Capítulo 2

A Prova

17 min de leitura1 leitura

A primeira coisa que o examinador me perguntou foi se eu tinha alguém para quem mandar o corpo.

— Como? — eu disse.

— O corpo. — Ele não levantou os olhos do livro onde anotava nomes. — Se você morrer lá dentro, a Guilda manda o que sobrar para a família. Se não tiver família, a gente enterra aqui atrás, perto do chiqueiro. Não é ruim. Tem sombra.

Olhei por cima do ombro dele, pela janela aberta do posto. Atrás do prédio havia mesmo um chiqueiro, e ao lado dele um pedaço de terra remexida com três ou quatro estacas de madeira, sem nome.

— Pedravento — respondi. — Manda para a Maren, em Pedravento. Ela vai reclamar, mas aceita.

Ele escreveu. Tinha uma letra pequena e feia, e faltavam dois dedos na mão que segurava a pena, o anelar e o mínimo, cortados rente como se alguém tivesse passado uma faca sem pressa.

— Nome?

— Ilian Kest.

A pena parou no ar por um instante. Tão curto que, se eu não tivesse passado a vida inteira reparando em coisas pequenas, não teria visto. Depois voltou a correr no papel.

— Arma?

— Espada e escudo.

Aí ele levantou os olhos. Olhou para a minha espada, que eu tinha comprado de um mascate aos catorze anos com o dinheiro de dois invernos de lã, e que tinha mais ferrugem do que fio. Depois para o escudo nas minhas costas, redondo, de madeira reforçada com tiras de ferro, pesado como uma porta.

— Esse escudo é mais velho que você.

— É mais velho que o senhor, eu acho.

Ele quase sorriu. Quase. Depois apontou com o toco de dedo para um banco encostado na parede, onde outros onze jovens esperavam sentados, e voltou ao livro.


O escudo tinha sido do marido da Maren.

Eu nunca conheci o homem. Chamava-se Tadeu, e tinha morrido muito antes de eu nascer, numa época em que Pedravento ainda mandava gente para as caçadas da Guilda. Na cozinha dela havia um prego na parede, e no prego ficava pendurado aquele escudo, coberto de poeira e de fuligem, e eu tinha crescido achando que ele era parte da casa, como o fogão ou a mesa.

Na manhã em que saí para Três Pontes, dois dias depois de encontrar a Teimosa, o escudo estava encostado na minha porta.

Não havia bilhete. A Maren não escrevia bilhetes. Eu fiquei um tempo parado, olhando para aquilo, sem saber se devia bater na porta dela para agradecer ou para devolver. No fim, não fiz nenhuma das duas coisas. Coloquei o escudo nas costas, a espada na cintura, e desci a estrada.

Quando passei pela casa dela, ela estava sentada no degrau com o cachimbo, olhando para o outro lado.

— Se é para ser burro — disse ela, sem virar a cabeça —, que seja burro com escudo.

— Obrigado, Maren.

— Não agradeça. Traz de volta.

Eu disse que traria. Ela não respondeu. Quando olhei para trás, na primeira curva da estrada, ela ainda estava lá, olhando para o outro lado.


Três Pontes fica a um dia e meio de caminhada de Pedravento, descendo, onde as encostas se transformam num vale estreito cortado por um rio furioso. A cidade inteira foi construída nas duas margens de um desfiladeiro, e as duas metades são ligadas, como o nome promete, por três pontes. Uma de pedra, velha e larga. Uma de madeira, que balança. E uma de corda, que ninguém em juízo perfeito atravessa, mas que os meninos da cidade usam para se exibir.

O posto da Guilda ficava do outro lado.

Atravessei pela de pedra, andando exatamente no meio, contando os passos em voz alta, sem olhar para a direita nem para a esquerda. Uma velha que vendia peixe seco na cabeceira da ponte ficou me olhando com pena. Eu não liguei. Cheguei do outro lado inteiro, e isso me pareceu uma vitória suficiente para o dia.

As paredes do posto estavam cobertas de cartazes. A maioria era sobre a prova: CAÇADORES — EXAME DE ADMISSÃO — FIM DO VERÃO, com o selo da Guilda embaixo. Alguns eram pedidos de caça: um Great Jagras rondando os currais de uma fazenda do sul, um Kulu-Ya-Ku roubando ovos no bosque perto da cidade. E, no canto, meio escondido embaixo dos outros, havia um cartaz menor, de papel mais grosso, com letras mais sérias.

