Capítulo 48

As Carcaças

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A primeira costela que eu toquei era quente.

Não muito. Não como a placa de Gorrim na Forja, que esquentou na minha mão como coisa viva. Quente como pedra que ficou o dia inteiro no sol, só que o sol do Planalto não esquentava nada: era branco, alto, frio, e o vento levava o pouco calor que ele dava antes de chegar no chão. E mesmo assim a costela estava morna. Debaixo da palma, no lugar onde o capim prateado parava e o osso saía da terra, curvo, cinza-esbranquiçado, poroso como pão velho, subindo e subindo para cima da minha cabeça até virar um arco contra o céu, e descendo do outro lado, a trinta passos, para dentro do chão de novo.

Tirei a mão. Olhei para ela. Não tinha nada.

— Osso guarda o calor — disse Mira, que tinha encostado a palma do outro lado do arco, por curiosidade. — Igual pedra de forno. A minha também está morna.

Eu não sabia se a dela estava tão morna quanto a minha. Não perguntei.

— Não encosta — disse Brann.

— Por quê?

— Porque é de alguém. — Ele estava com o chapéu de volta na cabeça, mas tinha tirado de novo duas vezes desde o degrau, sem perceber, e posto de volta. — Na minha terra, a gente não encostava em túmulo.

— Isto é um túmulo?

Brann olhou para cima, para o arco, e para o outro arco atrás dele, e para o outro, e para a fileira inteira de arcos que ia embora pelo capim como as tábuas de um navio de cabeça para baixo, do tamanho de uma aldeia.

— Isto é um cemitério — disse. — O túmulo é o vale.


Descemos do degrau no meio da manhã e andamos para o norte o dia inteiro, e o Planalto não acabou.

Eu achava que tinha entendido o tamanho dele lá de cima. Não tinha. De cima, as costelas pareciam morros brancos, longe, arrumados, como os desenhos que Nessa fazia nos mapas. De baixo, eram outra coisa. Eram paredes. Você andava uma hora inteira pelo capim, na direção de um arco que parecia perto, e o arco não chegava, e ficava maior, e maior, e quando você finalmente passava por baixo dele o céu sumia, e o vento mudava de som, e você olhava para cima e via o osso curvo lá no alto, com fendas, com buracos, com ninhos de pássaro nas fendas, com capim crescendo nos buracos, e pensava: isto respirou. Isto era a parede de um peito. Havia um coração aqui embaixo, onde eu estava pisando, batendo, tão grande que eu caberia dentro dele de pé.

E não era um. Eram muitos. Corpos inteiros, deitados no capim, enterrados até a metade, com as costelas para cima, umas por cima das outras, como se tivessem morrido em pilha. Uns tão velhos que tinham virado pedra cinza, rachada, com líquen amarelo crescendo em placas. Outros mais brancos. Mais lisos. Mais novos. Um, perto do meio da tarde, ainda tinha um pedaço de couro grudado num osso do ombro, escuro, duro como tábua, com escamas do tamanho de escudos ainda presas nele, azuladas, e o vento batia nelas e elas faziam um barulho de lata.

— Esse eu conheço — disse Brann, baixo. Parou na frente. Ficou olhando as escamas azuis. — Esse é parente do da Garganta.

Ninguém disse o nome. Lenz tinha morrido no vento de um bicho daquela cor.

Tor Dace, que tinha falado desde o portão de Última Luz sem parar, não falou mais nada pelo resto da tarde.


Os Talioth estavam entre as costelas como ovelhas entre as pedras de um muro.

Pastavam. Era isso que me deixou mais esquisito do que tudo. Eram bichos grandes, marrom-avermelhados, de lombo largo, com uma coroa de chifre achatado na cabeça, maiores que um boi, maiores que uma carroça, e pastavam o capim prateado na sombra dos ossos de deuses sem levantar a cabeça, do jeito que as ovelhas de Maren pastavam na beira do cemitério de Pedravento. Mastigando. Abanando o rabo. Um filhote dormia encostado num osso de perna do tamanho de uma torre, com a barriga para cima.

