uma pessoa só. Tinha sido grande demais para duas, na verdade, mas enquanto minha mãe estava viva a gente não reparava. Ela enchia os cômodos com barulho: cantava enquanto cozinhava, discutia com as panelas, abria e fechava as janelas dez vezes por dia porque nunca achava o ar certo.
Liora Kest morreu há três invernos, de uma febre que começou no peito e foi subindo. Durou seis dias. No quarto, ela já não conseguia falar direito. No quinto, pediu para eu buscar a caixa.
Eu sabia qual era a caixa. Sempre soube.
Naquela noite, depois de juntar os rebanhos da Maren com os outros pastores, depois de trancar a porta e acender o fogo, fui até o quarto que tinha sido dela e me ajoelhei ao lado da cama. A caixa ainda estava lá embaixo, onde ela gostava. Era de madeira escura, com um fecho de latão que nunca fechou direito. Dentro, duas cartas.
A primeira era dela. Tinha escrito naquele quinto dia, com a mão tremendo tanto que algumas palavras eram só riscos. Eu sabia de cor. Mesmo assim, li de novo.
Ilian,
eu devia ter te dado isto antes. Não dei porque tive medo. Não do que está escrito, mas do que você ia fazer depois de ler. Você tem o jeito dele. A mesma teimosia, a mesma mania de seguir rastro até onde o rastro não quer ser seguido.
Seu pai não morreu de uma vez, filho. Ele foi morrendo aos poucos, uma carta a menos por ano, até não vir mais nenhuma. Esta foi a última. Eu li tantas vezes que o papel ficou mole.
Guarde. Mas não faça dela um mapa.
Com todo o amor que coube em mim, mãe.
A segunda carta era mais velha. Muito mais velha. O papel estava amarelo, gasto nas dobras, com uma mancha escura num dos cantos que eu, quando era criança, imaginava ser sangue e que hoje acho que era só chá. A letra era grande, inclinada, apressada, a letra de alguém que escreve de pé.
Eu tinha dois anos quando ela chegou. Não lembro do meu pai. Não lembro do rosto, da voz, do cheiro. Tudo o que eu tenho dele cabe nesse papel.
Liora, minha pedra teimosa,
estou escrevendo do último posto antes das montanhas. Amanhã a gente parte. Eles nos chamam de a 27ª, como se fôssemos um número numa conta, e acho que somos mesmo. A Guilda paga bem, você sabe, e eu não conseguia mais ficar ouvindo o Grão-Mestre de Três Pontes dizer que um caçador de vila nunca ia ver nada que prestasse.
Pois vou ver. Dizem que ninguém sabe o que tem lá dentro. Um vale entre montanhas, fechado como uma mão, que a Guilda chama de Kharvaal. Dizem que tem Anciões lá. Não um, Liora. Muitos. Dizem que é para lá que eles vão quando ficam velhos demais para voar.
Tem gente aqui que diz que isso é bobagem de taverna. Eu olho para as montanhas e não acho que seja.
Fiz um desenho para você, atrás. É o que eu consegui juntar dos mapas velhos e do que o pessoal conta. Não ria das minhas montanhas. Eu nunca soube desenhar montanha.
Diga ao Ilian que o pai dele vai voltar com uma história tão grande que ele vai precisar crescer para caber nela.
Te amo mais do que o vento ama Pedravento, D.
Virei o papel.
O desenho ocupava o verso inteiro. Um anel de montanhas, feitas em pequenos triângulos tortos. Ele realmente não sabia desenhar montanha, e eu sempre sorria nessa hora, mesmo sem querer. Dentro do anel, linhas onduladas indicando degraus, descendo. Uma floresta rabiscada. Manchas que talvez fossem lagos. Nomes pela metade, com pontos de interrogação: "passagem?", "base da 7ª?", "ossos??".
E, bem no centro, onde as linhas todas se juntavam, uma espiral.
Não era um redemoinho qualquer. Era desenhada com cuidado, com mais cuidado do que o resto todo: três voltas apertadas, uma quarta mais larga, e pequenos traços saindo dela, como raios, ou como costelas. Era a única coisa naquele papel que parecia feita por alguém que sabia o que estava desenhando.
Ao lado dela, na letra apressada, uma única linha:
"Não sei por que desenhei isso. Sonhei com ela duas noites seguidas."
Eu tinha passado a infância inteira olhando para aquela espiral. Tinha desenhado ela na terra com um graveto, nas paredes do celeiro da Maren com carvão, na margem das minhas cartilhas até a professora desistir de mim. Nunca soube o que era. Nunca soube por que ele tinha sonhado com ela.
Naquela noite, olhando para ela à luz do fogo, com as mãos ainda lembrando o frio do pescoço da Teimosa, achei, só por um instante, que a espiral estava girando.
Pisquei. Não estava.
— Você está cansado — eu disse para a casa vazia. — Você está cansado, assustado e falando com um desenho. Vai dormir.
Não fui.
Porque havia uma última parte da carta. Uma parte que eu conhecia e que, a vida inteira, tinha lido rápido, pulando, do jeito que se passa correndo por um cachorro bravo. Ficava lá embaixo, no canto do verso, espremida debaixo do desenho, numa letra menor, mais apertada e mais lenta. Não era a letra de alguém escrevendo de pé. Era a letra de alguém que tinha sentado para escrever aquilo, e que tinha pensado muito antes de fazer.
Eu nunca soube quando ele escreveu. Se foi naquela mesma noite, no último posto, ou depois, dentro das montanhas, antes de mandar a carta de volta pelo último mensageiro que saiu de lá.
Só sei o que dizia.
Pela primeira vez em quinze anos, li devagar.
"Liora. Se um dia chamarem nosso filho para Kharvaal, não deixe ele ir."
Fiquei muito tempo parado com o papel na mão. O fogo baixou. O vento do norte começou a descer as encostas, como fazia todas as noites, e assobiou nas frestas da janela que meu avô tinha aberto na pedra. Lá fora, alguém tinha deixado um balde virado, e ele rolava de um lado para o outro no quintal, batendo nas pedras num ritmo irregular, quase como um coração.
Minha mãe cumpriu o que ele pediu. Ela nunca me deixou ir.
E, justiça seja feita, ninguém nunca me chamou.
Dobrei a carta nas dobras velhas, uma por uma, com cuidado para não rasgar o papel mole, e a guardei no bolso de dentro do casaco, junto do peito, onde ela ficaria pelos próximos anos.
Depois fui até a janela e olhei para o norte, para a linha escura das montanhas que eu não conseguia ver na noite, mas que sabia que estavam lá. Pensei na grama branca, nas costelas afundadas, na carne intocada. Na coisa sem pegadas que tinha descido de algum lugar lá em cima, bebido todo o calor de um animal que eu tinha visto nascer, e voltado para casa.
Ninguém me chamou, pai.
Mas acho que alguma coisa lá em cima já sabia o meu nome.
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