Capítulo 16

Fogo Pequeno

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A sopa que o Brasa fez naquela noite foi a pior coisa que eu já pus na boca. Salgada como água do mar, com o feijão meio duro e a cebola meio crua. Sessenta pessoas comeram até o fim, e ninguém reclamou. Até hoje, quando alguém me pergunta qual foi a melhor refeição da minha vida, eu penso naquela sopa, e fico calado.


Só entendi o que tinha na panela quando a Cabo Marn me contou.

Eu estava sentado longe do fogo, no fundo da gruta, com Pena deitada contra a minha perna e o saquinho de sementes debaixo da camisa. Tinha tomado metade do caldo que o Brasa deixara do meu lado sem sentir o gosto. Foi só quando ela sentou do meu lado, com a tigela dela na mão, que eu provei de verdade, e tossi.

— É o fardo dele — disse a Cabo Marn.

Olhei para ela.

— O fardo do Tomé. Rasgou quando a pedra caiu. Os meus juntaram o que não foi pela borda. — Ela mexeu a sopa com a colher, devagar. — Feijão, cebola, peixe salgado, meio saco de farinha. E o sal. O saquinho de sal dele, que ele usava para as coisas perdidas. O seu gato pediu tudo. Disse que comida de morto não se joga fora, se come. Que é regra de cozinha.

Pensei na faca do Tadeu, na bainha do meu cinto, e no que ele dizia quando me ensinava a destrinchar. A caçada termina quando você aproveitou tudo. Brasa não conhecia o Tadeu. Tinha chegado à mesma regra por outro caminho.

— Pôs o sal todo? — perguntei.

— Todo. — A Cabo Marn tomou uma colherada e fez uma careta que lhe mudou o rosto inteiro. — Não é o melhor cozinheiro que eu já vi.

— Não.

— Mas é o único que pensou nisso. — Ela tomou outra colherada. Não fez careta dessa vez. — Come, garoto. É o Tomé. Ele ia querer servir para alguma coisa.

Comi. Tudo. Até o fundo da tigela.


O fogo daquela noite era pequeno.

Não havia lenha na Garganta, e a carroça que tinha tombado na Cornija era a de combustível, e metade do carvão tinha ido pela borda com ela. Kaspar Rhel contou os sacos que sobraram e disse um número para Veyra, baixo, e Veyra disse que era uma fogueira só, para todo mundo. Então era uma fogueira só, no meio da gruta, do tamanho de um chapéu, e sessenta pessoas em volta dela, apertadas, joelho com joelho, com as costas viradas para o escuro.

Nunca tinha estado tão perto de tanta gente. Em Pedravento, a gente vivia longe. Cada casa no seu morro, cada pastor no seu pasto. Ali, eu sentia o ombro de Tami de um lado e o de Custódio do outro, e o calor do fogo na cara, e o frio da Garganta nas costas, e o cheiro da sopa ruim, e o barulho de sessenta colheres raspando o fundo de sessenta tigelas.

Ninguém falou de Tomé. Não durante muito tempo.

Os Dace estavam do outro lado do fogo. Não faziam piada. Era a primeira vez que eu os via calados. Mira ficava girando a colher entre os dedos, e Tor olhava para o fogo. Depois de um tempo, ele tirou do bolso um pedaço de papel dobrado, sujo, cheio de riscos e números, e eu reconheci: era a cópia da lousa das apostas de Varnhal, que eles tinham trazido para continuar o negócio lá dentro. Tor olhou para o papel, e depois jogou no fogo. Queimou depressa. Ninguém disse nada. Mira encostou a cabeça no ombro do irmão.

Custódio, do meu lado, raspou a tigela com o dedo e lambeu o dedo.

— Melhor sopa que eu já tomei — disse, para ninguém.

Estava mentindo. Todo mundo sabia. Ninguém corrigiu.


Veyra Holt comeu sentada numa pedra, na borda da luz, sozinha, como fazia sempre. Tomou a sopa inteira, devagar, sem pressa e sem careta, e quando terminou se levantou e foi até o fogo, onde Brasa limpava a panela com um pano.

Parou diante dele. Brasa congelou, com o pano na mão e as orelhas em pé. Acho que esperava uma bronca pelo sal.

— Obrigada, cozinheiro — disse Veyra.

