Capítulo 19
Avalanche
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O dragão não nos atacou. Era o que eu mais esperava e o que mais temia, e ele não fez. Rugiu, virou a cabeça para o outro lado e foi embora, como quem espanta uma mosca. Quem quase nos matou foi a neve. E a corda que eu cortei com a faca do Tadeu.
O rugido não era um som.
Eu achava que sabia o que era um rugido. Tinha ouvido o Kulu-Ya-Ku na prova, e o Chatacabra no charco, e os Aptonoth machos na primavera, quando brigam pelas fêmeas e a Mesa inteira treme. Aquilo não era isso. Aquilo era uma pancada. Um peso. Uma coisa que entrou pela boca da Racha e bateu em mim de uma vez, no peito, nos dentes, dentro dos ouvidos, e continuou batendo, e batendo, e não parava.
Não ouvi mais nada. Nem o vento, nem a Pena, nem o meu próprio grito, se eu gritei. Senti Brann cambalear na minha frente e bater na parede. Senti Nessa me agarrar pelas costas do casaco. Senti a pedra da Racha vibrar contra o meu ombro, toda ela, como um sino quando se encosta a mão depois da badalada.
A Pena arrancou.
O pano tinha caído da cabeça dela com o primeiro golpe de som. Ela viu. E empinou, e gritou, e eu não ouvi o grito, só vi o bico aberto, e ela se virou dentro da Racha, onde não havia espaço para ninguém se virar, e passou por cima de mim e de Brann e sumiu para o fundo da fresta, pisando em gente, arrastando a rédea, com as asas curtas batendo nas paredes.
Estendi a mão. Não alcancei.
Depois o rugido parou, e o silêncio que veio depois era pior, porque eu não ouvia nada. Um zumbido. Só isso. Um zumbido agudo, contínuo, dentro da cabeça, como se tivesse um inseto preso lá dentro.
E pela fresta, vi o dragão virar a cabeça para o outro lado.
Não nos olhou mais. Olhou para cima, para a faixa de céu. As asas se abriram. Inteiras, dessa vez. De parede a parede da Garganta, quase encostando nas duas, com a membrana furada esticada e a ferrugem das placas caindo delas em cortinas. E ele bateu as asas uma vez.
O vento que desceu daquele bater de asas me jogou para trás. A Racha inteira. A corda gemeu. E ele subiu.
Não subiu como sobe um pássaro. Subiu como sobe uma tempestade. Devagar, pesado, com a capa de vento rodando em volta dele e levando tudo o que estava solto na Garganta, as lascas, a poeira, os restos das carroças, uma roda inteira que eu vi passar girando no ar. Subiu pela fenda, batendo as asas contra as paredes, arrancando pedra delas, e foi ficando menor lá em cima, na faixa de céu, até virar uma sombra, e depois nada.
Foi embora. Só isso. Veio, olhou para nós, rugiu, e foi embora, como se nós não valêssemos a pena.
Senti as pernas amolecerem de alívio.
Foi quando a neve caiu.
Não vi o começo. Ninguém viu. Estava lá em cima, no alto das paredes da Garganta, onde eu nunca tinha pensado em olhar. Uma crosta de neve e gelo velho, acumulada ali havia anos, talvez séculos, pendurada na borda do penhasco como a aba de um telhado. E o rugido tinha batido nela. E o vento das asas tinha batido nela.
A primeira coisa foi o barulho, mesmo com o zumbido nos ouvidos. Um estalo alto, lá em cima, como madeira grossa se partindo. Depois um chiado. Depois um trovão contínuo, grave, descendo.
Olhei para cima, pela fresta de céu da Racha, e vi o branco vindo.
— Para dentro! — Era Brann, ou Veyra, não sei. Ouvi pela metade, abafado, como se viesse debaixo d'água. — Para o fundo! Para o fundo!
A corda deu um tranco. Brann me puxou, e eu puxei Nessa, e Nessa puxou Pell, e a fila inteira começou a se arrastar para o fundo da Racha, para longe da boca, espremida, tropeçando, gente caindo e sendo levantada pela corda. Eu ia de costas, olhando para cima.
A neve chegou primeiro na boca da Racha. Um paredão branco, despencando na Garganta lá fora, enterrando as carroças, os destroços, o lugar onde Lenz tinha corrido. E depois começou a entrar pela fresta de cima. Pelo fio de céu. Uma cachoeira de neve e gelo e pedra descendo pelas duas paredes da Racha, direto em cima de nós.
Estávamos no fim da fila. Os quatro últimos. Brann, eu, Nessa, Pell.
O resto da corda já estava no fundo, na curva, onde a Racha tinha um pedaço de teto. Nós não.
— Kest! — gritou Brann, e dessa vez eu ouvi.
A neve bateu.
Não sei quanto tempo durou. Não sei se fiquei desacordado. Sei que fiquei no escuro, e que havia peso em cima de mim, frio e pesado, e que não conseguia respirar, e que a boca estava cheia de neve.
Sei que a corda me salvou.
