Capítulo 13

O Cheiro de Ferro

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Diziam que a Garganta cheirava a ferro por causa do minério. Levei dois dias para entender que era sangue velho. O vento só não tinha terminado de secar.


Entramos com o sol.

Veyra Holt ficou de pé na boca da Garganta, ao lado de uma pedra com um número pintado em branco, e fez cada um de nós passar por ela. Um por um. Caçador, carregador, soldado, condenado, Seikret, carroça. Contava em voz baixa, sem pressa, movendo os lábios, e cada pessoa que passava ela olhava no rosto. Não dizia nada. Só olhava, como quem guarda.

Quando chegou a minha vez, passei com Pena pela rédea e Brasa na sela. Veyra olhou para mim. O olho claro e o escuro.

— Sessenta e um — disse ela, para ninguém. Depois, mais baixo, para mim: — Não olha para trás, Kest.

Não entendi na hora. Achei que fosse um conselho, desses que a gente dá. Só mais adiante, uns cem passos para dentro, quando a luz do Degrau já tinha ficado lá atrás e a fenda se fechava em volta de nós, eu vi os carregadores e entendi que era uma regra. Nenhum deles olhou para trás. Nenhum. Andavam de cabeça baixa, com os olhos na trilha, e quando um rapaz novo, um dos designados, virou o pescoço para ver a claridade do platô sumindo, o carregador do lado dele deu um tapa na nuca dele, sem dizer nada, e ele virou para a frente na hora.

— Quem olha para trás na entrada quer voltar — me explicou Dita, depois, mancando do meu lado com a bengala de cabo de vassoura. — E a Garganta percebe. E não deixa.

— Você acredita nisso?

Ela deu de ombros.

— Não olhei.


A Garganta não era como eu imaginava. Eu tinha imaginado uma trilha estreita de montanha, uma dessas passagens por onde os pastores de Pedravento levam o rebanho no verão, com o abismo de um lado e a pedra do outro. Não era. Era uma fenda. Uma rachadura na muralha das Coroas, como se as montanhas tivessem sido partidas por um machado do tamanho do céu. As paredes subiam retas dos dois lados, de pedra escura, lisa em uns lugares e lascada em outros, tão altas que o céu lá em cima virava uma faixa estreita e comprida, de um azul pálido e frio. A luz do sol só chegava ao fundo por uma hora, perto do meio-dia. O resto do tempo, a gente andava na sombra.

No começo era larga. Dava para duas carroças passarem lado a lado, e ainda sobrava espaço. O chão era de cascalho e pedra solta, com placas de gelo velho nos cantos onde o sol nunca batia, e um fio de água escorria pelo meio, entre as pedras, descendo. Para dentro. Pensei no mapa de Nessa e nos rios que corriam todos para o meio, e segui aquele fio de água com os olhos até ele sumir numa curva.

E fazia frio. Um frio que não era de inverno. Era de caverna. Úmido, parado, que entrava pelas costuras do casaco de pele de ovelha e ficava.

Mas o pior era o cheiro.

Tinha sentido no Degrau, na véspera, no vento que saíra da fenda. Ali dentro era mais forte. Não vinha em rajadas: estava em tudo. Nas paredes, no cascalho, na água, na própria respiração. Cheiro de ferro. Pesado, doce, metálico. Gruda no fundo da garganta e não sai, e depois de uma hora você sente o gosto dele na comida, na água do cantil, na saliva.

— Minério — disse um dos soldados, quando alguém reclamou. — As paredes são cheias de minério. Por isso a Guilda quer tanto o vale.

Ninguém discutiu. Parecia fazer sentido. As paredes tinham mesmo, aqui e ali, manchas avermelhadas, escorridas, como ferrugem. Eu mesmo acreditei.

Durante um dia.


As coisas começaram a aparecer lá pela metade da manhã.

A primeira foi uma bota. Uma bota de couro, sozinha, em pé, encostada numa pedra na beira da trilha, como se alguém a tivesse tirado para descansar o pé e se esquecido de voltar para buscar. O couro estava duro, rachado, esbranquiçado pelo tempo. Ninguém tocou nela. Os carregadores passaram por ela desviando os olhos, e vi a Cabo Marn, que ia na frente com os dela, jogar alguma coisa ao lado da bota ao passar. Uma pitada de sal, tirada de um saquinho pendurado no cinto.

