Capítulo 8

Treino de Sangue

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Brann me disse, muito tempo depois, que todo treino da Guilda tem um momento em que alguém descobre que não é treino.

Naquela manhã, esse alguém fui eu. E quase fui o último.


O pátio de treino não ficava dentro do posto. Ficava embaixo dele, ao pé do penhasco, numa baixada de capim duro e pedra solta onde a água do degelo das serras escorria e se juntava num charco comprido, raso, cercado de juncos. Os soldados da guarnição chamavam aquilo de Charco das Rãs. Eu entendi o nome antes de ver o charco. Dava para ouvir do alto da trilha: um coaxar grosso, contínuo, de milhares de gargantas, como uma panela enorme fervendo devagar.

Descemos em fila pela trilha de pedra, caçadores e montarias na frente, carregadores atrás, com os alvos de palha e os fardos de couro nas costas. Pena veio grudada no meu ombro esquerdo o caminho inteiro, com a crista eriçada, olhando para o precipício como se ele fosse pular nela. Eu também olhava para ele. Não comentei.

— Chefe — disse Brasa, empoleirado na sela dela —, você está verde.

— É a luz.

— Não tem luz. Está nublado.

Lá embaixo, Veyra Holt esperava na beira do capim, de braços cruzados, com a lança-pistola nas costas. Explicou o exercício em quatro frases. Cada dupla ia receber uma trilha: um couro de Aptonoth fresco, arrastado de manhã cedo pelos soldados por um caminho que só eles conheciam, com uma estaca pintada de vermelho no fim. Rastrear, achar a estaca, voltar. As duplas de caçadores iriam com carregadores de apoio, para aprender a andar junto. Quem se perdesse do parceiro voltava para o fim da fila e começava tudo de novo.

— Primeira regra — disse ela. — Lembram?

— Ninguém anda sozinho — respondeu o campo inteiro, meio desafinado.

— Nem para mijar — acrescentou Brann, e alguém riu.

Veyra não riu. Leu as duplas de um papel. Os Dace um com o outro, óbvio. Tami com um designado emburrado. E, sem mudar o tom, sem levantar os olhos:

— Kest com Varn.

O capim inteiro virou a cabeça para mim. Depois para a fileira dos condenados, onde um soldado tirava as correntes dos pulsos de Sila Varn com uma chave comprida e um cuidado de quem desarma uma armadilha.

Sila esfregou os pulsos. Pegou o arco que outro soldado lhe estendia, um arco curvo de chifre e madeira escura, mais alto que ela, e a aljava. Pôs a aljava no ombro. Depois me olhou, atravessando o campo com os olhos, e sorriu. Foi a primeira vez que a vi sorrir. Não melhorou em nada.

— Comandante — disse um soldado, baixo —, a condenada com um voluntário...

— Ela não vai fugir — disse Veyra. — Não tem para onde. — Os olhos dela, o claro e o escuro, pararam em mim por um instante. — E ele precisa aprender a andar do lado de gente perigosa.

Entendi o recado. Acho que o campo inteiro entendeu.


A nossa trilha começava num marco de pedra do lado leste do charco. Os carregadores de apoio eram dois: uma moça magra, de uns dezesseis anos, com o cabelo trançado e as mãos cheias de calos, que se chamava Dita, e um homem mais velho que não disse o nome e não precisou, porque estava claro que ele só queria que aquilo acabasse. A Cabo Jessa Marn, uma mulher atarracada de voz de trovão que comandava os carregadores, tinha nos entregado os dois com uma frase só: "Devolvam inteiros."

— Vai na frente, pastor — disse Sila, com o arco apoiado no ombro. — Dizem que você é bom nisso.

Fui.

Era a única coisa em que eu era bom. O capim duro guarda o caminho: fica deitado para o lado em que foi empurrado, com a parte de baixo das folhas, mais clara, virada para cima. Onde o chão era pedra, havia o cheiro de sangue velho de Aptonoth. Onde o soldado tinha tentado enganar, dando uma volta por umas lajes, ficou um pedaço de pelo preso numa urze. Achei. Mostrei. Sila não disse nada, mas também não disse que eu era inútil, e isso, vindo dela, eu contei como um elogio.

Pena andava atrás de mim, colada. Brasa ia na sela dela, farejando o ar e comentando tudo.

— Cheiro de sapo — disse ele. — Coxa de sapo na manteiga, com alho...

— Brasa.

— Estou só dizendo.

A trilha contornava o charco pela margem norte, entre os juncos e o pé do penhasco. E foi ali, a uns trinta passos da água, que eu parei.

