Capítulo 27

Engolido

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Custódio Brás passou trinta e cinco anos numa mina de carvão, no escuro, debaixo da terra. Aprendeu a ler quando ela ia desabar. Tossia sangue desde antes de Varnhal e escondia no lenço. Tinha um filho doente numa vila cujo nome eu nunca soube perguntar, e o dinheiro da expedição já estava com a mulher dele.

Morreu no escuro de novo. Num escuro vivo, quente, que andava. E foi por minha causa.


A boca veio de cima.

Levantei o escudo. O que sobrava dele. Não pensei em levantar; o braço esquerdo, que não sentia nada, subiu sozinho, pendurado na alça de Dita, e a borda lascada ficou entre mim e os dentes.

Os dentes fecharam no escudo e em mim ao mesmo tempo.

Não senti dor na hora. Senti pressão. Uma pressão enorme, de todos os lados, como se a floresta inteira tivesse caído em cima do meu peito. Ouvi a madeira do escudo estalar e ouvi outra coisa estalar também, mais perto, mais dentro, um barulho seco, como graveto molhado quebrando debaixo da bota. E depois senti os pés saírem do chão.

Ele me levantou. Pela mordida. Com o escudo e o meu peito entre os dentes, como um cachorro levanta um pano. E sacudiu.

Uma vez, para um lado. O mundo virou uma mancha de cinza e tronco preto. Duas vezes, para o outro. Senti os dentes afundarem pela lateral do corpo, atravessando o couro do gibão, atravessando a camisa, entrando. Senti o gosto de sangue na boca e não soube se era meu.

A espada. Eu ainda tinha a espada na mão direita. Não sei como. Bati com ela. Na cara dele, no focinho, onde alcançava. Uma vez. A lâmina escorregou nas escamas como faca em pedra molhada. Duas vezes. Nada. Na terceira, ela pegou em alguma coisa mole, no canto da boca, e ele soltou um bufo quente na minha cara, cheirando a carniça, e sacudiu mais forte.

E me soltou.

Não soltou: jogou. Voei de novo. Bati num tronco negro de lado, com o lado mordido, e o tronco estava morno, e eu escorreguei por ele até a cinza e fiquei lá, dobrado, sem conseguir respirar outra vez, com o lado do corpo pegando fogo agora, e cada tentativa de puxar ar virando uma faca entrando entre as costelas.

O escudo ficou na boca dele. Ele cuspiu. Os pedaços caíram na cinza.

E virou para Nessa.


— EI!

Custódio.

Estava de pé. Não sei como estava de pé. O tranco do arrasto o tinha jogado de costas na cinza, e ele tinha sessenta anos, e tossia, e mal subia uma rampa sem parar três vezes. Mas estava de pé, entre o Great Jagras e Nessa, com a lança que Oskel tinha largado na mão. Segurava do jeito errado, do jeito de quem segura cabo de picareta, com as duas mãos juntas.

— EI, BICHO! AQUI!

Ele bateu a lança no focinho do Great Jagras. Não com a ponta. Com o cabo, de lado, como quem bate numa porta. Não fez nada. O bicho nem piscou.

Mas olhou para ele.

— Custódio. — Eu queria gritar. Saiu um sopro. — Custódio, não…

Ele não me ouviu. Ou ouviu e não virou. Estava de costas para mim, com os ombros magros dentro do casaco grande demais, com a lança levantada, e eu vi, pendurado para fora do bolso de trás dele, o lenço. O lenço branco com as manchas escuras que ele dobrava tão depressa para ninguém ver.

— Vai, rapaz — disse ele, sem se virar. A voz estava calma. A mesma voz da rampa, na Garganta, com a mão na parede. — Pega a moça e vai. Eu já fui pago.

— Custódio…

— Agora é só entregar.

O Great Jagras abriu a boca e engoliu ele.