Depois, veio mais. Muito mais. Uma roda de carroça, sem carroça, com os raios quebrados. Um pedaço de lona apodrecida, preso entre duas pedras, que o vento fazia bater como uma bandeira. Uma panela de ferro amassada. Uma lança partida no meio, com a ponta enferrujada até virar uma coisa vermelha e disforme. Um capacete de soldado, de um modelo que eu nunca tinha visto, com um furo do tamanho de um punho no alto.

Era como andar por um sótão onde alguém tinha guardado cento e quarenta anos de coisas perdidas.

— Vinte e três expedições que não voltaram — disse Brann, andando do meu lado, com Dona Berta nas costas e a caneca de latão batendo no cinto. — E todas passaram por aqui. Tudo o que caía, ficava. Tudo o que quebrava, ficava. Quem caía, ficava. — Chutou uma pedra. — Segunda regra da Comandante. A Garganta não devolve.

— E ninguém recolhe nada?

— Recolher para quê? Para levar para onde? — Ele sacudiu a cabeça. — Não, garoto. Aqui é um cemitério. Só que sem cova.

Vi os carregadores deixarem sal ao lado de cada coisa que passávamos. Uma pitada, sem parar de andar. Alguns tinham um fio vermelho amarrado no pulso, que tocavam com os dedos quando passavam por perto de alguma coisa maior: um esqueleto de Aptonoth, com as costelas espetadas para o céu como os dedos de uma mão; um amontoado de pedras que talvez tivesse um homem embaixo. Ninguém assobiava. Ninguém cantava. Quando um dos designados começou a cantarolar, distraído, uma música de taberna, três carregadores se viraram para ele ao mesmo tempo, e ele parou no meio da nota.

— Não se canta na Garganta — disse Dita, baixinho. — Ela escuta.

— Quem disse isso?

— Todo mundo que voltou.

Nessa, que andava do meu outro lado com o caderno aberto, anotando tudo o que passava, parou de escrever por um instante quando ouviu aquilo. Depois escreveu uma linha a mais. Espiei. Tinha escrito: "Não se canta — ela escuta" (superstição dos carregadores. Origem? Perguntar à Cabo Marn).

— Você anota tudo? — perguntei.

— Tudo. — Ela não levantou os olhos. — Não sei ainda o que vai ser importante. Então anoto tudo.


À tarde, a Garganta começou a subir.

Não muito. Uma rampa comprida, de cascalho, que fazia as carroças rangerem e os Seikrets bufarem. Custódio, que vinha andando desde a manhã sem reclamar, começou a ficar para trás. Tossia mais. Parava, com a mão na parede, e tossia até ficar vermelho, e o lenço que ele dobrava depressa já não conseguia esconder nada. Tami o ajudava de um lado. Eu fui para o outro.

— Não precisa — disse ele, entre uma tosse e outra. — Não precisa, rapaz. Vai para a frente.

— A primeira regra, Custódio. Ninguém anda sozinho.

Ele riu. Uma risada rouca, molhada, que terminou em tosse.

— Garoto, eu passei trinta e cinco anos numa mina de carvão. Trinta e cinco anos debaixo da terra, no escuro. Sabe o que eu aprendi? — Parou de novo, apoiado em mim. Os olhos dele eram pequenos, cinzentos, e lacrimejavam. — Que a terra tem um jeito de avisar quando vai desabar. Um estalo. Um cheiro. A água mudando de cor. Quem sabe ler, sai antes. Quem não sabe, fica.

— E o que ela está dizendo agora?

Custódio olhou para as paredes da Garganta. Para as manchas vermelhas escorridas. Cheirou o ar, fundo, e tossiu.

— Que isso aqui não é minério, rapaz. — Ele cuspiu no cascalho. — Eu conheço minério de ferro. Cheirei minério de ferro a vida inteira. Minério cheira a pedra molhada. — Pôs a mão na parede, bem em cima de uma das manchas, e a esfregou com o polegar. — Isso aqui cheira a outra coisa.

