Capítulo 12
As Coroas Partidas
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Na pedra onde as expedições deixam o nome antes de entrar, achei o do meu pai duas vezes.
Uma delas não devia estar lá.
Mas isso foi à tarde. De manhã, houve as Coroas.
A tempestade acabou pouco antes do amanhecer, do mesmo jeito que tinha começado: de repente, contra toda lógica. Num instante, o vento gritava nos cabos. No seguinte, silêncio, e o Andorinha-Cinza flutuando parado num céu lavado, cor de cinza clara, com a água ainda escorrendo pelas amuradas e pingando das cordas partidas das enxárcias. Ninguém tinha dormido. As pessoas estavam espalhadas pelo convés, sentadas no chão molhado, encostadas em caixotes, enroladas em cobertores encharcados, com a cara de quem tinha sobrevivido a alguma coisa e ainda não sabia bem a quê.
Eu estava sentado com as costas contra o mastro, com o braço esquerdo latejando e Brasa enrolado no meu colo, dormindo, com uma pata enfiada no bolso do avental. Não tinha tirado a pata dali a noite inteira. Não perguntei.
Foi Nessa quem me acordou. Eu não sabia que tinha dormido.
— Kest. — Ela me sacudia pelo ombro bom. Tinha os óculos embaçados e o caderno de capa de couro apertado contra o peito, e estava com uma cara que eu nunca tinha visto nela. — Kest, levanta. Levanta e olha.
Levantei. Olhei.
E esqueci que tinha medo de altura.
Não sei descrever as Coroas Partidas. Tentei muitas vezes, depois, em cartas que não mandei e em conversas perto do fogo, e nunca consegui direito. O que eu posso dizer é o que vi naquela manhã, da amurada de proa do Andorinha-Cinza, com Nessa do meu lado e o sol nascendo à nossa direita.
Vi uma muralha.
Ocupava o horizonte inteiro, de uma ponta à outra, até onde os olhos alcançavam. Uma muralha de montanhas cinzentas, e depois brancas de neve, e depois de novo cinzentas, subindo tão alto que o topo delas ficava acima das nuvens da manhã, e as nuvens se partiam contra elas como água contra pedra de rio. E ela se curvava. Não reta, como uma serra normal. Se curvava devagar, dos dois lados, para longe de nós, para dentro, como a borda de uma tigela enorme, como os dedos de uma mão imensa se fechando em volta de alguma coisa.
E os cumes estavam quebrados.
Tinha visto isso no relâmpago, mas à luz do dia era pior. Nenhuma daquelas montanhas terminava em ponta. Terminavam em planos inclinados, em lascas, em degraus, em pontas estilhaçadas como um osso partido. Uma delas, bem à nossa frente, tinha o topo inteiro arrancado, e o que sobrava era uma borda circular, oca, como a boca de um poço. Outra parecia ter sido rachada ao meio de cima a baixo, e as duas metades pendiam para os lados, separadas por uma fenda onde a neve não chegava. Ninguém precisava explicar. Qualquer um que olhasse entendia: alguma coisa tinha feito aquilo. Alguma coisa tinha descido do céu, ou subido da terra, e quebrado aquelas montanhas como uma criança quebra um biscoito.
— Diz a lenda que foi um dragão — disse Nessa, bem baixinho, do meu lado. — Um só. Que ele caiu do céu no fim do mundo antigo, e que as montanhas são as costelas dele.
— Você acredita?
— Não. — Ela estava desenhando depressa, com a mão tremendo, a pena riscando o papel sem parar. — Mas também não acredito que seja mentira.
Ficamos em silêncio. O convés inteiro estava em silêncio. Até os Dace. Até Brann, de pé na amurada, com a caneca de latão esquecida na mão e a boca meio aberta. Só Veyra Holt não olhava. Estava de costas para as Coroas, no meio do convés, conferindo alguma coisa num papel, como se aquela vista não fosse nada. Como se já tivesse visto tantas vezes, nos sonhos, que não precisasse ver de novo.
Nessa terminou o desenho. Olhou para ele. Olhou para as Coroas.
— Não ficou nada parecido — disse, e riu, e havia lágrima no riso. — Não dá. Não tem como.
Olhei para o papel. Ela tinha razão, não ficara parecido. Ficara melhor, de algum jeito. Ficara com medo.
