Capítulo 17

O Vento que Corta

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O vento da Garganta respirava. Levei meio dia para perceber, contando, do jeito que contava ovelha. Brann levou o tempo de pegar uma lasca de ferrugem no ar para dizer o nome do que respirava. E, a partir daí, o medo que a gente sentia mudou de nome também.


Saímos da gruta com o céu ainda cinza, e a Garganta começou a subir.

Depois da Cornija, a fenda voltava a ter chão, mas não era um chão bom. Era uma escada de pedra quebrada, degraus do tamanho de uma carroça, uns em cima dos outros, com gelo velho nos cantos e água escorrendo por baixo do gelo. As carroças tinham de ser puxadas degrau por degrau, com cordas, com os Seikrets bufando e os carregadores empurrando de ombro. As paredes chegaram mais perto. Em alguns trechos, dava para tocar as duas ao mesmo tempo. Lá em cima, a faixa de céu virou um fio.

E fazia frio. Não o frio úmido de caverna dos primeiros dias. Um frio seco, fino, que entrava pelo nariz e doía atrás dos olhos.

Foi aí que o vento começou.

No começo, achei que era só vento. Em Pedravento venta o ano inteiro, e eu cresci no alto da Mesa, onde o vento do norte chega sem pedir licença e vai embora sem avisar. Aquele vinha de frente, descendo pela fenda, do lugar para onde a gente ia. Vinha forte, frio, empurrando a gente para trás, fazendo a lona das carroças estalar e os olhos lacrimejarem. Depois parava. Depois vinha de novo.

Não achei estranho. Não logo.

Pena achou. Andava do meu lado pela rédea, e cada vez que o vento vinha ela abaixava o corpo, encolhia o pescoço e achatava a crista branca contra a cabeça, como as ovelhas da Maren encostam o focinho no chão antes de uma tempestade. E cada vez que o vento parava, ela levantava a cabeça e olhava para a frente, para o fundo da fenda, com as narinas abertas. Esperando.

Comecei a contar sem querer. É mania. O vento vinha, e eu contava enquanto ele soprava. Parava, e eu contava enquanto ele não vinha.

Vinte e dois. Depois quarenta. Vinte e dois. Depois quarenta. Vinte e um. Depois quarenta e um.

Quase sempre igual.

Vento não faz isso. Vento de montanha é bicho sem juízo, vem quando quer, forte ou fraco, de um lado ou de outro. Aquele não. Aquele tinha um ritmo. Comprido para dentro, comprido para fora. Parecia uma coisa muito grande, muito longe, puxando o ar e soltando. Foi o que pensei. Estava errado, e só ia saber o quanto no dia seguinte.

Pensei na sopa da noite anterior. No sonho. No tum torto debaixo da geada. E parei de contar, porque não queria mais saber.


— Kest! Kest, olha isso!

Era Nessa. Estava uns passos atrás de mim, com a mão estendida, a palma para cima, e um sorriso de criança na cara. Fazia dias que eu não a via sorrir. Desde o navio, talvez.

Na palma da mão dela havia uma coisa pequena, marrom-avermelhada, fina como uma folha seca. Enquanto eu olhava, outra caiu do ar, rodopiando, e pousou no cabelo dela.

— Está chovendo folha — disse ela. — Aqui dentro. Onde não tem árvore.

Olhei para cima. Ela tinha razão. O vento trazia coisas. Não muitas. Uma aqui, outra ali, rodopiando no ar, batendo nas paredes, caindo no chão entre as pedras. Lascas finas, curvas, cor de ferro velho. Estendi a mão, e uma pousou nela, e eu fechei os dedos.

Não era folha. Era dura. Fria. Fina como uma unha, e curva como uma unha, com a borda afiada, e rachada no meio. Por cima era cor de ferrugem, áspera, esfarelando nos dedos. Por baixo, onde tinha se soltado de alguma coisa, era lisa e escura e brilhava como metal.

— Ferrugem — disse Nessa, e anotou no caderno sem parar de andar. — Vinda de onde?

Não respondi. Tinha a lasca na mão, e o dedo sangrando um pouco onde a borda tinha cortado, e uma sensação ruim subindo pela nuca. A mesma da Pedra dos Nomes. A mesma dos caixotes em Varnhal.

Mais para a frente, o doutor Crane tinha parado no meio da trilha e juntava as lascas do chão com uma pinça, uma por uma, e as enfiava num frasco de vidro. Pell segurava o frasco. As mãos de Pell tremiam. As do doutor, não.


