Capítulo 11

Tempestade nas Cordas

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Eu tinha medo de altura desde que me lembro. Naquela noite descobri que existe uma coisa pior do que ter medo de cair: é estar tão alto que cair já não é o que mais assusta.


O vento voltou pouco depois da meia-noite.

Não voltou como tinha ido, de uma vez. Voltou do jeito errado. Eu estava deitado na rede, acordado, pensando no pavio frio, quando senti o Andorinha-Cinza se inclinar. Não respirar: inclinar. Devagar, para a esquerda, cada vez mais, até as redes todas penderem juntas para o mesmo lado, até eu ouvir as panelas escorregando na cozinha, até alguém gritar no escuro. E então o casco inteiro gemeu, um gemido comprido de madeira torcida, e o navio foi jogado para o outro lado como um brinquedo.

Caí da rede. Rolei. Queixo no peito, ombro bom primeiro. Brann ia ficar orgulhoso, se eu vivesse para contar.

Lá em cima, alguém batia no sino de bordo sem parar.

— Todo mundo no convés! — Era a voz de trovão da Cabo Marn, vindo da escada. — Quem tem braço, no convés! Carga solta! Amarrem tudo o que se mexe!

Subi com Brasa grudado no meu ombro, com as garras enfiadas no casaco. Quando pus a cabeça para fora da escada, o vento a agarrou e tentou arrancá-la.

Era uma parede. Não havia outro jeito de dizer. Uma parede de vento e água que batia de lado, vinda do norte, e que carregava gelo: pedrinhas de gelo do tamanho de ervilhas que batiam no rosto como areia atirada. O céu estava preto, sem estrela, sem lua, e no preto passavam nuvens mais pretas ainda, baixas, tão baixas que o balão do Andorinha-Cinza parecia raspar nelas. As velas de lona tinham sido recolhidas, mas uma delas se soltara e batia no mastro com estalos de chicote. Os cabos do balão zuniam. Não zuniam como em Varnhal: gritavam.

E, de tempos em tempos, o céu se abria em branco.

Não havia trovão depois dos relâmpagos. Isso foi o que mais me assustou naquela noite, antes de tudo o que veio depois. O céu se acendia inteiro, de ponta a ponta, num branco azulado que deixava tudo sem cor, os rostos, a madeira, a água no convés, e depois apagava. E vinha só o vento. Nenhum trovão. Como se o céu tivesse se esquecido de fazer barulho.

— Não é tempestade daqui! — gritou o velho Orsolo, agarrado ao leme na popa, com dois tripulantes ajudando a segurar. Tinha perdido o chapéu, e a barba branca amarelada batia no rosto dele. — Veio do norte, contra o vento! Tempestade não anda contra o vento!

Ninguém respondeu. Ninguém tinha resposta.


Passei a primeira hora amarrando caixotes. Não havia tempo para ter medo. A Cabo Marn empurrava cordas nas nossas mãos e apontava, e a gente amarrava, e o navio se inclinava, e a gente escorregava e voltava e amarrava de novo. Vi Brann segurar sozinho um barril de água que tinha se soltado e rolava para a amurada, abraçado nele como num urso, rindo e xingando ao mesmo tempo. Vi os Dace, um de cada lado de um fardo de lona, amarrando no mesmo ritmo sem se olharem. Vi Sila, sem corrente, porque ninguém tinha tempo para correntes, subir num rolo de cordas e cortar com uma faca a vela solta que batia no mastro, com a calma de quem descasca uma fruta. Vi Veyra Holt no meio de tudo, sem gritar, apontando, e as pessoas indo para onde ela apontava.

Foi num dos relâmpagos que vi o doutor Crane.

Estava na amurada de estibordo, perto do mastro principal, de casaco, sem chapéu, com os cabelos grisalhos colados na testa pela chuva. Segurava a amurada com uma mão. Com a outra, apertava contra o peito a maleta de couro. A maleta de que Pell tinha falado, a que ninguém podia tocar. Presa a ele por uma correia cruzada no peito, como se fosse parte do corpo.

E estava olhando para o norte. Não para o navio, não para a tempestade, não para as pessoas lutando com a carga. Para o norte, para o escuro, com os olhos abertos debaixo da chuva, como quem espera alguma coisa aparecer.

O que aconteceu depois foi muito rápido.

Uma rajada veio de baixo. Não de lado: de baixo, como se a própria terra lá embaixo tivesse soprado, e o Andorinha-Cinza inteiro foi jogado para cima e para o lado ao mesmo tempo. Eu caí de joelhos. O convés virou uma ladeira. E, no relâmpago seguinte, vi a correia da maleta de Crane arrebentar.

