Capítulo 31

Os Portões Fechados

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A primeira flecha caiu a vinte passos de Veyra, e ela não parou de andar.

Foi assim que eu entendi o que ela tinha dito na colina. Quem chega de noite chega como coisa. De noite, a flecha não teria caído a vinte passos.


Ela tinha ido sozinha. Não: com Brann. Ninguém anda sozinho, nem ali, a quinhentos passos do fim. Os dois saíram da beira da floresta lado a lado, devagar, com as mãos abertas e longe das armas, Veyra com a lança-pistola pendurada nas costas pela correia, Brann com o martelo largado de propósito na cinza, atrás, e foram andando pelo campo limpo em direção ao portão fechado.

A coluna ficou. Veyra tinha mandado. Ficamos na beira das árvores, cinquenta e seis pessoas, uma Seikret e um Palico, olhando os dois ficarem pequenos no meio do campo.

A flecha veio da torre do meio, a do fogo mais alto. Eu não a vi sair. Vi quando chegou: um risco escuro no ar, e depois ela estava fincada na cinza, na frente de Veyra, tremendo, com as penas pretas.

Veyra passou por ela sem olhar para baixo.

A segunda caiu a dez passos. Brann parou. Veyra não.

— Holt!

Uma voz de cima da muralha. Uma voz de homem velho, grossa, gasta, que se espalhou pelo campo sem esforço, como se já tivesse gritado aquele nome daquela muralha outras vezes.

Veyra parou. A cinco passos da segunda flecha. Levantou a cabeça para a torre.

E então eles apareceram.

Nas muralhas, entre os troncos negros e as costelas de pedra, surgiram cabeças. Uma, três, dez, vinte. Gente. Com arcos. Com bestas velhas, de um modelo que eu só tinha visto pendurado na parede do salão de Três Pontes. Com lanças de osso. Com uma coisa que parecia uma frigideira presa num cabo de vassoura. Homens e mulheres, velhos e jovens, de roupas remendadas de couro e de pano cinza, e muitos deles, de longe, pareciam ter a pele mais escura que a nossa, ou mais clara, ou marcada de um jeito que eu não sabia ler dali. Estavam todos apontando para Veyra.

Nenhum deles acenou.

— Quantos? — gritou a voz.

— Cinquenta e oito — respondeu Veyra. A voz dela não subiu. Não precisava. — Da trigésima terceira.

— Entraram quantos?

— Sessenta e um.

Silêncio na muralha. Depois:

— Três. — A voz fez uma pausa. — Três, na Garganta. Você perdeu três, Holt, na Garganta, com o Clamor a caminho?

— Um no Cinzal. Dois na Garganta. — Veyra não abaixou a cabeça. — E enterramos vinte e dois que não eram meus.

Silêncio mais comprido.

— Vinte e dois de quem?

— Da trigésima primeira. No patamar, abaixo da Porta. Congelados em volta de uma fogueira que não acenderam. — Veyra tirou uma coisa do cinto e levantou no ar. A presa de Quell. Dava para ver até de onde eu estava, amarela, curva, maior que uma mão. — Ademar estava com eles.

Ninguém na muralha disse nada. Mas eu vi. Vi as cabeças se virarem umas para as outras. Vi um arco, na ponta da muralha, baixar um palmo. Um só.


O homem apareceu em cima do portão.

Não na torre. Em cima do portão, numa passarela de tábuas, de pé, sem arma na mão. Era velho. Não velho como Custódio, gasto de dentro para fora. Velho como uma árvore negra, seco e duro, com o cabelo cinza curto, a barba cinza curta e um casaco de couro que tinha sido de uma cor e agora era de outra. Os ombros largos tinham começado a cair para a frente. Tinha as mãos apoiadas na borda da passarela.

Olhou para Veyra. Olhou para a presa na mão dela. Depois olhou para além dela, para nós, na beira das árvores. Para a coluna inteira. Contando.

— Oren — disse Veyra.

— Oito anos, Holt. — Ele não gritava mais. Não precisava; o campo estava tão parado que a voz dele chegava até nós. — Você saiu por esse portão com doze pessoas e disse que não voltava. Que ninguém devia voltar.

— Eu sei o que eu disse.

— E agora você volta com cinquenta e oito.

— Cinquenta e oito que querem entrar.

Oren Vask ficou calado um tempo. Depois olhou para trás de si, para dentro da muralha, para alguma coisa que eu não via. E voltou a olhar para nós.

— Sabe quanto tem no celeiro, Holt? — disse. — Para noventa e três bocas? Sabe quantas costelas da muralha rachou no Clamor passado? Sabe quantos eu enterrei desde que a trigésima segunda chegou, com seis, dois anos atrás, e que eu achei que seria a última?

Veyra não respondeu.

— O Clamor chegou cedo este ano — disse Oren. — Você sabe disso, porque viu a trigésima primeira. Nós sabemos, porque os velhos daqui já sentem nos ossos. Vai ser cedo e vai ser grande. E você me traz cinquenta e oito. Cansados, feridos, sem comida, com cara de quem vai comer o que nós temos e morrer do mesmo jeito.