A corda estava esticada. Passava pelo meu cinto e seguia para a frente, para cima, para onde estava Brann, e dava trancos, um, dois, três. Brann estava puxando. E a corda, esticada, abria um espaço na neve em volta do meu corpo, e eu cavei com as mãos, com os braços, para cima, na direção dela, até que o meu rosto saiu e eu respirei.
Estava deitado de lado, meio enterrado. A Racha, ali, estava cheia de neve até a altura do meu peito. Um pouco de luz cinzenta vinha de cima. Lá na frente, a três passos, Brann estava de pé, afundado até a cintura, com a corda enrolada nas duas mãos e nos antebraços, puxando, e gritando o meu nome.
— Estou aqui! — gritei. — Estou aqui!
— Nessa? O rapaz?
Atrás de mim, a corda também estava esticada. Esticada para trás e para baixo, sumindo na neve. Senti o peso dela no cinto. Um peso morto.
— Nessa! — Virei o corpo, cavei, puxei a corda. — Nessa!
Ela saiu da neve a dois passos de mim, tossindo, com o cabelo branco de gelo e os óculos tortos, e Pell saiu logo atrás dela, agarrado na corda com as duas mãos. Estavam vivos. Estavam os dois vivos.
Comecei a rir. Não sei por quê. Ri, e Nessa me olhou como se eu estivesse louco, e começou a rir também, tossindo, e Brasa se mexeu dentro do meu casaco e botou a cabeça para fora e disse alguma coisa que eu não ouvi.
E então o chão cedeu.
Não era chão. Nunca tinha sido.
Eu não sabia, ninguém sabia, que aquele trecho da Racha não tinha fundo de pedra. Que o chão por onde tínhamos entrado era uma ponte de gelo velho, dura, coberta de cascalho e poeira, esticada por cima de outra fenda. Uma fenda embaixo da fenda. Tinha aguentado sessenta pessoas passando em fila. Não aguentou a neve.
Ouvi o estalo antes de sentir. Fundo, embaixo dos pés. Depois, a neve em volta de Nessa e de Pell afundou de uma vez, como água descendo por um ralo, e os dois afundaram com ela.
A corda deu um tranco no meu cinto que me dobrou ao meio.
Caí de bruços na neve. Fui arrastado. Um passo, dois, na direção do buraco, com a corda passando pelo meu cinto e descendo para dentro dele, esticada como corda de arco, com o peso de duas pessoas penduradas na ponta. Enfiei os braços na neve. Não havia onde agarrar. Não havia nada. Só neve, e mais neve, e o buraco se abrindo na minha frente, escuro, azul lá no fundo, soltando um frio que eu nunca tinha sentido.
E, atrás de mim, a corda para Brann também esticada, puxando para o outro lado.
Eu estava no meio. Com Nessa e Pell pendurados numa ponta e Brann segurando na outra, e a corda passando pelo meu cinto, apertando, cortando, me partindo ao meio.
— Segura! — gritava Brann. — Segura, Kest!
Olhei para trás. Brann estava deitado, agora. De costas na neve, com os pés enfiados contra um bloco de gelo, a corda enrolada nos braços, e o rosto vermelho, roxo, as veias saltadas no pescoço. Segurava. Segurava três pessoas sozinho, com cinquenta e um anos, e eu vi, com os meus próprios olhos, o bloco de gelo onde os pés dele estavam apoiados se mexer. Deslizar. Um dedo. Dois.
Na direção do buraco.
Ele não ia aguentar. O bloco não ia aguentar. E quando não aguentasse, íamos os quatro. Os cinco, com o Brasa.
Pensei em Lenz. Na faca dele. Na corda cortada.
A primeira regra. Ninguém anda sozinho.
— Brann! — gritei. — Me solta!
— Nunca!
— O gelo! O gelo está indo!
Ele olhou para os pés. Viu. E eu vi no rosto dele que ele tinha visto, e que tinha entendido, e que não ia soltar. Que ia descer com a gente. Que ia descer segurando.
Fui embora antes, na primeira vez, ele tinha dito, na gruta. Trinta e dois anos, e ainda penso nisso.
Não ia embora de novo. Não ia soltar nunca.
Então soltei eu.
Tirei a faca do Tadeu da bainha com a mão que não estava enfiada na neve. A faca de destrinchar, de cabo de osso. A caçada termina quando você aproveitou tudo. Passei a lâmina na corda, entre o meu cinto e Brann, e ela era grossa, trançada, dura de gelo, e a faca estava afiada como o Tadeu sempre deixava. Um corte. Dois.
— Kest, NÃO!
Três.
A corda arrebentou.
E eu fui para o buraco.
A queda foi curta. Mais curta do que eu esperava, e mais comprida do que eu queria.
Lembro do azul. Das paredes de gelo passando dos dois lados, lisas, azuis, cada vez mais escuras. Lembro de bater numa delas com o ombro e ricochetear. Lembro de ter pensado, com uma clareza estúpida, que era a queda mais alta da minha vida e que eu não estava com medo nenhum, porque não dava tempo. Lembro de ter virado o corpo no ar, sem pensar, do jeito que Brann tinha me ensinado no porão do navio. O chão é mais forte que você. Faça amizade.