— Guarda — disse eu. — Um dia você vai querer lembrar como foi a primeira vez.
Ela me olhou por cima dos óculos embaçados. Depois fechou o caderno e o apertou contra o peito, e ficamos ali, lado a lado, sem dizer nada, até o sol subir inteiro.
A ideia era passar por cima.
Era para isso que servia a janela de ventos, que Orsolo esperava havia dez dias em Varnhal: umas poucas semanas por ano, no começo do outono, em que as correntes de ar que subiam das Coroas acalmavam o bastante para um dirigível atravessar o anel e descer do outro lado, direto no Cinzal, perto de Última Luz. Sem Garganta. Sem caminhar. Brann tinha me contado no porão, na primeira noite, e tinha dito que a trigésima passara assim.
O velho Orsolo tentou.
Levou o Andorinha-Cinza para cima, cada vez mais alto, até o frio ficar tão forte que as cordas molhadas congelaram e estalavam quando alguém encostava nelas. Até respirar doer. Apontou a proa para uma fenda entre dois cumes quebrados, a mais baixa do anel, e mandou as hélices girarem com toda a força.
Chegamos perto. Perto o bastante para eu ver a neve soprada das cristas, em longas bandeiras brancas contra o céu. Perto o bastante para ver, lá embaixo, na encosta, uma coisa escura e retorcida, meio enterrada no gelo, que talvez fosse o casco de um navio.
E então o vale soprou.
Não houve aviso. Uma parede de ar subiu da fenda, do outro lado do anel, e bateu no Andorinha-Cinza de frente, de baixo para cima, como um punho. O navio inteiro foi jogado para trás. Vi o horizonte girar. Ouvi a madeira gritar. Caí no convés, rolei, bati num caixote, e, quando consegui olhar de novo, as Coroas estavam longe. Muito mais longe do que antes. O vento nos tinha empurrado de volta como quem enxota uma mosca.
Orsolo tentou de novo. Uma hora depois, por outra fenda. Aconteceu a mesma coisa.
Na terceira vez, ele nem chegou perto. O ar começou a empurrar antes, a léguas da fenda, e o Andorinha-Cinza ficou parado, com as hélices roncando, sem avançar um palmo, como um homem correndo contra uma porta fechada.
Orsolo desistiu.
Vi quando ele desistiu. Estava perto do leme, e vi o velho soltar a roda, devagar, e ficar olhando para as Coroas com as mãos pendidas do lado do corpo. Veyra subiu até ele. Falaram baixo. Eu estava perto o bastante para ouvir parte.
— ... devia estar aberta por mais três semanas — dizia Orsolo. — No mínimo. Na vigésima sétima, passei por cima com folga. Na trigésima, passei raspando. Na trigésima segunda, passei por um fio, e voltei dizendo que da próxima vez não passava. — Ele cuspiu por cima da amurada. — Não passa. Está fechando, Comandante. A janela. Cada vez mais cedo. Cada vez menor. Não sei o que tem lá dentro, mas não quer mais navio passando por cima.
Veyra ficou calada muito tempo.
— A Garganta, então — disse ela.
— A Garganta. — Orsolo fechou os olhos. — Que os ventos tenham piedade.
O Degrau era o único lugar plano no pé das Coroas onde um dirigível podia descer. Um platô de pedra cinzenta, largo, varrido pelo vento, encostado na muralha de montanhas como um degrau de escada, daí o nome, e, na ponta norte dele, abrindo-se na rocha como uma ferida, a boca da Garganta.
Não olhei para a Garganta. Não ainda. Tinha muito o que fazer.
A descarga levou a tarde inteira. Caixotes, barris, tendas, armas, carroças desmontadas descendo em cordas pela lateral do Andorinha-Cinza e sendo montadas de novo lá embaixo pelos carregadores da Cabo Marn. Os Seikrets descendo pela rampa, um de cada vez, trinando de alívio ao pôr as patas na pedra. Pena foi a última, como sempre, e desceu a rampa quase correndo, e, quando chegou embaixo, se jogou no chão de pedra e rolou nela, de costas, com as patas para o ar, trinando de felicidade, e eu ri pela primeira vez em dois dias.