O vento que cortava veio perto do meio-dia.

Estávamos num trecho largo, entre dois degraus de pedra, esperando a última carroça subir. O vento tinha parado. Contei. Trinta e oito, trinta e nove, quarenta.

Não veio no quarenta. Veio no quarenta e três, e veio diferente.

Ouvi antes. Um assobio agudo, fino, descendo pela fenda como uma flecha. Depois bateu. Não foi um empurrão, como os outros. Foi uma pancada. Uma parede de ar gelado e duro, cheia de coisas: gelo moído, areia, as lascas de ferrugem, tudo junto, tudo voando na altura do rosto. Senti a cara arder como se tivessem me esfregado com uma lixa. Pena gritou. Alguém lá atrás gritou também, de dor.

Me encolhi contra a parede, puxando a Pena, e fechei os olhos, e fiquei ali contando, porque era a única coisa que eu sabia fazer.

Vinte e dois. Parou.

Quando abri os olhos, havia sangue.

Não muito. Riscos finos, vermelhos, na cara de quem não tinha virado o rosto a tempo. Um dos soldados tinha um corte na testa que descia até a sobrancelha e pingava. Custódio tinha as costas das mãos cortadas, como se tivesse enfiado os braços num espinheiro. A lona de uma das carroças estava rasgada de cima a baixo, em tiras, balançando. E Dita estava sentada no chão com a mão na bochecha, e entre os dedos dela escorria sangue.

Fui até ela. Tirei a mão dela do rosto. O corte era fino, comprido, do canto do olho até o queixo. Não era fundo. Mas era do tipo que fica.

— Ferrugem — disse ela, olhando para a lasca que tinha grudado no sangue do rosto. Não chorava. — Foi a ferrugem, Kest.

— Eu sei.

— Minha avó dizia que ferrugem na ferida dá febre de travar a boca.

— Não vai dar. — Eu não sabia se ia ou não. Molhei a ponta da manga no cantil e limpei o corte, e tirei a lasca com a unha, e ela não gritou. — Não vai dar, Dita.

Atrás de mim, ouvi a voz de Veyra, sem subir nem descer.

— Panos na cara. Todo mundo. Cobrir boca, nariz, até os olhos. Marn, a corda de guia. Ninguém anda solto daqui para a frente.


A corda de guia era uma corda grossa, comprida, de cânhamo trançado, que os carregadores desenrolaram de um carretel na carroça da frente. Passava de mão em mão, e cada um amarrava no cinto com um nó que a Cabo Marn conferia pessoalmente, puxando com as duas mãos. Sessenta pessoas numa corda só, como contas num colar. Os Seikrets presos pela rédea a quem estava do lado.

— Primeira regra — disse Brann, amarrando a corda no próprio cinto, na minha frente. — Ninguém anda sozinho. Agora ninguém consegue.

Nessa ficou atrás de mim. Amarrou a corda com as mãos rápidas de quem faz nó em rolo de mapa a vida inteira, e conferiu o meu nó sem pedir licença, e refez.

— Estava frouxo — disse.

— Não estava.

— Estava, Ilian. — Ela puxou. Segurou firme. — Pronto.

Andamos assim o resto da tarde. Presos. Com panos na cara e os olhos semicerrados, parando quando o vento vinha, encostando na parede, contando, e seguindo quando ele ia. Ninguém falava. Só dava para ouvir o vento, e as respirações abafadas pelos panos, e a corda rangendo, e as rodas.

E eu contando. Vinte e dois. Quarenta. Vinte e dois. Quarenta.


Os canhões apareceram no fim da tarde.

Brann tinha falado deles no navio, na noite das velas. A quarta levou canhões. Estão lá até hoje. Vocês vão ver. Eu não tinha pensado mais nisso. Achei que fosse modo de falar.

Não era.

A Garganta se abria ali num trecho mais largo, uma espécie de sala de pedra sem teto, e o chão estava cheio deles. Canhões. Oito, nove, dez, não consegui contar. Grandes, de bronze, do tamanho de um Aptonoth deitado, do tipo que eu só tinha visto desenhado nos livros de guerra da Guilda. Estavam espalhados pela sala como brinquedos que uma criança tivesse jogado no chão.

E estavam tortos.

