Capítulo 15

Pedra Solta

16 min de leitura

Tomé era o único de nós que já tinha saído vivo de Kharvaal. Eu só soube disso depois que a Garganta ficou com ele. E só soube o nome dele porque gritei o nome errado.


De manhã, o vale da vigésima oitava era um borrão preto no fundo da fenda.

Passamos por ele com o sol, em fila, de cabeça baixa. A cinza ainda estava morna. Das tendas tinham sobrado as estacas, retorcidas e pretas, espetadas no chão como dentes podres. Da mesa comprida, os cavaletes caídos e uma fileira de pratos de lata deformados pelo fogo, ainda nos lugares. O mastro tinha caído atravessado sobre a rua de terra. As botas eram montinhos de couro enrugado ao pé de camas que já não existiam.

Ninguém falou. Os carregadores jogaram sal, uma pitada cada um, sem parar de andar. Veyra passou na frente sem olhar para nada, e eu pensei no papel dentro da gola dela.

Brasa desceu da sela quando passamos pelo monte de pedras desabadas no fundo. Não pedi. Ele foi até a primeira pedra grande, tirou do avental um pedaço de peixe seco, desses que ele guardava para os dias ruins, e deixou em cima dela. Depois voltou correndo e subiu na sela de novo, sem explicar.

— Brasa.

— Quem cozinha mal precisa de ajuda, chefe — disse ele, olhando para a frente. — É regra de cozinha.

Não perguntei mais. Olhei para trás, só uma vez, para o monte de pedras. E lembrei, tarde demais, que na Garganta não se olha para trás.

O peixe ainda estava lá. Não vi mais nada.


A Garganta mudou naquele dia.

Até ali, tinha sido uma fenda, com o chão lá embaixo e as paredes subindo dos dois lados. Depois do vale da vigésima oitava, o chão desaparecia. O fio de água que vínhamos seguindo desde a entrada caía de repente numa rachadura mais funda, dentro da própria Garganta, uma fenda dentro da fenda, e virava um barulho lá embaixo, longe, no escuro. E a trilha subia para a parede da esquerda e seguia por ela, numa beirada de pedra.

— A Cornija — disse Brann, e cuspiu por cima dela. Contei até três antes de ouvir o cuspe bater em alguma coisa. — Meio dia de Cornija. Depois melhora. Um pouco.

A beirada tinha a largura de uma carroça. De uma carroça estreita. Do lado direito, a parede subia reta e lisa até a faixa de céu. Do lado esquerdo, não havia nada. Ar. E, bem lá embaixo, trinta, quarenta metros, a água que eu ouvia e não via.

Senti o joelho mole. O mesmo aperto na barriga da escada da torre de Varnhal, das cordas do navio. Achei que ia melhorar com o tempo. Não melhorava. Só aprendia a esconder.

— Não olha para baixo, pastor.

Era um dos carregadores. Um homem de uns quarenta anos, não muito alto, com um rosto largo e castanho, bigode ralo e as mãos grossas como raízes. Carregava nas costas um fardo que eu não teria conseguido levantar do chão, preso por uma tira de couro na testa, e andava sem pressa, com os olhos na trilha. Eu o conhecia de vista. Era o que tinha dado o tapa na nuca do designado que olhou para trás na entrada da Garganta. Nunca tinha ouvido a voz dele.

— Para baixo também não pode?

— Para baixo pode. — Ele ajeitou a tira na testa. — Mas não adianta. — E depois, olhando a Pena, que andava do meu lado pela rédea, com as garras arranhando a pedra e os olhos arregalados: — A sua bicha está com mais medo que você. Anda do lado de dentro dela. Ela te vê entre ela e o buraco, fica mais calma.

Troquei de lado. Pena ficou mais calma. Ele tinha razão.

— Como o senhor sabe?

— Minha irmã tinha cabras. — Deu de ombros, com o fardo e tudo. — Cabra é igual. Sempre quer um corpo entre ela e o buraco.

Não disse mais nada. Seguiu andando na minha frente, de cabeça baixa, os pés pisando sempre no mesmo lugar, perto da parede, como quem já tinha feito aquele caminho antes e lembrava onde a pedra aguentava. Pensei em perguntar o nome dele. Não perguntei. Na Garganta, a gente ficava sem vontade de falar.

