Capítulo 9
Acima das Nuvens
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A primeira coisa que aprendi no Andorinha-Cinza foi que o chão de um dirigível respira.
Não balança, como barco. Eu nunca tinha andado de barco, mas Tami tinha, a vida inteira, e foi ela quem me explicou, com a cara de quem explica para uma criança, que barco balança de um lado para o outro, e isso a gente aguenta. O chão do Andorinha-Cinza fazia outra coisa. Subia um pouco. Parava. Descia um pouco. Parava. Devagar, sempre, sem ritmo certo, como o peito de um bicho enorme dormindo. E cada vez que descia, meu estômago ficava lá em cima, no lugar onde o chão tinha estado.
— Você está segurando a amurada — disse Tami.
— Não estou.
— Está, sim. Com as duas mãos. Com o braço machucado, inclusive.
Olhei para baixo. Ela tinha razão. Os meus dedos estavam brancos em volta da madeira, e o braço esquerdo, que ainda doía do soco do Chatacabra, tremia dentro da faixa. Não me lembrava de ter segurado. Não conseguia soltar.
Tínhamos subido com o sol. As amarras tinham sido soltas uma por uma, com gritos da tripulação que eu não entendia, e o posto de Varnhal, as torres, as muralhas de pedra negra, o Charco das Rãs lá embaixo, tudo tinha começado a ficar pequeno, e depois menor, e depois virou um desenho, e depois virou nada. Agora, horas depois, não havia mais nada embaixo de nós além de uma planície marrom e enrugada, cortada de rios finos como fios de linha, e, entre ela e nós, retalhos de nuvem branca passando devagar.
Não olhei para baixo. Tinha aprendido na primeira hora que era melhor não olhar para baixo. Olhava para a frente, para o norte, onde o céu era de um cinza mais escuro, e tentava pensar em ovelhas.
— Um para quatro — disse uma voz alegre atrás de mim.
Era Mira Dace, com a ardósia na mão. Tor vinha do lado dela, com um toco de giz.
— O quê?
— Você. Para vomitar primeiro. — Mira mostrou a ardósia. Havia uma lista de nomes, e o meu estava em cima, sublinhado duas vezes. — Estava um para dois, mas faz três horas que você está com essa cara e não vomitou. A tripulação está impressionada. Tem gente perdendo dinheiro.
— Quem está em segundo?
Tor apontou com o giz, sem dizer nada, para o outro lado do convés.
O velho Custódio estava debruçado na amurada, com a cabeça para fora, fazendo um barulho que não deixava dúvida nenhuma.
— Ah — disse Mira, e olhou para a ardósia. — Bom. Isso resolve.
— Resolve para quem? — perguntou Tami.
— Para o Custódio — disse Tor. E, pela primeira vez desde que eu o conhecia, sem sorrir: — Ele apostou nele mesmo.
O Brann cumpriu a promessa. Não às cinco da manhã, porque às cinco da manhã estávamos todos carregando caixotes para dentro da gôndola sob os gritos da Cabo Marn, mas no começo da tarde, no porão.
O porão do Andorinha-Cinza era o lugar mais escuro, mais quente e mais fedorento em que eu já tinha estado, e olha que eu cresci dormindo em curral de Aptonoth no inverno. Era comprido e baixo, de madeira, sem janelas, e dentro dele, apertados entre os caixotes, os barris e as armas, estavam os Seikrets da expedição. Todos. Presos em baias estreitas, feitas de corda e tábua, cabeça com cabeça, com o cheiro de pena, esterco e medo subindo em ondas.
Pena estava na última baia, no fundo, como sempre. Quando me viu descer a escada, soltou um trinado tão alto que três tratadores se viraram. Tinha arrancado metade das penas brancas da crista de novo.
— Eu sei — disse eu, encostando a testa no bico dela. — Eu também não gosto.
— Kest! — Brann estava no meio do corredor do porão, num espaço vazio onde alguém tinha espalhado palha. Sem armadura, só de camisa, com as mangas arregaçadas e a caneca de latão no cinto. — Vem cá. Deixa a galinha.
— Ela não é galinha.
— Todo mundo que monta Seikret diz isso. Vem cá.
Fui. Ele me olhou de cima a baixo, demorou no braço enfaixado e fez uma careta.
— Melhor assim — disse.
— Melhor como?
— Com um braço só você não tem como se segurar. Vai ter que aprender a cair direito. — E, sem aviso nenhum, ele me empurrou.
Caí de costas na palha como um saco de batatas. O ar saiu de uma vez. O braço machucado bateu no chão e eu vi estrelas.
— Errado — disse Brann, lá em cima. — De novo.
