Capítulo 28

O Peso do Martelo

16 min de leitura

Quem me disse que Nessa estava viva foi uma faca.

Crane desceu o barranco do leito devagar, de lado, com uma das mãos na cinza e a maleta na outra, como um homem velho desce uma escada sem corrimão. Não olhou para o Great Jagras. Não olhou para Custódio. Ajoelhou do outro lado de Nessa, tirou do bolso do casaco a faca de escama, aquela lâmina fina e clara com que tinha raspado a Porta, limpou-a na manga e a pôs debaixo do nariz dela.

Eu não entendi. Achei que ele ia cortar alguma coisa. Levantei a mão para segurar o braço dele e a mão não subiu; o lado do corpo não deixou.

— Olhe — disse ele.

Olhei. A lâmina estava embaçada. Uma névoa fina, do tamanho de uma unha, que apareceu e sumiu. Apareceu de novo, menor. Sumiu.

— Respira — disse Crane. — Pouco. Mas respira. O senhor não ouviu porque não se ouve, Kest, quando é assim tão fraco. Se ouve com o vidro. Ou com o aço.

Ele guardou a faca. Tocou o pescoço dela com dois dedos, contou alguma coisa em silêncio, mexendo os lábios, e depois tirou os dedos e os esfregou uns nos outros, como quem sente a textura de um tecido.

— Fria por fora, quente por dentro. A febre está brigando com o frio. É uma briga que ela pode ganhar. — Ele me olhou por cima dos óculos. — Agora me deixe ver o senhor, antes que o senhor caia em cima dela de novo e ela perca a briga por falta de ar.


Duas costelas quebradas, talvez três. A mordida tinha entrado pelo lado esquerdo, logo abaixo do braço, uma fileira de furos fundos e redondos, como os de um prego, e uma fileira menor mais embaixo, onde a mandíbula de baixo tinha fechado. O gibão de couro tinha segurado o pior. Crane disse isso como quem elogia um sapateiro.

Ele costurou os furos maiores com linha preta e uma agulha curva, ali mesmo, na cinza, comigo deitado de costas e Brann segurando meus ombros. Eu não gritei. Não por coragem. Não tinha ar para gritar. Cada ponto era um fio de fogo puxado por dentro do corpo, e eu contava os pontos para ter alguma coisa em que pensar, e cheguei a dezenove, e depois não contei mais.

Depois ele enfaixou o meu peito com uma tira de linho, apertada, apertada demais, e eu senti as pontas quebradas das costelas rangerem uma contra a outra lá dentro, e o mundo ficou branco e voltou.

— Não vai ficar de pé hoje — disse Crane, limpando a agulha. — Nem amanhã, se tiver juízo. Costela quebrada perto do pulmão não é brincadeira. Se uma ponta furar alguma coisa, o senhor vai saber pela tosse. Tosse com sangue, me chame.

Não chama o doutor. Me chama. Eu. A voz de Veyra, no escuro da Garganta, dias antes.

— Chamo — menti.

Crane tirou o caderno do bolso. Escreveu. Não muito: duas linhas, talvez três. Eu não vi o que era. Vi só que ele escreveu olhando para mim, e não para o papel.


Enterramos Custódio no meio da tarde, na borda do leito, debaixo da primeira árvore negra.

Na Garganta não dava para cavar; no Cinzal, dava. A cinza saía fácil, fofa, e por baixo dela vinha uma terra escura, quente, que cheirava a queimado antigo. Oskel não estava lá para cavar. Cavaram a Cabo Marn, Kaspar e Tor Dace, este com uma perna só, apoiado na pá, xingando baixinho a cada vez que pisava.

Eu não cavei. Fiquei sentado encostado no tronco, com Brasa de um lado e a Pena do outro, e olhei.

Mira e Dita lavaram o rosto dele com a água dos odres. A água estava contada, e ninguém disse nada. Tiraram a coisa brilhante e grossa que o cobria, a coisa de dentro do bicho, com um pano, e depois com outro, e depois com as mãos. Dita fechou os olhos dele. Ela fez isso sem tremer, com o polegar, do jeito de quem já tinha fechado olhos antes, e eu não quis saber de quem.

