Capítulo 25

Rastros na Encosta

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A primeira coisa que eu matei no vale de Kharvaal foi um bicho que não tinha feito nada a ninguém. Matei mal. Ele levou tempo demais para morrer, e eu fiquei ajoelhado do lado dele na cinza, com a faca do Tadeu na mão, pedindo desculpas em voz alta, como um idiota.

Cinquenta e nove pessoas comeram dele naquela noite. Nenhuma me pediu desculpas por isso. Nem precisava.


A comida acabou no dia trinta e cinco.

Não acabou de uma vez. Acabou como acaba a água de um poço no fim do verão, um balde mais baixo que o outro. Brasa, que tinha contado as mochilas três vezes desde a Racha e se recusado a me dizer o número, veio me acordar antes do sol, com o avental amarrado e a cara séria.

— Chefe. Pergunta agora.

— Quanto tem?

— Farinha para hoje. Carne seca para amanhã, se ninguém mastigar. Depois, nada. — Ele baixou as orelhas. — A comandante disse quatro dias ontem. Eu fiz milagre. Milagre acaba.

Tínhamos acampado na metade da encosta, onde uma fonte brotava entre duas pedras e escorria morro abaixo num fio de água limpa. A primeira água que corria desde o fundo da Garganta. Veyra tinha parado ali no fim da tarde anterior por causa de Nessa. Descer para dentro daquela floresta negra no escuro, com uma maca, era pedir para morrer. Ninguém discutiu. Lá embaixo, o Cinzal tinha brilhado a noite inteira, respirando fogo por dentro dos troncos, e ninguém dormiu direito olhando para ele.

Fui falar com Veyra antes de pensar demais.

Ela estava sentada numa pedra perto da fonte, com a lança-pistola desmontada nos joelhos e um pano sujo de graxa na mão. A presa de Ademar Quell estava enfiada no cinto dela, do lado da faca, como se sempre tivesse estado ali.

— Comandante. Eu queria sair.

Ela não levantou os olhos.

— Sair para quê?

— Caçar. Tem rastro de bicho grande de pasto na encosta, desde ontem. Esterco, mato comido, trilha batida descendo para a água. Eu vi quando a gente chegou. — Respirei. — E tem uma planta que a minha mãe usava para febre, em Pedravento. Barba-de-pedra. Um musgo cinza que dá na face norte das rochas, onde não bate sol. Aqui em cima tem pedra de sobra. Se tiver musgo…

— Se tiver musgo, você vai curar o que o doutor não curou.

Não era pergunta. Não era deboche também. Era só o jeito dela de pôr as coisas na mesa, onde dava para ver o tamanho delas.

— Não sei — eu disse. — A minha mãe morreu de febre. A barba-de-pedra não salvou ela.

Veyra parou de esfregar a peça da lança. Ficou um tempo olhando para ela.

— A regra da Guilda — disse ela. — Você sabe.

— Sem autorização, não se caça. E ninguém sai sozinho.

— Então você não sai sozinho. Leva o Palico e a Seikret. — Ela montou a peça no lugar, com um estalo. — Volta antes de o sol tocar as Coroas. Não entra na floresta. Não segue nada que não caiba numa panela. Se vir alguma coisa maior que um Jagras, você não pensa, você volta. Entendeu?

— Sim, senhora.

— E, Kest. — Ela finalmente me olhou. — Se você morrer lá fora, quem fica com ela na descida?

Não precisei responder. Ela já sabia.


Pena ficou feliz de sair. Não sei como explicar isso a quem nunca teve um bicho, mas ficou: a crista subiu, as penas do pescoço se arrepiaram de um jeito diferente do medo, e ela deu dois pulinhos de lado quando pus a sela, como um potro no primeiro dia de pasto. Tinha passado quase uma semana entre paredes de pedra, andando no passo da coluna, com o pano nos olhos, com gente gritando, com dragão. A encosta aberta era outra coisa.

Brasa ia na sela, na minha frente, com o nariz para cima.

— Cheiro de bicho, chefe. Muito. E de fumaça. E de uma coisa doce, que eu não sei o que é.

— Que tipo de bicho?

— De pasto. Grande. Suado. — Ele torceu o focinho. — E de outro, que come o de pasto.

