Capítulo 35
A Parede das Plaquetas
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A Parede não tinha começo. Tinha só fim, e o fim ia crescendo para a direita, um prego de cada vez.
Foi Lio quem me levou até ela, de manhã cedo, antes de o sol passar da muralha, porque eu perguntei onde ficava e ele disse "vem", e saiu andando descalço na cinza fria sem esperar para ver se eu vinha. Eu fui. Com a espada de Bertram Sallow no cinto, presa por um barbante, porque eu não tinha bainha, batendo na perna a cada passo.
Ficava atrás do Cemitério dos Estandartes, onde o terreno de cinza batida encostava no paredão. Não no paredão: na frente dele. Alguém, muito tempo antes, tinha fincado no chão uma fileira de troncos de árvore negra, lado a lado, altos como dois homens, e pregado tábuas neles, formando uma parede de madeira escura paralela à pedra, a um passo dela. Depois, outros tinham continuado. A parede de tábuas corria ao longo do paredão, para a direita, por mais de cem passos, e acabava num último tronco novo, ainda claro no corte, e depois dele não havia nada.
E a parede inteira estava coberta de pregos.
Milhares. Pregos de ferro, pregos de osso, pregos de madeira dura, cravados nas tábuas em fileiras tortas, uns em cima dos outros. E, em cada prego, pendurada por um cordão, uma coisa.
Plaquetas. A maioria era plaqueta, como a de Evran Tolle, de latão ou de ferro ou de osso, com um número de um lado e um nome do outro. Mas não eram só plaquetas. Havia uma bota de criança. Um pente de osso. Um cachimbo sem boquilha. Uma trança de cabelo castanho amarrada com fita azul. Um anel. Um dente de monstro com um furo. Uma colher. Um pedaço de pano bordado. Um sino pequeno, de latão, sem badalo. Tudo pendurado, tudo parado, porque ali, entre a madeira e a pedra, o vento não chegava.
Fiquei parado na frente dela. Lio ficou do meu lado, esperando.
— Por ordem — disse ele, apontando para a esquerda, para onde a parede sumia na sombra. — Lá no começo é a sétima. Os que fundaram. Depois vai vindo. Aqui é a trigésima. — Ele andou, e parou, e apontou de novo, mais para a direita, onde os pregos eram mais novos e o ferro menos enferrujado. — Trigésima primeira não tem quase nada. Porque ninguém chegou. Só as coisas que voltaram com a trigésima segunda, que achou o caminho deles. — Mais para a direita. — Trigésima segunda.
Havia um espaço vazio depois da trigésima segunda. Tábua lisa, sem prego nenhum, até o último tronco.
— E aí é vocês — disse Lio.
Tirei a plaqueta de Evran Tolle do bolso.
Estava quente da minha perna. Tinha o 31 de um lado, riscado fundo no latão, e do outro o nome, numa letra de soldado, apertada. EVRAN TOLLE. Eu tinha carregado aquilo desde o patamar da trigésima primeira, pela Garganta, pelo Cinzal, no bolso do gibão, junto com o lenço de Custódio e as sementes de Tomé. Tinha acordado com ela apertada na mão mais de uma vez.
Voltei até a trigésima primeira. Era pouco. Uns doze pregos, se tanto, com uma plaqueta ou outra, um cinto, uma faca. Tudo o que a trigésima segunda tinha trazido do patamar, cinco anos antes, quando passou por lá e não parou.
Não havia prego vago.
— Lio. Onde eu arrumo um prego?
Ele tirou um do bolso da camisa. Um prego de ferro, comprido, torto na ponta. Me deu como quem dá uma moeda.
— Eu sempre tenho um — disse. — Para quando alguém precisa.
Não perguntei por quê. Não precisava. Um menino de doze anos, órfão do Clamor passado, com um prego sempre no bolso.
Cravei o prego na tábua com o punho da espada de Bertram Sallow, três pancadas, entre uma plaqueta de ferro de um Hask e um cinto de couro roído. Passei o cordão da plaqueta de Evran no prego. E soltei.
Ela ficou pendurada. Parada. Virada com o nome para fora.
Pensei no rapaz sentado de costas para a fogueira apagada, da minha idade, com o arco curto no colo. Pensei que eu não sabia nada dele além do nome e do número e do arco. Que não sabia se ele tinha mãe, ou vila, ou por que tinha vindo. Que ninguém ali sabia. Que a plaqueta dele ia ficar pendurada naquela tábua até a madeira apodrecer, e as pessoas iam passar por ela e ler Evran Tolle e não saber nada também.