— Que foi? — disse Sila, atrás de mim.

Não respondi logo. Estava olhando para o chão.

O capim deitado do couro seguia em frente, na direção de uma pedra grande onde, lá longe, dava para ver a ponta vermelha da estaca. Mas, atravessando aquela linha, de través, vindo da água e voltando para ela, havia outra coisa. Uma faixa larga, da largura de uma carroça, onde o capim não estava deitado. Estava esmagado. Moído contra a terra, e a terra embaixo, afundada. E, nas duas bordas da faixa, a espaços regulares, marcas redondas, fundas, do tamanho de uma roda de carroça, com quatro sulcos grossos na frente. Nós de dedos. Alguma coisa andava apoiada nos nós dos dedos, como um homem de quatro que fecha as mãos.

E entre as marcas, na terra mole, lascas de pedra. Pedra quebrada, fresca, com as arestas ainda brancas, espalhada como se alguém tivesse andado batendo pedra em pedra.

Me agachei. A água que tinha escorrido para dentro de uma das marcas ainda estava turva.

— Sila — eu disse, e foi a primeira vez que usei o nome dela. — Os sapos pararam.

Ela ficou quieta. E aí também ouviu. Ou melhor, não ouviu. O coaxar que tinha nos acompanhado desde o alto do penhasco tinha acabado. Não diminuído. Acabado. Na margem norte do Charco das Rãs não havia mais uma rã fazendo barulho. Só o vento nos juncos.

— Tem alguma coisa grande na água — falei. — Grande mesmo. Passou por aqui faz menos de uma hora. Anda de quatro, apoiada nas mãos fechadas. E carrega pedra. — Levantei a cabeça. — Precisamos avisar a Comandante.

Sila olhou para as marcas. Olhou para a água parada. Olhou para a estaca vermelha, lá na frente, a menos de cem passos.

— A estaca está ali — disse ela.

— Sila...

— A gente pega a estaca e volta. Você vai chorando para a Comandante no caminho. — Ela encaixou uma flecha na corda, sem pressa. — Se tiver alguma coisa na água, eu atiro nela. É para isso que eu sirvo. Descartável.

Olhei para Dita, a carregadora. Ela olhava para a água com os olhos muito abertos e as mãos apertadas nas alças do fardo. O homem mais velho já tinha recuado dois passos.

Eu devia ter insistido. Devia ter mandado os dois voltarem. Mas eu tinha dezenove anos, e estava ao lado de Sila Varn, e ela tinha acabado de me olhar como se eu fosse o que sempre tinha me achado: um pastor medroso fantasiado de caçador.

Andei.


Chegamos à pedra grande. A estaca estava lá, enfiada na terra, com a ponta pintada. Sila a arrancou e a jogou para mim.

— Pronto, pastor. Ninguém morreu.

Foi quando a água do charco se levantou.

Não é jeito de dizer. Foi o que eu vi. A superfície parada, cinzenta, a uns vinte passos da pedra, inchou para cima como um pão no forno, e a água escorreu dos lados de uma coisa marrom-esverdeada, lisa, enorme, que continuou subindo, subindo, e virou uma cabeça. Uma cabeça larga e achatada, mais larga que uma carroça, com a boca rasgada de um lado ao outro, como a de uma rã do tamanho de uma casa. Os olhos ficavam em cima, saltados, amarelos, com uma pupila horizontal que me lembrou os bodes de Pedravento. A pele brilhava de lodo. E embaixo da cabeça vieram os braços.

Eram curtos, grossos, e estavam cobertos de pedra.

Não de escamas. De pedra. Lascas, lajes, seixos inteiros, cinzentos e marrons, grudados nos antebraços numa crosta irregular, como um par de luvas de pedreiro feitas por um louco. A coisa pôs as duas mãos fechadas na margem, apoiada nos nós dos dedos exatamente como as marcas tinham me dito, e se puxou para fora da água. O chão tremeu embaixo das minhas botas.

— Chatacabra — disse Sila, bem baixo. E, pela primeira vez, a voz dela não estava debochando de nada.

A boca do bicho se abriu. Lá de dentro saiu a língua.

Nunca vou esquecer a língua. Era rosa-acinzentada, grossa como a minha coxa, e comprida, muito mais comprida do que cabia naquela boca, e saiu disparada, com um estalo úmido, até uma laje de pedra na margem. Grudou nela. Arrancou-a do chão como quem arranca um dente. Recolheu-a. E o Chatacabra, com um movimento quase delicado, esfregou a laje no antebraço direito, onde ela ficou presa, colada com uma baba branca e grossa, mais uma camada na luva de pedra.