EXPEDIÇÃO ESPECIAL AO NORTE. VOLUNTÁRIOS. PAGAMENTO TRIPLO. CONSULTAR O ESCRIVÃO.

Só isso. Nenhum nome de lugar. Nenhuma data.

Fiquei olhando para aquele papel mais tempo do que para qualquer outro. Depois alguém atrás de mim limpou a garganta, alto, e eu entrei.


Éramos doze no banco.

A maioria tinha a minha idade, alguns menos. Havia dois irmãos grandalhões de uma vila de lenhadores, com machados que não eram armas de caça e que o examinador mandou trocar por lanças do arsenal. Havia uma menina magra e morena de uma aldeia de pescadores do leste, chamada Tami, que carregava um arco quase do tamanho dela e sorria para todo mundo como se estivéssemos numa festa. E havia o Aurélio.

Aurélio Vant era filho de alguém importante. Dava para saber sem que ele dissesse, mas ele disse, três vezes, antes do meio-dia. Tinha uma armadura de couro de Jagras novinha, tingida de azul, com fivelas de latão polido, e uma espada longa que nunca tinha cortado nada mais duro que ar. Quando me viu com o escudo do Tadeu, riu alto.

— Você veio fazer a prova ou carregar a porta de casa?

Alguns riram junto. A Tami não. Eu também não.

— Vim fazer a prova — respondi. — Mas, se precisar, eu carrego você também. Tenho prática com bicho pesado.

Tami engasgou com uma risada. Aurélio ficou vermelho, e eu soube naquele momento que tinha feito o primeiro inimigo da minha carreira de caçador antes mesmo de ela começar. Minha mãe teria ficado orgulhosa e furiosa ao mesmo tempo.

O examinador saiu do escritório pouco depois. Chamava-se Gault. Era baixo, largo, com uma barba grisalha cortada rente e uma cicatriz que descia da orelha até a gola da camisa. Andava mancando da perna esquerda, mas de um jeito que dava a impressão de que, se precisasse, correria mais que todos nós.

— A prova é simples — disse ele, parando na nossa frente. — Tem um Kulu-Ya-Ku no Bosque das Faias, a leste da cidade. Ele está roubando ovos de um criadouro de Aptonoth, e o dono está cansado de pagar ovo para bicho. Vocês vão entrar no bosque, achar o bicho e fazer ele entender que ali não é lugar dele.

— Matar? — perguntou um dos lenhadores.

— Se conseguirem matar um Kulu com isso que vocês trouxeram, eu pago a bebida. — Gault olhou para as nossas armas com um desprezo quase carinhoso. — Não. Repelir. Espantar. Fazer ele fugir tão assustado que nunca mais volte. E me trazer uma pena da cauda como prova. Uma pena arrancada, não achada no chão. Eu sei a diferença.

Ele entregou a cada um de nós um saquinho de couro. Dentro havia uma poção, num frasco de vidro verde, uma pedra de amolar e uma bomba de luz, pequena e redonda como uma noz.

— A poção é para não morrerem. A pedra é para não passarem vergonha. A bomba é para quando as duas primeiras não bastarem. — Olhou para o céu. — Vocês têm até o sol tocar o morro. Quem não voltar até lá, a gente vai buscar amanhã. Ou manda buscar.

Ninguém perguntou mandar buscar para onde. Todos nós tínhamos visto o chiqueiro.


Os outros entraram no bosque correndo.

Eu entendo por quê. Era a prova, e a primeira pena valia alguma coisa, todo mundo sabia disso sem que ninguém tivesse dito. Os lenhadores foram juntos, batendo nos arbustos com as lanças. Aurélio foi sozinho, com a espada longa em riste, como um cavaleiro de gravura. Tami subiu numa árvore, com uma agilidade que me deu vertigem só de olhar, e sumiu entre os galhos.

Eu fui para o criadouro de Aptonoth.

Ficava na borda do bosque, uma cerca de troncos em volta de um terreno de terra batida, com dezenas de ninhos rasos cavados no chão. O dono, um homem gordo e desconfiado, me olhou como se eu também tivesse vindo roubar ovo.

— O bosque é pra lá — disse ele.

— Eu sei. Quero ver por onde ele entra.

Rodei a cerca inteira devagar. Não demorou para achar. Num canto, onde a cerca encostava num barranco, os troncos estavam arranhados por dentro e por fora, marcas finas e paralelas, de três garras. A terra embaixo estava remexida, com pedaços de casca de ovo esmagados, e havia pegadas: três dedos compridos para a frente, um curto para trás. Andava em duas pernas, com passos curtos e rápidos, e o peso caía todo na frente.