Ele se inclinou na passarela e olhou para nós. Para mim, achei. Para todo mundo.

— Mais bocas — disse Oren Vask. — Mais túmulos.


A negociação durou até a tarde.

Não entendi toda. Estava longe. Veyra ficou no meio do campo, de pé, e Oren em cima do portão, e os dois falavam, às vezes baixo demais para ouvir, às vezes alto. Brann tinha voltado até nós e ficou do meu lado, apoiado no martelo, com os olhos no portão.

— Ele não vai deixar a gente do lado de fora — disse Brann. — Nunca deixou ninguém. Mas vai fazer a gente pagar a entrada.

— Pagar com o quê? A gente não tem nada.

— Tem a gente.

Foi o que Oren pediu. Eu entendi aos pedaços, pelo que Veyra repetia alto para a coluna e pelo que Brann me explicava baixo.

As armas, primeiro. Todas. Espadas, arcos, bestas, lanças, o martelo de Brann, a lança-pistola de Veyra. Entregues na porta e guardadas na Forja Funda até o conselho da base dizer quem podia ter o quê. Tor Dace xingou. Sila não disse nada, mas pôs a mão no arco e demorou muito para tirar. Kaspar olhou para Crane antes de olhar para Veyra.

Eu não tinha arma para entregar. Pela primeira vez, fiquei contente com isso.

Depois, o mando. Dentro da muralha, quem mandava era o conselho de Última Luz. Não a Guilda. Não a Comandante. Não a Comissão. Crane disse alguma coisa nesse ponto, com a voz de professor, sobre as ordens que trazia, e Oren respondeu lá de cima, sem levantar a voz:

— Doutor, a Comissão de Pesquisa fica a um mês de navio daqui. Aqui dentro, o senhor é uma boca que sabe ler.

Alguém riu na muralha. Crane sorriu também. Fechou o caderno.

E, por último, os feridos. Iam para a casa de febre, do lado de dentro da muralha, mas separada do resto. Três dias. Sem visita. Se ao fim de três dias não tivessem febre nova, nem mancha no corpo, saíam.

— Três fogos, três dias — disse Brann baixinho, como quem reza.

Veyra aceitou tudo. Eu vi o momento em que ela aceitou: baixou a cabeça, uma vez, curta, como no navio, quando a vela da 27ª apagou.

Depois Oren pediu os nomes.

— Todos — disse ele. — Um por um. Para a parede. Se vão morrer aqui, quero saber de quem é a plaqueta.

Veyra tirou a lista do bolso de dentro do casaco. A mesma lista, amassada, manchada, que ela tinha lido em Varnhal. E leu, no meio do campo, de pé, em voz alta, cada nome. Os vivos. E, quando chegava num morto, dizia o nome e depois dizia "morto", e onde.

— Tomé Ancel. Morto. A Cornija.

— Custódio Brás. Morto. O Cinzal.

Leu devagar. A muralha inteira escutou. Ninguém baixou o arco, mas ninguém falou.

— Ilian Kest.

Eu estava olhando para Oren quando ela disse o meu nome. Por isso vi.

Ele não se mexeu. Não disse nada. Mas os olhos dele, que andavam pela coluna como quem conta ovelhas, pararam. E vieram me procurar. E me acharam, na beira das árvores, com o bordão na mão e o braço amarrado.

Ficaram em mim um tempo. Mais do que em qualquer outro.

Depois Veyra leu o nome seguinte, e ele desviou.


O portão abriu no meio da tarde.

Não se abriu de uma vez. Uma folha só, e só até a metade, rangendo nas dobradiças de ferro com um barulho de coisa velha que não gosta de se mexer. Do outro lado, gente. Esperando. Não para receber. Para ver.

Entramos em fila. As armas primeiro, empilhadas numa carroça de mão que dois rapazes da base empurraram para dentro sem olhar para nós. Depois, um por um, as pessoas.

Os feridos por último.

Dois homens de Última Luz vieram buscar a maca de Nessa na beira do campo. Eram grandes, de mangas arregaçadas, com panos amarrados na boca e no nariz, e um deles tinha uma cicatriz que atravessava o rosto de orelha a orelha. Pegaram nos varais de trás.

Oskel não soltou os da frente.

— Pode deixar, grandão — disse o da cicatriz. — A gente leva daqui.

Oskel não soltou.

— Oskel — disse a Cabo Marn, do lado.

— Até Última Luz — disse Oskel. Era a primeira coisa que eu o ouvia dizer em quatro dias. A voz saiu rouca, arranhada, de quem não usava a garganta. — A Comandante disse. Até Última Luz. Sem trocar.

— Nós estamos em Última Luz — disse o homem.

Oskel olhou para o portão, aberto pela metade, a cinquenta passos.

— Ainda não — disse. — É do outro lado.

O homem da cicatriz olhou para o outro. O outro deu de ombros. E os dois ficaram atrás, nos varais de trás, e Oskel foi na frente, como tinha ido pela floresta inteira, sem trocar, pelo campo limpo, com as mãos enormes fechadas nos varais, e passou pelo portão com Nessa, e só parou do lado de dentro, na frente de uma casa baixa de pedra com a porta pintada de branco, onde os dois homens mandaram parar.