Não quebrados. Tortos. O bronze grosso, da espessura de um palmo, dobrado como fio de cobre. Um tinha o cano virado para trás, apontando para a própria roda. Outro estava enrolado em si mesmo, como uma cobra dormindo. Outro estava cravado de ponta na parede da Garganta, a três metros do chão, fundo, como uma faca enfiada numa tábua. As rodas tinham sido arrancadas. As carretas eram lascas espalhadas. E havia marcas nas paredes em volta, riscos longos, fundos, paralelos, iguais aos que eu tinha visto nas manchas de sangue velho do primeiro dia.

Sessenta pessoas pararam na corda ao mesmo tempo.

— A quarta — disse Brann, baixo. Tinha puxado o pano da cara para baixo. — Cento e trinta anos. Trouxeram doze canhões pela Garganta. Na mão. Um ano de trabalho, dizem. — Ele olhou em volta, devagar. — Dispararam, pelo que se sabe, uma vez.

— E o que aconteceu? — perguntou alguém. Um dos soldados.

Brann não respondeu. Apontou com o queixo para o canhão cravado na parede, lá no alto.

Ninguém perguntou de novo.


Foi ali que o vento trouxe a lasca maior.

Veio rodopiando, pesada, batendo nas paredes, e caiu no chão da sala, entre dois canhões, com um barulho de panela. Brann foi até ela, arrastando a corda e a gente junto, e se agachou.

Era do tamanho de um escudo. Curva, grossa, marrom-avermelhada por cima, lascando em camadas finas como massa folhada. Por baixo, onde tinha se soltado, era escura e lisa e fria, e tinha um desenho. Linhas. Veios, como numa folha, ou como nas escamas de peixe grande.

Brann pôs a mão em cima dela. E eu vi o rosto dele mudar.

Não ficou com medo. Brann nunca ficava com medo de um jeito que desse para ver. Ficou triste. Um tipo de tristeza que eu não esperava, cansada, velha, como a de quem reconhece um conhecido no leito de morte.

— Kushala — disse ele. — Kushala Daora.

A corda inteira ficou em silêncio.

Todo mundo sabia o nome. Todo mundo tinha ouvido Brann falar dele no navio, na segunda, na terceira, na quarta vela. Os carregadores falavam dele à noite, baixo, sem dizer o nome, e eu achava que "ela", no não se canta, ela escuta, era a Garganta. Mas saber um nome é uma coisa. Ter a pele dele na mão é outra.

— É pele — disse Brann. Levantou a lasca com as duas mãos. Era pesada; ele sentiu o peso. — Kushala é o Dragão de Aço. Tem o couro de metal, placa em cima de placa. Com o tempo, o metal enferruja, e ele troca de pele, como cobra. Sai de dentro da velha brilhando, novo em folha, e a velha fica para trás, em lascas. — Ele virou a lasca contra a última luz da fenda. — Isso é normal. Já vi pele de Kushala largada numa montanha do norte. Mas não assim. Não tanto, nem tão podre. — Pôs a lasca no chão, com cuidado, quase com respeito. — Esse aqui está enferrujado até o osso, garoto. E está soltando aos pedaços pelo caminho.

— O senhor está dizendo que ele está morrendo — disse o doutor Crane. Estava atrás de nós, na corda, com o frasco na mão.

— Estou dizendo que não sei, doutor. — Brann olhou em volta, para os canhões dobrados, para as marcas nas paredes. — O senhor mesmo disse lá em Varnhal. Os Anciões vêm para cá para morrer. Pois esse veio. Os canhões da quarta mostram que ele já estava aqui há cento e trinta anos. — Ele limpou as mãos na calça, devagar. — Cento e trinta anos na entrada, doutor. Se veio para morrer, está demorando.

Ninguém disse nada. O vento veio, e a gente se encostou nos canhões, e as lascas de ferrugem passaram rodopiando por cima de nós, e eu contei até vinte e dois.

Quando ele parou, o doutor Crane estava de joelhos ao lado da lasca grande, com a pinça na mão, e os olhos dele por trás dos óculos brilhavam de um jeito que eu não gostei.

— Extraordinário — disse ele. — Cento e trinta anos para morrer.

E anotou.


Veyra Holt não tinha dito uma palavra desde os canhões.

Estava na frente da corda, parada, virada para o fundo da fenda, de onde o vento vinha. Tinha puxado o pano para baixo, como Brann, e o vento batia no rosto dela, no lado da cicatriz. Eu estava perto. Vi quando ela levou a mão até o rosto. Não para se proteger. Os dedos dela passaram pela cicatriz de gelo, devagar, da têmpora até o canto da boca, como quem conta uma coisa que já sabe de cor.

