Capítulo 3

A Lista dos Mortos

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Meu pai tinha um círculo do lado do nome. Os outros tinham cruzes.

Levei um tempo para entender a diferença, e mais tempo ainda para entender por que ela importava. Quando entendi, já era tarde para ter raiva de quem eu queria ter raiva. Então tive raiva do círculo.


Gault não respondeu à minha pergunta naquela noite.

Ficou me olhando depois que eu perguntei quando fechava a lista, com o copo de barro parado a meio caminho da boca, e então fez uma coisa que eu não esperava: levantou-se, foi até a porta do escritório e a abriu.

— Vai dormir, Kest — disse ele. — Amanhã você fala com o escrivão. Isso não é assunto meu.

— Mas o senhor sabe...

— Eu sei um monte de coisa. Por isso bebo. — Ele segurou a porta aberta até eu sair. — Vai dormir.

Dormi na hospedaria barata do lado sul do desfiladeiro, num quarto que dividia com dois carroceiros que roncavam em turnos, como se tivessem combinado para que nunca houvesse silêncio. Não me importei. Passei a maior parte da noite acordado, olhando para as vigas do teto, com a plaqueta de ferro fria no peito e a carta do meu pai por baixo dela, e pensando naquela palavra que Gault tinha dito com a voz de quem cospe uma pedra.

Kharvaal.

Em quinze anos, eu nunca tinha ouvido ninguém dizer aquele nome em voz alta. Tinha lido, na letra apressada do meu pai, tantas vezes que as letras perderam o sentido e viraram só forma, como a espiral. Mas ouvir era diferente. Ouvir fazia o lugar existir fora do papel.

Em algum momento, perto do amanhecer, um dos carroceiros parou de roncar e o outro ainda não tinha começado. No meio desse silêncio curto, ouvi o rio lá embaixo, no fundo do desfiladeiro, batendo nas pedras, e contei as batidas sem querer, até dormir.


O escrivão se chamava Osmar e tinha a cara de quem nasceu sentado atrás de uma mesa.

Era magro, pálido, com óculos de aro fino e dedos manchados de tinta até o segundo nó. O escritório dele ficava nos fundos do posto, num cômodo comprido e sem janelas, iluminado por lamparinas, com prateleiras de livros de registro do chão ao teto. Cheirava a papel velho, cera e algo mais, uma coisa adocicada e parada que eu depois aprendi a reconhecer como o cheiro de lugares onde se guarda o que ninguém quer ler.

— Voluntário para a expedição especial — eu disse.

Osmar levantou os olhos devagar, por cima dos óculos, e me mediu dos pés à cabeça. Demorou especialmente no escudo do Tadeu e no galo roxo que eu tinha na testa.

— Rank?

Mostrei a plaqueta. Ele suspirou, um suspiro comprido e resignado de funcionário, e puxou de uma gaveta um formulário de papel grosso, idêntico ao do cartaz lá fora.

— Pagamento triplo, adiantado em um terço. O restante, a família recebe no retorno. — Ele molhou a pena. — Ou em caso de morte confirmada.

— E se a morte não for confirmada?

A pena parou.

— Como?

— O senhor disse morte confirmada. E se não for?

Osmar me olhou por mais tempo do que da primeira vez. Depois, sem dizer nada, fez um gesto com a cabeça para o fundo do cômodo, onde a luz das lamparinas mal chegava.

— Antes de assinar, todo voluntário tem que ver o Muro — disse ele. — É regra. Ninguém lê, mas é regra.


O Muro era uma parede inteira de madeira escura, no fim do cômodo, coberta por placas pequenas de latão pregadas em fileiras. Cada placa tinha um nome gravado. Em cima de cada coluna havia um número entalhado na própria madeira, fundo, com as bordas escurecidas pelo tempo e pelas mãos.

5ª. 7ª. 10ª. 14ª.

Eram os anos em que algum caçador registrado em Três Pontes tinha ido para Kharvaal.

— Nem toda expedição levou gente daqui — disse Osmar atrás de mim, sem se aproximar. — Três Pontes é posto pequeno. Mas, quando levava, o nome vem para cá.