Depois eu ia pensar muito nisso.


Custódio parou pouco depois do meio-dia.

Estávamos no pior trecho da Cornija, onde a beirada ficava mais estreita e a parede se inclinava um pouco para fora, por cima de nós, de modo que a gente andava meio curvado, com a sensação de que a montanha estava debruçada para ver a gente passar. A coluna ia devagar. As carroças rangiam. Um carregador segurava cada Seikret pela rédea. Veyra e Brann iam lá na frente, onde a Cornija fazia uma curva.

Custódio vinha atrás de mim, com Tami. Parou de repente, com a mão na parede.

— Ouviu isso?

Não tinha ouvido nada. Só a água lá embaixo e o rangido das rodas.

— A água — disse ele. — Mudou.

Escutei. Ele tinha razão, e eu não teria notado. O barulho da água lá embaixo tinha ficado diferente. Mais grosso. Mais sujo. Como quando o rio de Pedravento enchia na primavera e começava a carregar terra.

— Tem coisa caindo lá em cima — disse Custódio. Olhava para cima, para a parede inclinada, com os olhos apertados. Estava branco. — Tem coisa caindo na água, lá na frente. Está entrando terra.

— Custódio…

— Trinta e cinco anos, rapaz. — Ele segurou meu braço. A mão dele tremia, mas apertava forte. — A terra avisa. Ela está avisando.

Olhei para a frente. A coluna seguia. Ninguém tinha parado. E então vi, no chão da Cornija, perto do meu pé, uma pedrinha do tamanho de um grão de feijão pular sozinha. Uma vez. E outra. E outra, mais perto da borda, até cair.

Não era a primeira. Olhei em volta, e o chão da Cornija estava coberto delas. Pedrinhas miúdas, poeira, lascas finas de pedra, caindo de cima. Chovendo. Batendo nos ombros dos carregadores, que não olhavam para cima porque ninguém olha para cima com um fardo de sessenta quilos na testa.

Eu tinha visto aquilo uma vez, em Pedravento, nas pedreiras da Cabeça-de-Boi. Um pouco antes de a encosta do lado norte vir abaixo e levar metade do cercado do Joca.

— Para! — gritei. — Para a coluna!

Lá na frente, ninguém ouviu. O barulho da água, das rodas, das garras dos Seikrets na pedra. Ou ouviram e não entenderam. Ou ouviram e acharam que era o novato com medo de altura, de novo.

Mas o carregador do bigode ralo estava bem na minha frente. Dez passos. Menos. De cabeça baixa, a tira na testa, o fardo nas costas, andando no mesmo passo de sempre, bem no lugar onde a parede se debruçava mais.

— Ei! — gritei para ele. — Ei, você! Volta! Olha para cima!

Ele não se virou.

Tenho pensado nisso a vida inteira. Ele não se virou. Ouviu, eu sei que ouviu, porque o passo dele mudou, só um pouco, um meio passo mais curto. Mas não virou a cabeça. Na Garganta, quem olha para trás quer voltar. E a Garganta percebe. Ele tinha ensinado isso aos outros com um tapa na nuca. Tinha vivido por aquela regra. Tinha saído vivo por ela.

Se eu soubesse o nome dele. Se eu tivesse gritado o nome dele, em vez de ei, você. A gente vira a cabeça para o próprio nome antes de pensar. É mais rápido que qualquer regra.

Eu não sabia.


O barulho veio de cima como um trovão que tivesse caído no chão.

Não vi a pedra se soltar. Ninguém viu. Vi a poeira primeiro, uma cortina cinzenta despencando da parede inclinada, e depois ouvi, e depois senti, pelos pés, pelos joelhos, pela barriga, o golpe. A Cornija inteira tremeu. Pena gritou e empinou, e eu me pendurei na rédea com o corpo todo, de costas para a parede, e segurei, e segurei, enquanto as pedras batiam no chão na minha frente e quicavam e sumiam pela borda sem fazer barulho nenhum, porque o barulho era tão grande que não sobrava espaço para mais.

Durou o tempo de três respirações. Talvez menos.

