Capítulo 26
A Emboscada
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Eu fiz o arrasto com o couro do Talioth porque era o que um pastor faria. Couro grosso, fresco, que aguenta o peso e desliza na terra. Na Mesa, é assim que se desce ovelha quebrada. Eu tinha orgulho da ideia. Custódio disse que era boa. Brann disse que era boa.
Ninguém lembrou que couro fresco cheira a sangue. Nem eu.
Brann ficou muito tempo agachado ao lado da pegada grande, com a mão aberta em cima dela, sem encostar.
O sol ainda não tinha subido acima das Coroas, e a luz era cinza e fria, e a coluna inteira estava de pé em volta da roda de pegadas, sem falar, como na beira do acampamento da trigésima primeira. Oskel estava branco. Tinha repetido para Veyra três vezes que não tinha visto nada, e na terceira ela disse "eu sei, soldado" de um jeito que o fez parar.
— Great Jagras — disse Brann, afinal. — O chefe.
— Tamanho? — perguntou Veyra.
— Grande. — Ele mediu a pegada com o palmo, uma, duas, três vezes. — Maior que os que eu vi no sul. Bem alimentado. Bicho de território velho, que nunca teve de dividir nada. — Ele olhou para a roda. — E esperto. Não entrou. Ficou olhando por cima dos pequenos. Mediu a gente.
— Por que não atacou?
— Porque a gente estava parado, com fogo e guarda. Bicho desses não ataca coisa parada que olha de volta. — Brann se levantou, e os joelhos dele estalaram. — Ele espera a presa andar. Quando ela anda, ela se estica. Quando se estica, abre buraco. Ele entra pelo buraco.
Ninguém disse nada. Todo mundo olhou para baixo, para a floresta preta, que de dia não brilhava. De dia, o Cinzal era só escuro. Um mar de troncos negros e retorcidos, cobertos por uma névoa baixa, cinza, que não era névoa, era cinza no ar, parada, e que tinha cheiro de lareira apagada.
— Voltar não dá — disse Veyra. Não perguntou para ninguém. Estava contando em voz alta, para ela mesma. — Ficar não dá. Não tem comida, e a fonte é deles. — Olhou para a floresta. — Então a gente anda. E não se estica.
Ela arrumou a coluna como quem arruma pedra de muro.
Os carregadores e os pesquisadores no meio, em fila dupla, tão colados que um pisava no calcanhar do outro. Os soldados nas duas bordas, com as lanças para fora. Na retaguarda, Brann, com o martelo no ombro, e os Dace. Na frente, a própria Veyra, com a lança-pistola carregada, e Sila, com o arco. Tami e Kaspar nos flancos, onde dava para atirar por cima das cabeças.
E no centro de tudo, o arrasto. A Pena puxando, com Brasa na sela. Nessa deitada no couro do Talioth, amarrada pela cintura e pelas pernas para não escorregar. Custódio de um lado, Oskel do outro.
— Kest — disse Veyra.
— Senhora.
— Na frente dela. — Ela apontou para o espaço entre o arrasto e os carregadores da frente. — Você não sai dali. Não corre atrás de nada. Não vai ajudar ninguém. Se vier alguma coisa na direção dela, você fica entre a coisa e ela. — Ela me olhou. — Era isso que você queria. Então é isso.
Tirei o escudo do Tadeu da sela da Pena. Era velho, de madeira grossa com placas de ferro pregadas, pesado como uma porta, e eu nunca tinha aprendido a usar direito. Brann tinha tentado no navio, e em Varnhal, e desistido duas vezes. Você segura como quem segura uma bandeja, garoto. A alça de couro trançado que Dita tinha feito para ele no porão do dirigível, marrom e preta e com um fio vermelho desbotado, estava firme. Passei o braço esquerdo por ela. O braço doeu, o da tempestade. Apertei a correia até doer mais.
Dita estava na fila dos carregadores, logo à minha frente. Olhou para a alça. Não disse nada. Só levantou o queixo, de leve, como quem diz: aguenta.
A espada do Tadeu na mão direita. A faca na bota. Descemos.
O Cinzal por dentro era quente.