Fui passando os olhos pelas colunas. Os números eram mais espaçados no começo e mais próximos no fim, como se a Guilda tivesse ficado com pressa. Ao lado de cada nome havia uma pequena marca gravada no latão. Quase todas eram cruzes. Algumas eram um traço reto, que eu imaginei que fosse retornou. Eram poucas. Muito poucas.

E algumas, espalhadas, eram círculos.

— O que é o círculo?

Osmar demorou para responder.

— Perdido.

— Perdido e morto não é a mesma coisa?

— Para você, talvez. — Ele ajeitou os óculos. — Para a Guilda, não. Morto é quando tem corpo, ou testemunha, ou uma parte suficiente do corpo, ou uma testemunha suficientemente confiável. Perdido é quando não tem nada. A pessoa entrou e não saiu. Ninguém viu morrer. Ninguém trouxe de volta.

Eu não estava mais ouvindo direito. Tinha chegado à coluna da 27ª.

Eram quatro placas. Quatro caçadores de Três Pontes naquele ano. Três tinham cruzes.

A quarta dizia DORAN KEST — PEDRAVENTO, e ao lado havia um círculo.


Não sei quanto tempo fiquei ali parado.

Lembro de ter levantado a mão e tocado a placa, e de o latão estar frio, e de a gravação do nome ser rasa, feita às pressas, com o K um pouco torto, como se quem a gravou tivesse outras dez placas para fazer naquele dia. Lembro de pensar que era a primeira vez que eu via o nome do meu pai escrito por outra pessoa. Na carta, era só D. Na boca da minha mãe, era ele, ou teu pai, ou, nas noites ruins, nada, só um silêncio com o formato dele.

Ali, no latão, ele tinha nome e sobrenome e uma vila. E um círculo.

— Perdido — eu disse, e minha voz ecoou estranha no cômodo comprido.

— Perdido — repetiu Osmar.

— E o pagamento? — Me virei para ele. — Para os perdidos. O pagamento da família.

Osmar tirou os óculos, limpou as lentes na manga, colocou de volta. Era o gesto de quem já tinha dado aquela resposta antes, muitas vezes, e nunca tinha conseguido se acostumar com ela.

— A família de um perdido recebe o adiantamento. O terço. O restante só é pago mediante confirmação de óbito.

— E quem confirma?

— A Guilda. Mediante corpo, ou testemunha, ou...

— Uma parte suficiente do corpo — completei. — Eu ouvi.

Ele não disse nada.

Pensei na minha mãe. Pensei nos invernos em que ela fazia a sopa render para três dias, nos casacos que eu herdava de filhos de vizinhos, na lã que ela fiava até tarde, com os dedos rachados de frio, para vender em Três Pontes por quase nada. Pensei nas vezes em que ela voltava da cidade com a cara fechada e não dizia de onde vinha. Eu achava que era do mercado.

Agora eu sabia que era dali. Daquele cômodo. Daquela mesa.

— Ela vinha aqui — eu disse. — Minha mãe. Ela vinha aqui perguntar.

Osmar olhou para o livro aberto na frente dele e não para mim.

— Liora Kest — disse ele, baixinho. — Todo fim de verão. Por doze anos.

Senti uma coisa subir pela garganta e não deixei que saísse. Engoli. Doeu.

— E o senhor dizia o quê?

— O que eu estou dizendo para você. — Ele fechou o livro. — Que não é comigo.


— Então com quem é?

Osmar suspirou. Levantou-se, pela primeira vez desde que eu tinha entrado, e foi até uma prateleira alta perto do Muro. Subiu num banquinho de madeira com a dificuldade de quem não subia em nada havia anos, e puxou lá de cima uma caixa de madeira escura, não muito diferente da caixa que minha mãe guardava embaixo da cama.

Pousou-a na mesa entre nós. Tinha na tampa um número pintado: 27.

E um selo.

Era um lacre de cera cinza, grosso, apertado contra a borda da tampa e a lateral da caixa, de modo que não dava para abrir sem rompê-lo. A cera estava velha, rachada em alguns pontos, mas inteira. No centro, havia um desenho em relevo que eu não reconheci: um círculo com alguma coisa dentro, gasta demais para ler.