Passamos a tarde nisso. Ele me empurrava. Eu caía. Ele dizia "errado". Aos poucos, com a paciência de quem ensina um bezerro a mamar, ele foi me mostrando: queixo no peito, para a nuca não bater. O ombro bom primeiro, nunca o cotovelo. Rolar, não parar. Deixar o chão levar o peso, em vez de brigar com ele. "O chão é mais forte que você, garoto. Sempre vai ser. Você não briga com ele. Você faz amizade."
Na vigésima vez, rolei. Não foi bonito. Mas rolei, e fiquei de pé do outro lado, e o braço não bateu.
Brann bebeu um gole da caneca.
— Aí — disse. — Isso é a primeira coisa que salva a vida de um caçador. Não é a espada. Não é a armadura. É saber cair e levantar mais depressa do que o bicho consegue virar. — Ele enxugou a boca. — A maioria dos garotos que eu vi morrer, morreu no chão. Caiu errado, ficou um segundo a mais deitado. Um segundo. É o que um Rathalos precisa.
Não perguntei quantos garotos ele tinha visto morrer. Pela cara dele, não queria que eu perguntasse.
Em vez disso, perguntei outra coisa:
— Por que o senhor me ajudou? Ontem.
— Porque você estava prestes a virar recheio de sapo.
— Mas por que o senhor está me ensinando?
Ele ficou me olhando um tempo. Depois olhou para a Pena, lá no fundo, que tinha parado de trinar e esticava o pescoço para nos ver.
— Porque você correu para o lado errado — disse ele. — Qualquer idiota corre do bicho. Você correu para ele, para puxar uma menina que você nem conhecia. É burro. Mas é o tipo de burrice que não se ensina. — Deu de ombros. — A parte da espada eu ensino. Essa outra, não.
E me empurrou de novo.
O jantar foi no convés de baixo, numa sala comprida com mesas presas ao chão por parafusos, e foi a primeira refeição decente que eu comi desde Pedravento. Não por causa do cozinheiro de bordo. Por causa do Brasa.
Ninguém sabia direito como tinha acontecido. A história que corria, e que o próprio Brasa contou pelo menos quatro vezes até o fim da noite, cada vez com mais detalhes, era que ele tinha ido à cozinha de bordo só para "dar uma olhada" e que o cozinheiro, um homem enorme e barbudo chamado Mestre Tobias, tinha posto na panela um peixe salgado sem tirar o sal primeiro. E que ele, Brasa, não podia deixar aquilo acontecer. Por uma questão de honra.
A parte que ninguém discutia era o final: Mestre Tobias sentado num banquinho no canto da cozinha, de braços cruzados, com cara de quem tinha perdido uma guerra, e Brasa em pé em cima de um caixote, com o cutelo numa mão e uma colher de pau na outra, dando ordens para dois ajudantes de cozinha que obedeciam sem entender por quê.
O ensopado de peixe estava bom. Estava muito bom. Brann repetiu três vezes. Os Dace brigaram pela última concha. Até Sila, sentada sozinha na ponta da mesa com um soldado de cada lado, comeu tudo e passou o pão no fundo da tigela, embora tenha feito isso olhando para a parede, como se a tigela não fosse dela.
— Tinha amor — disse Brasa, quando se sentou do meu lado, exausto, com o avental coberto de escamas. — Eu falei. Tudo precisa de amor. E de tirar o sal.
Não consegui dormir.
A gôndola tinha redes penduradas em fileiras no convés de baixo, uma em cima da outra, e cada vez que o Andorinha-Cinza respirava, as redes balançavam todas juntas, e eu sentia o estômago subir. Depois de uma hora olhando para a rede de cima, onde o Ruivo roncava, desisti e subi para o convés.
Era noite alta. O vento tinha diminuído, e o céu estava tão limpo e tão cheio de estrelas que doía olhar. Lá embaixo, onde deveria estar a terra, só havia escuro, um escuro sem fundo, e, muito longe, uma ou outra luzinha fraca de alguma vila perdida. Não olhei muito para lá.
Havia outra pessoa no convés. Na popa, sentada no chão, encostada num rolo de cordas, com uma lamparina pequena do lado e um caderno aberto no colo.
— Você também não dorme? — perguntou Nessa, sem levantar os olhos.
— As redes balançam.
— Tudo balança. — Ela bateu com a pena no chão, do lado dela. — Senta. Mas não olha para fora. Você fica verde.
Sentei. Com as costas contra a madeira da popa, de frente para o convés e não para o céu, dava quase para esquecer onde eu estava.
