Capítulo 18
O Dragão de Aço
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O soldado que morreu naquela tarde foi o mesmo que tinha dito, no primeiro dia, que o cheiro da Garganta era minério. Chamava-se Lenz. Tinha vinte anos de guarnição e nenhum medo de nada. Foi o único de nós que cortou a corda.
O silêncio durou o tempo de eu contar até cento e dez.
Depois, Veyra baixou a mão levantada e apontou para a parede da esquerda. Só isso. Não disse nada, e ninguém precisou que dissesse.
Havia uma rachadura ali. Eu tinha passado por ela sem ver. Uma fresta vertical na rocha, mais alta que um homem e mais estreita que dois, que entrava de lado na parede e virava um corredor comprido, escuro, torto, paralelo à Garganta. Não era a Lapa. Era só uma racha, sem teto direito, com o fio de céu lá em cima. Mas era o que havia.
A corda de guia foi entrando nela como linha entrando num buraco de agulha. Um por um, de lado, com o fardo tirado das costas, com as armas encostadas no peito. Os Seikrets tiveram de ser empurrados, com as asas curtas apertadas contra o corpo e os olhos arregalados. As carroças ficaram para fora. Não havia como. Ficaram paradas no meio da Garganta, abandonadas, com a lona rasgada batendo devagar.
Eu fui dos últimos a entrar. Estava no fim da corda, perto da boca da racha, com Brann na minha frente e Nessa atrás, e atrás de Nessa, Pell, e atrás de Pell, o soldado Lenz, que fechava a fila. Pena veio espremida contra mim. Brasa estava dentro do meu casaco, e eu sentia o coração dele batendo no meu peito, depressa, como o de um passarinho na mão.
Ninguém falou. Sessenta pessoas enfiadas numa fresta de pedra, em pé, de lado, peito com costas, e ninguém fazia barulho nenhum. Eu ouvia a respiração de Brann. Sentia o ombro de Nessa encostado no meu. E ouvia, lá fora, nada.
— Brann — sussurrei. Tão baixo que era quase só a boca mexendo. — O vento. Parou porque ele está escutando?
Brann virou a cabeça um pouco. No escuro da racha, vi o branco dos olhos dele.
— Kushala não sopra com o fôlego, garoto — sussurrou de volta. — O vento anda com ele. Em volta dele. Como uma capa. Quando ele se mexe, a Garganta se mexe. — Parou. — Quando ele para, para tudo.
— Então ele parou.
— Então ele parou.
— Onde?
Brann não respondeu. Olhou para a boca da racha, para a Garganta lá fora, e não respondeu.
Eu tinha passado o dia inteiro contando a respiração de um bicho que não estava respirando. Estava andando. Vindo. Batendo as asas lá na frente, na curva, e parando, e batendo de novo. E agora estava parado em algum lugar perto demais para eu saber onde.
O vento voltou de uma vez.
Não em rajada. Não com o ritmo de antes. Voltou inteiro, contínuo, forte, rodando, como se alguém tivesse aberto uma porta para dentro de uma tempestade. Ouvi a lona das carroças lá fora estalar e rasgar. Ouvi pedrinhas batendo nas paredes. E as lascas de ferrugem, de novo, voando, só que agora não caíam: giravam no ar da Garganta, em espiral, subindo e descendo, como folhas num redemoinho de outono.
E ouvi outra coisa.
Um barulho de metal. De metal velho, pesado, raspando em pedra. Um rangido fundo, longo, como uma porta de ferro enorme se abrindo devagar. E um estalo. E outro. E o chão da racha tremendo debaixo dos meus pés, de leve, uma vez, e depois de novo, e depois de novo, no ritmo de passos.
Pena começou a tremer.
Eu sabia o que vinha. A Seikret ia gritar. Todo bicho grita quando o medo passa do ponto, e o dela estava passando. Eu tinha visto aquilo em ovelha, em Aptonoth, em cachorro. E se ela gritasse ali dentro, com o eco da racha, a Garganta inteira ia ouvir.
Fiz a única coisa que eu sabia. Tirei o pano do meu rosto e o passei por cima da cabeça dela, cobrindo os olhos. Os pastores fazem isso com as ovelhas no parto, quando elas se debatem. Bicho que não vê não sabe do que tem medo. E encostei a minha testa na dela, por cima do pano, e fiquei assim, respirando devagar, bem devagar, para ela sentir o meu peito subindo e descendo e copiar.
Não cantei. Não se canta na Garganta.
Pena parou de tremer. Não de todo. Mas o bastante.
Foi então que ele passou pela boca da racha.
Vi primeiro a ferrugem.
Uma parede dela, marrom-avermelhada, descascada, passando diante da fresta a menos de dez passos de mim, tão perto que tapou toda a luz. Não entendi o que era. Achei que fosse a própria parede da Garganta se movendo. Placas. Placas enormes, curvas, sobrepostas como as telhas de um telhado, cada uma do tamanho de uma porta, e todas cobertas de ferrugem grossa, em crosta, empolada, rachada. Algumas estavam soltas. Pendiam de um lado, penduradas por uma ponta, e batiam umas nas outras a cada passo, com aquele barulho de metal velho. Entre elas, onde tinham caído, dava para ver o que havia embaixo.
