Capítulo 14
A Mesa Posta
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Havia quarenta camas no acampamento da vigésima oitava, e quarenta e um pratos na mesa. Contei duas vezes. Levei muito tempo para entender que o que me tirou o sono naquela noite não foram os pratos, nem as camas, nem as botas. Foi a conta.
Veyra Holt não se mexeu por um tempo que pareceu comprido demais.
Ficou parada na curva, com a mão ainda levantada. Brann estava do lado dela, com Dona Berta nas costas, e não dizia nada, o que em Brann era mais estranho que a fumaça. Atrás de nós, a coluna inteira esperava. Sessenta e uma pessoas prendendo a respiração numa fenda de pedra.
Eu estava perto o bastante para ver o rosto dela. E vi uma coisa que não esperava.
Veyra não estava surpresa com o acampamento. Os olhos dela passaram pelas tendas lá embaixo do jeito que os meus passavam pelas pedras do pasto da Maren: conhecendo. Contando o que estava onde devia estar. Foi só quando chegaram à fumaça que alguma coisa neles mudou. Não medo. Uma coisa mais fria, mais parecida com raiva.
— Estava apagado — disse ela, baixo. Não era para ninguém. — Da outra vez, estava apagado.
Brann olhou para ela. Ela não olhou de volta.
— Kovač. Varn. Rhel. — Três nomes, sem levantar a voz. Sila saiu do meio dos caçadores com o arco já na mão. Kaspar Rhel desceu da carroça da pesquisa com a besta pesada no ombro. Veyra olhou em volta, e os olhos dela pararam em mim. — Kest. Você lê chão.
Não era pergunta. Entreguei a rédea de Pena para Tami e fui.
— Os outros ficam — disse Veyra. — Ninguém passa da curva. Marn, ninguém.
— Ninguém, Comandante — disse a Cabo Marn, e pela primeira vez desde que eu a conhecia, ela não riu depois.
Descemos devagar.
O vale era pequeno, do tamanho de um terreiro grande, fechado dos três lados pelas paredes da Garganta e, no fundo, por uma cortina de pedras que tinham desabado lá de cima havia muito tempo e formado um monte irregular, alto como uma casa. O chão era de terra batida e cascalho fino, mais plano que qualquer coisa que eu tinha pisado em dois dias. O melhor lugar da Garganta para passar a noite.
As tendas estavam em pé.
Foi a primeira coisa, e a mais errada. Doze tendas de lona da Guilda, do modelo antigo, com as costuras duplas nos cantos, armadas em duas fileiras com uma rua de terra no meio. A lona tinha endurecido e ficado de uma cor de osso, desbotada, e em algumas os cantos tinham rasgado e batiam devagar, sem vento nenhum que eu sentisse. Mas estavam em pé. As estacas firmes. As cordas esticadas. Catorze anos de Garganta e ninguém tinha derrubado nada.
No fim da rua de terra havia um mastro. Alto, de madeira escura, fincado numa base de pedras. A corda subia até o topo e voltava, cortada rente, balançando. Não havia estandarte.
E, no meio de tudo, entre as duas fileiras de tendas, o fogo.
Era uma fogueira pequena, num círculo de pedras enegrecidas, do tipo que a gente faz para cozinhar e não para aquecer. Ardia baixo, quieta, sem estalar. A fumaça subia dela reta como uma vara. Não havia ninguém do lado. Não havia panela, nem espeto, nem trouxa, nem cantil. Só o fogo, aceso sozinho no meio de um acampamento vazio, como uma vela esquecida numa casa onde todo mundo já foi dormir.
— Ninguém se mexe — disse Veyra.
Ninguém se mexeu. Sila tinha uma flecha na corda e girava devagar, apontando para as tendas, uma por uma. Kaspar apoiou a besta no ombro e mirou o monte de pedras no fundo. Brann tirou Dona Berta das costas e ficou com ela nas duas mãos, a cabeça do martelo apoiada no chão.
Esperamos.
Não aconteceu nada. O fogo ardeu. A lona bateu devagar. Lá do alto, da faixa estreita de céu, vinha a última luz da tarde, cinzenta e fraca, e o frio de caverna da Garganta ia descendo por cima de tudo.
— Kest — disse Veyra. — O chão.