Estava se armando. Na nossa frente. Sem pressa.

Foi aí que eu percebi o que estava errado nele. Estava magro. Magro demais. Dava para ver as costelas marcadas debaixo da pele lisa dos flancos, e a pele em volta delas estava seca, rachada, cheia de feridas velhas. E no dorso, do pescoço até o meio das costas, havia uma faixa larga onde a pele tinha outra cor, esbranquiçada, repuxada, brilhante. Eu tinha visto aquela cor no dia anterior. No rosto de Veyra Holt.

— Recuem — disse Sila. — Devagar. Carregadores primeiro.

O homem mais velho não esperou o devagar. Virou e correu. E o Chatacabra, que talvez não tivesse se importado com gente parada, viu alguma coisa correr e fez o que todo bicho faz.

Veio atrás.


O que aconteceu depois eu só consegui pôr em ordem muito tempo mais tarde. Na hora, foi tudo junto.

O bicho se lançou para a frente, apoiado nos punhos de pedra, e cada vez que um punho batia no chão o chão pulava. Sila atirou. Eu vi a flecha sair, e depois outra, e depois outra, tão depressa que a mão dela parecia não voltar à aljava. A primeira entrou na borda da boca. A segunda, na pele fina logo abaixo do olho esquerdo. A terceira se partiu contra a pedra do braço. O Chatacabra sacudiu a cabeça, com um berro grosso, borbulhante, e desviou do homem que corria. Desviou para Sila.

E eu fiz a coisa mais estúpida da minha vida até então.

Puxei a espada, levantei o escudo do Tadeu e corri para a frente. Acho que não pensava nada. A parte de mim que ainda era pastor tinha visto um bicho enorme ir para cima de alguém e mandou o corpo se pôr no meio, como a gente se põe entre o Aptonoth nervoso e a criança. Corri gritando. Corri, sem perceber, bem para dentro da linha entre a Sila e o monstro.

— SAI DA FRENTE! — ouvi atrás de mim.

Tarde. A flecha seguinte dela não saiu, porque eu estava onde a flecha ia passar. E o Chatacabra, que tinha parado um instante, confuso, com duas coisas vindo de lugares diferentes, escolheu a que estava mais perto.

O punho de pedra veio de lado.

Eu levantei o escudo. Foi a única coisa certa que fiz naquela manhã, e foi reflexo, não mérito. O golpe pegou em cheio. Senti o braço inteiro, do pulso até o ombro, virar água. Ouvi o metal do escudo do Tadeu gritar, um som que eu não sabia que escudo fazia. E depois não ouvi nada, porque estava no ar, e depois estava no chão, rolando no capim, sem ar nos pulmões, com o céu cinzento girando em cima de mim.

Consegui virar a cabeça. O escudo estava no meu braço ainda, com uma depressão funda no meio, do tamanho de uma cabeça. O braço esquerdo não respondia direito. A espada tinha sumido.

E o Chatacabra não estava olhando para mim.

A língua saiu outra vez, com o mesmo estalo úmido. Não foi para uma pedra. Foi para Dita.


Ela estava parada onde tinha ficado, perto da pedra grande, com o fardo nas costas, paralisada, do jeito que a Teimosa ficava paralisada na borda da Cabeça-de-Boi. A língua a pegou pela cintura, por cima do fardo, e grudou. E começou a puxar.

Dita não gritou. Acho que não conseguiu. Só caiu sentada e começou a ser arrastada pelo capim, de costas, na direção da boca aberta, com as mãos arranhando a terra.

Eu não me lembro de me levantar. Lembro de estar correndo, com o braço esquerdo pendurado e o escudo batendo na perna. Lembro de me jogar no chão e agarrar as pernas dela pelos tornozelos. Os pés dela chutaram meu rosto e eu não soltei.

Eu tinha feito aquilo a vida inteira. Não com gente. Com bezerro. Todo pastor de Pedravento já tirou bezerro atolado do brejo na época das chuvas, e todo pastor sabe que a regra é uma só: não se puxa com os braços. Os braços cansam. Puxa-se com as costas e com os calcanhares, cravando os calcanhares na terra e se jogando para trás, e deixando o peso do corpo fazer a força.

Cravei os calcanhares. Me joguei para trás. E a língua do Chatacabra parou.