Não havia pele nova. Havia mais ferrugem.
Depois vi a perna. Grossa como o tronco das faias do Bosque de Três Pontes, coberta das mesmas placas, com garras que entravam no cascalho da Garganta como pás. Ela se ergueu, se moveu e desceu. O chão tremeu. Uma pedra do tamanho da minha cabeça, perto da boca da racha, pulou.
E depois ele estava inteiro diante da fresta, e eu vi.
Vou tentar dizer como era, embora não tenha palavras. Era do tamanho de uma casa. Não uma casa de Pedravento, pequena, de pedra e sapé. Uma casa grande, das de Três Pontes, de dois andares. Tinha quatro patas e as asas dobradas nas costas, enormes, de metal, com a membrana entre os ossos esticada e escura e furada em alguns lugares, como vela velha de navio. O pescoço era comprido e grosso, coberto de placas menores, e a cabeça, lá no alto, estava baixa, perto do chão, balançando devagar de um lado para o outro, como a de um cachorro velho farejando uma trilha.
Na cabeça, dois chifres. Quer dizer: um. O da esquerda subia para trás, curvo, comprido, cor de ferro velho. O da direita não existia. Havia só o toco. Um toco partido perto da base, com a ponta irregular, lascada, e a ferrugem crescida por cima da fratura como uma casca por cima de uma ferida antiga.
E o vento rodava em volta dele. Dava para ver. As lascas de ferrugem, a poeira, o gelo moído, tudo girava em volta do corpo como água em volta de uma pedra no rio, sem nunca tocar nele. Uma capa, Brann tinha dito. Uma capa de vento.
Senti Nessa, atrás de mim, parar de respirar.
Senti Brann, na minha frente, apertar o cabo de Dona Berta tão forte que o couro rangeu.
E pensei, sem querer, numa coisa idiota. Pensei no Tadeu. Na faca dele, na minha cintura. Em como ele dizia que todo bicho, qualquer bicho, tem um jeito de andar que conta a idade. Os Aptonoth velhos pisam de lado, poupando a pata ruim. As ovelhas velhas param mais para descansar.
Aquele bicho pisava de lado. E parava.
Era velho. Estava cansado. Estava doente, ou coisa pior. Eu via. Qualquer pastor veria.
E ainda assim, se ele quisesse, podia derrubar aquela parede de pedra em cima de nós com uma pancada.
Ele passou pelas carroças.
Não fez nada com elas de propósito. Não precisou. A capa de vento chegou antes dele, e a primeira carroça, a das lanternas, simplesmente saiu do chão. Subiu inteira, girando devagar, com as rodas para cima e os caixotes caindo de dentro, e bateu na parede do outro lado e se desfez em tábuas. A segunda tombou. A terceira foi arrastada pelo cascalho, rangendo, até parar contra um degrau de pedra. A lona rasgada voou para cima e sumiu na faixa de céu como um pássaro.
Ele nem virou a cabeça. Continuou farejando o chão, devagar, passo a passo, descendo a Garganta na direção de onde nós tínhamos vindo. Na direção dos canhões.
Da fundura da racha, veio um barulho pequeno. Um arranhar. Levei um instante para entender: era um lápis. O doutor Crane estava anotando. Espremido entre Kaspar Rhel e a parede, no escuro, com o caderno encostado no peito, escrevendo sem olhar. Eu não via o rosto dele. Via só a mão, no pedaço de luz que entrava pela fresta, e a mão tremia tanto que o lápis pulava no papel.
Mas não parava de escrever.
E vi outra coisa, mais para dentro, perto da curva da racha. Veyra Holt, de pé, de lado, com a lança-pistola encostada no ombro. Estava olhando para fora. Para o chifre partido. E enquanto eu olhava para ela, ela fechou os olhos, devagar, como quem não precisa ver uma coisa para lembrar dela.
Kaspar Rhel mexeu o braço. Ouvi o estalo baixo do mecanismo da besta pesada. Olhei, e ele tinha levantado a arma até a altura do peito, apontada para a fresta, para o flanco enferrujado que passava lá fora, onde uma placa tinha caído e deixado um buraco escuro.
A mão de Crane parou de escrever e pousou no braço dele. Só pousou. Não apertou.
— Não — disse Crane. Nem um sopro. Só os lábios.
Kaspar baixou a besta.
Veyra estava a vinte passos, de olhos fechados. Não viu. Ninguém mais viu. Só eu, e eu fiquei pensando depois, por muitos dias, por que Kaspar Rhel, soldado da Guilda sob o comando de Veyra Holt, tinha baixado a arma quando o doutor disse não, sem sequer olhar para a Comandante.
Foi aí que Lenz começou a falar.