Me agachei na borda do acampamento e olhei.
É uma coisa que se aprende cedo, quando a gente cresce procurando ovelha que fugiu. O chão conta tudo, se você deixar. Quem passou, quando, com pressa ou sem pressa. O chão não mente. Só às vezes fala baixo.
Aquele chão não falava nada.
Não havia pegada. Nenhuma. Nem de bota, nem de pata, nem de roda. A terra entre as tendas estava lisa, plana, com uma camada fina de poeira cinzenta por cima, como farinha espalhada numa mesa. Catorze anos de poeira. Eu esperava isso. Qualquer pegada da vigésima oitava tinha sumido havia muito tempo.
Mas alguém tinha acendido aquele fogo naquele dia. E ninguém chega a um fogo voando.
Fui chegando mais perto, abaixado, com os olhos no chão. Sila bufou atrás de mim, impaciente. Não liguei. A uns dez passos da fogueira, a luz baixa pegou a poeira de lado, e eu vi.
Riscos. Finos, compridos, paralelos, muito leves, de um lado para o outro, em curva. Como os que a vassoura de palha da Maren deixava no terreiro de casa toda manhã, quando ela varria o chão de terra antes de soltar as galinhas. Faziam um caminho largo, de um palmo de largura, que saía do fogo, atravessava a rua de terra, passava entre duas tendas e ia até o monte de pedras desabadas no fundo.
Alguém tinha vindo até o fogo, acendido, e voltado varrendo as próprias pegadas.
— Varreram — eu disse. — Com um galho, ou um feixe de palha. Do fogo até lá. — Apontei o monte de pedras. — Voltaram de costas, varrendo.
Sila olhou para o monte, depois para mim, depois para o chão. Agachou-se do meu lado sem pedir licença e passou a ponta do dedo de leve perto dos riscos, sem tocar neles. Ficou calada um tempo.
— Hoje — disse ela, afinal, e não parecia contente de concordar comigo. — A poeira ainda não assentou nos riscos.
Veyra olhou para o monte de pedras. Não mandou ninguém ir até lá. Isso, de todas as coisas daquele dia, foi a que mais me assustou.
O fogo tinha sido feito com madeira de roda.
Vi quando cheguei perto. Não era lenha, que não havia lenha na Garganta. Eram pedaços de raio de roda de carroça, cortados do mesmo tamanho, arrumados em cruz, do jeito certo, para queimar devagar. Ao lado do círculo de pedras, havia mais. Um montinho de raios cortados, esperando. E, encostada na parede mais próxima, a roda de onde eles tinham saído, com metade dos raios faltando e os tocos cortados limpos, a lâmina.
Era uma roda da Guilda. Do mesmo modelo das tendas.
— Estão queimando a carroça deles — disse Brann, baixo. — Aos poucos.
— Quem? — perguntou Kaspar.
Ninguém respondeu.
Na pedra maior do círculo da fogueira, do lado de fora, havia um desenho. Riscado com a ponta de alguma coisa dura, uma pedra ou uma faca. Duas figuras simples. Uma mão aberta, espalmada sobre uma linha curva que podia ser um peito. E, do lado, a mesma mão, virada, com os dedos apontando para baixo.
O risco era branco, limpo, recente. A poeira da pedra ainda estava presa nas bordas dele.
Olhei em volta. E foi aí que vi que ele não estava sozinho.
Estava em toda parte. Nas pedras que seguravam as estacas das tendas. Na base do mastro. Nas paredes da Garganta, na altura de um homem, em volta de todo o acampamento. Dezenas. A mão no peito, a mão para baixo. Sempre o mesmo par, sempre nessa ordem. A maioria era velha, com líquen dentro dos riscos e a pedra escurecida em volta. Alguns eram mais velhos ainda, tão gastos que eu só os via quando sabia o que estava procurando. E todos, todos, estavam riscados virados para fora. Para quem chegasse.
Como um aviso. Ou uma coisa que se pinta na porta de casa.
— O que é isso? — perguntei.
— Não sei — disse Brann.
Olhei para Veyra. Ela olhava o risco novo na pedra do fogo, e a mão dela, a direita, tinha subido sozinha até o peito, até a gola do casaco, e ficado ali. Quando percebeu que eu estava olhando, baixou a mão.