Não mordeu. Não rasgou. Engoliu. Inteiro. De uma vez, como uma cobra engole um ovo, com a cabeça indo para a frente e a boca abrindo mais do que uma boca deveria abrir, a mandíbula se soltando dos lados, e Custódio, com a lança e o casaco grande demais e o lenço e tudo, entrou.

Eu vi as botas dele. Por último. As solas gastas, com um remendo de couro no calcanhar esquerdo.

Depois a boca fechou.


A garganta do bicho inchou. Vi o volume descer por ela, devagar, empurrado para baixo pelos músculos do pescoço, que se apertavam e soltavam, apertavam e soltavam, como um homem engolindo um pedaço grande demais de pão. Desceu pelo pescoço. Passou pelo peito. E chegou na barriga.

E a barriga começou a crescer.

Não sei explicar de outro jeito. Ela inchou. Como um odre enchendo de água. As escamas amarelas da barriga se afastaram umas das outras, esticadas, mostrando a pele mais clara por baixo, e a barriga foi ficando redonda, e pesada, e baixa, até quase encostar na cinza. O Great Jagras cambaleou. Sentou para trás, nas patas de trás, com aquela barriga enorme entre as pernas, como um bicho que comeu demais.

E alguma coisa dentro dela se mexeu.

Um volume. Empurrando a pele de dentro para fora. Um cotovelo, talvez. Um joelho. Uma mão. Empurrou uma vez, forte, do lado esquerdo. O couro esticado da barriga subiu no formato de uma coisa com dedos.

Empurrou de novo. Mais fraco.

Depois não empurrou mais.

Eu fiquei de joelhos na cinza, com a mão no lado do corpo, onde o sangue saía quente entre os dedos, olhando para aquela barriga parada, e alguma coisa dentro de mim também parou.


Foi a Pena que me fez voltar.

Ouvi antes de ver. O grito dela, o grito estridente, o grito de estábulo com os cabos gemendo, vindo do alto da borda do leito, do outro lado, de dentro da névoa. E depois o barulho de patas na cinza, rápidas, pesadas, descendo.

Ela saiu da névoa correndo. Sem arrasto: a última correia tinha se rompido em algum lugar. Com a crista eriçada até a ponta, com as asas curtas abertas, com o pescoço esticado para a frente. E com Brasa em pé na sela.

Em pé. Nas duas patas. Com o cutelo de cozinha na mão direita, aquele cutelo com que ele tinha corrido atrás de um rato que não existia no armazém de Varnhal. Com o pelo laranja todo arrepiado, fazendo ele parecer o dobro do tamanho. Gritando.

Não era palavra. Era um grito de gato, agudo, rasgado, de briga de telhado.

A Pena não parou. Veio direto para o Great Jagras, que ainda estava sentado, pesado, com a barriga cheia, virando a cabeça devagar para ver o que era aquilo. E, a três passos dele, a Pena, que tinha medo de tudo, que tinha derrubado três cavaleiros, que fugia de trovão, meteu as duas patas no chão, deu meia-volta com o corpo inteiro e chutou.

As garras das patas de trás pegaram no flanco dele, logo acima da barriga. Rasgaram três linhas vermelhas nas escamas.

E Brasa pulou.

Da sela, no meio do chute, com o cutelo no alto. Voou pelo ar como uma bola de pelo laranja em chamas e caiu na cabeça do Great Jagras, entre os olhos, agarrado na juba de escamas com uma pata e com as duas de trás. E enfiou o cutelo no olho esquerdo dele.

O bicho gritou.

Foi a primeira vez que o ouvi fazer barulho. Um guincho enorme, rouco, que subiu pela floresta e fez a cinza cair das árvores como neve. Sacudiu a cabeça. Brasa não soltou. Sacudiu de novo, e Brasa voou, girando no ar, e caiu na cinza a dez passos, rolou e ficou de pé, sem o cutelo, que tinha ficado no olho.