— Eles não têm medo — disse Mira.

— De quê? — disse Sila. — Os mortos não comem.

Eu contei os Talioth. Não consegui. Havia grupos de dez, de vinte, de cinquenta, espalhados pelo Planalto até onde a vista ia, aparecendo e sumindo entre as costelas. Centenas. Talvez mais. Comida para Última Luz por anos.

— E por que ninguém de Última Luz vem caçar aqui? — perguntei.

— Porque é dos Vashti — disse Nessa.

Ela estava em cima da Pena desde o degrau, porque o capim era fundo e a perna não aguentava o dia inteiro. Tinha o caderno aberto no colo e o carvão na mão. Não tinha desenhado nada ainda. Eu tinha visto ela pôr a ponta no papel cinco vezes, seis, e tirar.

— Os rebanhos são deles — continuou. — Eles pastoreiam. O Oren disse. Quem caça Talioth aqui sem pedir, os Vashti caçam.

— E quem caça os Vashti? — disse Brann.

Ninguém respondeu. Mas no fim da tarde a gente descobriu.


Foi Brasa quem sentiu o cheiro.

Ele parou de repente, no meio do capim, com o focinho para cima, e a mochila de cozinha bateu nas costas dele com o barulho das panelas. As orelhas giraram para a frente. O pelo do rabo ficou grosso.

— Fumaça — disse. — Velha. E carne. — O nariz dele se mexeu. — Carne que ninguém comeu.

Fomos atrás do nariz dele. Brann na frente, com o martelo na mão, não nas costas. Sila do lado, com uma flecha na corda. A Pena ficou nervosa, e Nessa desceu e a puxou pela rédea, falando baixinho com ela, a canção boba que eu tinha ensinado em Varnhal.

Era dentro de uma costela. Não de uma fileira, de uma só, grande, sozinha, caída de lado no capim como uma onda que congelou no meio. A curva dela fazia um teto, e embaixo do teto, protegido do vento, alguém tinha morado.

Tinha. O que sobrava era um círculo de pedras com cinza fria no meio. Uma parede baixa de capim trançado em volta, derrubada a pontapés. Peles de Talioth, cortadas, rasgadas, jogadas. Uma tigela de osso partida em dois. Um odre furado. E, perto da parede, deitados no capim, três Talioth.

Mortos. Não comidos. O que tinha matado eles não tinha fome.

Brann se agachou do lado do primeiro. A garganta tinha sido aberta de uma vez, de lado a lado, reto. Embaixo, na terra, uma poça preta e seca. O lombo tinha sido aberto também, e o pedaço do meio das costas, o melhor, o que Mãe Duna chamava de a parte de quem matou, tinha sido tirado. Limpo. O resto ficou para as moscas.

— Lâmina — disse Brann. — Não dente. Não garra. — Ele passou o polegar na borda do corte. — Faca boa. Larga. Afiada ontem.

— Os Vashti? — disse Tor.

— Vashti não mata o próprio rebanho para levar só o lombo. — Brann se levantou. — Isto é gente que estava com pressa. E que não precisava do resto.

Sila já estava no chão, longe, de cócoras, do lado da parede derrubada.

— Kest.

Eu fui.

Na terra solta, onde o capim tinha sido arrancado pelo pisoteio, havia pegadas. Muitas. Eu demorei para separar umas das outras. As primeiras eram fáceis: pés pequenos, descalços ou de sandália macia, e garras de três dedos, finas, leves, fundas na frente. Seikret. Muitos Seikrets. E os pés pequenos indo para os Seikrets, depressa, e as garras indo embora, para o norte, longe, espalhadas, correndo.

— Os pastores fugiram — eu disse. — Montaram e foram. Todos. Não tem nenhuma pegada voltando.

— E as outras?

As outras eram de bota.