— Não toquem em nada — disse ela. — Olhem, e não toquem.
As tendas eram piores que o fogo.
Kaspar abriu a primeira com o cano da besta. A lona estava tão dura que estalou como couro seco. Dentro havia quatro catres de campanha, de madeira e lona, alinhados. Estavam feitos. Os cobertores dobrados nos pés, com a ponta virada para dentro, do jeito que o exército ensina. Em cima de um deles, uma camisa dobrada. Pendurado na estaca do meio, um cantil. Num canto, uma trouxa amarrada, esperando para ser posta nas costas de alguém.
E ao pé de cada catre, um par de botas.
Em pé. Lado a lado. Os cadarços enfiados para dentro.
Fiquei olhando para elas, e pensei na bota sozinha que tínhamos visto na manhã do primeiro dia, encostada numa pedra na beira da trilha. Pensei que alguém a tinha tirado para descansar o pé.
— Estão todas assim? — perguntei, e não reconheci a minha voz.
Estavam. Abrimos as doze. Quarenta catres, contados. Quarenta pares de botas, em pé, ao pé de cada um. As armas não estavam nas tendas. Estavam numa tenda só, a última da fileira da esquerda, arrumadas num suporte de madeira: lanças, espadas embainhadas, dois arcos com a corda solta para não cansar a madeira, uma besta leve, escudos empilhados de pé. Tudo limpo. Tudo guardado. Tudo com uma camada de poeira cinza que ninguém tinha mexido em catorze anos.
Brann passou a mão pelo punho de uma das espadas, e depois limpou a mão na calça, como se tivesse encostado em coisa de morto.
— Caçador não larga a arma — disse ele. — Nem para dormir. Eu durmo com a Berta do lado há trinta anos. Se a vigésima oitava saiu daqui sem as armas e sem as botas… — Parou. — Não saiu fugindo, garoto. Ninguém foge descalço e deixa a cama feita.
— Então saiu como?
Ele não respondeu. Olhou para os sinais riscados na parede, a mão no peito, a mão para baixo, e não respondeu.
A mesa ficava no fim da rua de terra, perto do mastro sem estandarte.
Era uma mesa comprida, de tábuas apoiadas em cavaletes, com bancos dos dois lados. Do tipo que se monta para a comida do fim do dia, quando a expedição inteira come junto. Estava posta.
Pratos de lata da Guilda, um diante de cada lugar. Canecas. Colheres, deitadas ao lado dos pratos, todas do mesmo lado, arrumadas. E nos pratos, comida. Ou o que catorze anos tinham feito dela. Uma crosta escura, rachada, afundada no meio, que um dia tinha sido ensopado. Pedaços de pão que tinham virado pedra. Nas canecas, um anel escuro no fundo, onde alguma coisa tinha secado.
Ninguém tinha comido. Os pratos estavam cheios até a borda. As colheres estavam limpas.
Tinham servido o jantar, arrumado as colheres, posto o pão. E então tinham se levantado, todos ao mesmo tempo, tirado as botas, deixado as armas, e ido embora. Para onde, o chão não dizia. O chão não dizia nada.
— Não apodreceu — disse uma voz atrás de nós.
Me virei. O doutor Crane estava na rua de terra, entre as tendas, com o caderno aberto numa mão e o lápis na outra. Ninguém o tinha visto descer. Veyra também não, pela cara dela.
— Eu disse que ninguém passava da curva, doutor.
— A senhora disse aos seus, Comandante. — Ele sorriu, educado, e não parou de olhar para a mesa. — Veja. Não há mofo. Nem bicho. Nem cheiro. A comida simplesmente secou, como se tivesse sido guardada em sal. — Inclinou-se sobre um dos pratos, perto, sem tocar. — Nada apodrece aqui dentro. É o ar da Garganta. Frio demais, seco demais. E outra coisa. — Anotou alguma coisa. — Fascinante.
Pensei nas manchas das paredes. No sangue velho que o vento nunca terminava de secar.
Foi aí que comecei a contar.
É costume, só isso. Pastor conta. De manhã quando solta, de tarde quando recolhe. A Maren me ensinou que a conta é a primeira coisa, antes de olhar os machucados, antes de ver quem está manco. Primeiro, quantos são. O resto vem depois.