E voltou para a pedra dela.

Brasa ficou parado um tempão, com o pano pendurado. Depois veio até mim, sentou do meu lado e não disse nada, e eu vi que o bigode dele tremia.

— Chefe — disse ele, afinal, muito baixo. — Ela me chamou de cozinheiro.

— Chamou.

— Ninguém nunca me chamou de cozinheiro. Me chamavam de gato da cozinha. — Fungou. — Três caçadores. Nenhum me chamou de cozinheiro.

Pus a mão na cabeça dele. Ele deixou.


Foi Sila quem falou de Tomé primeiro.

Ninguém esperava. Ela estava sentada um pouco atrás dos outros caçadores, com o arco no colo e a corda solta, como sempre fazia de noite para não cansar a madeira. Não tinha falado com ninguém o dia inteiro. Quando falou, foi olhando para o arco, e não para nós.

— Ele me ensinou a amarrar a corda no frio.

Todo mundo virou a cabeça.

— Na primeira semana, no Posto. — Ela passou o polegar pela ponta do arco, onde a corda se prendia. — A minha corda estava estalando com o frio da manhã. Ele passou carregando um fardo, parou, olhou, e disse que eu estava amarrando do jeito da cidade. Que no frio a corda encolhe e a madeira não, e que tinha que dar uma volta a mais, frouxa, para ela ter para onde ir. — Ela deu a volta, frouxa, enquanto falava, sem olhar para as mãos. — Não pedi. Ele ensinou e foi embora. Nem esperou eu agradecer.

— Você sabia o nome dele — eu disse.

Não sei por que disse. Saiu. Sila levantou os olhos e me olhou, e por um instante achei que ela ia rir, ou me mandar calar a boca, como fazia sempre.

— Eu pergunto o nome de todo mundo, Kest — disse ela. — De todo mundo que me ensina alguma coisa. — E depois, mais baixo, olhando de volta para o arco: — Assim, quando morrem, eu sei a quem estou devendo.

Ninguém disse nada. O fogo estalou, e o estalo voltou das paredes da gruta, uma vez, duas, mais fraco.

Eu não sabia o nome dele. Eu não tinha perguntado. Eu tinha gritado ei, você, e ele não tinha virado.

Sila não sabia disso. Ninguém sabia, além de mim. Mas ela me olhou de novo, por cima do arco, um olhar curto, e eu tive a impressão horrível de que ela sabia assim mesmo.

— Arco bom — disse Brann, do outro lado do fogo, para quebrar o silêncio. — Arco bom, Varn.

— Eu sei — disse Sila. E foi só isso. Mas foi a primeira coisa que ela disse em nove dias que não tinha espinho.


Quando o fogo baixou e as pessoas foram se deitando, Brann veio sentar do meu lado.

Trouxe a caneca de latão. Não sei o que tinha dentro. Não perguntei. Ele bebeu um gole, me ofereceu, e eu recusei, e ele bebeu outro.

— Você ficou com ele — disse.

— Fiquei.

— Até o fim?

— Contei até cem duas vezes.

Brann balançou a cabeça devagar.

— É mais do que a maioria faz. A maioria vai embora antes. Não por maldade. É que dói olhar. — Bebeu. — Eu fui embora antes, na primeira vez. Tinha dezenove anos, como você. Um companheiro meu, uma Rathian, um lugar que nem nome tinha. Fui buscar ajuda, eu disse. Mentira. Fui porque não aguentava. Quando voltei, ele tinha morrido sozinho. — Olhou para a caneca. — Trinta e dois anos, e ainda penso nisso. Você não vai pensar nisso, garoto. Você ficou.

Não respondi. Não sabia o que dizer. Pensei que ia pensar em outra coisa, que era pior, e não contei.

— Seu pai — disse Brann, depois de um tempo. — Você nunca fala dele.

Senti o peito apertar.

— Não conheci. Eu tinha dois anos.

— Mas sabe coisas.

— Sei que era caçador. Que foi na vigésima sétima. Que escrevia torto. — Parei. Pensei no D. K. na Pedra dos Nomes, nos marcos reerguidos, e não disse. — E que escreveu para a minha mãe, antes de ir. Uma carta. Pediu que, se um dia me chamassem para Kharvaal, ela não me deixasse vir.