O caderno no colo dela era diferente dos outros. Maior, de capa de couro gasta, com as folhas grossas e amareladas. E, aberto nele, havia um desenho.
Era o anel. As Coroas Partidas, desenhadas a tinta com um cuidado que me deixou sem fala: cada pico, cada garganta, cada ravina, sombreados com linhas finíssimas, com os nomes escritos na letra redonda dela. A Garganta, ao sul. O Cinzal. Os Lagos. O Planalto dos Colossos, com um ponto de interrogação ao lado. Última Luz, marcada com três pontinhos vermelhos.
E, no centro, onde o mapa do salão de Varnhal tinha só madeira nua, havia coisa.
Não muita. Linhas a lápis, leves, que ela tinha começado e apagado e recomeçado. Um rio que talvez descesse dos Lagos. Uma mancha que talvez fosse floresta. Pedacinhos de frases escritas bem pequeno, com as fontes entre parênteses: "terra quente" (sobrev. 22ª), "cheiro de carne crua" (relat. 30ª), "o chão tem veias" (?? — 32ª, delírio?).
— Estou juntando tudo — disse ela, antes que eu perguntasse. — Todo relatório que a Guilda me deixou ler. Toda frase de sobrevivente. Todo nome. Tem trinta e duas expedições de gente que viu pedaços. Ninguém nunca juntou os pedaços.
— Por quê?
— Porque ninguém volta para juntar. — Ela passou o dedo, sem encostar, por cima do centro do desenho. — Os que voltam não querem falar. Os que ficam não mandam carta. E a Guilda lacra metade.
Pensei no nicho vazio. Na plaquinha arrancada. Ela devia estar pensando nele também, porque disse, mais baixo:
— Eu vou desenhar um novo. Para aquele nicho. Quando a gente voltar.
Quando. Não falei nada.
— Kest — disse ela, depois de um tempo. — Você é rastreador. Olha isso aqui. O que você acha?
Olhei. Não entendia de mapas. Mas entendia de terra. E uma coisa me chamou atenção, uma coisa tão simples que achei que ela já devia ter visto.
— Os rios — disse eu.
— Que rios?
— Todos os rios que você desenhou nas Coroas. — Apontei, sem encostar no papel. — Eles nascem em cima, nos picos. E descem para dentro. Nenhum desce para fora do anel. Nenhum. — Franzi a testa. — Em Pedravento, a água da serra desce para os dois lados. Sempre. Aqui é como se o vale inteiro fosse uma bacia. Tudo escorre para o meio.
Nessa ficou muito quieta. Olhou para o mapa. Contou os rios com a ponta da pena, um por um, movendo os lábios. Depois olhou para mim, por cima dos óculos, com uma expressão que eu nunca tinha visto em ninguém. Como se eu tivesse acendido uma lamparina dentro da cabeça dela.
— Para onde vai toda essa água? — sussurrou.
— Não sei.
— Ninguém sabe. — Ela já estava escrevendo, depressa, na margem. — Ninguém nunca perguntou.
Foi a segunda vez que ela me disse aquilo. Lembro de ter pensado que gostava do jeito como ela dizia.
Ficamos ali muito tempo. Ela desenhando, eu olhando. Em algum momento, ela fechou o caderno e ficou só segurando, com as duas mãos, em cima dos joelhos.
— Posso te pedir uma coisa? — disse.
— Pode.
— Se eu não voltar. — Ela falou depressa, como quem arranca um espinho. — Termina o mapa por mim.
— Nessa...
— Eu sei. Eu sei que é bobagem, que ninguém vai morrer, que... — Ela riu, sem graça. — Não, eu não sei. A Comandante fez a conta. Um em três. Eu sou coordenadora, eu fico atrás, eu fico nas tendas, mas... — Olhou para o caderno. — Alguém tem que deixar o mapa para os que vêm depois. Senão, a trigésima quarta vai entrar lá do mesmo jeito que a gente. Adivinhando.
Olhei para ela. Para os óculos tortos, para a mancha de tinta no dedo, para a lamparina fazendo uma luz amarela e pequena no rosto dela, no meio daquele escuro que não tinha fundo.
— Eu prometo — disse.
Não sei por que prometi tão fácil. Já estava carregando promessas demais: o escudo e a faca do Tadeu, o cachimbo da Maren, o círculo no Muro, a pedra no túmulo da minha mãe. Talvez tenha sido por isso. Quem já carrega muito não sente mais uma.
Ela sorriu. E, por um instante, encostou o ombro no meu. Só o ombro. Só um instante. Depois se levantou, pegou a lamparina e o caderno e disse boa noite, e desceu a escada, e eu fiquei sozinho na popa, com o ombro ainda quente, olhando para as estrelas que eu não queria olhar.