Ninguém sabia uma oração de mineiro. Brann disse que mineiro não reza para cima, reza para baixo, para a montanha não fechar em cima dele. Então ninguém rezou. Brann ficou de pé na beira do buraco muito tempo, com a caneca de latão na mão, vazia, e no fim só disse:

— Ele entregou.

E virou a caneca de boca para baixo em cima da terra, como se derramasse alguma coisa que não estava ali.

O lenço tinha ficado comigo. Não sei como. Lembro de ter pegado da cinza, depois de vomitar, e de ter apertado na mão enquanto Crane costurava. Estava duro de sangue seco, o dele e o meu, já não dava para saber qual. Pensei em pôr na cova com ele. Pensei no filho doente, na mulher, na vila cujo nome eu nunca tinha perguntado. Pensei que alguém um dia ia querer saber como ele morreu, e que ninguém ia saber contar, e que talvez eu devesse saber.

Dobrei o lenço em quatro e guardei junto da plaqueta de Evran Tolle, no bolso do gibão, do lado que não doía.

Quando a terra cobriu tudo, Veyra fincou na cabeceira a lança quebrada que o bicho tinha devolvido. Não disse nada. Tirou a presa de Quell do cinto, olhou para ela, e guardou de novo.


— Levanta, garoto.

O sol já estava baixo, vermelho atrás das Coroas, e a floresta começava a acender por dentro, devagar, veia por veia, como tinha acendido na noite em que saímos da Garganta. Brann estava de pé na minha frente com uma faca de esfolar na mão e outra no cinto.

— Crane disse…

— Crane disse que você não fica de pé. Não disse que você não fica de joelhos. — Ele estendeu a mão. — Quem sangra na caçada, trabalha no bicho. É assim desde antes da Guilda. Levanta.

Ele me levantou. Não sei explicar de outro jeito. Pegou o meu braço bom pelo pulso e me pôs de joelhos no chão como quem põe um saco de farinha em cima de uma mesa, sem esforço, e eu senti as costelas gritarem e depois, esquisitamente, menos do que eu esperava.

O Great Jagras estava deitado de lado no fundo do leito, onde tinha caído. Morto, parecia menor. Não pequeno: menor. O ouro das escamas tinha ficado opaco, como latão que ninguém lustra, e a juba tinha deitado. O olho bom estava aberto. O outro tinha o cutelo de Brasa.

Brasa foi o primeiro a chegar perto. Parou do lado da cabeça, com as orelhas para trás, e ficou olhando o cabo do cutelo saindo do olho, sem mexer.

— Puxa — disse Brann. — É seu.

— Está… dentro dele — disse Brasa, baixinho. Pela primeira vez desde Varnhal, eu o ouvi falar baixo.

— Por isso mesmo. Você pôs lá. Você tira. — Brann se agachou do lado dele. — Não é nojo, gato. É respeito. Quem mata deixa a arma. Quem deixa a arma no bicho e não volta para buscar, está dizendo que tem medo dele mesmo morto. Ele não merece isso. Lutou bem.

Brasa pôs as duas patas no cabo. Puxou. O cutelo saiu com um barulho que eu vou ouvir até morrer. Ele ficou segurando a lâmina suja longe do corpo, olhando para ela, com a cauda eriçada.

Depois limpou no próprio avental, dos dois lados, devagar, e enfiou no cinto.

— É a primeira vez — disse ele, sem olhar para ninguém — que eu corto uma coisa que estava viva e não era peixe.

— E a última vez que você vai ser o mesmo Palico — disse Brann. — Vai lá. Pega a água.


Destrinchar um Great Jagras demora. Eu achava que sabia. Tinha esfolado ovelha, cabra, um Talioth no dia anterior. Não sabia nada.

Brann me mostrou onde começar: não pela barriga, que já estava aberta e fedia, mas pelo pescoço, logo atrás da juba, onde as escamas eram menores e a faca entrava entre elas. Me mostrou como levantar uma escama inteira com a ponta, pela raiz, sem quebrar. Me mostrou que a pele de baixo era grossa como sola de bota e que tinha de ser cortada de dentro para fora, nunca de fora para dentro, senão a lâmina escorregava e ia no dedo.

— Ninguém come escama — disse ele. — Mas escama inteira vira armadura. Escama quebrada vira lixo. A diferença é você ter tido paciência.