Bota pesada, de sola grossa, de gente grande. Dez. Talvez doze. Eu contei pelos calcanhares, que eram mais fundos. E, na sola, no meio da marca, uma coisa que eu nunca tinha visto em bota de pastor, nem de caçador da Guilda, nem de ninguém de Última Luz. Pontinhos. Fileiras de pontinhos, fundos, redondos, iguais, em volta da borda da sola e em cruz no meio.

— Cravos — disse Brann, atrás de mim. Ele tinha se agachado também. A voz dele estava diferente. — Cravo de ferro na sola. Para não escorregar em pedra. Para marchar.

— Quem usa isso?

Brann demorou a responder. Ficou olhando as fileiras de pontinhos. Depois olhou para o norte, para onde as pegadas de bota iam, em linha, juntas, sem pressa, sem se espalhar como as dos Seikrets. Em fila. Para os morros que se levantavam no fim do Planalto, cinzentos, altos, com neve no alto, onde o anel das Coroas começava a subir de novo.

— Soldado — disse.

E não disse mais nada.

— Os Picos — disse Nessa. Ela estava com o caderno aberto, enfim, e o carvão estava se mexendo. Não desenhava as costelas. Desenhava as pegadas. Uma sola, com os pontinhos, em tamanho de verdade. — As pegadas vão para os Picos.

— Lá mora quem? — disse Mira.

— O Oren não disse. — Nessa não levantou os olhos. — Disse que os Vashti acham a gente. Que a questão é o que acha a gente primeiro.

Ninguém disse nada por um tempo.

Depois Brann pôs o martelo nas costas.

— Hoje a gente dorme longe daqui — disse. — E ninguém fala alto.


Dormimos na sombra de um crânio.

Não foi escolha. Foi o que tinha. O sol desceu muito depressa no Planalto, depressa como uma pedra caindo num poço, e o vento ficou gelado de um instante para o outro, e Brann disse que precisávamos de alguma coisa entre nós e o vento, e a coisa mais perto era aquela.

Era um crânio. Disso eu tinha certeza, porque tinha órbitas. Duas. Do tamanho da porta do Salão Comprido cada uma, viradas para o céu. O resto eu não sabia. Era comprido, achatado, como a cabeça de um lagarto, mas na testa, no lugar onde a cabeça de um lagarto termina, ele continuava, subia, abria-se numa coroa de pontas, de chifres, de lâminas de osso em leque, como os raios do sol que as crianças desenham, como uma mão aberta. Cada lâmina mais alta que Brann. E os dentes. Na boca entreaberta, enterrada no capim até a metade, os dentes eram fileiras. Não uma. Fileiras, umas atrás das outras, como as de um tubarão que eu tinha visto num livro em Três Pontes, só que cada dente do tamanho do meu braço.

— O que é isso? — perguntou Tor. Baixo. Como quem pergunta numa igreja.

Brann ficou olhando. Muito tempo. Eu já tinha visto Brann sem resposta. Mas nunca tinha visto Brann olhar para um bicho, vivo ou morto, e não saber o nome.

— Não sei — disse ele. — Eu cacei vinte e oito anos. Eu vi Ancião. Eu vi os desenhos da Guilda, os bons e os falsos. — Ele balançou a cabeça. — Não sei o que é isso, garoto. Ninguém sabe. Morreu antes de ter nome.

Nessa desenhou o crânio naquela noite, ao último resto de luz. Não falou nada. Desenhava depressa, sem tirar o carvão do papel, as órbitas, a coroa de lâminas, as fileiras de dentes, e eu vi que a mão dela tremia, e que ela não parava por causa disso, e que o desenho era o mais bonito que eu já tinha visto ela fazer. Quando a luz acabou, ela fechou o caderno e ficou abraçada nele, sentada encostada no osso, olhando para as órbitas vazias contra as estrelas.

Brasa fez a comida sem fogo, na folha cinza. Ninguém comeu muito.