O Great Jagras tentou se levantar. A barriga cheia não deixou. Ele se ergueu nas patas da frente, pesado, cambaleando, com o sangue escorrendo do olho furado pela cara, e virou a cabeça para o lado bom, procurando. Procurando o que tinha feito aquilo.

Achou Nessa.

Ela estava ali. A cinco passos. Deitada de lado na cinza, com o cobertor enrolado nas pernas, com o meu casaco em volta dos ombros, sem se mexer.


Eu me arrastei.

Não levantei. Não dava. Cada vez que tentava pôr o peso nos pés, o lado do corpo explodia e o mundo ficava branco. Então me arrastei. De barriga, na cinza, com a mão direita, empurrando com os pés, deixando um rastro escuro atrás de mim. Cinco passos. Parecia a Garganta inteira.

Cheguei nela antes dele. Porque ele estava pesado. Porque ele via só de um lado. Porque, talvez, pela primeira vez naquele dia, a sorte olhou para o nosso lado.

Me joguei em cima dela. Com o corpo todo. Com o lado mordido, com as costelas quebradas, com a espada perdida em algum lugar atrás de mim. Cobri Nessa como a minha mãe me cobria quando trovejava, com o meu corpo entre ela e o céu.

Ela estava fria. Fria de um jeito que eu conhecia.

Senti a respiração quente do bicho na minha nuca. Senti o cheiro de carniça e de fumaça e, agora, por baixo, de outra coisa. De carvão. De mina. De Custódio.

Fechei os olhos.

— SAI DE CIMA DELES, SEU SACO DE TRIPA!


Brann.

Eu não vi ele chegar. Ninguém viu, eu soube depois. Vinha da retaguarda correndo pelo leito com o martelo nas duas mãos, sangrando do braço esquerdo, onde um Jagras tinha arrancado um pedaço do tamanho de uma mão, e com a barba vermelha de sangue que não era dele. Correndo. Um homem de cinquenta e um anos, bebedor, aposentado à força, com um martelo que três carregadores não levantam, correndo na cinza fofa como se fosse chão batido.

E não bateu na cabeça. Não bateu nas pernas. Bateu na barriga.

Ouvi o golpe com o corpo, deitado em cima de Nessa. Um estrondo surdo, fundo, como alguém batendo num tambor do tamanho de uma casa. A barriga inchada do Great Jagras afundou em volta da cabeça do martelo. O bicho inteiro se dobrou.

Brann levantou o martelo de novo. Por cima da cabeça. Os ombros dele se esticaram de um jeito que eu não achava que um ombro pudesse esticar.

E bateu outra vez.

E a barriga estourou.

Não sei se foi o martelo. Brann disse depois que não, que é assim com os Jagras grandes: se você bate na barriga cheia, eles devolvem o que comeram. Que é o corpo deles que faz isso, para poder fugir leve. Mas eu vi o couro esticado se rasgar debaixo do segundo golpe, de lado a lado, e vi o bicho abrir a boca e vomitar, um jorro quente, escuro, fedido, que caiu na cinza a três passos de mim.

E, no meio do jorro, Custódio.

Estava dobrado. Encolhido, como um homem dormindo de frio, como os mortos da trigésima primeira. Coberto de uma coisa brilhante e grossa. Com a lança ainda na mão, quebrada no meio. Com o casaco grande demais. Com o lenço.

Não se mexeu.

O Great Jagras, vazio, leve de novo, com o olho esquerdo furado e o cutelo de Brasa ainda cravado nele, com a barriga rasgada pingando, virou-se para fugir. Para a névoa. Para a floresta, que era dele.

Brann não deixou.

Não vi os golpes seguintes. Fechei os olhos. Ouvi. Ouvi o martelo subir e descer, subir e descer, na cabeça. Ouvi o bicho guinchar e depois parar de guinchar. Ouvi Brann gritando alguma coisa entre um golpe e outro, uma coisa que não era palavra, que era um rugido, de raiva ou de choro, não sei. Contei. Sete golpes. Depois do sétimo, o chão parou de tremer.