Descemos pela beira da trilha batida, eu a pé, puxando a Pena pela rédea. Não montei. Na Mesa, a gente não monta para rastrear. Do alto do bicho você vê longe e não vê perto, e o que importa está sempre perto: uma pedra virada, um galho quebrado para o lado errado, o mato deitado numa direção e não na outra.

O rastro era fácil. Fácil demais, no começo, e eu desconfiei. Esterco redondo, grande, em montes, ainda úmido por dentro quando eu parti com um graveto. Pegadas de três dedos grossos, fundas, no chão de cinza misturada com terra que cobria a encosta mais embaixo. Um bicho pesado. Talvez do tamanho de uma vaca grande. Mais de um. Um rebanho pequeno, cinco, seis cabeças, que tinha subido de noite para a fonte e descido de madrugada.

Na Mesa, eu teria dito: ovelhas indo para o sereno. Vão devagar, param para comer, não têm pressa.

Aqueles tinham pressa.

As pegadas se espaçavam depois de um tempo. Ficavam mais fundas na ponta. O esterco vinha solto, largado em qualquer lugar, sem parar. Um bicho que come parado, não. Um bicho que come correndo, também não. Aquele era um bicho fugindo.

— Brasa. O outro cheiro. O que come o de pasto.

— Está por toda parte, chefe. — As orelhas dele giravam. — Mais velho que o dos grandes. Mas por toda parte.


Achei o rebanho no meio da manhã, numa dobra da encosta onde a terra fazia uma bacia rasa e o mato crescia mais alto, verde-acinzentado, com umas flores pequenas e brancas que cheiravam a mel. Era a coisa doce que Brasa não sabia o que era.

Eram cinco. Bichos grandes, de pescoço comprido e grosso, de couro marrom-avermelhado, com uma espécie de coroa de chifre achatado no alto da cabeça e o lombo largo. Nunca tinha visto. Brann me disse depois, à noite, que se chamavam Talioth, e que os Vashti, as tribos do vale, criavam rebanhos deles no Planalto, como a gente cria ovelha. Que aqueles deviam ser desgarrados. Bicho de rebanho que perdeu o rebanho.

Pastavam de cabeça baixa, mas não do jeito que ovelha pasta. Arrancavam o mato, levantavam a cabeça, olhavam em volta, mastigavam olhando. Arrancavam de novo. Não baixavam a cabeça duas vezes seguidas. Tinham a pressa no corpo, mesmo parados.

Deixei Pena atrás de uma pedra, com Brasa segurando a rédea, e fui me arrastando pelo mato até ficar a uns quarenta passos. Com o arco leve do Tadeu. Nunca tinha matado nada maior que uma raposa com arco. Tinha matado muita coisa com arco na vida, na verdade: fardo de palha, tronco podre, um espantalho da Maren de quem ela gostava. Mas bicho grande, vivo, que respira, que olha, nunca.

Escolhi o mais velho. Aprendi isso com os pastores: se for tirar um do rebanho, tira o que o rebanho menos precisa. Estava na borda, mancando da pata de trás, com o couro do lombo cheio de marcas brancas de cicatriz.

Puxei a corda. O braço esquerdo doeu, o de sempre, o da tempestade. Mirei atrás do ombro, onde Brann tinha dito, no navio, rindo, com um osso de galinha na mão: aqui, garoto, onde bate.

Soltei.

Errei o lugar. Acertei. Mas errei o lugar. A flecha entrou baixo, na barriga, e o Talioth velho deu um berro que eu não esperava, grosso, rouco, como uma vaca parindo errado, e os outros quatro dispararam morro abaixo numa nuvem de cinza. E ele foi atrás deles. Mancando. Com a minha flecha pendurada na barriga.


Levei o resto da manhã para matar aquele bicho.

Segui o sangue. Não era difícil. Gotas grossas, escuras, no mato, na cinza, nas pedras. Depois gotas mais finas. Depois manchas onde ele tinha parado e deitado, e levantado de novo quando me ouviu. Três vezes ele levantou. Três vezes eu cheguei perto e ele levantou e foi, cada vez mais devagar, cada vez mais longe dos outros, que tinham sumido.

Na quarta, não levantou.

Estava deitado de lado, numa vala rasa, respirando curto, com a barriga subindo e descendo. Os olhos dele, grandes, escuros, cheios de água, me olharam chegar. Não tentou fugir. Não tinha mais como.