— Comandante? — disse Brann.

— É ele — disse Veyra. Não era para ninguém. — O mesmo.

Brann olhou para ela, e depois para mim, e depois para o chão.

— Oito anos — disse Veyra, ainda sem se virar. — Na trigésima, ele tinha a pele cinza. Cinza de aço. Brilhava. — Tirou a mão do rosto. — Não estava enferrujado. Não assim.

— Então ele está piorando — disse Brann.

— Está com pressa — disse Veyra.

Não explicou o que queria dizer. Virou-se para a corda, para nós, para as sessenta pessoas amarradas umas nas outras entre os canhões dobrados, e deu as ordens com a mesma voz de sempre, e eu pensei que nunca ia entender como alguém conseguia falar daquele jeito com uma cicatriz daquelas no rosto, olhando para a direção de onde ela tinha vindo.

— A Lapa fica a uma hora daqui. Uma fenda funda, com teto. A gente passa a noite lá. Sem fogo. Sem luz. Sem barulho. — Ela conferiu o nó do próprio cinto. — Andando.


Nessa me alcançou numa parada, quando o vento veio e todo mundo se encostou na parede.

Ficou do meu lado, com o ombro no meu, e o pano na cara, e só os olhos de fora. Tirou do caderno uma folha dobrada e enfiou no bolso do meu casaco, sem dizer nada, rápido, como quem passa uma coisa proibida.

— O que é?

— O que eu prometi. — A voz saía abafada pelo pano. — O sinal. Da mão. Copiei para você, lá no acampamento. E do outro lado da folha, a Garganta. O que eu tenho dela. Todas as passagens que as outras expedições marcaram, até a Porta.

— Por que agora?

Ela demorou para responder. O vento passou por cima de nós, e as lascas bateram na parede, e eu senti o corpo dela ficar tenso contra o meu.

— Porque a corda pode arrebentar — disse ela, afinal. — E se arrebentar, eu quero que você tenha uma cópia. — Fez uma pausa. — Você lê chão. Eu leio papel. Se a gente se separar, você vai precisar dos dois.

— A gente não vai se separar.

— Ninguém anda sozinho — disse ela, e eu ouvi, por baixo do pano, que ela estava sorrindo. — Mas eu conheço as regras da Garganta, Ilian. Anotei todas. — O sorriso sumiu da voz. — Ela não devolve.

O vento parou. Contei. Nessa se afastou da parede, puxou a corda entre nós para ver se estava firme, e seguiu.

Eu fiquei com a mão no bolso, em cima da folha dobrada, por muito tempo.


Estávamos a menos de meia hora da Lapa quando aconteceu.

O vento tinha vindo. Contei os vinte e dois de sempre, encostado na parede, com a Pena achatada contra mim e o Brasa enfiado dentro do meu casaco. Parou. Comecei a contar os quarenta.

Um. Dois. Três.

Nada de diferente. A corda rangendo. As respirações nos panos. As rodas.

Vinte. Trinta.

Quarenta.

Não veio.

Quarenta e cinco. Cinquenta.

Não veio.

Sessenta.

Nunca tinha passado de quarenta e três. Nem uma vez, o dia inteiro. Olhei para a frente, e vi que Brann também tinha parado de andar, e que Veyra tinha levantado a mão, e que a corda inteira estava parando, de trás para a frente, como tinha parado diante da fumaça da vigésima oitava.

E então percebi que não era só o vento.

As lascas de ferrugem que estavam no ar caíram. Todas ao mesmo tempo. Retas, para baixo, sem rodopiar, como neve em noite sem vento, e bateram no chão com um barulhinho seco, e pararam. O fio de água que escorria por baixo do gelo, que eu vinha ouvindo o dia inteiro sem perceber, ficou mudo. As rodas pararam. A corda parou de ranger. Pena parou de respirar contra o meu corpo, ou respirava tão devagar que eu não sentia.

Setenta. Oitenta.

Ninguém falou. Ninguém se mexeu. Sessenta pessoas, presas numa corda, no fundo de uma fenda, e nenhum som. Nenhum. Nem o próprio sangue, nos ouvidos. Nem a Garganta.

O vale prendendo a respiração, teria dito o capitão Orsolo.

Mas eu tinha contado o dia inteiro, e sabia que não era o vale.

Era ele.

E ele tinha parado.

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