Eu trabalhava de joelhos, com o lado esquerdo colado ao corpo, com a mão direita só. Brann fazia o pesado. Levantava a pata dianteira do bicho, que devia pesar mais do que eu, e segurava no alto com uma mão enquanto eu cortava o couro da axila com a outra. Não suava. Eu suava por nós dois.

— Brann.

— Hum.

— Por que a barriga? Por que você não bateu na cabeça primeiro?

Ele não respondeu logo. Cortou um tendão, puxou, cortou outro.

— Porque ele estava cheio — disse. — Bicho cheio é bicho pesado. E porque o velho ainda podia estar vivo lá dentro. — Ele limpou a faca na coxa. — Não estava. Mas podia.

Ficamos um tempo sem falar.

— Você aprendeu isso em algum lugar? A barriga? Que eles devolvem?

— Aprendi numa caçada de que eu não gosto de lembrar, num lugar que não existe mais. — Ele sorriu sem dente. — Que é onde a gente aprende tudo que presta, garoto.

Quando chegamos no peito, ele parou. Enfiou a mão inteira entre as costelas do bicho, até o cotovelo, e puxou uma coisa escura, do tamanho de dois punhos juntos, que ainda brilhava. Cortou a ponta com a faca. Um pedaço do tamanho de uma noz.

E estendeu para mim.

— O primeiro pedaço é de quem sangrou — disse ele.

Olhei para a mão dele. O pedaço estava quente, escuro, úmido. Pensei na conversa no escuro, na Garganta. Caçador vira outra coisa. O monstro entra pelo que se come. Pensei que era superstição de taverna. Pensei em Custódio, que tinha estado ali dentro, a um palmo daquilo.

— Não é obrigado — disse Brann. — Ninguém vai te chamar de nada. Mas eu comi o meu, aos dezesseis. E o meu pai, que era oleiro e covarde, dizia que quem come o que matou nunca mais esquece que matou. É para isso. Não é mágica. É para não esquecer.

Eu peguei. Pus na boca. Tinha gosto de ferro e de fumaça, e era mais macio do que eu esperava, e desceu quente.

Não aconteceu nada. Não senti nada. Só a cinza fria nos joelhos e a floresta acesa em volta, e Brann me olhando como quem espera um menino engolir remédio.

— Pronto — disse ele. — Agora você também deve a ele. Todo mundo que come deve.


Sila veio quando já estava escuro.

Tinha passado a tarde inteira na borda do leito, de pé, com o arco na mão, vigiando a névoa, e não tinha descido nem para o enterro. Desceu agora. Ficou do outro lado da carcaça, olhando eu tirar as últimas escamas do dorso à luz da floresta, e não disse nada por tanto tempo que eu pensei que ela não fosse dizer.

— Eu vi — disse ela, enfim. — Da borda. Quando o bicho largou você e virou para ela.

Eu não levantei a cabeça.

— Eu tinha uma flecha na corda — disse Sila. — Estava mirando no olho. Não atirei, porque você se jogou na frente, e eu ia te acertar. — Ela fez uma pausa. — Você estava com as costelas quebradas, sem espada, sem escudo. Rastejando.

— Eu sei como eu estava.

— Você não correu.

Levantei a cabeça. Ela estava me olhando, com aquela cara de sempre, com o queixo alto. Mas não havia nada de desafio nela, e eu não soube o que fazer com isso.

— Eu apostei em Varnhal que você era o primeiro a morrer — disse ela. — Continuo achando que é. Mas não vai ser correndo.

E subiu de volta para a borda sem esperar resposta.


Oskel voltou depois que a lua subiu.

Veio pela borda da floresta, do lado de onde a matilha tinha fugido, andando devagar, sem lança, com as mãos enormes penduradas ao lado do corpo como coisas que não eram dele. Parou na borda do acampamento, onde a luz do fogo morria, e ficou lá.

Ninguém se mexeu. A Cabo Marn se levantou da fogueira e foi até ele e, por um momento, eu achei que ela ia bater nele. Ela olhou para ele de cima a baixo, e depois olhou para a cova debaixo da árvore negra, com a lança quebrada fincada na cabeceira.

— A lança era sua — disse ela.