Eu me ajoelhei do lado dele. Tirei a faca do Tadeu. E fiquei lá, parado, com a faca na mão, sem conseguir.

Na Mesa, quem matava as ovelhas era o Bento. Eu segurava. Eu segurava a cabeça delas no colo e cantava a canção de parto, que servia também para morrer, e o Bento fazia o corte, depressa, e era rápido, e a ovelha nem sabia. Eu nunca tinha feito o corte. Nunca quis.

— Desculpa — eu disse para o Talioth. Em voz alta. — Desculpa. Eu errei. Não era para ser assim. Desculpa.

Ele respirou mais uma vez, fundo, e o ar saiu pelo nariz fazendo um barulho de fole. E eu pensei em Nessa na maca, respirando curto e rápido, e em cinquenta e nove pessoas com farinha para um dia, e fiz o corte.

Fiz certo. Pelo menos isso. Brann me tinha mostrado onde, e eu fiz no lugar, fundo, uma vez só, e segurei a cabeça dele no colo enquanto ele ia. Não cantei. Não se canta na Garganta. Mas ali não era mais a Garganta, e depois de um tempo eu me peguei cantarolando baixinho, de boca fechada, a canção de parto, até o olho dele parar de se mexer.

Brasa chegou com a Pena e ficou quieto do meu lado. Brasa nunca fica quieto.

— Você pediu desculpa — disse ele, depois de um tempo.

— Pedi.

— Três caçadores me devolveram, chefe. Nenhum deles pedia desculpa para o bicho. — Ele pôs a pata no pescoço do Talioth, de leve. — Eu gosto que você pede.


Foi voltando, com o Talioth amarrado numa armação de galho que eu fiz para a Pena arrastar, que achei a barba-de-pedra.

E o outro bicho.

A barba-de-pedra primeiro. Numa fileira de rochas grandes, na parte alta da encosta, perto da fonte, onde a sombra da montanha ficava a manhã inteira. Na face norte de cada uma, um pano de musgo cinza-esverdeado, comprido, fino como cabelo de velha, pendurado da pedra em tufos. Igualzinho. Igualzinho ao da Mesa, ao que a minha mãe mandava eu buscar nas pedras do alto do pasto quando alguém da vila tinha febre, e depois fervia numa panela de barro até a água ficar da cor de chá forte e amarga como fel.

Arranquei tudo o que achei. Enchi o bolso, enchi a camisa. Brasa cheirou e fez careta.

— Isso é bom?

— Não sei. Minha mãe achava que era.

— E curou ela?

— Não.

Ele não perguntou mais nada.

O outro bicho, eu achei um pouco mais abaixo. Ou o que sobrou dele.

Outro Talioth. Um dos cinco, talvez, ou de outro rebanho. Estava numa ravina rasa, perto da borda da floresta, onde as primeiras árvores negras começavam. Deitado de lado, como o meu. Mas o meu tinha morrido de uma ferida só.

Esse estava aberto.

A barriga toda. As costelas quebradas para fora. As pernas de trás comidas até o osso. O couro rasgado em tiras, não cortado, rasgado, e o chão em volta dele pisado, revirado, cheio de pegadas. Pegadas pequenas, de três dedos compridos com unha, que eu conhecia do treino em Varnhal. Dezenas delas. Umas por cima das outras, em volta da carcaça, até a borda da floresta e para dentro dela.

— Jagras — disse Brasa. — O cheiro. É esse.

Contei as pegadas diferentes, do jeito que eu contava ovelha pela marca do casco na lama. Parei no nove. Podiam ser mais. Nove Jagras, pelo menos. Uma matilha.

O sangue no chão estava escuro, mas não seco. De ontem à noite. Talvez de madrugada.

Olhei para cima. Para a encosta. Para a fonte, lá no alto, onde a coluna estava acampada, com a fumaça de um fogo pequeno subindo. Eram, de onde eu estava, uns quinhentos passos. Talvez menos.

Tínhamos dormido a quinhentos passos de uma matilha comendo.


A coluna recebeu o Talioth como se eu tivesse trazido o sol.