Mas iam ler.
— Pronto — eu disse. Para ninguém. Para ele.
— E os seus? — perguntou Lio.
Eu olhei para o espaço vazio, depois da trigésima segunda. Tábua lisa.
— Os nossos não têm plaqueta — eu disse. — Plaqueta a Guilda dá para caçador. Tomé era carregador. Custódio também. Lenz era soldado; tinha uma, mas ficou com ele. O vento levou.
— Então não tem nada?
— Não.
Lio ficou olhando para a tábua lisa com a testa franzida. Depois olhou para mim, e para as minhas mãos, e para o bolso do meu gibão, onde o lenço de Custódio fazia um volume.
— Você tem coisa deles — disse ele. — Eu vi você mexendo no bolso.
Eu tinha. O lenço de Custódio. O saquinho de sementes de Tomé, que não era dele, que era da irmã. E nada de Lenz. Nada.
— Não posso pendurar — eu disse. — O lenço é para a família dele. As sementes são para a irmã do Tomé.
— E o Lenz?
— O Lenz não deixou nada.
Lio pensou nisso um tempo, sério, como se fosse um problema de conta.
— Então faz uma — disse.
Quem fez foi Dita.
Eu a achei no estábulo, sentada num fardo de palha do lado da baia da Pena, trançando. Tinha tiras de couro no colo, marrom, preto e um vermelho desbotado, e as mãos iam e vinham depressa, sem ela olhar. A Pena estava com o pescoço esticado por cima da baia, com a cabeça baixa quase encostada no ombro de Dita, de olhos meio fechados, como faz quando está gostando de alguma coisa. Os Seikrets cinzentos de Última Luz, nas baias em frente, olhavam as duas com cara de desprezo.
— Kest — disse Dita, sem parar as mãos.
Contei a ela da Parede. Do espaço vazio depois da trigésima segunda. De Lenz, que não tinha deixado nada. Ela ouviu sem dizer nada, trançando.
— Três — disse ela, no fim. — Tomé, Lenz, Custódio.
— Três.
— Couro eu tenho. — Ela apontou com o queixo para o monte de tiras do lado. — O Hadrek me deu os restos da Forja. Disse que carregador que sabe trançar vale mais que carregador que sabe carregar. — Ela sorriu de lado, a primeira vez que eu a via sorrir desde o leito seco. — Me dá a tarde.
E depois, sem mudar de voz, sem parar as mãos:
— E isto aqui é seu.
Parou de trançar. Levantou o que tinha no colo.
Era uma correia. Comprida, grossa, trançada em três cores, marrom, preto e vermelho desbotado, com uma fivela de osso numa ponta e uma alça dupla na outra, larga, onde uma coisa comprida podia entrar e ficar presa. Uma bainha. Não uma bainha de verdade, de couro duro, com ponteira de metal, como a de Sila ou a de Mira. Uma correia de bainha, para passar pelo ombro e segurar uma espada nas costas, ou no quadril, do jeito que se quisesse.
Reconheci o trançado antes de reconhecer a correia. Era o mesmo. O mesmo desenho, as mesmas três cores, o mesmo jeito da avó dela, que trançava rédeas para vender na feira. A alça do escudo do Tadeu. Desfeita e trançada de novo, mais comprida, com couro novo da Forja misturado ao velho, e, no meio, onde tinha ficado a ponta rompida na madeira partida, um nó grosso, feito de propósito, que eu não tinha visto antes.
— O nó é onde quebrou — disse Dita. — Deixei. Para lembrar.
Eu não consegui dizer nada.
Ela se levantou. Pegou a espada de Bertram Sallow do meu cinto, sem pedir, com o barbante e tudo. Tirou o barbante. Passou a lâmina pela alça dupla da correia, ajeitou, apertou a fivela de osso. E me deu.
— Agora segura isto — disse ela. — Da outra vez segurou o escudo. Agora segura a espada. Quando estragar, me avisa.
— Vou avisar.
— Da outra vez você não avisou.
— Da outra vez eu estava sendo mastigado.
Ela riu. De verdade. Uma risada curta, de menina, que fez a Pena levantar a cabeça e os Seikrets cinzentos se assustarem na baia.
Passei a correia pelo ombro. A espada ficou nas costas, com o punho por cima do ombro direito, onde a mão alcançava. Pesava. Pesava mais do que a do Tadeu, e o equilíbrio era estranho, com a ponta mais pesada que o punho. Mas a correia segurava. E o nó grosso, o nó de onde tinha quebrado, ficou bem em cima do meu peito, do lado esquerdo, do lado da mordida.