Depois, silêncio. Poeira. Tosse. Alguém gritando lá atrás. Uma carroça tombada contra a parede, com a roda da frente pendurada sobre o vazio, girando devagar. E, lá embaixo, muito depois, o som das pedras chegando na água.

Quando a poeira baixou, havia um bloco de pedra no meio da Cornija, do tamanho de uma carroça, onde antes estava o carregador do bigode ralo.

E, debaixo dele, saindo do lado da borda, havia um braço.


Não pensei. Soltei a rédea da Pena na mão de Tami e corri.

Ele estava vivo. Estava deitado de bruços, virado para o vazio, com o bloco em cima das pernas e da cintura. Do peito para cima, estava inteiro. O fardo tinha rasgado e se espalhado, e a tira de couro ainda estava presa na testa dele. Quando me ajoelhei do lado, ele virou os olhos para mim. Só os olhos. A cabeça ele não conseguia mexer.

— Calma — eu disse. — Calma. A gente vai tirar.

Ele não respondeu. Respirava curto, depressa, com um barulho molhado.

Enfiei as mãos debaixo da borda do bloco e empurrei. Nada. Era como empurrar a montanha. Enfiei os dedos na fresta entre a pedra e a Cornija e puxei, e senti as unhas rasgarem, e não se mexeu nem a grossura de um fio de cabelo.

— Brann! — gritei. — Brann!

Ele já vinha. Não sei como tinha passado pela carroça tombada, mas vinha, com Kaspar Rhel atrás e a Cabo Marn atrás de Kaspar, e dois carregadores com uma lança de ferro comprida. Brann olhou para o bloco, para o homem embaixo, para a borda, uma vez cada, e eu vi no rosto dele que ele tinha entendido tudo em um instante, e que não tinha gostado do que entendeu.

— Alavanca — disse ele. — Rhel, aqui. Marn, calço. Qualquer coisa. Pedra, tábua, o que tiver.

Enfiaram a ponta da lança debaixo do bloco. Brann e Kaspar se penduraram na outra ponta. Eu fiquei embaixo, com as mãos debaixo dos ombros do carregador, pronto para puxar.

— No três. Um. Dois…

O bloco se mexeu. Um dedo. Dois. Eu puxei, e o homem gritou, um grito fino, rasgado, que eu nunca vou esquecer, e não saiu nada, porque as pernas dele estavam presas mais embaixo, esmagadas contra a pedra da Cornija. E então ouvi outro barulho. Um estalo seco, fundo, que não vinha do bloco. Vinha de baixo de nós.

A Cornija estava rachando.

Vi a rachadura. Uma linha fina, escura, abrindo na pedra entre os meus joelhos e a borda, do lado de fora do bloco. Crescendo. O peso do bloco, de nós quatro, da alavanca.

— Soltem — disse uma voz atrás de nós.

Veyra.

— Comandante, ele está…

— Soltem. Agora. — Não levantou a voz. Nunca levantava. — A beirada não aguenta. Se continuarem, vão todos.

Brann olhou para ela. Olhou para a rachadura. Depois, devagar, muito devagar, soltou a lança. Kaspar soltou. O bloco voltou para o lugar com um som baixo, abafado, horrível, e o homem embaixo dele não gritou dessa vez. Só fechou os olhos.

— Não — eu disse. — Não, espera, a gente pode…

— Kest.

— Tem mais corda. A gente amarra o bloco na parede e…

— Kest. — Brann pôs a mão no meu ombro. A mão enorme, pesada, quente. — Garoto. Olha para as pernas dele.

Eu não queria olhar. Olhei.

Não havia o que tirar. Não havia pernas para salvar embaixo daquela pedra. Havia só sangue, muito, escorrendo pela Cornija em direção à borda, e pingando, e sumindo no vazio, na água lá embaixo, como tudo naquela fenda sempre tinha sumido.


Fiquei com ele.

Ninguém me mandou ficar e ninguém me mandou sair. Os outros se afastaram. Veyra mandou a coluna recuar da parede inclinada, até um trecho mais largo, e passar em fila, um por um, rente ao bloco, depressa, sem parar. Eu fiquei ajoelhado do lado dele, com a mão na mão dele, que era grossa como raiz e estava ficando fria.