A maleta saiu voando. Girou no ar, uma, duas vezes, e bateu na rede de cordas que subia da amurada até o balão, as enxárcias, a escada de corda por onde os tripulantes subiam para cuidar dos cabos. Bateu e ficou presa, enganchada pela alça quebrada, uns quinze metros acima do convés, balançando no vento como um fruto preto pendurado num galho.

E o doutor Crane gritou.

Eu nunca tinha ouvido aquele homem levantar a voz. Não achava que fosse possível. Mas ele gritou, um grito agudo, esganiçado, que atravessou o vento:

— PELL! A MALETA! PELL!

E Pell, que estava a dois passos dele, de camisola e casaco, encharcado e branco como papel, olhou para a maleta lá em cima. Olhou para Crane. E subiu.


Ninguém o impediu. Estava todo mundo ocupado demais, ou longe demais, ou não viu. Eu vi. Estava a menos de dez passos, de joelhos no convés inclinado, com uma corda nas mãos.

Pell subia mal. Subia como quem nunca tinha subido em nada na vida: agarrado demais, os pés escorregando nas cordas molhadas, o corpo colado na rede. Subiu cinco metros. Oito. O navio balançou, e ele ficou pendurado só pelas mãos, com as pernas soltas no ar, e voltou a achar a corda com os pés, e continuou. Dez. Doze. Chegou perto da maleta. Esticou o braço.

E travou.

Vi acontecer no relâmpago seguinte. Ele estava com uma mão na maleta, a outra agarrada na corda, e olhou para baixo. Um erro que eu conhecia bem. O corpo dele endureceu inteiro, e ele ficou ali, grudado na rede, a quinze metros do convés, sem subir, sem descer, sem soltar a maleta, com o vento tentando arrancá-lo das cordas.

E a rede começou a rasgar.

Ouvi antes de ver: um estalo seco, e depois outro, bem acima dele, onde uma das cordas principais da enxárcia se prendia ao anel de ferro do balão. Uma corda tinha arrebentado. A rede inteira cedeu um palmo para o lado, e Pell gritou.

— Alguém! — gritei. Olhei em volta. A Cabo Marn estava na proa, Brann no meio de um amontoado de barris, os tripulantes todos na popa com o leme. Veyra lá longe, virada para o outro lado. — ALGUÉM!

Ninguém ouviu. O vento comia as palavras antes de elas saírem da boca.

— Chefe — disse Brasa, no meu ombro, bem perto do meu ouvido. — Chefe, você vai subir, não vai?

— Não.

— Vai, sim.

— Eu não consigo, Brasa. Eu não consigo nem olhar para a amurada.

— Eu sei. — As garras dele se apertaram no meu ombro. — Mas vai.

Primeira regra, pensei. Ninguém anda sozinho.

— Então vem comigo.

— Eu ia de qualquer jeito, chefe. Alguém tem que te dizer para não olhar para baixo.


Arranquei a faixa do braço esquerdo. Doeu, mas mexia. Tinha que mexer.

Agarrei a rede com as duas mãos e pus o pé na primeira corda.

A corda estava encharcada, fria e escorregadia, e se mexia debaixo do pé como coisa viva. Pus o outro pé. Subi uma corda. Duas. O vento me colou contra a rede. Três. Quatro. Brasa subia do meu lado, pela rede, ágil como um esquilo, parando para olhar para mim a cada passo.

— Isso. Isso, chefe. Olha para mim. Só para mim.

Cinco. Seis. O navio balançou para a esquerda, e a rede balançou junto, e por um instante eu fiquei pendurado por cima do nada, e vi, pelo canto do olho, o convés lá embaixo, pequeno, inclinado, com as pessoas do tamanho de ovelhas vistas do alto da serra. E, além da amurada, o escuro. Um escuro sem fundo. E o meu estômago subiu até a garganta, e as minhas mãos travaram.

Exatamente como as de Pell.

— Chefe. — A voz de Brasa. — Chefe, conta alguma coisa.

— O quê?

— Qualquer coisa. Você conta ovelha, não conta? Você disse que era pastor. Conta as ovelhas.

Era ridículo. Era a coisa mais ridícula do mundo. E funcionou.

— Uma — disse eu, e soltei a mão direita e a pus na corda de cima. — Duas. — Pé esquerdo. — Três. — Mão esquerda, e o braço machucado gritou, e eu continuei. — Quatro. Cinco.