— Relatórios de campo, cartas, listas de equipamento, tudo o que a Guilda recebeu da 27ª — disse Osmar. — Tudo o que foi mandado de volta antes de eles entrarem. E o que veio depois, se veio alguma coisa. Eu não sei. Nunca abri.

— Então abre.

— Não posso. — Ele encostou o dedo manchado de tinta no lacre, com cuidado, como se ele queimasse. — Isso não é selo de posto. Não é nem selo da Guilda regional. Isso veio de cima. Chegou numa carroça, há dezesseis anos, com uma ordem escrita dizendo que todos os registros da 27ª, em todos os postos, deviam ser lacrados e guardados. Não destruídos. Guardados. E que só podiam ser abertos por ordem da mesma autoridade.

— Que autoridade?

— A ordem não dizia. — Ele deu de ombros, um gesto miúdo. — Vinha com esse selo. E, quando algo vem com esse selo, a gente não pergunta. A gente guarda.

Fiquei olhando para a cera cinza.

Pensei, por um segundo, em simplesmente arrancar o lacre. Estava ali, a um palmo da minha mão. Osmar era magro e velho, e não teria me impedido. Mas Gault estava em algum lugar do posto, e havia guardas na porta, e eu tinha a sensação, vaga, mas firme, de que, se rompesse aquele selo ali, nunca chegaria a Kharvaal. Chegaria no máximo ao chiqueiro.

— Se eu for — perguntei devagar —, se eu for para Kharvaal e achar alguma coisa... uma testemunha, uma parte suficiente... isso muda o círculo?

Osmar me olhou com uma expressão que eu não soube ler direito. Talvez fosse pena. Talvez fosse outra coisa, mais velha e mais cansada.

— Rapaz — disse ele. — Em trinta anos neste cômodo, eu nunca vi um círculo virar cruz.

— E virar traço?

Ele não respondeu. Pegou a caixa com as duas mãos e subiu no banquinho de novo, gemendo, e a guardou no alto da prateleira, onde a luz das lamparinas mal alcançava.


Voltei para a mesa. O formulário continuava lá, com a pena do lado.

Não assinei logo. Fiquei sentado, olhando para o papel, lendo as linhas sem ler. Expedição especial. Setor norte. Duração indeterminada. O voluntário declara estar ciente dos riscos. O voluntário renuncia a... Eram muitas renúncias. Parei de ler na quarta.

A porta do cômodo se abriu atrás de mim, e alguém entrou quase correndo.

— Ainda tem vaga?

Era a Tami. Estava sem fôlego, com o arco enorme batendo nas costas, o cabelo preso de qualquer jeito e as bochechas vermelhas de quem tinha subido a ponte de madeira em disparada. Quando me viu, sorriu. O mesmo sorriso da véspera, o de quem está numa festa.

— Kest! Você também?

— Eu ainda não assinei.

— Eu vou assinar. — Ela se debruçou na mesa de Osmar, ofegante. — É o triplo, né? Adiantado?

— Um terço adiantado — disse Osmar.

— Um terço do triplo é mais que o barco do meu pai rende em dois anos. — Ela riu, uma risada curta e nervosa, e depois ficou séria de repente. — A gente deve o barco. Se não pagar até o inverno, eles tomam. Meu pai tem seis filhos. Eu sou a mais velha.

Disse isso para mim, não para Osmar. Como se precisasse que alguém soubesse.

— Você sabe para onde é? — perguntei.

— Norte. — Ela deu de ombros. — O cartaz diz norte.

— Kharvaal.

Tami franziu a testa.

— Nunca ouvi falar.

— Nem eu — disse uma voz na porta —, e olha que meu pai conhece todo mundo.

Aurélio Vant estava encostado no batente, de braços cruzados, já sem a armadura azul, com roupa de viagem e uma capa de lã boa, forrada. Atrás dele, pela porta aberta do posto, dava para ver uma carruagem parada na rua, com dois cavalos, um cocheiro e um brasão pintado na portinhola.

— Vim me despedir — disse ele, sorrindo. — Meu pai conseguiu um posto para mim na capital. Escolta de caravanas. Nada de bosque, nada de Kulu, nada de ovo quebrado na cabeça.