Contei os pratos. Um por um, andando devagar ao longo da mesa, como quem passa pela porteira.
Quarenta e um.
Contei de novo, do outro lado. Quarenta e um.
— Quarenta camas — eu disse. Ninguém estava me ouvindo, ou todos estavam. — Quarenta pares de botas. Quarenta e um pratos.
Brann parou. Sila parou. Crane levantou os olhos do caderno.
O quadragésimo primeiro prato ficava na cabeceira da mesa, na ponta perto do mastro. Não era de lata. Era uma tigela de madeira escura, funda, sem marca da Guilda, lisa de tão usada. E estava vazia. Não havia crosta, nem anel, nem nada. Estava limpa. A colher do lado dela era de osso.
Todo o resto da mesa tinha servido o jantar para alguém que chegou, ou que ia chegar, ou que estava ali com eles. E essa pessoa tinha sido a única a comer.
Crane não disse "fascinante" dessa vez. Não disse nada. Olhou a tigela de madeira por muito tempo, e depois escreveu devagar, e depois fechou o caderno e o guardou no bolso de dentro do casaco. Vi que a mão dele tremia um pouco. Pode ter sido o frio.
Quando voltei para a curva, a coluna inteira me olhava.
Eles tinham visto de longe. As tendas, a mesa, o fogo. Não sabiam dos detalhes, mas não precisavam. O medo chega antes dos detalhes. Os carregadores estavam juntos, apertados, e vi a Cabo Marn passando o saquinho de sal de mão em mão, e cada um tirando uma pitada e jogando na direção do acampamento. Dita estava na ponta do grupo, com a bengala, e tinha o fio vermelho enrolado duas vezes no pulso.
— Eles morreram? — perguntou Tami, baixinho.
— Não sei — eu disse, e era a verdade. — Não tem ninguém. Nem corpo. Nem osso. As botas ficaram.
— As botas?
Não expliquei. Não sabia explicar.
Brasa estava de pé na sela da Pena, com o focinho levantado para o acampamento e o pelo laranja todo arrepiado nas costas. Cheirava o ar em golinhos curtos, como quem prova um caldo quente.
— Chefe — disse ele, baixo, o que em Brasa já era sinal de coisa errada. — Alguém cozinhou peixe lá embaixo.
— Peixe?
— Peixe pequeno. De água fria. Assado na brasa, sem sal. — Franziu o focinho. — Mal assado. Hoje.
Não havia peixe na mesa. Não havia espeto no fogo. Olhei para ele, e ele olhou para o monte de pedras no fundo do vale e não disse mais nada, e isso, em Brasa, era a coisa mais estranha de todas.
Custódio estava sentado numa pedra, com o lenço na boca, e olhava o acampamento lá embaixo com uma cara que eu não tinha visto nele ainda.
— Na mina — disse ele, sem que ninguém perguntasse —, quando dá gás. O gás que não tem cheiro. A gente acha a turma depois, às vezes. Todo mundo sentado. A marmita aberta no colo. Como se tivessem parado para comer e esquecido de continuar. — Tossiu. — Mas a gente acha a turma, rapaz. A gente sempre acha.
Nessa estava do meu lado. Não sei quando chegou. Tinha o caderno aberto, e eu vi que ela tinha desenhado o sinal. A mão no peito, a mão para baixo. Desenhado com cuidado, com a mão firme dela, de quem faz mapas. Embaixo tinha escrito: 28ª. Acampamento intacto. Quarenta e um pratos (contagem do Kest). E depois, menor: Quem acende o fogo?
— Você me mostra depois? — pedi. — O desenho.
— Mostro. — Ela fechou o caderno devagar. — Ilian. Na trigésima segunda tinha uma mulher procurando o marido da vigésima oitava. A Comandante falou, lá no Posto.
— Eu lembro.
— Ela passou por aqui. — Nessa olhava para a mesa lá embaixo. — Há dois anos. Ela viu isso.
Não tinha pensado nisso. Pensei, então. Numa mulher de pé naquela rua de terra, contando botas, procurando um par que conhecesse. Achando, talvez. E indo embora sem ele, porque a Garganta não devolve.
Nessa encostou o ombro no meu, como tinha feito na popa do navio. Não disse nada. Ficamos assim um pouco, olhando o fogo que ninguém tinha acendido arder no meio do acampamento dos mortos que não estavam lá.