Ele abriu os olhos de novo, depois de um tempo. Me olhou.

— Pastor — disse. A voz era só ar.

— Estou aqui.

— Eu te ouvi. — Os lábios dele estavam cinzentos. — Te ouvi gritar. Não virei.

— Eu sei.

— Não se vira. Na entrada. — Ele tossiu, e saiu sangue, pouco, e ele não pareceu notar. — Da outra vez eu não virei. Nem uma vez. Por isso ela me deixou sair.

Não entendi. Não perguntei. Ele mexeu a outra mão, a que estava livre, devagar, até o pescoço. Tinha um cordão ali, de couro, com um saquinho de pano pendurado, pequeno, do tamanho de uma noz, amarrado com uma linha vermelha. Tentou tirar. Não tinha força. Tirei para ele.

— Irena — disse ele. — Se achar ela. É dela.

— Quem é Irena?

Ele não respondeu. Tinha fechado os olhos. A mão dele ficou na minha mais um pouco, e depois deixou de ser uma mão que segurava e passou a ser uma mão que era segurada.

Contei até cem. Depois contei de novo. Ele não abriu mais os olhos.


— Tomé Ancel — disse a Cabo Marn.

Estava do meu lado. Não sei havia quanto tempo. A coluna tinha passado toda e esperava do outro lado do bloco, no trecho largo, e ela tinha voltado sozinha. Estava agachada, olhando para o rosto dele, e a voz de trovão dela não tinha trovão nenhum.

— Tomé Ancel. De Ribeira Funda. Carregador da trigésima segunda. — Ela estendeu a mão e ajeitou a tira de couro na testa dele, que tinha escorregado para o olho. — O único que voltou.

Olhei para ela.

— O único…

— Seis chegaram a Última Luz, na trigésima segunda. Um deles saiu. Atravessou a Garganta de volta, sozinho, sem comida, com o ombro deslocado, esperou um mês no Degrau até um navio passar e foi contar à Guilda que o vale estava mudando. — Ela passou o polegar na testa dele, onde a poeira tinha grudado. — Esse. O homem que voltou. E aí se alistou de novo. Para a trigésima terceira. Na primeira lista.

— Por quê?

A Cabo Marn olhou para o saquinho de pano na minha mão.

— A irmã dele entrou com ele na trigésima segunda. Irena. O marido dela era da vigésima oitava. — Ela respirou fundo. — Ela ficou na Garganta. Ele nunca contou onde, nem como. Só dizia que ela ficou. E que ele ia voltar para buscar.

Senti o chão da Cornija se mexer de novo, mas não era o chão.

O vale da vigésima oitava. As tendas. A mesa posta. As quarenta botas ao pé das camas, que tínhamos regado de óleo e queimado na véspera, enquanto os carregadores jogavam sal.

Enquanto ele jogava sal. Eu tinha visto. Tinha sido o primeiro a jogar. Uma pitada, sem parar de andar, sem olhar para trás, enquanto a Comandante queimava o último lugar onde a irmã dele tinha estado viva. E não disse nada. Não pediu nada. Não protestou como Crane. Porque, no vale, ninguém discute ordem.

— Ele sabia — eu disse. — Ontem. Quando a gente queimou. Ele sabia o que era.

— Ele sabia de tudo, garoto. — A Cabo Marn se levantou, com um estalo dos joelhos. — Foi ele que ensinou à gente o sal. E o fio vermelho. E não cantar. Metade das regras que a gente segue aqui dentro vieram da boca desse homem. — Olhou para o bloco. — E a Garganta ficou com ele assim mesmo.

— Ela não devolve — disse eu, e não sei por quê.

— Não — disse a Cabo Marn. — Devolveu uma vez. Não gosta de fazer isso duas.


Veyra não deixou enterrar.

Não havia o que enterrar. Não havia como tirar o corpo sem tirar o bloco, e não havia como tirar o bloco sem levar a Cornija junto. Mas eu pedi assim mesmo. Pedi para ficar, para cobrir com pedras o que dava para cobrir, para fazer um marco, qualquer coisa. Pedi na frente de todo mundo, do outro lado do bloco, com as mãos ainda sujas do sangue dele.

— Não — disse ela.