Oskel olhou para a cova. Não entendeu. Depois entendeu. Eu vi o rosto dele entender, na luz vermelha da floresta, e não foi uma coisa bonita de ver.

Veyra não se levantou. Estava sentada perto da maca de Nessa, com a lança-pistola no colo, limpando o cano. Não olhou para ele.

— Primeira guarda — disse ela. — Até de manhã. Sozinho não; com o Kaspar. — Uma pausa. — Amanhã você carrega a maca. Depois de amanhã, também. Até Última Luz. Sem trocar.

Oskel ficou parado. Depois disse "sim, senhora" com uma voz que não era a dele e foi para a borda, e ficou lá de costas para nós a noite inteira, e eu não sei se dormiu nas horas de folga. Acho que não.


Crane refez o meu curativo perto da meia-noite.

Tirou a tira de linho devagar, olhando os pontos, que estavam fechados e secos, sem pus, sem cheiro. Apertou a mão espalmada contra as minhas costelas, do lado quebrado. Esperei a dor. Veio. Mas veio menor. Muito menor. Uma dor de pancada de dois dias, não de osso quebrado de meio-dia.

Ele apertou de novo, em outro lugar. E em outro. Correu os dedos pelas costelas uma a uma, contando, como tinha contado no pescoço de Nessa.

— Respire fundo.

Respirei. Doeu. Mas o ar entrou até o fundo, o que de tarde não entrava.

Crane ficou quieto. Os óculos refletiam a floresta acesa, e eu não via os olhos dele atrás.

— Trincadas — disse, enfim, em voz alta, clara, de professor. — Duas trincadas, não quebradas. Eu me enganei. Estava escuro no leito, o senhor estava cheio de sangue, e o estalo que o senhor ouviu deve ter sido o escudo. Acontece. — Ele sorriu. — Os jovens têm sorte, Kest. Os ossos dos jovens dobram antes de quebrar.

Eu tinha ouvido o estalo. Dentro de mim, não no escudo. Não disse nada.

— Sorte — repeti.

— Sorte — disse ele.

E tirou o caderno do bolso, e escreveu. Não duas linhas. Uma página inteira, depressa, com a letra pequena, virando a folha e continuando do outro lado. Escreveu olhando para o papel dessa vez. Quando acabou, fechou o caderno, guardou, e me enfaixou de novo, com cuidado, com mais cuidado do que de tarde.

Depois foi para a maca de Nessa, olhou o emplastro da perna dela sem tocar, e foi dormir.

Pell estava acordado, deitado do outro lado do fogo, e tinha visto tudo. Quando olhei para ele, ele fechou os olhos depressa.


Fiquei acordado do lado da maca. Não por vigília. Porque não sabia fazer outra coisa.

Nessa respirava. Eu agora ouvia, colado nela, se prendesse o meu próprio fôlego: um fio de ar, fino, que entrava e saía. Pus a mão na testa dela de hora em hora. Quente. Mais quente. Depois quente demais, um calor seco, de pedra ao sol, e ela começou a se mexer, a virar a cabeça de um lado para o outro, a resmungar coisas sem forma.

Fervi o resto da barba-de-pedra na lata de Pell, com a mão boa, e dei a ela de colherzinha, como a minha mãe dava para mim. Metade escorreu pelo queixo. A outra metade, acho, desceu.

— Vai — eu disse para ela. — Vai, vai.

Não sei a quem eu estava pedindo.

Perto da madrugada, quando a floresta começava a apagar por dentro e o céu atrás das Coroas ficava daquele cinza que não é noite nem dia, ela começou a suar.

Não um suor de febre. Um suor de febre indo embora. Encharcou o cobertor, o casaco, o cabelo dela ficou colado na testa como o cabelo de quem saiu de um rio. E o calor foi descendo. Eu senti descer, com a mão na testa dela. Foi como sentir uma panela esfriar.

E ela abriu os olhos.

Não como tinha aberto na Porta, olhando através de mim para uma coisa que não estava lá. Abriu e olhou para mim. Para mim. Piscou. Franziu a testa.

— Você — disse ela. A voz saiu arranhada, fina, como papel velho. — Está horrível.

Eu não consegui dizer nada.

— Sério, Ilian. — Ela tentou levantar a cabeça e desistiu. — Parece que um bicho te mastigou.