Não disse o quê. Voltou a andar.


Acampamos naquela noite num alargamento da fenda, onde uma parte da parede tinha desabado séculos antes e formado um pátio de pedra. Fogueiras pequenas. Guarda dobrada. Ninguém falou muito. A escuridão ali dentro era diferente de tudo o que eu conhecia: não havia estrela, porque a faixa de céu lá em cima era estreita demais, e não havia lua, e o fogo parecia pequeno demais contra aquelas paredes. O som também era estranho. Cada estalo da lenha voltava das paredes duas, três vezes, cada vez mais fraco, como se alguém lá em cima estivesse repetindo o que a gente fazia.

Pena não dormiu. Ficou de pé a noite inteira, do meu lado, com a crista eriçada, virando a cabeça para cima, para as paredes, para a escuridão. Eu cantarolei para ela, baixinho, a canção de parto dos pastores. E lembrei, no meio da canção, que não se cantava na Garganta.

Parei.

A Garganta ficou em silêncio. E eu tive a sensação, que nunca consegui explicar, de que ela estava esperando para ouvir o resto.


No segundo dia, vimos as pedras empilhadas.

Estavam na beira da trilha, a cada cem ou duzentos passos. Montinhos de pedras chatas, uma em cima da outra, da altura de um joelho, em equilíbrio. Marcos. Os pastores de Pedravento fazem igual nas trilhas da serra, para ninguém se perder na neblina. Não achei estranho, no começo. Qualquer expedição podia ter feito.

Até que vi uma cair.

Estava a uns passos de mim, e uma das carroças passou perto demais, e a roda bateu na base, e o montinho desmoronou. As pedras rolaram pelo cascalho. E a de baixo, a que estava enterrada na base, estava limpa. Sem líquen, sem musgo, sem aquela crosta escura de sujeira que tudo tinha ali dentro. Limpa, com a terra ainda úmida embaixo, como se alguém a tivesse posto ali havia poucos dias.

Olhei para os outros marcos. Olhei com atenção, agora. Alguns eram velhos, com as pedras cobertas de líquen, meio desmoronados. Mas outros não. Outros estavam arrumados, firmes, com as pedras de cima recolocadas no lugar.

Alguém cuidava daquela trilha. Alguém tinha passado por ali pouco tempo antes de nós e reerguido os marcos que o vento derrubara.

Não disse nada. Pensei no D. K. na Pedra dos Nomes, com a poeira esverdeada no fundo dos riscos, e não disse nada. Mas passei a contar os marcos, um por um, do jeito que contava ovelha.


Foi logo depois do meio-dia que achamos o caixote.

Estava caído de lado, meio enterrado no cascalho, perto da parede. Um caixote de madeira grossa, reforçado com cantoneiras de ferro, maior que os nossos, e mais bem feito. A tampa tinha se soltado, e dentro não havia nada além de palha podre e um cheiro de pólvora velha que eu reconheci dos fogos de artifício da festa da colheita em Três Pontes.

— Munição — disse Kaspar Rhel, o veterano da besta pesada, que tinha parado ao lado. Era um homem de poucas palavras, ex-soldado, que andava sempre perto das carroças da pesquisa. Agachou-se e passou a mão pela madeira. — Munição de besta pesada. Das grandes. De uso militar. — Franziu a testa. — A Guilda não dá munição dessas para expedição.

— Da vigésima nona — disse Brann, atrás de nós. — A que levava mais canhão que tenda.

Kaspar não respondeu. Mas vi que ele olhava para a lateral do caixote. Olhei também.

Havia uma marca ali, queimada a ferro na madeira. Estava meio destruída, com uma parte comida pela umidade e a outra rachada. Só dava para ver um pedaço. Uma curva, a borda de um círculo. E, dentro dela, a ponta de alguma coisa. Uma forma curva, com pontas.

Senti o frio subir pela nuca, como na noite dos caixotes em Varnhal.

Podia ser uma chama. Podia ser uma garra fechada. Podia ser qualquer coisa. A marca estava estragada demais para ter certeza, e eu não tinha certeza. Mas Kaspar Rhel se levantou, limpou as mãos na calça e, sem dizer nada, sem pressa, pôs o pé em cima da lateral do caixote e o empurrou até ele virar, com a marca para baixo, contra o cascalho.