Contei as ovelhas da Maren. Todas. Pelo nome, as que tinham nome, e pela cor as que não tinham. A Manchada. A Cega. O Carneiro Velho que dava marrada nas porteiras. A Teimosa, que já estava morta, e que eu contei mesmo assim. Subi com elas. Uma de cada vez. Sem olhar para baixo. Olhando só para a corda seguinte e para os olhos amarelos do Brasa na rede, do meu lado, brilhando no escuro.

— Vinte e três — disse eu, e a minha mão bateu num sapato.

Era o sapato de Pell.


Ele estava agarrado na rede com os olhos fechados, tremendo tanto que a corda tremia com ele. A maleta ainda estava presa na mão dele, pela alça. Não tinha soltado. Mesmo ali, mesmo daquele jeito, não tinha soltado.

— Pell. — Subi mais uma corda, até ficar do lado dele. — Pell, sou eu. Kest. Abre o olho.

— Não.

— Abre o olho. Olha para mim. Não para baixo. Para mim.

Ele abriu. Estava sem os óculos. Os olhos dele, sem as lentes, pareciam pequenos, perdidos, de criança.

— Eu não consigo descer — disse ele. — Eu não consigo me mexer. Ele disse que se a maleta caísse... Ele disse...

— Esquece o que ele disse. Me dá a maleta.

— Não! — Pell a apertou contra o peito. — Não posso. Ninguém pode...

A rede estalou outra vez. Mais uma corda arrebentou, lá em cima, e a rede inteira caiu um palmo, com um tranco que quase nos arrancou os dois. Pell gritou. A maleta escorregou da mão dele. Eu a agarrei no ar pela alça quebrada, com a mão esquerda, a do braço machucado.

E a maleta se abriu.

Talvez o fecho tivesse se quebrado na primeira batida. Talvez fosse o tranco. Não sei. Sei que a tampa se abriu na minha frente, a um palmo do meu rosto, no exato instante em que o céu se acendeu inteiro, e eu vi o que tinha dentro.

Frascos. Muitos. Pequenos, de vidro grosso, arrumados em fileiras em buracos forrados de feltro vermelho, com rolhas lacradas em cera. Dentro deles, coisas que eu não entendi. Um pó cinzento, fino como cinza de lareira. Um líquido escuro que não refletia a luz. Uma coisa que parecia uma lasca de osso, amarelada, com veios escuros por dentro. Cada frasco tinha uma etiqueta, escrita numa letra miúda e inclinada que eu não consegui ler.

Enfiado entre os frascos, um rolo de papel velho, amarelado, amarrado com fita. E, presa à fita, uma plaquinha de latão, torta, com um furo de prego em cada ponta. Estava meio coberta pela fita. Só vi o primeiro algarismo do número gravado nela: um 2.

E no meio da maleta, num buraco maior, só dele, embrulhado em pano, havia uma pedra.

Não era pedra. Era cristal. Do tamanho de um punho fechado, de um cinza azulado, turvo, como gelo sujo. E coberto de entalhes. Linhas finíssimas, riscadas na superfície com uma precisão impossível, que se enrolavam em volta do cristal inteiro. Eram figuras. Figuras pequeninas, de homens. Homens altos, magros, de braços abertos. E cada um deles tinha em volta de si uma outra forma, maior, que eu, na luz do relâmpago, achei parecida com asas. Com um dragão. Como se os homens estivessem vestindo os dragões.

O relâmpago apagou.

No escuro, com a maleta aberta na mão, senti uma coisa que não entendi. O cristal estava a um palmo dos meus dedos, e dele vinha calor. No meio daquele vento de gelo, no meio da chuva, ele estava quente. Quente como um bicho vivo.

Fechei a tampa com um tapa. Um dos frascos, que já tinha se soltado do feltro, escorregou pela borda, bateu no meu joelho e caiu. Rolou pela rede e sumiu no escuro, lá para baixo.

Não tive tempo de pensar nele.


— Chefe! — Brasa. — A rede! A rede está indo!

Estava. Senti as cordas cederem debaixo dos pés, uma, duas, e a rede inteira começou a descer torta, rasgando pela ponta de cima. Enfiei a alça quebrada da maleta no meu cinto e dei um nó, o nó de amarrar bezerro que a Maren me ensinou aos onze anos. Agarrei Pell pelo cinto da calça.

— Desce comigo.

— Eu não consigo...

— Consegue. — Puxei a mão dele e a pus na corda de baixo. — Uma.

— O quê?

— Conta comigo. Uma.

— Uma — gemeu Pell.

— Duas.