Não esperava aquilo. Achei que iam olhar e dizer: é pouco. E era pouco, para cinquenta e nove pessoas, um bicho só. Mas era carne. Carne de verdade, fresca, gorda, depois de dias de farinha rala e tira de carne seca que dava para ler através. A Cabo Marn soltou aquela risada de trovão dela e bateu nas minhas costas com tanta força que eu tossi. Tor Dace disse que tinha apostado meio pão que eu voltava com um coelho, e que ia pagar a aposta assim que tivesse o pão. Custódio, tossindo, me apertou a mão com as duas dele e não disse nada. Tami ficou do meu lado a tarde inteira, ajudando a tirar o couro, e não falou do Quell nem uma vez.

Brasa tomou conta da carne como um general toma conta de um exército. Mandou em todo mundo, inclusive na Cabo Marn, inclusive em Kaspar, que obedeceu sem dizer uma palavra e cortou lenha da borda da floresta, galho preto que queimava com uma chama esquisita, alaranjada, cheirando a resina e a mel.

E Veyra, quando eu passei por ela com os braços vermelhos até os cotovelos, só disse:

— Antes de o sol tocar as Coroas.

O sol ainda estava a um palmo delas.

— Sim, senhora.

Ela quase sorriu. Tenho certeza. Quase.


Fervi a barba-de-pedra numa lata emprestada de Pell, até a água ficar da cor de chá forte. Amarga como fel. O cheiro me levou para a cozinha da minha mãe tão depressa que eu tive de sentar.

Crane viu. Não disse nada por um tempo. Depois veio até a maca, enquanto eu tentava fazer Nessa beber, e se abaixou, e cheirou a lata.

— Barba-de-velho — disse ele. — É como os boticários do sul chamam. Vendem seca, para ferida. — Olhou para mim por cima dos óculos. — Não faz mal. Pode dar.

— O senhor acha que ajuda?

— Acho que não faz mal, Kest. — Ele se levantou. — É mais do que se pode dizer da maioria das coisas.

Nessa bebeu três goles e fez uma careta tão feia, com os olhos fechados, que eu ri. Foi a primeira vez que alguém riu perto da maca em dias. Depois ela dormiu.


Brann me chamou quando o sol já tinha tocado as Coroas e a floresta lá embaixo começava a acender, árvore por árvore.

— Me mostra — disse ele. — Onde estava a carcaça.

Não fomos até lá. Veyra não deixaria, e ele não pediu. Ficamos na borda do acampamento, onde a encosta descia, e eu apontei, e contei, e ele ouviu tudo com a caneca de latão na mão, cheia de caldo de Talioth, soprando.

Depois ele se agachou e pegou um punhado de cinza do chão, e deixou escorrer entre os dedos.

— Olha para baixo, garoto. Não para a floresta. Para o chão. Entre nós e ela.

Olhei. Era só encosta. Mato baixo, pedra, cinza, as flores brancas que cheiravam a mel.

— Vê as trilhas?

Não via. Depois vi. Quando ele disse, eu vi. Estreitas, finas como fio, correndo pelo mato baixo, cruzando a encosta de lado a lado em linhas que pareciam à toa e não eram. Iam da borda da floresta até as rochas. Das rochas até a fonte. Da fonte de volta para a floresta. Fazendo voltas. Como as trilhas que as ovelhas fazem na Mesa, indo e vindo sempre pelo mesmo lugar, até o mato deixar de crescer ali.

— Não é o bicho de pasto que fez isso — disse Brann. — Ele passa, vai embora. Isso é de quem mora. De quem anda por aqui todo dia. Todo dia, o mesmo caminho. — Ele apontou com a caneca. — Ali, no pé daquela pedra. Está vendo o risco? Na casca daquela árvore preta, a primeira. Três riscos, na altura do meu peito.

Vi. Três riscos paralelos, claros, na casca negra, que por dentro brilhava laranja.

— Marca. Quem arranha ali está dizendo: é meu. Até aqui. — Ele deu um gole no caldo. — Território, garoto, é uma casa. Tem a porta, tem a cozinha, tem o quarto onde se dorme. A fonte é a cozinha deles. A carcaça que você achou é a mesa. E a gente…

Ele não terminou. Não precisava.

— A gente está acampado na cozinha deles — eu disse.