Muito tempo depois, eu ia terminar aquele mapa. Não do jeito que prometi.
Estava quase adormecendo ali mesmo, encostado nas cordas, quando ouvi passos.
Um velho da tripulação passou devagar pelo convés, com uma lanterna na mão, conferindo as amarras do balão uma por uma. Era o capitão. Eu o tinha visto de longe, na partida: um homem baixo, de uns setenta anos, com o rosto tão curtido de vento que parecia couro, e uma barba branca amarelada de fumo. Chamava-se Orsolo. A tripulação o chamava de velho, com respeito.
Parou do meu lado, olhou para mim, olhou para a minha cara, que devia ainda estar um pouco verde.
— Enjoo? — perguntou.
— Um pouco.
— Passa no terceiro dia. — Ele cuspiu por cima da amurada. — Ou não passa nunca.
Ia seguir em frente. Eu não planejei a pergunta. Nunca planejo.
— O senhor levou a vigésima sétima?
Ele parou.
— Levei todas desde a vigésima quarta — disse, depois de um tempo. — Esta é a décima de que me lembro. — Olhou para mim com mais atenção. — Por quê?
— Eu queria saber se o senhor se lembra de alguém. Um caçador. Kest.
O velho Orsolo ficou calado. A lanterna balançava na mão dele, e a sombra da barba subia e descia no rosto.
— Não guardo nomes, rapaz — disse, por fim. — Guardo quem enjoa. É mais útil. — Ele se virou para ir. Deu três passos. E parou, de costas, como Sila tinha parado no Charco das Rãs. — Mas lembro de um, naquela viagem. Não enjoava. Era o único. Passou as três noites deitado aqui, na proa, com o ouvido encostado na madeira do casco.
Meu coração deu um salto.
— Por quê?
— Perguntei. — Orsolo deu de ombros. — Disse que estava ouvindo. Perguntei o quê. Ele disse que o navio tinha um coração, e que o coração estava batendo errado. — O velho coçou a barba. — Madeira não tem coração, rapaz. Achei que era maluco. Os que vão para lá costumam ser.
— Como ele era?
— Já disse. Não guardo rostos. — E foi embora, conferindo as amarras, com a lanterna balançando, até sumir do outro lado do balão.
Fiquei sentado no escuro, com a mão espalmada na madeira do convés sem perceber. Não sentia nada. Madeira fria, vibrando um pouco com o vento. Só isso.
Não sabia se era ele. Podia ser qualquer um. Havia vinte e tantos homens na vigésima sétima.
Mas não tirei a mão da madeira por muito tempo.
Quando finalmente desci para as redes, quase de madrugada, esbarrei em alguém na escada.
Era Pell, o assistente de Crane. Estava subindo, de camisola e casaco por cima, descalço, com os óculos na mão e a cara de quem ia vomitar. Parou quando me viu. Pela luz fraca que vinha de cima, vi que ele me reconheceu. O rapaz que tinha perguntado da vigésima sétima.
— Desculpa — disse ele, depressa, e tentou passar.
— A caixa — disse eu, sem pensar. — A que você carregava no salão. Tinha um desenho raspado na tampa. Que desenho era?
Pell parou num degrau acima do meu. Pôs os óculos. Tirou. Pôs de novo.
— Caixas usadas — disse. — A Comissão reaproveita tudo. Vêm de outros departamentos, de outras... Eu não sei. Não reparei.
Estava mentindo. Mentia mal, como todo mundo que nunca precisou mentir. Mas não insisti. Tinha uma coisa na cara dele que não era só enjoo. Parecia alguém que não dormia havia muitos dias.
— Você está bem? — perguntei.
Ele riu. Um riso fino, cansado, que não tinha graça nenhuma.
— Eu? — Olhou para cima, para o convés, para o ar da noite, como quem precisa de ar. Depois olhou para baixo, para o corredor escuro das cabines, onde, na última porta, havia uma fresta de luz amarela embaixo. A luz da cabine do doutor Crane. — Eu estou ótimo. Quem não está bem é ele.
— Ele?
Pell baixou a voz até quase sumir.
— Ele não dorme, sabe? Desde Varnhal. Fica acordado a noite inteira, com a lamparina acesa, escrevendo. E fala. — Engoliu em seco. — Fala sozinho com a maleta. A de couro, a que ele não deixa ninguém tocar. Fala baixinho, com ela fechada no colo. E às vezes para, no meio de uma frase.
Ele olhou para a fresta de luz.
— Como se estivesse esperando ela responder.
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