Pensei que Dita tinha medido isso. E pensei que não ia perguntar.
A carta eu escrevi no Salão Comprido, depois do almoço, numa ponta da mesa vazia.
Nessa me deu o papel. Uma folha do caderno de mapas dela, arrancada com cuidado pela costura, e a caneta. Ela estava do outro lado da mesa, com a perna esticada num banco, escrevendo no livro da 33ª. Eu ficava olhando a folha branca e não escrevia nada.
— Começa pelo nome dele — disse Nessa, sem levantar a cabeça.
Escrevi Custódio Brás.
— Agora o de quem vai ler.
— Eu não sei o nome da mulher dele.
— Então escreve "à família de".
Escrevi.
E aí escrevi o resto. Não sei quanto tempo levou. Escrevi que ele tinha sido carregador na trigésima terceira. Que tinha subido a Garganta inteira, com o fardo, sem reclamar, parando três vezes em cada rampa e subindo assim mesmo. Que tinha tossido o caminho todo e escondido. Que, no Cinzal, um bicho grande tinha vindo para cima de uma moça ferida e de um rapaz que não sabia lutar, e que ele tinha se levantado, com uma lança que não era dele, segurando do jeito errado, e tinha chamado o bicho para ele. Que tinha dito: Eu já fui pago. Agora é só entregar. Que tinha entregado.
Não escrevi como ele morreu. Escrevi que morreu depressa. Era mentira. Não sei se era mentira. Eu não sabia quanto tempo durava lá dentro.
Escrevi que o rapaz era eu. Que eu estava vivo por causa dele. Que eu guardava o lenço dele e ia devolver, se um dia pudesse, e que, se não pudesse, eu ia ficar com ele até o fim.
Assinei. Ilian Kest, caçador. Olhei para a palavra caçador muito tempo. Não risquei.
Dobrei a carta. E fiquei com ela na mão, sem saber o que fazer.
— Para onde vai? — perguntou Nessa.
— Eu não sei a vila.
Nessa parou de escrever. Levantou os olhos.
— Pergunta cedo — disse ela.
— A quem? Ele morreu.
— A quem pagou ele.
A Cabo Marn estava na muralha, no trecho escorado com toras, passando pedras de mão em mão com os soldados e com gente de Última Luz, rindo aquela risada de trovão de alguma coisa que um homem velho de lá tinha dito. Subi a escada de madeira até ela, com a espada nas costas batendo no degrau.
— Kest! — Ela me viu e riu mais. — Com espada nova! Parece um caçador!
— Cabo. A senhora tem a lista dos carregadores? A do pagamento?
A risada parou. Ela me olhou. Depois limpou as mãos na calça, devagar.
— Tenho. Na bolsa. Sempre tenho. — Ela desceu comigo do andaime, até um canto da muralha onde tinha deixado as coisas, e tirou da bolsa um maço de papéis amarrado com barbante, molhado e secado muitas vezes, com as pontas comidas. — Por quê?
— Custódio. A vila dele.
Ela não perguntou mais nada. Desamarrou o maço. Correu o dedo grosso pelas folhas, uma por uma, até achar.
— Brás, Custódio — leu. — Carregador. Sessenta e um anos. — Ela ergueu os olhos. — Sessenta e um. Eu achava que era menos. — Voltou para o papel. — Pagamento adiantado à esposa, Idalina Brás, no Posto Varnhal, dia vinte e um. Residência: Carvoeira do Norte, vale do rio Cinza, província de… — Ela parou. — Carvoeira do Norte. É uma vila de mina. Eu conheço. Passei lá uma vez. Tudo preto. Até as galinhas.
Carvoeira do Norte. Idalina Brás.
Repeti os dois nomes baixinho, duas vezes, para não esquecer. Depois peguei a caneta de Nessa, que eu tinha levado sem pensar, e escrevi na carta dobrada, por fora: Para Idalina Brás, Carvoeira do Norte, vale do rio Cinza.
A Cabo Marn olhou a carta na minha mão.
— Não tem navio até a Vigília que vem — disse ela, baixo. — Talvez não tenha nunca. Você sabe.
— Eu sei.
— Então para que escrever?
Pensei em Nessa. Um livro é para lembrar que eles viveram.
— Para quando tiver — eu disse.
A Cabo Marn ficou me olhando. Depois fez uma coisa que eu não esperava. Pegou a carta da minha mão, com cuidado, com os dedos grossos sujos de pedra. Abriu a bolsa. Pôs a carta dentro do maço dos pagamentos, junto com a folha de Custódio, e amarrou o barbante de novo.