Descemos contando. Eu segurando o cinto dele, com a maleta batendo na minha perna. A rede descendo com a gente, torta, rasgando, e o vento tentando nos arrancar dela a cada corda. Brasa na frente, gritando os números mais alto que nós dois. Dezessete. Dezoito. No dezenove, vi mãos lá embaixo, esticadas para nós. Brann. A Cabo Marn. Dois tripulantes.

No vinte, a rede arrebentou de vez.

Senti o mundo sumir debaixo de mim. Soltei o cinto de Pell no último instante, empurrando-o na direção das mãos de Brann, e caí.

Não caí muito. Talvez três metros, talvez quatro. Mas caí de costas, e o convés veio, duro e molhado, e naquele meio segundo eu ouvi a voz de Brann no porão, dois dias antes: o chão é mais forte que você. Faz amizade.

Queixo no peito. Ombro bom primeiro. Rolar, não parar.

Bati. Rolei. Uma volta, duas, pelo convés inclinado, e parei de joelhos, encostado num caixote, com a maleta de Crane ainda amarrada no meu cinto e o mundo inteiro girando.

— ROLOU! — Era a voz de Brann, rouca, gargalhando no meio da tempestade, com Pell no colo como um bezerro molhado. — VIRAM? ELE ROLOU! EU ENSINEI ISSO!


O doutor Crane chegou antes de eu conseguir me levantar.

Chegou quase correndo, escorregando no convés, com a chuva escorrendo pelos óculos, e se ajoelhou do meu lado. Não olhou para mim. Olhou para a maleta. Desfez o meu nó com dedos rápidos, que tremiam, e a abriu ali mesmo, no convés, protegendo-a da chuva com o próprio corpo, curvado sobre ela como sobre um filho.

Vi os olhos dele correrem pelas fileiras de frascos. Pelo rolo com a plaquinha. Pelo embrulho de pano no meio. As mãos pararam. Contou uma fileira, movendo os lábios. Contou de novo.

Faltava um.

Ele levantou a cabeça devagar e me olhou. E, pela primeira vez desde que eu o conhecia, não havia sorriso nenhum no rosto do doutor Aldous Crane. Nem gentileza. Nem nada que eu reconhecesse. Só dois olhos cinzentos atrás de lentes molhadas, olhando para mim como Sila olhava para um alvo.

— O senhor viu alguma coisa que o interessou, senhor Kest?

A chuva batia entre nós.

— Só chuva, doutor.

Ele ficou me olhando por mais um instante. Depois o sorriso voltou, de uma vez, como uma lamparina que alguém acende.

— Claro — disse ele. — Claro que sim. Obrigado por salvar o meu assistente. E os meus instrumentos. Fico lhe devendo.

Fechou a maleta, prendeu-a no peito com o que sobrou da correia e se levantou. Foi até Pell, que estava sentado no convés, encharcado, abraçado aos joelhos, e pôs a mão no ombro dele. Pell se encolheu com o toque. Foi um movimento pequeno. Só eu vi.

Brasa apareceu do meu lado nessa hora, pingando, com o pelo laranja colado no corpo e as orelhas grandes deitadas para trás. Sentou encostado na minha perna. Não disse nada, o que já era estranho. E segurava uma das patas dianteiras fechada, bem apertada, junto ao avental.

Ia perguntar o que era. Não perguntei.

Porque, nesse instante, o céu se abriu de novo.


Foi o relâmpago mais longo daquela noite. Não durou um instante: durou três, quatro, o céu inteiro aceso de ponta a ponta num branco que doía, como se alguém tivesse aberto uma porta para um lugar feito só de luz. E, pela primeira vez desde que tínhamos saído de Varnhal, eu vi o que estava à nossa frente.

Montanhas.

Muito longe ainda, no horizonte, ao norte, onde a tempestade tinha nascido. Uma cordilheira inteira, de ponta a ponta do mundo, preta contra o céu branco. Mas não eram montanhas como as da minha serra, que sobem do chão e terminam em ponta. Aquelas pareciam ter sido feitas ao contrário. Os cumes não terminavam em ponta. Terminavam em nada. Cortados, lascados, estilhaçados, como se alguma coisa enorme tivesse descido do céu e quebrado as montanhas de cima para baixo, uma por uma, com a mão fechada.

E formavam um anel.

O relâmpago apagou. O escuro voltou. E eu fiquei ajoelhado no convés, com a chuva no rosto e a imagem ainda queimando dentro dos olhos.

Do meu lado, bem baixinho, tão baixinho que eu quase não ouvi por cima do vento, alguém falou. Não era Brasa. Não era Brann. Era Veyra Holt, parada de pé na amurada, com a lança-pistola nas costas e a água escorrendo pela cicatriz.

— As Coroas — disse ela. — Estamos em casa.

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