Depois só a respiração de Brann. Enorme, rasgada, como a de um cavalo que correu até arrebentar.


Quando abri os olhos, o Great Jagras estava deitado de lado no fundo do leito, com a cabeça afundada na cinza. Não tinha mais forma de cabeça. A juba de escamas ainda estava eriçada. A cauda se mexeu uma vez, sozinha, como se não soubesse.

Brann estava de pé do lado dele, apoiado no cabo do martelo, com a cabeça baixa. Sangrando do braço. Sangrando de um corte no couro cabeludo que eu não tinha visto antes, e que escorria pela testa e se misturava com o sangue do bicho na barba.

Lá atrás, na retaguarda, os guinchos tinham parado. Ouvi a voz de Veyra, gritando ordens. Ouvi a lança-pistola disparar mais uma vez, longe. Ouvi os passos de muitos Jagras na cinza, rápidos, indo embora, sumindo na névoa, cada vez mais longe, até não ouvir mais nada.

A matilha tinha ido. Sem o chefe, foi.

Na borda do leito, gente começou a aparecer na névoa. Sila primeiro, com uma flecha ainda na corda, apontada para o nada. Tami atrás dela, sem arco, com a mão tapando a boca. Mira Dace, com as duas lâminas pingando e o irmão apoiado no ombro, mancando. Dita, que parou na beira e não desceu, com os olhos na alça trançada, caída na cinza no meio dos pedaços do escudo. E Veyra, por último, com a lança-pistola fumegando nas mãos e o rosto preto de pólvora.

Ela olhou o bicho. Olhou Brann. Olhou Custódio. Tirou a luva da mão direita, devagar, dedo por dedo, e não disse nada. Depois olhou para mim, e para o corpo embaixo de mim, e foi a única vez que vi Veyra Holt dar um passo para trás.

Brann virou a cabeça e me olhou. Deitado em cima de Nessa, com a cara cheia de cinza e de sangue, com a mão no lado. Ele me olhou muito tempo. Depois olhou para Custódio, dobrado na cinza, no meio do que o bicho tinha devolvido.

Depois olhou para mim de novo.

E riu.

Não era o riso grande dele. Nem o curto. Era um riso que eu nunca tinha ouvido, rachado no meio, com alguma coisa por trás que não era riso nenhum. Os ombros dele sacudiram. A barba pingou.

— Primeira caçada — disse ele. A voz saiu rouca, arrebentada. — Todo mundo vomita.

Eu olhei para ele. Para Custódio. Para o lenço branco com as manchas escuras, que tinha saído do bolso e estava na cinza, aberto.

— Vomite, garoto — disse Brann, baixinho. — Vomite. Não tem vergonha.

Vomitei.

De joelhos, na cinza, do lado de Nessa, segurando o lado do corpo com as duas mãos, vomitei tudo. O caldo de Talioth da véspera. A água da fonte. O medo. Vomitei até não ter mais nada e continuar tentando, com o corpo se dobrando sozinho, com as costelas gritando a cada tranco, e Brann não disse nada, e ninguém disse nada, e Brasa chegou e ficou do meu lado, com as orelhas deitadas, e a Pena ficou atrás dele, com o pescoço baixo, trinando baixinho, como ela trinava no estábulo quando eu chegava.

Depois limpei a boca na manga. E me virei para Nessa.

Ela estava deitada de lado, como tinha caído. De olhos fechados. O rosto dela estava cinza. Não de cinza da floresta: cinza de pele. Os lábios, roxos de novo.

— Nessa.

Toquei o rosto dela. Estava frio.

— Nessa. Acabou. Nessa, acorda.

Não acordou. Encostei o ouvido no peito dela, como tinha encostado no gelo da fenda, e esperei. Esperei ouvir alguma coisa. Qualquer coisa. O coração dela. A respiração. Uma batida torta, lá do fundo do mundo. Qualquer coisa.

— Nessa. Por favor.

Ela não respondeu.

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