Não dá para explicar a quem nunca entrou. De fora, parecia morto, uma floresta queimada que tinha esquecido de cair. Por dentro, era como andar dentro de um forno que esfriou pela metade. O chão era cinza fofa, até o tornozelo, às vezes até a canela, e embaixo da cinza a terra estava morna. Os troncos negros, quando eu encostava a mão, estavam mornos também, como a pele de um bicho dormindo. A névoa de cinza ficava parada entre as árvores, na altura do peito, e a gente passava por ela e ela se abria e se fechava de novo atrás, sem barulho.
E não tinha barulho nenhum.
Isso foi o que me gelou. Uma floresta tem barulho. Pássaro, inseto, folha, bicho pequeno correndo. A floresta de Pedravento, no pé da Mesa, fazia tanto barulho de manhã que a Maren dizia que não dava para pensar. O Cinzal, não. Só o arrasto raspando na cinza, as botas afundando, a respiração de cinquenta e nove pessoas tentando respirar baixo.
— Chefe — disse Brasa, da sela, com a voz pequena. — Estão andando com a gente.
— Onde?
— Dos dois lados. — As orelhas dele giravam, uma para cada lado. — Longe. No mesmo passo. Quando a gente para, eles param.
Paramos. Veyra levantou a mão lá na frente, e a coluna parou, e eu parei, e prendi a respiração.
E ouvi. Bem longe, à esquerda, na névoa, um passo na cinza. Um só. E depois nada.
À direita, outro.
Depois nada.
Veyra baixou a mão. Andamos. E dos dois lados, bem longe, os passos voltaram, no nosso ritmo, como um eco que se atrasa.
Vi o grande perto do meio-dia.
Foi Tami quem apontou. Não gritou; só esticou o braço, com o arco na mão, e todo mundo em volta olhou para onde ela apontava. Uns cinquenta passos à direita, numa pequena elevação, havia uma árvore negra caída, enorme, com o tronco deitado atravessado entre duas outras.
E em cima do tronco, deitado, olhando para nós, estava ele.
Na primeira hora, achei que era parte da árvore. Uma dobra da madeira. Depois a dobra se mexeu. Uma cabeça subiu, devagar, do meio de uma juba de escamas eriçadas, como espinhos de ouriço, que desciam pelo pescoço e pelas costas. Era amarelo. Amarelo-ouro, sujo de cinza, com listras escuras, largas, que atravessavam o corpo de ponta a ponta, como a sombra de grades. Comprido. Muito comprido. Deitado como um gato deita, com as patas da frente dobradas embaixo do peito e a cauda caindo pela ponta do tronco até o chão.
O tronco onde ele estava era mais grosso que uma carroça. Ele o cobria de uma ponta à outra.
Não se levantou. Não rugiu. Só virou a cabeça, acompanhando a coluna passar, como a Maren acompanhava da janela os rebanhos voltando para o curral à tarde, contando.
E eu vi que ele não estava olhando para a coluna. Não para os soldados, nem para Veyra, nem para Brann. Os olhos dele, pequenos, amarelos, no meio daquela cara comprida, estavam parados num lugar só.
No arrasto.
— Kest — disse Custódio, do lado da Pena, quase sem voz.
— Estou vendo.
— Por que ele está olhando para a moça?
Eu não sabia. Não naquela hora. Eu achei que era porque Nessa era a que estava deitada. A que não andava. Na Mesa, o lobo vai sempre na ovelha que manca. Achei que era isso.
Não era isso. Mas eu só entendi depois, quando não adiantava mais.
O ataque veio num leito seco.
Uma vala larga, rasa, que cortava a floresta de lado, como o leito de um rio que tinha secado havia cem anos e ficado cheio de cinza até a borda. Para atravessar, a coluna tinha de descer por um lado e subir pelo outro, e o arrasto ia devagar, e a Pena escorregava na cinza fofa, e os carregadores da frente já tinham subido do outro lado quando o arrasto ainda estava no fundo.
A coluna se esticou.
Não muito. Dez passos. Doze. O suficiente.
O primeiro grito veio da retaguarda. Brann. Não de dor: de aviso, um berro grosso, o nome de ninguém, só "ATRÁS!", e depois o barulho do martelo batendo em alguma coisa, um baque surdo, molhado, e um guincho agudo, alto, que eu nunca tinha ouvido antes e nunca mais esqueci.
Virei a cabeça. Todo mundo virou.