Foi quando vi Veyra entrar sozinha na tenda maior.
Ficava perto da mesa, separada das outras, com uma lona dupla e um toldo na frente. A tenda do comando. Ela foi até lá sem chamar ninguém. Sem Brann, sem Kaspar, sem Sila, que estavam a vinte passos dela, olhando para outro lado. A primeira regra dela, a que ela tinha repetido para cada um de nós no salão de Varnhal com aquela voz sem subida nem descida, era que ninguém andava sozinho no vale.
Ela abriu a lona e entrou sozinha.
Ficou lá dentro o tempo de contar até cem. Eu contei. Quando saiu, tinha alguma coisa na mão esquerda, fechada. Um papel dobrado, pequeno, amarelado. Não olhou para ele. Não abriu, não leu. Enfiou-o dentro do casaco, no mesmo lugar onde eu guardava a carta do meu pai, e fechou a gola por cima.
Não leu, pensei. Não precisou ler.
Sabia o que estava escrito.
Ela veio andando pela rua de terra de volta até a curva, devagar, sem pressa, olhando para a frente. Passou pela mesa sem olhar para ela. Passou pelo fogo sem olhar para ele. Quando chegou na curva, parou diante de nós, e a coluna inteira ficou em silêncio para ouvir.
— Rhel. O óleo das lanternas. Todo o que der para gastar.
Kaspar hesitou. Só um instante, mas eu vi.
— Comandante?
— Queimem.
— Queimar o quê? — perguntou alguém.
— Tudo. — Ela não levantou a voz. — As tendas. A mesa. As camas. As armas que pegarem fogo. O mastro. Tudo.
Crane deu um passo à frente.
— Comandante Holt, com todo o respeito. Aquilo é o único registro material de uma expedição inteira. Catorze anos. A Comissão… — Ele parou, escolheu as palavras. — A Comissão vai querer saber por que se destruiu uma coisa que ninguém destruiu em catorze anos. Nem a trigésima. Nem a sua trigésima, Comandante.
Foi a única vez, em todo o tempo em que andei com ela, que vi Veyra Holt olhar para alguém como se fosse bater.
Não bateu. Olhou para ele até ele baixar os olhos primeiro.
— Terceira regra, doutor. No vale, ninguém discute ordem. — E depois, mais baixo: — A Comissão pode perguntar para mim.
Ninguém se mexeu. Então Brann pôs Dona Berta nas costas, foi até a carroça das lanternas, pegou dois odres de óleo e desceu para o acampamento sem dizer uma palavra. Kaspar foi atrás dele. Depois os Dace. Depois eu.
Jogamos o óleo nas tendas, nos catres, na mesa comprida com os quarenta pratos de lata e a tigela de madeira. Vi o óleo escorrer pelas crostas escuras nos pratos e pingar nas botas, e pensei na mulher da trigésima segunda, e na bota que talvez fosse do marido dela, e pedi desculpa em silêncio, sem saber a quem.
Veyra acendeu com uma tocha tirada do próprio fogo do meio. Do fogo que ninguém tinha acendido.
A lona de catorze anos pegou como palha. Em pouco tempo, o vale inteiro ardia, e a luz laranja subiu pelas paredes da Garganta e iluminou, de uma vez só, todos os sinais riscados na pedra em volta, dezenas deles, as mãos no peito e as mãos para baixo, virados para nós, como se alguém lá de cima estivesse olhando pelo buraco de cada um.
Olhei para o monte de pedras no fundo. Não vi ninguém. Cada estalo do fogo voltava das paredes duas, três vezes, cada vez mais fraco.
Quando o mastro caiu, Veyra deu as costas e voltou para a coluna.
— Acampamos aqui atrás, na curva — disse ela. — Guarda tripla. Ninguém dorme sozinho. Amanhã cedo, a gente passa.
Brann foi atrás dela.
— Veyra.
Ela não parou.
— Veyra. Por quê?
Ela parou. Não se virou. Ficou de costas para ele, e para mim, e para o fogo, com a mão direita outra vez na gola do casaco, em cima do papel que não tinha lido.
Depois continuou andando.
Veyra mandou queimar tudo. E não explicou por quê.
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