— Comandante, é só uma hora…

— É meia tarde de Cornija, com a parede soltando pedra, e sessenta pessoas em fila numa beirada que acabou de rachar. — Olhou para mim. O olho claro e o escuro. — A segunda regra, Kest.

— A Garganta não devolve. Eu sei. Mas a gente não precisa dar para ela, também.

Foi a primeira vez que eu respondi a Veyra Holt. Todo mundo ouviu. Sila, do lado dos caçadores, ergueu uma sobrancelha. Brann fechou os olhos.

Veyra não se zangou. Ficou me olhando, e por um instante eu achei que ela ia dizer alguma coisa sobre a trigésima, sobre o rapaz de vinte e três anos, sobre as pessoas que ela tinha deixado para trás. Não disse.

— O bloco é a cova dele — disse, afinal. — É mais pedra do que você conseguiria juntar numa semana. — E, mais baixo: — Ele sabia onde estava entrando, Kest. Melhor que qualquer um de nós.

Virou as costas e deu a ordem de marcha.

A coluna foi andando. Um por um, os carregadores passaram pelo bloco, e cada um deixou em cima dele uma pitada de sal. Depois alguém, não vi quem, amarrou um fio vermelho numa lasca de pedra e pôs em cima do sal. Depois outro. Quando a Cabo Marn passou, pôs a mão espalmada em cima da pedra, bem no alto, e ficou assim um instante, sem dizer nada. Ninguém cantou.

Dita foi a última dos carregadores. Parou do meu lado.

— Não olha para trás — disse ela, baixinho. — Quando a gente for. Ele ia querer.

— Eu sei.

— Ele não olhava nunca — disse ela. — Nem quando chamavam o nome dele.

Eu não tinha chamado. Não disse isso a ela.


Andei o resto da tarde com o saquinho de pano fechado na mão.

Só abri à noite, quando acampamos no fim da Cornija, numa gruta rasa onde a parede voltava a ter chão. Sentei longe do fogo, com Pena deitada do meu lado, pela primeira vez em três noites, com a cabeça no meu joelho. Brasa não falou nada. Pôs uma tigela de caldo do meu lado e foi embora, e aquilo, em Brasa, era um discurso inteiro.

Desfiz o nó da linha vermelha com cuidado.

Achei que ia ser um amuleto. Um dente, uma pedra furada, uma medalha de santo, um anel. Essas coisas que carregador carrega no pescoço. Não era. Eram sementes. Um punhado pequeno de sementes secas, redondas, escuras, misturadas com um pouco de terra. Terra de fora. Terra de Ribeira Funda, talvez, de alguma horta atrás de uma casa onde uma mulher chamada Irena criava cabras.

Cheirei. Tinha cheiro de terra, e de chuva, e de nada que existisse dentro da Garganta.

Ele não tinha vindo buscar a irmã para levar de volta, pensei. Ou não só. Tinha vindo trazer um pedaço de casa para ela. Para ela plantar, onde quer que estivesse. Como se estivesse viva. Como se houvesse, em algum lugar daquele vale, um chão onde ainda desse para plantar alguma coisa.

Eu tinha saído de Pedravento com uma carta do meu pai no bolso de dentro do casaco. Tomé Ancel tinha entrado duas vezes na Garganta com um saquinho de sementes no pescoço. Éramos a mesma coisa. Dois homens procurando alguém que o vale tinha engolido. Só que ele já tinha feito o caminho uma vez, e sabia de tudo, e seguia todas as regras.

E não tinha adiantado.

Amarrei o saquinho de novo, com a mesma linha vermelha, com o mesmo nó. Pus o cordão no pescoço, por baixo da camisa, junto do peito, do lado da carta do meu pai.

Eu tinha achado, quando o peguei da mão dele, que ia guardar aquilo para entregar à família quando voltasse. Como se faz. Como a Guilda faz com as plaquinhas de latão. Mas não havia família para quem voltar. A família dele não estava lá fora.

Estava aqui dentro. Em algum lugar da Garganta, ou além dela, no fundo do vale, onde ele não tinha chegado.

Pela primeira vez desde Pedravento, eu não carregava uma coisa para levar de volta.

Carregava uma coisa para entregar lá dentro.

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