Capítulo 32
Três Dias
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A casa de febre tinha uma janela, quatro catres, uma portinhola na porta e uma regra. A regra estava pintada por dentro, na parede em frente à porta, com uma tinta branca que tinha escorrido antes de secar, numa letra grande e desajeitada de quem não escreve muito:
TRÊS FOGOS. TRÊS DIAS. NÃO BATA NA PORTA.
Tor Dace leu em voz alta, na primeira noite, e bateu na porta.
Ninguém veio.
Éramos quatro. Nessa no catre do fundo, embaixo da janela, porque era o mais longe da porta e o mais quente. Oskel no catre ao lado dela, sentado, com as mãos enroladas em pano apoiadas nos joelhos, viradas para cima, como duas coisas que ele estava segurando para alguém. Tor Dace no catre perto da porta, com a perna mordida esticada e a bota furada pelo Espectro de Cinza do lado, onde ele pudesse ver, como um troféu. E eu no quarto catre, entre Tor e Nessa, com o bordão encostado na parede.
A casa era de pedra, pedra escura, a mesma do paredão, e tinha o teto baixo de vigas negras com cinza nas frestas. Tinha um fogo pequeno num buraco no chão, no meio, com uma pilha de lenha preta do lado, a mesma lenha das árvores do Cinzal, que queimava alaranjada e cheirando a mel. A fumaça subia e saía por um buraco no teto. Não tinha mais nada. Um balde. Uma bacia. Uma jarra de água. Quatro cobertores de lã grossa, cinzentos, cheirando a fumaça e a outra gente.
A janela era alta, mais alta que a minha cabeça em pé, com três barras de ferro. Dava para o pátio. Se eu subisse no catre de Nessa, dava para ver.
Na primeira noite, ninguém subiu. Estávamos cansados demais. Tor bateu na porta mais duas vezes e depois desistiu e dormiu, e roncou, e Oskel ficou sentado com as mãos para cima olhando o fogo, e Nessa dormiu com o caderno fechado no peito, e eu fiquei deitado de costas, olhando as vigas, ouvindo a base.
Última Luz fazia barulho de noite. Não muito. Mas fazia. Um cachorro, longe. Uma porta batendo. Passos na muralha, lentos, de alguém de guarda. E, por cima de tudo, o estalo dos três fogos nas torres, que dava para ouvir até ali, um crepitar grosso e contínuo, como chuva em telhado de palha.
Depois de semanas de trilha, dormir debaixo de um teto parecia errado. Eu acordei três vezes achando que tinha perdido a guarda.
A comida veio de manhã, pela portinhola.
Era um buraco quadrado na porta, na altura do peito, com uma tampa de madeira do lado de fora. A tampa abriu com um rangido. Uma mão empurrou para dentro uma tábua com quatro tigelas de barro, fumegando. Depois a mão ficou ali, parada, apoiada na borda da portinhola.
— Quantos de febre? — perguntou uma voz de mulher, do outro lado.
Olhei para os outros. Tor ainda dormia. Oskel olhou para a portinhola e não disse nada.
— Nenhum — eu disse. — Uma teve. Já passou.
— Quem?
— A coordenadora. Nessa Orlen.
A mão continuou parada. Era uma mão de mulher, larga, curta, com a pele rachada nos nós dos dedos e as unhas sujas de terra. Não de cinza: de terra. Terra escura, de horta, enfiada tão fundo embaixo das unhas que não saía mais com água.
— Quando passou?
— Anteontem. De madrugada. Ela suou.
— Suou muito?
— Encharcou o cobertor.
A mão fez um movimento curto, como quem aprova. Depois sumiu. A tampa bateu. Ouvi passos se afastando, sem pressa, na cinza do pátio.
Pensei que ela não tinha perguntado o nome de mais ninguém. Pensei que tinha perguntado só da febre. E pensei, sem motivo, nas mãos de Tomé Ancel, na Cornija, que eu tinha visto de perto por um instante antes da pedra, e que eram como raízes.
Não liguei uma coisa à outra. Não ainda.