Brann ficou quieto. Era a primeira vez que eu dizia aquilo em voz alta para alguém. Nem para a Maren eu tinha dito com essas palavras.

— E você veio — disse ele.

— Vim.

— Contra a vontade dele.

— A vontade dele era ter voltado para casa — eu disse, e a voz saiu mais dura do que eu queria. — Não voltou.

Brann riu. Uma risada baixa, pelo nariz, sem nada de engraçado.

— Quer saber do meu pai?

Olhei para ele. Não esperava.

— Meu pai era oleiro. Numa vila do sul, perto do mar, que não existe mais. Fazia pote. Pote para água, pote para azeite, pote para enterrar gente, que lá se enterrava em pote. E era o homem mais covarde que eu já conheci. — Brann sorriu para a caneca. — Corria de tudo. De briga, de cachorro, de cobrador, de tempestade. Quando um Jagras entrou na vila, ele foi o primeiro a subir no telhado. Minha mãe ficou embaixo, com uma vassoura. Eu tinha oito anos e morri de vergonha dele.

— E aí?

— E aí que ele morreu com oitenta e dois anos. Dormindo. Na cama dele, com a mão da minha mãe na mão dele. — Brann bebeu. — E eu, que tive vergonha dele a vida inteira, que virei caçador para não ser como ele, estou aqui. Sentado numa gruta no fim do mundo, com cinquenta e um anos, comendo a sopa de um morto. — Deu de ombros. — Às vezes acho que ele sabia de alguma coisa que eu não sei.

Fiquei calado um tempo.

— O senhor está dizendo que é para eu correr.

— Estou dizendo que coragem e burrice são o mesmo homem em dias diferentes, garoto. — Ele se levantou, com um estalo dos joelhos e um gemido. — E que o seu pai, pelo que você conta, sabia disso melhor que eu. Tanto que escreveu. — Pôs a mão enorme na minha cabeça, rápido, pesado, como eu tinha posto na do Brasa. — Dorme. Amanhã tem Garganta.

Foi deitar do outro lado do fogo, com Dona Berta do lado. Em pouco tempo estava roncando. Eu fiquei acordado, pensando no oleiro no telhado, e na minha mãe com a carta, e em que tipo de homem escreve para a mulher pedindo que ela desobedeça ao filho.


Brasa esperou todo mundo dormir.

Eu estava deitado de lado, com os olhos abertos, olhando o fogo virar brasa. Pena respirava contra as minhas costas. E Brasa se enfiou no espaço entre mim e a pedra, pequeno, quente, e ficou quieto de um jeito que não era dele.

— Chefe — disse ele. — Está acordado?

— Estou.

— Se eu morrer. — Parou. — Se eu morrer igual o carregador. Alguém tem que saber.

Me virei para ele. Estava com a pata dianteira fechada contra o avental, do mesmo jeito da noite da tempestade. Devagar, olhando para os lados, para os corpos deitados em volta do fogo, para o fundo da gruta onde dormiam as carroças da pesquisa, ele abriu a pata.

Era o frasco.

O que tinha caído da maleta do doutor Crane nas cordas do navio. Pequeno, do tamanho de um dedo, de vidro grosso, com a rolha lacrada em cera. Na etiqueta, a mesma letra miúda e inclinada que eu não conseguia ler. Dentro, um pó cinzento, fino como cinza de lareira.

— Você guardou isso esse tempo todo.

— No avental. No bolso do meio, que é onde eu guardo a pimenta. — Brasa falava tão baixo que eu mal ouvia. — O doutor contou os frascos, lá no navio. Eu vi. E no Degrau ele me perguntou se eu tinha achado alguma coisa no convés depois da tempestade. Com aquela voz educada. Eu disse que só um peixe.

— Um peixe.

— Foi o que me veio. — As orelhas dele deitaram. — Ele não acreditou, chefe. Mas sorriu.

Peguei o frasco. Era frio, mais frio do que devia ser um vidro que tinha passado dias no avental de um Palico. Virei contra a luz da brasa. O pó escorreu lá dentro, devagar, grudando um pouco no vidro, como farinha úmida.

— Cheira — disse Brasa. — Mas sem abrir. Pela rolha.

Levei a rolha ao nariz. Não senti quase nada. Um cheiro fraco, seco, amargo, que eu não soube dizer o que era.