Eu me deitei de cara no capim, como sempre. A terra do Planalto era fina, fria, cheirava a raiz.

E a coisa lá embaixo batia.

Longe. Mais longe do que no Cinzal. Do outro lado do vale, como um sino do outro lado de um morro. Mas, entre as batidas dela, havia outra coisa. Uma coisa que eu nunca tinha sentido antes, nem na fenda, nem na Porta, nem no paredão.

Silêncio. Um silêncio cheio. Como numa casa onde muita gente dormiu e acordou e foi embora, e as camas ainda estão quentes. Vinha de todo lado. Das costelas, do crânio, do capim, da terra. Não batia. Não fazia nada. Só estava ali, imenso, deitado, quieto, como os ossos.

Como se o Planalto inteiro fosse um quarto onde alguém tinha acabado de parar de respirar.

Eu não dormi muito.


Quem acordou primeiro foi a Pena.

Antes do sol. Antes de clarear. Eu senti ela se levantar do meu lado, no escuro, e ouvi a crista dela se arrepiar, aquele barulho seco de pena contra pena que ela fazia no estábulo de Varnhal quando eu a conheci. Ela estava olhando para o norte. Para o céu.

Eu olhei também. Não vi nada. Só estrelas, e o recorte preto das costelas contra elas.

Depois uma das estrelas sumiu. E voltou. E outra sumiu, mais adiante, e voltou. Como se alguma coisa muito grande estivesse passando entre a gente e elas. Alto. Devagar. Sem barulho nenhum.

E então, longe, para o norte, para onde os Talioth dormiam entre as costelas, um rugido.

Não de Ancião. Eu já conhecia o rugido de Ancião, na Garganta, o que entra nos ossos e fica. Este era outro. Mais agudo. Mais curto. De bicho que caça. E depois dele, o barulho de muitos cascos de uma vez, como trovão rolando no chão, indo embora, longe, e um berro de Talioth que foi cortado no meio.

Brann já estava sentado, com o martelo no colo.

— Rathalos — disse. Baixo. — Caçando no escuro. — Ele olhou para o norte, onde o trovão de cascos ia sumindo. — Hoje ele já comeu. Amanhã, a gente vê.

Ninguém dormiu mais.


Quando clareou, eu fui até a testa do crânio.

Não sei por quê. Ou sei. Tinha passado a noite inteira deitado do lado dele, ouvindo aquele silêncio cheio, e queria ver de perto a coroa de lâminas na luz. Subi pelo osso do focinho, que estava enterrado no capim como uma rampa, e fui andando por cima, devagar, de mão no osso, até o lugar onde a testa subia para a coroa.

Ali o osso era liso. Não poroso como o resto. Liso, polido, como se muitas mãos tivessem passado por ele, por muito tempo. Liso como a pedra da Porta Sepultada.

E, no meio da testa, entre as duas órbitas, no ponto onde a coroa começava a se abrir, havia um entalhe.

Pequeno. Do tamanho da minha mão aberta. Fundo, de bordas gastas, mais velho que qualquer coisa que eu tinha visto feita por mão de gente. Uma linha que começava no meio e girava para fora.

Uma volta. Duas. Três, apertadas.

A quarta, larga. Aberta. Para o lado esquerdo.

E, saindo dela, traços. Retos. Como os raios de uma roda.

Eu não precisei contar. Contei assim mesmo, com o dedo, sem encostar, um por um, como Nessa lia, como eu tinha contado os traços no papel da carta em todas as noites de três invernos.

Onze. E o sexto um pouco mais comprido que os outros.

Atrás de mim, lá embaixo, ouvi a voz de Nessa me chamando. Ouvi Brann. Ouvi a Pena trinar. Não respondi.

Fiquei ajoelhado na testa de um deus sem nome, com o dedo parado a um fio da espiral do meu pai.

A inteira. Com as quatro voltas.

A que ele não tinha conseguido terminar.

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