A comida era um mingau cinza de grão grosso, com pedaços de carne desfiada e uma erva verde-escura por cima que eu não conhecia, e sal. Sal de verdade. Tor acordou com o cheiro, sentou, comeu a tigela dele, comeu metade da minha enquanto eu dava a de Nessa, e disse que, se era assim que eles tratavam os doentes, ele ia ficar doente para sempre.
Nessa começou o livro no segundo dia.
Não era o caderno dela, o de mapas, o que ela carregava desde Varnhal e que estava cheio de linhas de trilha e cotas e desenhos de pedra. Era outro. Um caderno grosso, de capa de couro marrom, que ela tirou do fundo da bolsa, embrulhado num pano encerado. Estava em branco. Tinha a folha de rosto em branco. As páginas ainda estalavam quando abriam.
— Minha mãe me deu — disse ela. — Quando eu passei na Guilda. Disse para eu escrever uma coisa que valesse a pena.
— E você não escreveu nada nele?
— Nada valia a pena. — Ela olhou para a folha branca. — Agora tem coisa demais.
Ela escreveu na primeira página, devagar, com a letra caprichada que tinha voltado com a febre indo embora: A 33ª Expedição a Kharvaal. E embaixo, menor: Os que foram, os que chegaram, os que ficaram no caminho.
Depois ficou muito tempo olhando para aquilo.
— Vou pôr todo mundo — disse. — Os sessenta e um. Com nome. Com o que cada um fazia. Com como morreu, se morreu. Não o relatório da Guilda. Um livro. Para alguém ler depois e saber que eram pessoas.
— Como a parede de plaquetas.
— Que parede?
— Brann disse que em Última Luz tem uma parede. Para as plaquetas dos mortos.
Nessa me olhou.
— Uma parede é para lembrar que eles morreram — disse ela. — Um livro é para lembrar que eles viveram. — E, depois de um tempo: — Me ajuda. Eu estava apagada metade do caminho. Tem coisas que eu não vi.
Ajudei. O dia inteiro. Contei o que eu sabia de cada um. Ela escrevia. Às vezes parava e fazia uma pergunta que eu não sabia responder, e escrevia não sei, e seguia. Tor Dace ditou o capítulo dele mesmo, deitado, com os braços atrás da cabeça, e mentiu tanto que Nessa parou de escrever e riscou tudo e disse que ia perguntar para a Mira. Oskel, quando ela perguntou de onde ele era, disse o nome de uma vila de pescadores do sul que eu nunca tinha ouvido, e mais nada, e ela escreveu só isso, e o nome dele, e depois, sem ele ver, mais uma linha. Eu vi a linha, de cabeça para baixo. Carregou a maca do Cinzal até o portão. Não trocou.
Quando chegamos em Custódio, eu contei do lenço. Contei das botas com o remendo no calcanhar. Contei o que ele disse. Nessa escreveu tudo, e depois perguntou:
— Qual era a vila dele?
— Eu não sei.
Ela olhou para mim.
— Eu nunca perguntei — eu disse.
Ela escreveu não sei. E depois riscou, e escreveu: Ilian vai descobrir.
— Nessa…
— Você perguntou o nome do Tomé tarde demais. Do Custódio você perguntou a vila tarde demais. — Ela não estava me acusando. A voz dela era mansa. — Daqui para a frente, você pergunta cedo. Eu anoto.
No meio da tarde, subi no catre dela para olhar pela janela.
O pátio era largo, de cinza batida, cercado de casas baixas de pedra e madeira preta, com telhados de lascas de osso sobrepostas como escamas. No meio, um poço com uma roldana. Crianças correndo atrás de uma galinha, gritando. Uma mulher estendendo pano num varal. Dois homens rolando um barril. Do outro lado, a muralha, com o trecho escorado com toras, e gente em cima dela, trabalhando, passando pedras de mão em mão.
E, no meio do pátio, perto do poço, Veyra e Oren.