— Você não come aqui — eu murmurei, me agachando. — Você tem medo de comer aqui. Pega e leva.

As pegadas seguiam barranco acima. Eram fundas na ida, porque ele carregava peso, e mais rasas na volta. E, entre elas, de tempos em tempos, uma marca diferente. Um sulco comprido e arredondado, como se alguma coisa pesada tivesse sido arrastada e depois levantada de novo.

Fiquei um tempo olhando aquilo. Depois lembrei de uma história que o Bento contava, sobre um Kulu-Ya-Ku que tinha aparecido em Pedravento quando ele era menino e que tinha quebrado a porta do moinho com uma pedra.

— Você carrega pedra — eu disse. — Seu desgraçado esperto. Você carrega pedra para se defender.

O dono do criadouro me olhava de longe, com a cara de quem assiste a um louco.

Segui a trilha.


Não vou fingir que fui rápido. Não fui. Os outros tinham corrido, e eu fui devagar, parando a cada dez passos para ler o chão. Mas a trilha me levou por um caminho que ninguém mais estava fazendo, e foi assim que, no meio da tarde, enquanto ouvia ao longe os lenhadores gritando um com o outro e o Aurélio xingando uma raiz, eu cheguei primeiro.

O Kulu-Ya-Ku estava numa clareira pequena, perto de um riacho, sentado sobre as patas traseiras como um velho num banco de praça. Era menor do que eu imaginava: do tamanho de dois homens, talvez, com um corpo de pássaro sem asas, penas cor de areia e rosa, e um bico comprido e curvo. Estava comendo. Segurava um ovo de Aptonoth entre as garras dianteiras, finas e ágeis como dedos, e bicava a casca com uma delicadeza que me pareceu quase humana.

Ao lado dele, no chão, havia uma pedra do tamanho de um barril.

Fiquei escondido atrás de uma faia e olhei. Por muito tempo, só olhei. Ele comia de um jeito nervoso, levantando a cabeça a cada bocada, girando os olhos pequenos e amarelos para todos os lados. As penas da nuca eriçavam e baixavam, eriçavam e baixavam. Tinha medo. Comia roubado e sabia disso.

Era o jeito de um Aptonoth assustado, só que com mais dentes.

— Tudo bem — eu disse baixinho para mim mesmo, e soltei a espada da bainha. — Tudo bem. É só um pássaro grande. É um pássaro grande com uma pedra. Você já viu pássaro. Você já viu pedra.

Respirei fundo e saí de trás da árvore.


A primeira coisa que aprendi sobre combate é que tudo o que você planeja dura mais ou menos um segundo.

Meu plano era me aproximar pelo lado, com o escudo na frente, e acertar um golpe na perna antes que ele percebesse. Não era um plano ruim. Durou exatamente até eu pisar num galho seco.

O Kulu-Ya-Ku virou a cabeça para mim com um estalo. Largou o ovo. E, antes que eu pudesse dar mais um passo, agarrou a pedra com as duas garras e a levantou na frente do peito, como um escudo muito maior que o meu.

Ficamos nos olhando. Eu com o escudo do Tadeu. Ele com a pedra dele.

— Isso não é justo — eu disse.

Ele gritou. Um grito agudo, rasgado, que parecia uma risada de gente ruim. E veio para cima.

A pedra me acertou no escudo com um barulho de sino rachado. Senti o impacto subir pelo braço, pelo ombro, e bater nos dentes. Voei para trás. Não caí, mas cambaleei três passos e bati as costas numa árvore, e o mundo ficou branco por um instante.

Quando voltou, o Kulu estava levantando a pedra de novo.

Rolei para o lado. A pedra acertou a árvore onde minha cabeça estava, e a casca explodiu em lascas. Me levantei, tropeçando no escudo, e tentei um golpe. A espada, que tinha mais ferrugem do que fio, bateu na pedra e voltou tremendo na minha mão como um bicho vivo. O Kulu nem se mexeu.

Tentei de novo. E de novo. Estava fazendo tudo errado e sabia disso. Levantava a espada alto demais, deixava o escudo cair, errava o pé. O escudo do Tadeu pesava como uma porta, e cada vez que eu o erguia, meu braço reclamava mais. Na terceira tentativa, o Kulu soltou a pedra com uma das mãos e me deu um tapa com a garra livre, de lado, quase preguiçoso. Me derrubou de cara no riacho.