Foi só um instante. A língua era mais forte do que eu, muito mais forte. Mas era um instante em que a coisa tinha de puxar duas pessoas em vez de uma, e o bicho, que estava faminto e magro e cansado, sacudiu a cabeça, irritado, sem entender por que a comida não vinha.

— BRASA! — gritei, sem saber por quê.

E Brasa veio.

Veio pela lateral, correndo nas quatro patas, com o avental voando e o cutelo de cozinha na boca, e pulou. Pulou em cima da língua, esticada no ar como uma corda de varal, cravou as garras nela e, com o cutelo agora na mão, começou a cortar. Não golpes. Cortes. Rápidos, curtos, precisos, um atrás do outro, do jeito que devia desossar galinha na cozinha do Sapo Gordo.

O Chatacabra berrou. A língua se soltou de Dita de uma vez, e eu caí para trás com ela em cima de mim, e Brasa foi arremessado no ar, girando, e caiu no capim, e rolou, e ficou de pé, e cuspiu, e gritou:

— TEM GOSTO DE PÉ!

O monstro recolheu a língua sangrando. Olhou para nós. E dessa vez não havia confusão nenhuma naqueles olhos amarelos. Levantou o punho direito, a luva de pedra inteira, a laje nova ainda brilhando de baba, bem acima da minha cabeça e da cabeça de Dita.

Eu pensei, com uma calma estranha, que pelo menos a Nessa não ia precisar escrever meu nome, porque ainda não tinha começado a escrever os nomes.

E então ouvi a risada.


Era uma gargalhada enorme, rouca, de taverna, que veio da minha direita e cresceu tão depressa que parecia estar correndo. E estava. Brann Kovač atravessou o capim a toda velocidade, com uma leveza impossível para um homem daquele tamanho, com Dona Berta, o martelo, arrastando atrás dele e riscando o chão. Rindo. Rindo como se alguém tivesse contado a melhor piada do mundo.

No último passo, girou o corpo inteiro. O martelo subiu num arco largo, de baixo para cima, e encontrou o punho de pedra do Chatacabra no meio do caminho.

O som foi de pedreira. A luva de pedra explodiu em pedaços. Lascas voaram por cima da minha cabeça, choveram no charco. O braço do bicho foi jogado para trás e para cima, e o Chatacabra inteiro cambaleou, com a barriga pálida exposta, os olhos saltados de surpresa.

Brann não parou. Aproveitou o giro, deixou o peso do martelo dar mais uma volta em torno do próprio corpo e desceu Dona Berta, com as duas mãos, em cheio no topo da cabeça larga e achatada, entre os olhos.

O Chatacabra caiu. Caiu de queixo, de uma vez, com um baque que fez a água do charco subir em ondas e bater nos juncos. As pernas de trás chutaram duas vezes. Depois uma. Depois pararam.

Brann ficou de pé ao lado da cabeça dele, ofegando, com o martelo apoiado no ombro. Olhou para o monstro. Olhou para mim, caído de costas com uma carregadora de dezesseis anos em cima. E soltou mais uma gargalhada, curta, que terminou numa tosse.

— Garoto — disse ele —, você é o pior espadachim que eu já vi na minha vida.

— Eu sei — consegui dizer.

— Largou a espada, entrou na frente da arqueira e ficou puxando uma moça pela perna igual bezerro do atoleiro. Foi a coisa mais burra que eu vi em dez anos. E foi a única coisa que manteve essa menina fora da barriga do bicho.

Estendeu a mão. Eu a peguei com a direita, porque a esquerda ainda não era minha, e ele me levantou como se eu não pesasse nada.

— Amanhã. Cinco da manhã. No pátio. — Ele deu um tapinha no meu escudo amassado, e o escudo fez um barulho triste. — Vou te ensinar a cair. Depois, se você sobreviver, a segurar uma espada. Nessa ordem.


Dita não se machucou. Quer dizer, se machucou: tinha a cintura em carne viva onde a língua tinha grudado, a pele arrancada numa faixa larga, e um tornozelo torcido que talvez tenha sido culpa minha. Mas estava viva e estava inteira, e, quando a Cabo Marn chegou correndo com metade dos carregadores e a olhou de cima a baixo, a primeira coisa que Dita disse foi:

— Perdi o fardo.

A Cabo Marn olhou para ela. Olhou para mim. E riu. Uma risada de trovão, igual à voz.

— Devolveram inteira — disse ela. — Quase.

Sila Varn não riu. Esperou os outros se afastarem, com o arco na mão e a aljava quase vazia, e parou do meu lado enquanto um soldado examinava meu braço. Não olhou para mim. Olhava para o Chatacabra morto.