Estava no fim da fila, atrás de Pell, o último antes da boca da racha. Um homem de uns quarenta e cinco anos, grosso, de barba curta e grisalha, com o rosto vermelho de sol de muitas guarnições. Eu o conhecia de vista. Era dos soldados que andavam juntos, perto das carroças, rindo das superstições dos carregadores. Tinha dito, no primeiro dia, que o cheiro era minério. Tinha dito com tanta certeza que todo mundo acreditou.
Estava falando baixo. Muito baixo. Mas no silêncio da racha, com o vento rodando lá fora, eu ouvi.
— É minério. — Os lábios dele mexiam depressa. — É minério. É minério. As paredes são cheias. Por isso a Guilda quer o vale. É minério.
Pell, na frente dele, se virou e pôs a mão no peito dele. Pell, que tinha travado nas cordas do navio. Pell, que tremia até para segurar um frasco.
— Shhh — fez Pell. — Shhh. Por favor.
Lenz não ouviu. Tinha os olhos arregalados, fixos na fresta, no flanco de ferro que tinha passado e ainda estava passando, a cauda agora, comprida, grossa, arrastando no cascalho e deixando um sulco.
— É minério — disse ele, mais alto.
E tirou a faca da cintura.
Não entendi o que ele ia fazer. Achei que ia se defender. Que ia fazer uma besteira contra o dragão. Mas ele não olhou para o dragão. Olhou para o próprio cinto. Para a corda de guia, amarrada nele, com o nó que a Cabo Marn tinha conferido pessoalmente, puxando com as duas mãos.
E cortou.
— Não! — disse Pell, alto demais.
Lenz empurrou Pell contra a parede, se virou e saiu pela boca da racha correndo.
Não correu para longe do dragão. Isso é o que eu nunca entendi, e que Brann, depois, disse que era o que mais acontecia. Correu para trás. Para a Garganta. Para o caminho de onde a gente tinha vindo, para os degraus, para a Cornija, para o Degrau lá embaixo e o navio que já tinha ido embora.
Na direção para onde o dragão estava indo.
Vi tudo pela fresta. Vi ele correr pelo cascalho, entre os destroços das carroças, com os braços abertos, gritando alguma coisa que o vento levou. Vi ele passar a dez, quinze passos da cauda. Vi a cauda parar de se arrastar.
O Kushala não se virou. Não precisou.
Só abriu as asas.
Não as bateu. Só as abriu, meio abertas, como um homem que abre os braços para se espreguiçar. E o vento que rodava em volta dele mudou de forma. Ouvi. Senti. Um estouro de ar para fora, redondo, surdo, que entrou pela boca da racha e me empurrou contra Brann e Brann contra quem estava na frente dele, e a corda inteira foi para trás, sessenta pessoas de uma vez, como capim quando o vento passa.
E Lenz saiu do chão.
Não caiu. Subiu. Foi arrancado do cascalho como uma folha seca é arrancada de um galho, os braços ainda abertos, o corpo girando, e subiu, e subiu, rodando junto com as lascas de ferrugem, e bateu na parede da Garganta lá no alto, a dez, quinze metros, com um barulho que eu ouço até hoje nos dias de chuva.
E depois não estava mais lá. Não o vi cair. O vento o levou para cima, para a faixa de céu, e ele sumiu.
A Garganta não devolve.
Pell tinha escorregado pela parede da racha e estava sentado no chão, com as mãos na boca, e fazia um barulho baixo, contínuo, que não era choro. Nessa se ajoelhou do lado dele e o abraçou pela cabeça, apertando o rosto dele contra o ombro dela para abafar. Eu fiquei de pé. Com a testa encostada na testa da Pena, por cima do pano. Segurando.
Lá fora, as asas se fecharam. O vento voltou a rodar do jeito de antes.
E o dragão parou.
Parou de andar. Parou de farejar o chão. Ficou imóvel no meio da Garganta, com a cauda esticada para trás, a poucos passos da boca da racha, e as placas soltas pararam de bater umas nas outras.
Ninguém respirou. Nem o Brasa, dentro do meu casaco. Nem a Pena, debaixo do pano.
Então, devagar, com o rangido de uma porta de ferro enorme se abrindo, a cabeça dele começou a virar.
Não para trás, para onde Lenz tinha ido. Para o lado. Para a parede. Para a fresta na parede, estreita, escura, onde sessenta pessoas estavam amarradas numa corda, espremidas, peito com costas, sem fazer um único som.
O chifre inteiro passou diante da boca da racha. Depois o toco partido. Depois o olho.
Era do tamanho de um prato. Fundo, velho, com uma película turva por cima, como os olhos dos cachorros muito velhos de Pedravento. Não sei se me viu. Não sei se enxergava. Sei que olhou para a fresta. Para dentro. Para mim, na boca dela, com a testa encostada na cabeça de uma Seikret coberta com um pano.
Ficou olhando o tempo de eu contar até sete.
Depois abriu a boca.
Vi os dentes. Vi a ferrugem entre eles, e o escuro lá dentro, e o ar à volta da cabeça começando a girar mais depressa, puxando as lascas, a poeira, o pano do rosto de quem ainda o tinha, puxando tudo para dentro, como água descendo por um ralo.
E ele rugiu.
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