Pôs a maca no chão. Com cuidado. Esperou ela ficar reta.

E as mãos dele não abriram.

Ele tentou. Eu vi ele tentar. Os dedos estavam fechados nos varais havia quatro dias e não obedeciam mais. A Cabo Marn se ajoelhou do lado dele e abriu um por um, com os polegares, como quem abre a mão de um morto, e por baixo a pele das palmas estava em carne viva, rasgada, grudada na madeira, sangrando.

Oskel olhou para as próprias mãos como se fossem de outra pessoa.

Nessa se levantou nos cotovelos na maca. Olhou para ele.

— Oskel — disse ela. — Obrigada.

Não sei se alguém tinha dito o nome dele daquele jeito desde que saímos de Varnhal. Ele ficou parado. Depois fez que sim com a cabeça, uma vez, curta, e virou o rosto, e os ombros largos dele começaram a sacudir, e ele não fez barulho nenhum.

A Cabo Marn pôs a mão na nuca dele e deixou lá.

— A lança do Custódio ficou lá atrás — disse ela, baixo, só para ele. — Esta aqui, você não largou.


Eu fui para a casa de febre também. Por causa da mordida. Crane disse ao homem da cicatriz que eu tinha "duas costelas trincadas e uma mordida costurada, sem sinal de infecção", e o homem olhou para mim andando com o bordão e disse que três dias não matavam ninguém, e apontou a porta branca.

Mas a casa de febre ficava do outro lado da base, e antes de chegar nela, com os dois homens na frente carregando Nessa e Oskel atrás, com as mãos enroladas em panos, passamos pelo Cemitério dos Estandartes.

Não sabia que era aquilo. Ninguém me disse. Achei, no começo, que era uma praça.

Era um terreno aberto, de cinza batida, encostado no paredão. E, fincados no chão, em fileiras, havia mastros. Mastros de madeira negra, altos, finos, todos da mesma altura. E, em cada mastro, pendurado, parado no ar sem vento, um estandarte.

Pano. Pano velho, a maioria. Desbotado, puído, comido nas bordas, com a cor já quase indo embora. Alguns eram só farrapos presos ao mastro por um fio. Outros estavam inteiros e escuros de fumaça. Em cada um, costurado ou pintado, um número.

Parei. Os homens da frente não pararam. Eu parei assim mesmo, apoiado no bordão.

Um. Dois. Três. Não estavam em ordem; tinham sido fincados à medida que chegavam, eu entendi depois, e alguns tinham chegado muito tempo depois da expedição que tinham representado. Procurei. Não sabia que procurava até achar.

27.

Estava na segunda fileira. Um pano vermelho que tinha virado marrom, com o número costurado em linha branca, e a linha branca tinha ficado amarela. Não tinha nada de especial. Não era maior nem menor. Estava parado no ar como os outros.

Fiquei olhando para ele. Pensei que o meu pai tinha andado atrás daquele pano. Pensei que alguém tinha costurado aquele número, numa oficina de Varnhal, dezessete anos antes, e que ele talvez tivesse visto.

Do lado, na mesma fileira, estava o da 28ª. Mais novo. Menos gasto. E a corda que o prendia ao mastro não era igual às outras: era uma corda cortada rente numa ponta, e amarrada de novo ao mastro com um nó pequeno, apertado, esquisito. Um nó que eu não conhecia. Um nó de alguém de mãos pequenas.

Pensei na tigela limpa na cabeceira da mesa da 28ª. Pensei num Palico velho com a orelha caída, pondo uma pedra num marco na boca da Garganta.

Não disse nada. Para ninguém. Já estava ficando bom nisso.

Continuei contando. Trinta. Trinta e um: novo, azul, sem nenhum rasgo. Pensei nos vinte e dois de costas para a fogueira apagada e em Evran Tolle, e apertei a plaqueta no bolso. Trinta e dois.

Trinta e dois estandartes. Trinta e duas expedições. Eu sabia a conta desde o navio, desde as velas de Brann.

Mas havia mais um mastro.

No fim da última fileira, separado dos outros por um passo, havia um mastro mais novo. A madeira ainda tinha a cor clara por dentro, onde o machado tinha cortado. E nele também havia um estandarte.

Estava dobrado. Amarrado ao mastro por uma fita, bem apertado, esperando ser solto. Mas dava para ver a borda do pano. Novo. Limpo. De uma cor que ainda não tinha tido tempo de desbotar.

E, na parte dobrada que ficava para fora, costurado em linha branca, nova, os dois primeiros traços de um número.

Um três.

E, do lado dele, outro três.

Fiquei ali parado até Oskel voltar e me pegar pelo braço bom. Não perguntei nada a ele. Não perguntei nada a ninguém. Mas, antes de a porta branca da casa de febre se fechar atrás de mim, virei a cabeça uma última vez.

Alguém já tinha costurado o nosso.

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