— Você entrou na minha linha — disse.

— Eu sei.

— Eu tinha o olho dele. A quarta flecha ia no olho. — Ela falou baixo, sem raiva, e aquilo foi pior do que se tivesse raiva. — Da próxima vez que você entrar na minha linha, pastor, eu atiro através de você.

Pensei em responder. Não achei nada que prestasse.

Ela se virou para ir. Deu dois passos. E parou, de costas.

— Os sapos — disse, sem se virar. — Você ouviu os sapos antes de mim.

E foi embora.

Lá no fim do campo, os Gêmeos Dace já tinham tirado a ardósia do bolso.


O doutor Crane chegou quando o sol já estava alto, com Pell atrás, carregando duas caixas desta vez.

Desceu a trilha no passo de quem sai para um passeio, com o caderno aberto, e ficou muito tempo parado diante do Chatacabra, sem dizer nada. Depois se agachou junto do dorso do bicho, junto da faixa de pele esbranquiçada e repuxada, e passou os dedos nela, devagar, quase com carinho.

— Queimadura de frio — disse, para ninguém. — Antiga. Muito antiga para esta estação. — Olhou para o penhasco, para o norte, para as serras. — Este animal não é daqui, Pell. Chatacabras não sobem tanto. Ele desceu de algum lugar. Fugindo de alguma coisa.

— De quê, doutor? — perguntou Pell, baixinho.

Crane não respondeu. Tirou do bolso do casaco uma lâmina pequena, curva, de cabo de osso, e cortou um pedaço da pele queimada, um quadrado do tamanho de uma mão. Guardou num frasco. Pell anotou alguma coisa, com a mão tremendo.

Depois Crane se levantou, limpou a lâmina num lenço branco e veio até mim. Eu estava sentado numa pedra, com o braço esquerdo enfaixado junto ao corpo e Pena encostada nas minhas costas, trinando baixinho sem parar, como fazia desde que tinha voltado de trás dos juncos, onde se escondera durante a luta toda.

— Senhor Kest — disse Crane, gentil. — Disseram-me que foi o senhor quem percebeu o animal antes de todos.

— Foram os sapos, doutor. Pararam de coaxar.

— Ah. Os sapos. — Ele sorriu, e escreveu alguma coisa no caderno. Uma linha curta. — Só os sapos? Não ouviu mais nada? Nenhum... outro som?

Olhei para ele. Não entendi a pergunta. Até hoje, quando lembro daquele dia, é essa pergunta que eu lembro primeiro, mais do que a língua, mais do que o punho de pedra, mais do que a gargalhada de Brann. Porque naquela manhã eu não entendi. E ele sabia que eu não ia entender.

— Não, senhor — respondi. — Só os sapos.

— Claro. — Ele fechou o caderno. — Claro que não. Cuide desse braço, senhor Kest. Vamos precisar de todos os braços.

E foi embora, com Pell atrás, e o frasco de pele queimada balançando no bolso do casaco.


Não dormi bem naquela noite também. O braço latejava, e as costelas do lado esquerdo doíam cada vez que eu respirava fundo, e toda vez que fechava os olhos via a língua saindo da boca, rosa-acinzentada, com o estalo úmido.

Acendi um toco de vela no alojamento e tentei escrever para a Maren. Era o último correio. Tinha passado o dia pensando no que dizer: que eu estava bem, que tinha uma Seikret chamada Pena e um Palico que cozinhava, que tinha amassado o escudo do Tadeu mas que ele tinha salvado a minha vida, que eu ia devolver, que eu ia devolver tudo.

Escrevi Maren. Escrevi eu estou bem. E fiquei olhando para aquelas três palavras sem conseguir escrever a quarta, porque a quarta seria mentira, ou seria verdade demais.

Ainda estava olhando para elas quando o sino tocou.

Não era hora de sino. Era quase meia-noite. Tocou três vezes, depois mais três, e, antes de o terceiro grupo terminar, a porta do alojamento se abriu, e o cabo de voz rouca, o da panela, enfiou a cabeça para dentro.

— De pé! Todo mundo de pé! Ordem da Comandante! — Ele bateu a colher na panela, uma vez só. — Os ventos abriram. Partimos ao amanhecer.

Olhei para a carta. Maren, eu estou bem. Dobrei o papel em quatro, do jeito que estava, e o guardei no bolso de dentro do casaco, do lado da carta do meu pai.

Nunca cheguei a mandar.

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