— Eu sinto — disse Brasa. — Nariz de cozinha. — Ele olhou para as paredes da gruta, para cima, para o escuro. — Cheira igual a essas paredes, chefe. As manchas lá de cima. Só que mais velho. Muito mais velho. Como osso que ficou tempo demais no fogo.

Fiquei com o frasco na mão, olhando para ele.

Pensei nas manchas da Garganta, que eu tinha raspado com a faca do Tadeu. No sangue velho de coisas enormes que vinham até ali para morrer. E no doutor Crane contando os frascos, movendo os lábios, no convés molhado do navio.

Devolvi o frasco a Brasa.

— Guarda. No bolso da pimenta.

— E se ele perguntar de novo?

— Diz que era um peixe.

Brasa guardou. Depois se enrolou contra o meu peito, como um gato de verdade, e em pouco tempo estava dormindo. Eu não dormi. Não por muito tempo.


Quando dormi, sonhei.

Estava em Pedravento, no pasto da Mesa, de noite. Era inverno, e não havia rebanho, e o chão estava coberto de geada, e eu estava deitado de bruços na geada, com o ouvido colado no chão, como os pastores fazem para ouvir se tem cavalo vindo na estrada.

E eu ouvia.

Lá embaixo. Muito embaixo, mais fundo que as raízes, mais fundo que a pedra, mais fundo do que qualquer coisa que eu conhecia. Uma batida. Lenta. Pesada. Tão grave que eu não a ouvia com os ouvidos, ouvia com os dentes, com o peito, com os ossos do rosto encostados na terra fria.

Tum.

Esperei. Demorou tanto que achei que tinha imaginado.

Tum.

Não era um cavalo. Não era um tambor. Eu sabia o que era, no sonho, do jeito que a gente sabe as coisas nos sonhos, sem precisar que ninguém diga. Era um coração. Um coração enorme, debaixo da terra, batendo. E estava batendo errado. Devagar demais. Com um intervalo torto entre uma batida e outra, como um homem que manca.

Alguém estava deitado do meu lado, na geada. Não virei a cabeça para ver. No sonho, eu sabia que não podia virar. Mas ouvi a respiração dele, e senti o ombro dele perto do meu, e ouvi, muito baixo, alguém dizer, numa voz que eu não conhecia e conhecia:

Está ouvindo, filho?

Acordei.


Ainda era noite. A brasa do fogo pequeno estava quase apagada. Sessenta pessoas dormiam em volta dela, e a Garganta estava em silêncio, e o meu coração batia tão depressa que eu o sentia na garganta.

Fiquei deitado, esperando ele acalmar. Esperando a batida do sonho sumir. Sumiu. Quer dizer: achei que tinha sumido.

Quando me sentei, vi a panela.

Brasa a tinha deixado perto da brasa, com um resto de sopa no fundo. Tinha feito de propósito, eu soube depois. Deixou a panela meio cheia no lugar mais fácil de alcançar da gruta, perto da entrada, onde a Cornija terminava.

A panela estava vazia. Raspada. Limpa até o metal, como só uma língua pequena e paciente deixa uma panela.

E em volta dela, no chão de poeira da gruta, havia uma faixa varrida. Riscos finos, compridos, curvos, de um lado para o outro. Da largura de um palmo. Saíam da panela, passavam entre os pés de Kaspar Rhel, que estava de guarda sentado na entrada, com a besta no colo e a cabeça caída no peito, e sumiam lá fora, na Cornija, no escuro, no caminho de volta.

Brasa acordou com o meu movimento. Olhou para a panela. Olhou para a faixa varrida.

E sorriu. Um sorriso pequeno, orgulhoso, de cozinheiro.

— Comeu — sussurrou ele. — Mesmo ruim.

Não acordei ninguém. Não contei a ninguém. Me deitei de novo, com o Brasa contra o peito e a Pena contra as costas, e fiquei olhando o escuro da entrada até o céu lá em cima clarear.

Mas não foi a panela que ficou comigo naquela madrugada. Foi o sonho.

Porque, deitado no chão de pedra da gruta, com o rosto encostado na poeira, eu ainda achava que ouvia. Muito longe. Muito fundo. Tão fraco que podia ser o meu próprio sangue.

Tum.

E, depois de um tempo comprido demais, torto, manco:

Tum.

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