— Na cozinha. Com carne fresca no fogo. — Ele virou a caneca e bebeu até o fim. — Cheirando a Talioth até lá embaixo.

Senti o estômago virar, com o caldo e tudo.

— Como o senhor sabe de tudo isso? — perguntei. — Só de olhar?

Brann riu. O riso grande, dessa vez, o do Chatacabra. Um riso que não combinava com o que ele tinha acabado de dizer.

— Caçador não se forma, garoto — disse ele, e me deu um tapa na nuca. — Caçador acorda. E eu acordei cedo hoje.

Riu de novo da própria piada e foi falar com Veyra. Eu fiquei olhando os três riscos na árvore preta, que brilhava por dentro.

Ele falou com Veyra um tempo comprido. Vi, de longe, ela olhar para a borda da floresta, e depois para a maca de Nessa, e depois dar ordens. Guarda dobrada. Fogo alto a noite inteira, com a lenha preta que queimava com cheiro de mel. Ninguém dorme na borda.

Naquela noite, antes de deitar, eu e Custódio fizemos o arrasto. Duas lanças compridas, amarradas em ângulo, com o couro do Talioth esticado entre elas, do jeito que os pastores da Mesa levam ovelha quebrada morro abaixo. Presas numa ponta à sela da Pena, e a outra ponta arrastando no chão. Para a descida. Para não depender de quatro braços cansados numa floresta que ninguém conhecia.

Deitamos Nessa nele para ver se cabia. Cabia. Ela dormiu ali mesmo, perto do fogo, enrolada no cobertor e no meu casaco, com a Pena deitada do lado, de pescoço esticado no chão, como as ovelhas de Pedravento deitam do lado das crias. E a Pena nunca tinha visto uma ovelha na vida.

Eu fiquei na primeira guarda. Não vi nada. Não ouvi nada, a não ser o fogo e a floresta, que à noite fazia um barulho baixo, contínuo, de estalo, como carvão esfriando. Quando Oskel veio me render, eu deitei do lado do arrasto, com a espada do lado, e dormi como uma pedra cai.


Acordei com a Pena rosnando.

Não gritando. Não trinando. Rosnando, um som baixo, que vinha do fundo do peito dela, e que eu nunca tinha ouvido uma Seikret fazer. Estava de pé. Com a crista eriçada até a ponta e o pescoço esticado para a frente, olhando para a borda da floresta.

Ainda estava escuro. Mas o céu, atrás das Coroas, começava a ficar cinza. O fogo tinha baixado. Oskel estava de pé na beira do acampamento, com a lança na mão, de costas para mim, olhando para o mesmo lugar que a Pena.

— Oskel?

— Não vi nada — disse ele, sem virar. A voz estava fina. — Juro por tudo que é sagrado, Kest. Não vi nada. Não ouvi nada. A noite inteira.

Me levantei. Olhei para baixo. Para o chão em volta do arrasto.

A cinza da encosta é fina. Fofa, macia, como farinha. Na tarde anterior, eu tinha visto nela as trilhas estreitas dos Jagras, que Brann me ensinou a ver. Agora não precisava que ninguém me ensinasse.

Estavam em volta de nós.

Pegadas. Dezenas. De três dedos compridos com unha. Vindo da borda da floresta, subindo a encosta em fila, uma atrás da outra, com cuidado, como quem pisa na pegada do da frente. E depois se abrindo. Fazendo uma roda. Uma roda larga, em volta do arrasto, em volta do fogo, em volta de Nessa dormindo com a Pena do lado, a menos de dez passos de onde eu tinha dormido, a menos de cinco de Oskel.

Uma roda completa. Andada e andada de novo, a cinza pisada até virar lama seca. Como quem ronda. Como quem mede.

E, no meio da roda, entre o arrasto e a borda da floresta, sozinha, uma pegada que não era de Jagras.

Era do mesmo desenho. Três dedos. Unha. Mas eu podia pôr as duas botas dentro dela, lado a lado, e ainda sobrava. Afundava na cinza mais de um palmo.

Não tinha outra do lado. Nem na frente, nem atrás. Uma só, como se aquilo tivesse ficado parado ali a noite inteira, num pé só, olhando por cima da roda dos pequenos para o arrasto onde Nessa dormia.

E depois, sem fazer barulho nenhum, tivesse ido embora.

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