— Que bom para você — respondi.

— É, é bom mesmo. — Ele olhou para o formulário na minha frente, depois para Tami, depois para mim de novo. O sorriso ficou um pouco mais fino. — Eu ouvi falar do cartaz pequeno, Kest. Meu pai ouviu também. Sabe o que ele disse?

Não respondi.

— Disse que a Guilda manda gente para lá do mesmo jeito que a gente joga resto de comida pros porcos. Não é para alimentar os porcos. É só para não sobrar resto. — Ele deu duas batidinhas no batente. — Mandem lembranças aos mortos.

E foi embora. Ouvi os passos dele no corredor, depois a portinhola da carruagem batendo e o estalo do chicote do cocheiro. Os cavalos saíram a trote, as rodas bateram nas pedras da rua, e depois o barulho sumiu na ponte de pedra, a larga, a que ninguém tem medo de atravessar.

Tami ficou olhando para a porta vazia.

— Que coisa horrível de se dizer — murmurou.

— É — concordei. — O pior é que ele não está errado.

Ela me olhou. Achei que fosse desistir. Achei, e acho que uma parte de mim torceu para isso, que ela fosse pegar o arco e voltar para a aldeia de pescadores, para o pai e para os seis irmãos, e arranjar outro jeito de pagar o barco.

Em vez disso, Tami puxou o formulário dela da mão de Osmar e pediu a pena emprestada.

— Não sei ler direito — disse ela, meio envergonhada. — Onde eu assino?

Osmar mostrou. Ela desenhou o nome devagar, letra por letra, com a língua entre os dentes, como uma criança. Depois me passou a pena.


Olhei para o papel.

Pensei na carta do meu pai, junto do peito. Se um dia chamarem nosso filho para Kharvaal, não deixe ele ir. Pensei na minha mãe, subindo e descendo aquela estrada todo fim de verão durante doze anos, para ouvir de um homem magro atrás de uma mesa que não era com ele. Pensei no círculo no latão frio. Na caixa lá no alto, com o lacre de cera cinza. Na Teimosa, gelada por dentro, na grama branca.

Ninguém tinha me chamado. Era verdade. Mas ninguém tinha chamado minha mãe também, e mesmo assim ela vinha.

Molhei a pena e assinei.

Ilian Kest. Pedravento.

Minha letra saiu torta, apertada, com o K inclinado demais para a direita. Nunca fui bom de letra. A professora da vila dizia que eu escrevia como quem está com pressa de ir embora.

Osmar pegou o papel, soprou a tinta e o guardou numa pasta junto com o de Tami. Depois disse, com a voz de funcionário, que a caravana dos voluntários sairia de Três Pontes em cinco dias, rumo ao Posto Varnhal, no norte, onde a expedição seria reunida. Que devíamos levar roupa de frio. Que o adiantamento seria pago na partida. Que a Guilda agradecia a nossa coragem.

Disse tudo isso sem olhar para nenhum de nós.

Tami saiu primeiro, quase saltitando, dizendo que ia mandar uma carta para o pai naquele mesmo dia, que ia pedir para a vizinha ler para ele, que ele não ia acreditar. Eu fui atrás, mais devagar, com o escudo do Tadeu nas costas.

Na porta do escritório, dei de cara com Gault.

Ele estava encostado na parede do corredor, do lado de fora, onde não dava para ser visto de dentro. Não sei havia quanto tempo estava ali. Tinha um cachimbo apagado entre os dentes e a mão de dois dedos a menos enfiada no bolso do colete.

Não disse nada. Nem eu.

Então ele estendeu a outra mão, e eu entendi, sem saber como, que ele queria ver o papel. Voltei até a mesa de Osmar, que me olhou espantado, peguei a pasta, tirei o formulário de cima e o levei até a porta. Gault o segurou contra a luz fraca do corredor e ficou olhando para a assinatura por muito tempo.

Depois me devolveu o papel e tirou o cachimbo da boca.

— A mesma mão torta — disse ele.

E foi embora, mancando da perna esquerda, antes que eu conseguisse abrir a boca para perguntar de quem.

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