O Degrau não estava vazio. Havia coisas ali. Argolas de ferro cravadas na rocha, dezenas delas, para amarrar dirigíveis: algumas novas, algumas enferrujadas até virarem pó vermelho. Restos de fogueiras antigas, anéis de pedra enegrecida. Um poste de madeira apodrecida com um pedaço de pano desbotado preso no alto, que talvez tivesse sido um estandarte. E, bem no meio do platô, a pedra.
Era uma rocha solitária, alta como dois homens, lisa de um lado, como se alguém a tivesse aplainado. E no lado liso, do chão até onde um braço alcança, havia nomes.
Centenas de nomes. Milhares, talvez. Riscados na pedra com ponta de faca, com prego, com ponta de flecha, com o que as pessoas tinham à mão. Uns fundos e caprichados, outros tortos, tremidos, feitos às pressas. Agrupados em colunas, e cada coluna com um número no alto. 3. 5. 9. 14. Alguns tão gastos pelo vento que eram só sombras. Outros ainda claros. Do lado de alguns nomes, poucos, muito poucos, havia um traço curto, riscado depois.
— A Pedra dos Nomes — disse Brann, parado atrás de mim. Não tinha ouvido ele chegar. — Todo mundo que entra deixa o nome. Até os que vão por cima: o navio sempre desce aqui primeiro, para esperar o vento certo antes de tentar o anel. Quem volta risca um traço do lado, na saída. — Ele pôs a mão grossa na pedra. — É a única lista dos mortos que a Guilda não consegue lacrar.
Já tinha gente riscando. Tami, com a ponta da faca de peixe, escrevia o nome devagar, com a língua de fora. Os Dace riscavam um do lado do outro, e depois riscavam, embaixo, um desenho que eu não vou repetir. Custódio, sentado numa pedra, riscava devagar, parando para tossir.
Mas eu não risquei. Não ainda. Fui procurar a coluna.
Achei a da trigésima primeiro, porque era mais nova e mais clara. Os nomes ainda brilhavam brancos na pedra cinzenta. Sessenta e dois. Treze com traço. Um deles era V. HOLT, e o traço do lado dele era fundo, raivoso, riscado com força, muito mais longo que os outros.
Depois, a vigésima oitava. Depois, à esquerda dela, a vigésima sétima.
Estava mais gasta. Dezessete anos de vento. O líquen, aquela crosta cinza e amarela que cresce devagar nas pedras e que eu conhecia de todas as lápides do cemitério de Pedravento, já tinha começado a comer as letras, a entrar nos riscos, a preencher as curvas. Passei o dedo pelas linhas, uma por uma. Nomes que eu não conhecia. Nenhum traço. Nenhum.
E lá, na metade da coluna:
DORAN KEST.
A letra era torta. Inclinada para a direita, com os K grandes demais e o S de trás para a frente, quase. A mesma mão torta, tinha dito Gault. A minha mão.
Fiquei ali muito tempo, com a ponta dos dedos em cima das letras. O líquen tinha entrado no D e no O. Pensei no meu pai, de pé ali onde eu estava, dezessete anos antes, riscando o nome com a faca, olhando para a boca da Garganta. Pensando em mim, talvez. Ou na minha mãe. Ou em nada.
Foi quando tirei a mão que vi a outra.
Estava mais embaixo. Fora da coluna, deslocada para a direita, quase no pé da pedra, entre as colunas da vigésima sétima e da vigésima oitava, onde ninguém procuraria. Pequena. Só duas letras.
D. K.
A mesma letra torta. O mesmo K grande demais. Tenho certeza. Tinha passado a vida olhando aquela letra na carta do bolso do casaco.
Mas não foi a letra que me gelou. Foi a pedra.
Me agachei. Olhei de perto. Passei o dedo. E, com os olhos de quem passou a infância tirando líquen de lápide para ler o nome dos avós dos outros, eu vi. Os riscos do D. K. estavam limpos. Quase sem líquen. Só uma poeira fina, esverdeada, no fundo das linhas, que ainda não tinha virado crosta. A borda dos riscos ainda estava viva, afiada.
Levantei os olhos para a coluna da trigésima segunda, dois palmos à direita. Os nomes de dois anos antes. Tinham a mesma poeira esverdeada. O mesmo tanto de líquen.
Nem o D. K. nem a trigésima segunda tinham dezessete anos. Tinham dois. Talvez três.