Estavam saindo da névoa lá atrás, onde a coluna tinha acabado de passar. Jagras. Seis, sete, oito. Do tamanho de um homem deitado, compridos, baixos, de escama alaranjada e listrada, as cabeças para a frente, as bocas abertas, correndo na cinza com um barulho de chuva, pulando nos soldados da retaguarda. Vi Mira Dace girar com as duas lâminas e abrir um deles do pescoço à barriga. Vi um soldado cair de costas com um Jagras em cima do peito. Vi Brann levantar o martelo de novo.
— A RETAGUARDA! — gritou alguém, lá da frente. Tor Dace. Correndo para trás. Tami correndo para trás. Os soldados do flanco direito virando as lanças para trás.
E eu dei um passo.
Um passo só, para trás, na direção de Brann, porque Brann estava lá, e eu o tinha visto ser derrubado uma vez pelo Chatacabra em Varnhal, e o corpo foi antes da cabeça.
Você não sai dali. Não vai ajudar ninguém.
Parei. Voltei. Me pus de novo na frente do arrasto, com o escudo levantado, e olhei para o lado de onde tinha vindo o grande. Para a direita. Para o tronco caído, lá longe, na névoa.
Estava vazio.
— Chefe! — Brasa, da sela, com a voz rasgada. — CHEFE, O LADO!
Não era a direita. Era a esquerda. A esquerda do leito, a borda baixa, onde a névoa de cinza tinha se acumulado mais grossa, parada, como água num poço. E a névoa se abriu.
Ele saiu dela sem pressa.
Foi o que eu não esperava. A pressa. Os pequenos tinham vindo correndo, guinchando, fazendo barulho, e era para isso que serviam, eu entendi depois: para fazer barulho, lá atrás, e puxar todo mundo para trás. O grande não. O grande desceu a borda do leito andando, com as patas afundando na cinza até o joelho, a cabeça baixa, a juba de escamas deitada, sem som. Como um gato desce de um muro.
Era maior do que no tronco. Era muito maior de perto. A cabeça dele, sozinha, era do tamanho da Pena inteira.
E vinha para o arrasto.
Não para mim. Não para Custódio, nem para Oskel, que tinha levantado a lança e estava tremendo tanto que a ponta balançava. Para o arrasto. Para o couro.
Foi aí que eu entendi. Tarde. O nariz dele, comprido, com as narinas abertas, tremendo. A cabeça baixa, quase rente à cinza, seguindo um cheiro. O cheiro de couro de Talioth fresco, de gordura, de sangue de ontem, que eu tinha esticado entre duas lanças e amarrado atrás da Pena, e em cima do qual eu tinha deitado Nessa.
Eu tinha feito uma bandeja. E tinha posto ela em cima.
— Oskel, Custódio, soltem o arrasto da sela! — Não sei como a voz saiu. — Soltem! Pena, vai!
Custódio pulou para a correia. Os dedos dele não achavam o nó. Oskel não se mexia.
Eu fiz a única coisa que eu sabia fazer. A coisa de pastor.
Na Mesa, quando o lobo vem para o rebanho, você não briga com ele. Você não ganha de um lobo. Você grita. Bate. Faz barulho, faz tamanho, se faz maior do que é, e fica entre ele e as ovelhas, batendo o cajado numa pedra, até ele achar que não vale a pena. Lobo é esperto. Lobo não quer se machucar por uma ovelha.
Bati a espada no escudo. Com toda a força. Uma vez, duas, três, um barulho de sino rachado que ecoou pela floresta muda. E gritei. Não palavra: grito, o grito que a gente dá na Mesa, rouco, subindo da barriga. E andei para a frente, na direção dele, batendo, gritando, me fazendo grande.
O Great Jagras parou.
Levantou a cabeça. Olhou para mim. Pela primeira vez, para mim.
Eu achei que tinha dado certo. Por um instante, com o coração saindo pela boca, eu achei.
Ele não era um lobo.
Ele não veio devagar dessa vez.
Veio de uma vez, com o corpo inteiro, como uma árvore caindo de lado. Eu vi a boca abrir, só vi isso, uma boca que era mais larga que o escudo, cheia de dentes curtos e grossos como pregos de ferradura, e levantei o escudo por instinto, do jeito errado, do jeito de bandeja, e ele bateu.