— Vamos — disse ele. — Estamos atrasando a coluna.

E foi para as carroças da pesquisa, sem olhar para trás. Na Garganta, ninguém olha para trás.


Entendi o cheiro no fim da tarde do segundo dia.

A Garganta tinha se estreitado. As carroças agora passavam uma de cada vez, e as paredes estavam tão perto que dava para tocá-las dos dois lados com os braços abertos, em alguns lugares. E, naquele trecho, as manchas vermelhas escorridas estavam por toda parte. Não só embaixo. No alto. Muito no alto, a cinco, dez, vinte metros acima das nossas cabeças, onde nenhum homem conseguiria chegar.

E havia marcas junto delas. Riscos. Sulcos compridos, paralelos, fundos, cortados na pedra dura como faca em manteiga. Três, quatro de cada vez. Subiam e desciam as paredes, se cruzavam, iam e vinham. Em alguns lugares, a pedra estava polida, lisa como vidro, como se alguma coisa enorme tivesse se esfregado nela, se arrastado, se apoiado ali.

Parei. Pena parou comigo. Os outros passaram.

Tirei a faca do Tadeu da bainha. A faca de destrinchar dele. E raspei uma das manchas, na altura do meu ombro. Saiu uma crosta escura, que se desfez em lascas finas na lâmina, e por baixo dela a pedra era cinza, limpa, sem ferrugem nenhuma. Levei as lascas ao nariz.

E eu soube.

Tinha passado a infância no abate de Pedravento. Tinha segurado balde para o Tadeu, e depois para o Bento, na época da matança de outono, quando a vila inteira se juntava para abater os Aptonoth velhos e salgar a carne para o inverno. Conhecia aquele cheiro. Todo mundo que já viu um abate conhece. O cheiro que fica nas mãos por dias, nas unhas, na madeira da mesa de destrinchar, e que nenhuma água tira. O cheiro que fica no chão do matadouro depois que o sangue seca.

Não era minério. Nunca tinha sido.

Era sangue. Sangue velho, seco, grudado na pedra em camadas, uma por cima da outra, como a casca de uma árvore. Sangue de coisas enormes, que tinham passado por aquela fenda arranhando as paredes com as garras, se apoiando na pedra, se arrastando. Coisas feridas. Coisas morrendo. Coisas que atravessavam o mundo inteiro para vir morrer ali dentro, e que entravam por aquela porta sangrando, e deixavam nas paredes o que tinham para deixar.

Os Anciões vão a Kharvaal para morrer, tinha dito Crane. Como os Aptonoth velhos se afastam do rebanho.

Eu estava andando pelo caminho por onde eles iam.

Guardei a faca. Não disse nada a ninguém. Olhei para as paredes, para os riscos, para as manchas no alto, e pensei em quantos tinham sido. Em quantos séculos. Em como o vento da Garganta devia ter secado aquele sangue camada por camada, sem nunca terminar, porque sempre vinha mais.

— Chefe? — disse Brasa, na sela da Pena, baixinho. — Você está branco.

— Estou bem.

— Não está.

Não respondi. Segui em frente.


A coluna parou pouco antes de escurecer.

Não houve grito. Só o movimento se espalhando de trás para a frente, as carroças parando, os Seikrets bufando, as pessoas se esticando para ver por cima dos ombros umas das outras. Lá na frente, onde a Garganta fazia uma curva e se abria de novo num alargamento, Veyra Holt estava parada, com a mão levantada. Brann estava do lado dela. Os dois olhavam para a mesma coisa.

Abri caminho entre os carregadores, com Pena atrás de mim, até chegar perto o bastante para ver.

A Garganta se alargava ali num vale pequeno, fechado, entre as paredes, com uma cortina de pedras desabadas ao fundo. E, no meio dele, subindo reta no ar parado da tarde, fina e cinzenta contra a pedra escura, havia uma coluna de fumaça.

Fumaça de fogueira. Fumaça de acampamento.

Onde não devia haver ninguém.

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