Ele gritou de novo, aquela risada.

Fiquei ali um tempo, com a água gelada entrando pela gola da camisa e a boca cheia de lama, e pensei com muita clareza: eu vou ser enterrado do lado de um chiqueiro.

Depois pensei na Teimosa. Não na Teimosa morta. Na Teimosa viva, anos antes, filhote ainda, quando fugiu pela primeira vez da cerca da Maren e eu levei a tarde toda para trazê-la de volta. Eu não tinha conseguido arrastá-la. Aptonoth não se arrasta. Aptonoth se conduz: você fica do lado certo, faz o barulho certo, deixa o bicho acreditar que a ideia foi dele.

Me levantei devagar, pingando.

O Kulu-Ya-Ku tinha voltado para o ovo. Estava agachado, com a pedra de novo no chão, ao lado, e bicava a casca como se eu nem existisse. Olhou para mim uma vez, de lado, e continuou comendo.

Ele não tinha medo de mim. Tinha medo de perder o ovo.

— Tá bom — eu disse. — Tá bom. Então vamos fazer do jeito de pastor.

Guardei a espada. Soltei o escudo das costas e o segurei com as duas mãos, pela borda, como uma tampa de panela gigante. E comecei a bater nele com o punho, forte, ritmado, enquanto andava em volta da clareira.

Bum. Bum. Bum.

O Kulu levantou a cabeça. Eu continuei andando, batendo, não na direção dele, mas em volta, fechando o círculo pelo lado do criadouro, do jeito que se fecha a passagem de um rebanho. Ele agarrou o ovo e se levantou, nervoso, girando para acompanhar o barulho. Eu gritei. Não um grito de guerra, mas um grito de pastor, aquele êêêêêê-ooooô comprido que a gente usa nas encostas para juntar Aptonoth na neblina. Ecoou na clareira inteira.

O Kulu recuou um passo. Largou a pedra para segurar o ovo com as duas garras.

Era o que eu queria.

Corri. Não para ele, mas para a pedra. Cheguei primeiro e me joguei em cima dela com o escudo, empurrando-a com o ombro, e ela rolou pesada pela margem e caiu no riacho com um barulho enorme.

O Kulu-Ya-Ku olhou para a pedra na água. Olhou para mim. Pela primeira vez, vi medo de verdade naqueles olhos amarelos.

Bati o escudo mais uma vez e gritei.

Ele fugiu. Ou quase. Tentou fugir com o ovo no peito, correndo desajeitado em duas pernas, e eu fui atrás, porque de repente não pensava mais em nada, e pulei, e agarrei a primeira coisa que minha mão encontrou, que foi o rabo dele. Ele gritou, girou e me acertou com o ovo na testa.

O ovo quebrou. Eu caí de novo. Ele sumiu entre as faias, gritando como uma chaleira, e eu fiquei deitado de costas no chão da clareira, coberto de gema, lama e água de riacho, com a cabeça latejando e o braço do escudo tremendo sem parar.

E com três penas cor-de-rosa fechadas no punho.

Ri. Não consegui evitar. Ri até doer a barriga, deitado ali, olhando as copas das faias contra o céu, até que ouvi passos e uma voz em cima de mim:

— Você está rindo de quê?

Era o Aurélio. Tinha folhas no cabelo, a armadura azul arranhada e um corte na bochecha que parecia ter vindo de um espinheiro. Estava ofegante e furioso.

— Ele foi por ali — respondi, apontando com as penas. — Se correr, você pega o resto do rabo.

Ele não correu. Ficou me olhando com uma cara que eu não soube ler direito. Depois cuspiu no chão, do lado da minha cabeça, e foi embora na direção contrária.

— Você é nojento, Kest — disse ele, por cima do ombro.

— Eu sei — respondi para as árvores. — Mas eu tenho as penas.


Gault estava sentado num galho, uns vinte passos acima da clareira.

Só percebi quando ele desceu, bem devagar, com a perna manca e tudo, escorregando pelo tronco da faia com uma facilidade que não combinava com a idade dele. Pousou no chão sem barulho nenhum. Eu me sentei depressa, e a cabeça girou.

— Desde quando o senhor estava aí?

— Desde o galho. — Ele se agachou do meu lado e pegou as penas da minha mão. Examinou uma por uma contra a luz. — Arrancadas. Bom.

— Então eu passei?