Não dava para ouvir. Mas dava para ver. Oren falava e apontava para a muralha, para o trecho escorado, para as toras. Veyra ouvia de braços cruzados. Depois Veyra falou, e apontou para as casas, para a gente, e depois para a casa de febre, para a janela, para mim. Eu me abaixei. Quando olhei de novo, ela ainda estava apontando. Oren balançou a cabeça. Veyra deu um passo na direção dele. Ele não recuou. Ficaram os dois parados, perto demais, como dois cães que se medem antes de brigar, e nenhum dos dois brigou.
Depois Oren disse alguma coisa curta. Veyra baixou os braços.
E virou a cabeça. Para a janela. Para mim, na grade, com a cara metade para fora.
Não fez sinal. Não mudou de cara. Só olhou, um tempo, do jeito que tinha olhado na trilha do Cinzal, três vezes antes do meio-dia. E depois foi embora, andando depressa, na direção da Forja.
Desci do catre.
— Brigando? — perguntou Nessa.
— Não sei. Acho que sim. — Sentei. — Por nossa causa.
— Por sua causa — disse Nessa.
Eu olhei para ela.
— Ela olhou para cá — disse Nessa. — Eu vi a sua cara quando você se abaixou.
Não respondi. Nessa fechou o livro, com a caneta dentro, para marcar a página.
— Ilian.
— Hum.
— O que você não está me contando?
Tor Dace roncava. Oskel olhava o fogo. A lenha estalou.
— Muita coisa — eu disse. — Quase tudo é chato.
— Então me conta o chato.
Eu ri. Ela não riu. Esperou.
— Depois — eu disse.
— Depois quando?
— Quando eu souber o que é.
Nessa ficou me olhando muito tempo. Depois abriu o livro de novo, pegou a caneta, e escreveu uma linha. Uma só. Na página que era minha, que ela tinha começado de manhã. Tapou com a mão para eu não ver.
— O que você escreveu?
— Uma coisa chata — disse ela.
À tarde, alguém bateu na porta. De fora.
Bateu educadamente. Três toques. Tor Dace, que estava acordado, sentou de um pulo, como um cachorro que ouve o dono.
— Srta. Orlen? — A voz de Crane. Macia. De professor. — Srta. Orlen, sou eu. Vim ver a perna. Não entro. Só preciso que alguém me descreva como está o…
— Sem visita.
Outra voz. De homem. Grossa. De alguém que estava parado ali perto da porta e que eu não sabia que estava ali. Um guarda.
— Eu sou o médico da expedição — disse Crane.
— Aqui o senhor é uma boca que sabe ler. — O guarda disse isso sem maldade. Como quem repete uma coisa que ouviu e gostou. — Três dias, doutor. É a regra. Nem o Oren entra.
Silêncio do outro lado.
— Claro — disse Crane. — Claro. Regras são regras. — Uma pausa. — Srta. Orlen? Se a senhora me ouve: não deixe ninguém mexer no emplastro. Ninguém. Eu troco quando sair.
Passos. Indo embora. Sem pressa.
Nessa olhou para a perna, embaixo do cobertor. Olhou para mim.
— Por que ele não quer que ninguém mexa?
— Não sei — menti.
Ela ficou olhando a perna mais um pouco. Depois deitou e fechou os olhos. Não dormiu. Eu sei, porque ela respirava do jeito de quem está pensando.
Eu fiquei olhando para a porta e pensei na perna dela, e nas linhas cinza que tinham sumido em três respirações, e na mão de Crane me segurando um pouco mais do que precisava na subida do riacho. E pensei que três dias sem Crane eram três dias bons. E, logo depois, me senti mal por pensar isso de um homem que tinha costurado o meu lado com dezenove pontos. E, logo depois, não me senti mais.
A comida da noite veio pela portinhola, como a da manhã. A mesma mão, com a mesma terra nas unhas.
Dessa vez, antes de sumir, a mão empurrou para dentro uma coisa a mais. Uma caneca de barro, tampada com um pano, separada das tigelas. Quente.
— Para a moça — disse a voz. — Da febre. Para ela beber tudo.
Peguei. Tirei o pano. O cheiro subiu, amargo, verde, de pedra molhada.