— Aqui ela não molha — disse. — E, se eu voltar e você não, eu entrego.
— Cabo…
— Vai. — Ela subiu de novo no andaime. — Tenho pedra para passar.
E, lá de cima, antes de se virar, gritou para a muralha inteira ouvir:
— O rapaz sem arma agora tem arma! Alguém avisa o Hadrek que ele pode apagar o risco!
A muralha riu. Os da 33ª e os de Última Luz. Juntos, pela primeira vez.
Dita trouxe as três plaquetas ao entardecer.
Eram de couro. Couro duro, grosso, cortado em retângulos do tamanho da palma da mão, com as bordas costuradas em linha vermelha para não desfiar. E, em cada uma, com a ponta de um ferro quente da Forja, ela tinha queimado as letras. Letras tortas, grandes, de quem não sabia escrever direito e tinha pedido a alguém para desenhar o nome antes, num papel, para copiar.
TOMÉ ANCEL. 33.
LENZ. 33.
CUSTÓDIO BRÁS. 33.
Na de Lenz, embaixo do nome, havia mais uma coisa queimada, menor. Um risco curvo, como uma onda. Eu olhei para ela.
— Ele ria das superstições — disse Dita. — Na Garganta. Lembra? Dizia que era minério. — Ela deu de ombros. — Eu achei que ele ia gostar de ter uma coisa que não fosse séria.
Fomos os três até a Parede. Eu, Dita e Lio, que apareceu do nada, com três pregos no bolso em vez de um.
Cravamos no espaço vazio. O primeiro espaço depois da trigésima segunda. A tábua lisa, onde não havia nada, onde começava a gente. Tomé primeiro, porque tinha sido o primeiro. Depois Lenz. Depois Custódio.
As três plaquetas de couro ficaram penduradas, paradas, no começo do nosso pedaço da Parede. Três. E, depois delas, a tábua lisa de novo, comprida, até o último tronco claro.
Olhei para o espaço vazio que sobrava. Pensei que era muito espaço. E depois pensei que não era.
— Lio — eu disse. — Por que você sempre tem um prego no bolso?
Ele olhou para a Parede. Para a parte da trigésima segunda, onde, mais embaixo, perto do chão, havia dois pregos juntos, com duas coisas penduradas que eu não tinha reparado antes. Um pente de osso pequeno. E uma fivela de cinto.
— Porque quando os meus morreram — disse Lio — eu não tinha. E tive que pedir.
Não dissemos mais nada. Dita pôs a mão no cabelo dele, rapidamente, e tirou. Ele deixou.
A última coisa que fiz naquele dia foi perguntar por Irena.
Eu tinha deixado para depois. O dia todo. Não sei por quê. Talvez porque as sementes de Tomé fossem a última coisa que eu carregava que ainda tinha um dono vivo, e eu tivesse medo de que, perguntando, deixasse de ter.
Achei Mãe Duna na cozinha do Salão, sozinha, lavando o caldeirão grande com areia e água, de mangas arregaçadas até o ombro. Brasa estava num banquinho do lado dela, descascando raiz com uma faquinha, com uma cara de concentração que eu nunca tinha visto nele, nem com peixe.
— Mãe Duna.
— Hum.
— Tem uma mulher aqui chamada Irena? De Ribeira Funda, lá do leste. Veio com a trigésima segunda. Procurava o marido, da vigésima oitava.
Mãe Duna parou de esfregar.
Ficou um tempo parada, com as mãos dentro do caldeirão, com a areia molhada escorrendo pelos braços. Depois voltou a esfregar.
— Não tem Irena aqui — disse ela. — Nunca teve.
— Tem certeza? Ela devia ter chegado depois dos outros. Dos seis. Mais tarde. Sozinha.
— Filho. — Mãe Duna não se virou. — Eu dou comida para toda boca que entra por aquele portão. Eu sei o nome de todas. Das vivas e das mortas. — Ela esfregou mais forte. — Não tem Irena. Nunca teve Irena em Última Luz.
Brasa parou de descascar. Olhou para mim. Eu olhei para ele.
Pus a mão no bolso. O saquinho de sementes estava lá, pequeno, leve, com a terra de fora dentro. Irena. Se achar ela. É dela.
Pensei na Cornija. Na pedra. Nas mãos de Tomé como raízes, fechadas em volta do saquinho, abrindo para me dar.
E pensei, ao mesmo tempo, sem querer, numa mão rachada, curta, com terra de horta embaixo das unhas, parada na borda de uma portinhola, e numa respiração presa do outro lado de uma porta.
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