— Um bicho me mastigou.

Ela ficou me olhando. Os olhos dela iam do meu rosto para o curativo no peito e voltavam, devagar, como quem lê uma página difícil.

— Ah — disse. — Então eu perdi alguma coisa.

— Perdeu.

— Anotou?

E eu ri. Não queria. Não era hora. Mas ri, e rir doeu nas costelas, e continuou doendo, e eu continuei rindo, e depois não era mais riso, e eu estava com a testa encostada na borda da maca, no cobertor encharcado dela, com os ombros sacudindo, e não conseguia parar, e não queria parar, e a mão dela, fraca, leve como uma folha, veio e pousou no meu cabelo e ficou lá.

— Tudo bem — disse ela. — Tudo bem. Eu estou aqui.

Não sei quanto tempo ficamos assim.

Depois ela disse:

— Ilian.

— Hum.

— Tem comida?


Tinha. Brasa acordou antes de eu terminar de chamar, como se estivesse esperando a noite inteira com uma orelha em pé, e em pouco tempo tinha uma tira de Great Jagras assando numa pedra quente, e um caldo ralo de osso fervendo, e reclamava baixinho que ninguém ali sabia cozinhar para doente, que doente precisa de sal e não tem sal, que doente precisa de gordura e o bicho era magro de tanto correr. Nessa comeu três colheres de caldo e um pedaço de carne do tamanho de um dedo. Depois disse que estava cheia e dormiu de novo, de boca aberta, respirando fundo, alto, como gente dorme.

Fui trocar o emplastro da perna dela. Crane dormia. Veyra também, sentada, com a lança-pistola no colo. Eu não quis acordar ninguém.

Desenrolei o pano devagar. A ferida estava melhor. A carne em volta dos pontos, que nos últimos dias tinha ficado vermelha e inchada e brilhante, estava cor-de-rosa, quase pele. O cheiro doce, o cheiro que eu tinha aprendido a temer, tinha ido embora.

E, debaixo da pele, em volta da ferida, havia linhas.

Finas. Finíssimas. Da cor de cinza fria, da cor do pó que Crane tinha dobrado num papel e posto naquele emplastro, cinco dias antes, no alto da Garganta. Saíam da ferida para os lados, ramificadas, como raízes, ou como as rachaduras de um prato velho, ou como as veias acesas das árvores do Cinzal. Mas não acesas. Apagadas.

Aproximei o rosto.

E elas sumiram.

Não de uma vez. Foram clareando, desde as pontas até a ferida, como a geada some de uma janela quando o sol bate, e em três respirações não havia mais nada. Só pele. A pele cor-de-rosa e boa da perna dela, e a ferida fechando.

Fiquei muito tempo olhando para o lugar onde elas tinham estado. Passei o dedo. Nada. Pele quente, lisa. Olhei para Crane dormindo do outro lado do fogo, com o caderno no peito, preso debaixo da mão.

Da próxima vez que você vir alguma coisa às três da manhã, você vem direto.

Enrolei o emplastro de novo. Com as mãos tremendo, mas enrolei. Me levantei, apoiado na borda da maca, e dei um passo na direção de Veyra.

Foi quando a Pena levantou a cabeça.

Não rosnou. Não gritou. Só levantou a cabeça, muito devagar, e ficou olhando para a floresta, para além da cova de Custódio, para além de Oskel e Kaspar de costas na guarda, para dentro das árvores negras, onde a luz das veias estava quase apagada.

Olhei para onde ela olhava.

Entre dois troncos, na altura de um homem sentado, havia dois olhos.

Não brilhavam como os olhos de bicho brilham quando pegam luz. Não havia luz para pegar. Eles brilhavam sozinhos, por dentro, cor de brasa, do jeito que as árvores brilhavam à noite. Não piscaram. Não se mexeram.

Ficaram ali, me olhando, enquanto a última veia da floresta apagava.

E, quando ela apagou, os olhos também apagaram, e eu não soube dizer se tinham ido embora, ou se ainda estavam lá, no escuro, olhando.

Entre para avaliar este capítulo.

Comentários (0)

Entre na sua conta para comentar e responder.

  • Seja o primeiro a comentar.

Digite pelo menos duas letras para buscar livros e capítulos.