Não foi como levar um golpe. Foi como ser atropelado por uma carroça descendo morro. O escudo veio contra o meu peito, o meu peito veio contra as minhas costas, e os meus pés saíram do chão. Voei. Não sei quantos passos. Caí de costas na cinza e deslizei, e a cinza entrou na minha boca, no meu nariz, nos meus olhos, e o mundo ficou cinza e quente e sem ar.
Não conseguia respirar. O peito não enchia. Abria a boca e nada entrava.
Levantei a cabeça. O escudo ainda estava no meu braço. A alça de Dita tinha segurado. Mas a borda de cima estava arrancada, a madeira lascada em pontas, uma das placas de ferro dobrada para dentro como a folha de um livro, com a marca de quatro dentes cravada nela.
O braço esquerdo não sentia nada. Do ombro para baixo, nada. Só o peso.
E o Great Jagras não tinha vindo atrás de mim.
Tinha voltado para o arrasto.
Tudo aconteceu ao mesmo tempo, e eu vi tudo de onde estava, de joelhos na cinza, tentando puxar ar para dentro de um peito que não abria.
Custódio achou o nó. Soltou a correia. Mas só de um lado.
A Pena viu o Great Jagras a três passos dela. E a Pena, que tinha derrubado três cavaleiros em Varnhal, que fugia de cabo gemendo e de trovão e de gente gritando, que tinha passado a noite rosnando para a floresta, deu o grito mais alto que eu já ouvi uma Seikret dar e disparou.
Com o arrasto ainda preso de um lado.
Brasa se agarrou na sela com as quatro patas, gritando o meu nome. O arrasto deu um tranco, virou de lado, arrastado por uma ponta só, e bateu numa raiz negra que saía da cinza como um braço. A lança da esquerda estalou e quebrou.
E o arrasto tombou.
Vi Nessa sair dele. Vi o corpo dela, amarrado pela cintura, se soltar quando a correia rasgou, rolar pelo couro e cair de lado na cinza fofa do fundo do leito, com o cobertor enrolado nas pernas, com a perna da tala para cima. Vi a Pena sumir na névoa do outro lado do leito, subindo a borda, com Brasa ainda gritando na sela e o arrasto quebrado pulando atrás dela, preso por uma correia só.
Vi Custódio no chão, de costas, onde o tranco do arrasto o tinha jogado. Vi Oskel correndo. Não para nós. Para longe.
E vi o Great Jagras virar a cabeça.
Do couro que ia embora, arrastado pela Pena, para a coisa que tinha caído dele. Para o corpo pequeno, deitado de lado na cinza, a dez passos de mim.
Nessa não se mexia.
Eu não lembro de levantar. Lembro de estar de pé. Lembro de a espada estar na minha mão direita, e o escudo arrebentado pendurado no braço esquerdo que não sentia nada, e o peito finalmente abrindo, de uma vez, com um barulho de fole rasgado, e o ar entrando cheio de cinza, queimando.
Lembro de correr. Não sei como. As pernas foram sozinhas, como na Racha, como na fenda.
Cheguei antes dele. Não sei como também. Talvez porque ele não tinha pressa. Porque, para ele, não havia pressa nenhuma: a presa estava deitada, não andava, não olhava de volta. Cheguei e parei na frente de Nessa, no fundo do leito, com os pés afundados na cinza até a canela, e levantei o que sobrava do escudo, e levantei a espada, e fiquei.
Ele parou a quatro passos.
De perto, cheirava a carne. A carniça velha e a fumaça. A respiração dele saía quente, em sopros curtos, e levantava a cinza do chão em pequenas nuvens que batiam nas minhas pernas. A juba de escamas estava eriçada agora, de ponta a ponta, espetada, fazendo ele parecer ainda maior. Os olhos pequenos, amarelos, olhavam para mim. Depois para ela, atrás de mim. Depois para mim.
Lá atrás, muito longe, eu ouvia Brann gritando. Ouvia a lança-pistola de Veyra explodindo, uma vez, duas, um estrondo que fazia a cinza cair das árvores. Ouvia guinchos, e metal, e gente. Estava tudo lá atrás. Longe demais.
Aqui, só nós três.
— Não — eu disse para ele. Em voz alta. Como disse para o Talioth. Como se ele entendesse. — Não. Essa não.
O Great Jagras baixou a cabeça até a altura do meu peito.
E abriu a boca.
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