Eu conhecia aquele cheiro. Era o cheiro da lata de Pell no acampamento da encosta. Era o cheiro da casa da minha mãe, no último inverno dela, quando ela fervia aquilo para si mesma e dizia que ia passar.
— Barba-de-pedra — eu disse, para a portinhola.
A mão parou.
— Conhece? — perguntou a voz.
— Minha mãe fazia.
Silêncio do outro lado. Um silêncio de quem pensa.
— Sua mãe era da montanha — disse a voz. Não era pergunta.
— Pedravento. Nas encostas ao sul.
— Hum.
E mais nada. A tampa fechou. Os passos foram embora. Eu fiquei com a caneca quente nas mãos, olhando para a portinhola fechada, e senti uma coisa que não soube nomear, uma coisa de quando se ouve de longe uma música que já se cantou.
Dei o chá para Nessa. Ela fez careta e bebeu tudo.
Na segunda noite, não consegui dormir.
Não era dor. As costelas já quase não doíam, o que eu tinha parado de achar bom e começado a achar estranho, e que eu não disse a ninguém. Era outra coisa. Uma coisa no chão.
Tinha começado ao entardecer. Uma sensação de peso, embaixo do catre, como quando se deita num barco e se sente a água por baixo das tábuas. Eu disse a mim mesmo que era o cansaço. Que era a pedra da casa, que guardava o calor do dia. Que era qualquer coisa.
Quando todos dormiram, levantei do catre sem fazer barulho. Tor roncava. Oskel dormia sentado, com as costas na parede e as mãos para cima. Nessa dormia de lado, com o livro debaixo do braço.
Deitei no chão. De bruços. Com o rosto na pedra fria, perto da parede do fundo, a parede que dava para o paredão.
E ouvi.
Tum.
Não com os ouvidos. Com a pedra. Com o rosto, com os dentes, com a ponte do nariz encostada no chão. Muito fundo. E muito, muito mais alto que na colina.
Na fenda de gelo, tinha sido um sussurro que eu precisava caçar. Na colina, uma presença que eu precisava me esforçar para não ouvir. Ali, na casa de febre, encostada no paredão de Última Luz, era uma coisa que eu sentia no corpo inteiro, como se sente um trovão que cai perto.
Tum.
Não contei. Não precisava contar. Eu sabia a sequência de cor. Onze, catorze, nove, dezesseis, e depois as outras, as que não se repetiam. Deixei a batida entrar e sair, entrar e sair, e fiquei deitado ali, com o rosto na pedra, e prestei atenção em outra coisa. Não na batida. No caminho dela.
Na fenda, ela vinha de longe, de todos os lados ao mesmo tempo. Na colina, vinha de baixo, do fundo, de lá do fundo do vale. Mas ali, naquele chão, ela vinha de outro jeito. Ela subia. Subia pela pedra como água sobe num pavio, e não vinha de lado, e não vinha de longe. Vinha de baixo. Logo embaixo. Da pedra embaixo da casa, e da pedra embaixo da pedra, e do que quer que estivesse embaixo de tudo isso.
Levantei a cabeça. Olhei para a parede do fundo, a pedra escura, lisa, que era o próprio paredão, onde a casa tinha sido encostada.
Pensei no que Brann tinha dito uma vez, no navio, sobre as bases antigas. Que ninguém constrói perto de um paredão à toa. Que um paredão protege as costas. Que quem constrói ali está escolhendo não ter de olhar para trás.
Mas ninguém pergunta o que tem dentro do paredão. Nem embaixo dele.
Encostei o rosto na pedra outra vez. A batida subiu, torta, desigual, pelo chão de Última Luz, pelo chão onde noventa e três pessoas dormiam, onde as crianças corriam atrás de galinhas de dia, onde a mulher da horta plantava, onde os três fogos queimavam nas torres e nunca apagavam.
E eu entendi, deitado ali, com o rosto no chão de uma casa de doentes, uma coisa que eu não queria entender.
Última Luz não tinha sido construída na borda do Cinzal. Nem encostada num paredão.
Tinha sido construída em cima de alguma coisa.
E essa coisa estava batendo.
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