Fiquei agachado, olhando para aquelas duas letras, e o mundo inteiro ficou em silêncio em volta de mim. Não ouvia o vento, nem os carregadores, nem as risadas dos Dace. Ouvia só o meu coração.
Podia ser qualquer um, pensei. Qualquer D. K. Da trigésima segunda, da trigésima, de uma expedição que nem entrou. Qualquer um.
Com a mesma mão torta.
— Kest.
Dei um pulo. Era Pell.
Estava parado atrás de mim, com os óculos consertados com barbante numa das hastes e o casaco ainda úmido da noite. Olhou para a pedra, para o lugar onde minha mão estava, mas acho que não viu o que eu tinha visto. Eu tinha tapado as letras com a palma sem perceber.
— Eu queria... — Ele olhou por cima do ombro. Lá longe, perto das carroças, o doutor Crane conversava com a Cabo Marn, de costas para nós. — Eu queria agradecer. Por ontem. Eu não agradeci.
— Não precisa.
— Precisa. — Ele engoliu em seco. Chegou mais perto e baixou a voz até eu mal conseguir ouvir. — E eu queria pedir uma coisa. Por favor. O que você viu ontem, na maleta. Não conta para ninguém. Nunca. E não deixa ele saber que você lembra. — Os olhos dele, atrás das lentes tortas, estavam assustados. — Não é por mim, Kest. É por você.
E foi embora antes que eu pudesse perguntar, andando depressa, de cabeça baixa, de volta para as caixas com cantos de metal.
Olhei para Crane. Ele tinha terminado de falar com a Cabo Marn e caminhava, agora, devagar, com o caderno na mão, na direção da Pedra dos Nomes. Parou diante dela, a uns dez passos de mim, sem me olhar. Olhou para as colunas. E estendeu a mão.
Os dedos dele passaram pela pedra, leves, devagar, como os de um cego lendo um rosto. Passaram pela coluna da trigésima. Pela da vigésima nona. Pela da vigésima oitava. E pararam na vigésima sétima. Pararam em cima de um nome, bem no alto da coluna, que daquela distância eu não conseguia ler.
Ficou assim um instante. Só um. Depois tirou a mão, abriu o caderno, escreveu uma linha e foi embora.
Não riscou o próprio nome. Fiquei esperando que voltasse para riscar, e ele não voltou. O doutor Aldous Crane não deixou o nome na Pedra.
Risquei o meu quando o sol já estava baixo. Com a faca do Tadeu, na coluna nova, a da trigésima terceira, que Brann tinha começado riscando um 33 grande no alto. Escrevi ILIAN KEST, com a minha letra torta, e fiquei olhando para ela, do lado da de Tami, da de Nessa, que tinha escrito o nome inteiro com uma letra caprichada de escola, e da de Brann, que tinha escrito BRANN E DONA BERTA.
Depois me agachei de novo, lá embaixo, entre a vigésima sétima e a vigésima oitava, e olhei o D. K. mais uma vez. Não contei a ninguém. Nem a Nessa, que teria entendido. Nem a Brann. Não sabia como dizer uma coisa que eu não sabia se era verdade.
Quando me levantei, o Andorinha-Cinza estava subindo.
Soltava as amarras uma por uma, e o balão cinzento remendado ia se afastando da pedra, devagar, com o velho Orsolo no leme, sem olhar para baixo. Não havia mais volta. Não por ali. Alguém da tripulação acenou lá de cima. Tami acenou de volta. Eu não.
E foi então, quando o navio já era só uma mancha cinzenta no céu do sul, que o vento mudou.
Veio da Garganta. Da boca escura na ponta norte do Degrau, que eu tinha passado a tarde inteira sem olhar. Veio fraco, primeiro, e depois mais forte, um sopro comprido e frio que desceu pela fenda e atravessou o platô e bateu no rosto de todos nós ao mesmo tempo. As fogueiras que os carregadores acendiam se deitaram. Pena parou de rolar no chão e ficou de pé, com a crista eriçada, olhando para a fenda.
Era frio. Mais frio do que qualquer vento que eu já tinha sentido. E trazia um cheiro.
Ferro.
Cheiro de ferro. Forte, grosso, enchendo a boca, como quando a gente morde a própria língua sem querer.
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