Ele não respondeu logo. Ficou olhando para as penas, depois para a pedra dentro do riacho, depois para mim. Quando falou, foi devagar, como se estivesse lendo um relatório.

— Rastreio: o melhor que eu vi em cinco anos de prova. Você achou o bicho uma hora antes de todo mundo e chegou pelo único lado em que ele não estava olhando. Leu a pedra antes de ver a pedra. — Ele fez uma pausa. — Combate: eu já vi Aptonoth lutar melhor.

— Isso é um sim?

— Isso é um quase. — Ele se levantou, gemendo um pouco por causa do joelho. — Mas esse truque do escudo... de onde você tirou isso?

— De Pedravento. É assim que a gente junta rebanho na neblina.

Gault me olhou por um bom tempo. Depois soltou uma coisa que, com muito boa vontade, dava para chamar de risada.

— Juntar rebanho — disse ele. — Um Kulu-Ya-Ku. Juntar rebanho.

E foi embora, balançando a cabeça, na direção da cidade. Eu me levantei e fui atrás, com o escudo do Tadeu nas costas, pesado como uma porta. Pela primeira vez, não me pareceu tão pesado assim.


Dos doze, passaram cinco.

Tami voltou com duas penas e um sorriso ainda maior. Tinha acertado o Kulu com uma flecha depois que ele fugiu de mim, e juntos, de certo jeito, tínhamos feito a prova inteira. Um dos lenhadores passou. O outro quebrou o pé numa toca e foi levado de volta numa maca, xingando o irmão. Aurélio passou também, embora ninguém tivesse visto ele trazer pena nenhuma, e eu soube depois que o pai dele tinha mandado uma carta para o posto uma semana antes. Não me importei. Naquela noite eu não conseguia me importar com nada.

O último fui eu.

Gault me chamou no escritório quando os outros já tinham saído. Entregou uma plaqueta de ferro com um cordão de couro, com o selo da Guilda de um lado e, do outro, gravados a punção, meu nome e um número que eu não entendi.

— Rank mais baixo que existe — disse ele. — Abaixo disso, só os mortos e os escrivães.

Coloquei o cordão no pescoço. A plaqueta ficou fria contra o peito, ao lado da carta do meu pai, dentro do casaco.

— Obrigado.

— Não agradeça. Você passou raspando. — Ele se serviu de alguma coisa escura num copo de barro e, depois de pensar um pouco, serviu outro para mim. — Em outro ano, eu teria te mandado voltar no verão que vem. Treinar o braço. Aprender a segurar a porcaria do escudo.

— E por que não mandou?

Ele bebeu. Olhou pela janela, onde o sol já tinha tocado o morro e o céu sobre o desfiladeiro ficava vermelho, depois roxo. Quando voltou a falar, tinha na voz uma coisa que eu não soube se era graça ou cansaço.

— Porque a Guilda está raspando o tacho, garoto. — Ele riu, curto, sem alegria. — Os bons foram todos para as Terras Proibidas, atrás daquela história da Comissão. Sobrou a gente. E agora aparece aquele papel ali fora, expedição especial ao norte, e ninguém assina.

— Aquele cartaz pequeno?

— Aquele cartaz pequeno. — Gault girou o copo na mão sem dedos. — Trinta e duas vezes mandaram gente para aquele buraco. Trinta e duas. Agora querem a trigésima terceira, e nem os condenados querem ir. Estão pagando o triplo. Aceitariam qualquer um. — Ele me olhou de cima a baixo, com a sobrancelha levantada. — Aceitariam até um pastor com o escudo de um defunto.

Ele riu de novo, esperando que eu risse junto.

Eu não ri.

— Que buraco? — perguntei. Minha voz saiu estranha, baixa e firme demais. — Para onde é a expedição?

Gault parou de rir.

Me olhou por um tempo comprido. Muito comprido. Do mesmo jeito que tinha olhado para a pena parada no ar, de manhã, quando eu disse meu nome. E eu vi alguma coisa passar pelo rosto dele, depressa, e se esconder atrás da barba grisalha.

— Kharvaal — disse ele, por fim.

Lá fora, o vento do fim de tarde desceu pelo desfiladeiro e fez as três pontes de Três Pontes rangerem ao mesmo tempo.

— Quando fecha a lista? — perguntei.

Entre para avaliar este capítulo.

Comentários (0)

Entre na sua conta para comentar e responder.

  • Seja o primeiro a comentar.

Digite pelo menos duas letras para buscar livros e capítulos.