Bati na neve fofa, rolei, bati em gelo duro, rolei de novo e parei.
E fiquei ali, de costas, olhando para cima, para um risco de luz cinzenta muito, muito longe, lá no alto. Pelo menos quinze metros. Talvez vinte. As paredes subiam retas e lisas até ele, de gelo azul, sem um degrau.
Lá em cima, bem pequeno, ouvi alguém gritando o meu nome. Brann. Gritava, e gritava, e a voz descia pelas paredes de gelo, rachada, e se perdia.
Depois, mais nada.
— Chefe.
Brasa estava em cima do meu peito. Tinha saído do casaco. Estava com as duas patas no meu queixo, e o focinho encostado no meu nariz, e os bigodes todos tortos, cheios de gelo.
— Chefe. Você está vivo?
— Acho que sim.
— Tem certeza?
Mexi os dedos. Os pés. O braço esquerdo doía de novo, onde tinha doído depois da tempestade. O ombro direito doía no lugar onde tinha batido na parede. A cintura ardia como fogo, onde a corda tinha apertado. Mas mexia tudo.
— Tenho.
— Então levanta, chefe. — A voz dele tremia. — Levanta, que a moça está machucada.
Me sentei.
Estávamos no fundo de uma fenda de gelo. Estreita, comprida, torta, com as paredes azuis subindo dos dois lados e se fechando lá em cima como as mãos de alguém rezando. O chão era de neve que tinha caído com a gente, e de blocos de gelo quebrados, e de pedra. Não havia muita luz. Só aquele risco cinzento lá em cima, e o gelo das paredes, que parecia brilhar sozinho, de leve, um brilho azul, fraco, frio, como o de um peixe morto.
Pell estava sentado contra uma parede, a uns passos de mim. Tinha o rosto branco e sangrava do nariz, e segurava o pulso esquerdo com a mão direita, mas estava sentado, estava de olhos abertos, estava me olhando.
— Kest — disse ele. — Kest, a perna dela.
Nessa estava deitada entre dois blocos de gelo.
Um terceiro bloco, grande, do tamanho de um baú, tinha caído com a gente. E tinha caído em cima da perna esquerda dela, da canela para baixo. Ela estava de costas, de olhos abertos, olhando para o risco de luz lá no alto. Não gritava. Não chorava. Respirava curto, depressa, pelo nariz, como os bichos respiram quando a dor é tão grande que já não dá para gritar.
Fui até ela de joelhos.
— Nessa.
Ela virou os olhos para mim. Os óculos tinham caído. Ela me olhou sem eles, apertando os olhos, e eu vi que ela não conseguia me ver direito.
— Ilian? — disse ela. — Você cortou a corda.
— Cortei.
— Eu refiz o seu nó — disse ela. Quase riu. — Para nada.
— Não foi para nada.
Olhei para o bloco. Para a perna dela embaixo dele. Havia sangue na neve em volta. Muito sangue. Escuro, quase preto naquela luz azul, espalhando devagar pela neve, entrando nela.
Enfiei as mãos embaixo do bloco. Pell se arrastou até mim e enfiou a mão boa também. Brasa enfiou as patas. Contei até três e empurramos.
O bloco se mexeu. Nessa gritou. Foi o único grito dela, e ecoou pela fenda de gelo inteira, subindo pelas paredes, e voltou, e voltou, e eu empurrei com tudo o que tinha, com as costas, com as pernas, com o ombro que doía, e o bloco rolou para o lado e caiu.
Não olhei para a perna. Não logo. Olhei para o rosto dela.
Ela tinha desmaiado.
Não sei quanto tempo ficamos assim. O risco de luz lá em cima ficou roxo. Depois cinzento-escuro. Depois quase preto. O frio foi subindo pelo chão, pelas pernas, pelas costas. Não era o frio da Garganta. Era outro. O frio de dentro do gelo, que não vem do ar, vem das coisas, e entra nos ossos pela carne sem passar pela pele.
Pell tinha no bolso a pederneira do doutor Crane. Não tinha nada para acender. Acendeu assim mesmo, uma vez, e a faísca iluminou a fenda de gelo por um instante, azul e branca, e eu vi a perna de Nessa.
Pedi que ele não acendesse de novo.
Amarrei a coxa dela com o que restava da corda, bem apertado, acima do joelho, do jeito que o Tadeu amarrava a pata dos Aptonoth quebrados antes de decidir se abatia ou não. Tirei o meu casaco e a enrolei nele. Deitei do lado dela, colado, com o Brasa enfiado entre nós, e Pell do outro lado, e ficamos assim os três, os quatro, no escuro, respirando.
Nessa tremia. Tremia inteira, os dentes batendo, o corpo sacudindo contra o meu em espasmos, e eu segurei, e contei, e disse a ela que ia ficar tudo bem, baixinho, sem cantar, porque não se canta na Garganta.
Lá em cima, ninguém gritava mais o meu nome.
Não sei a que horas ela parou de tremer.
No começo, achei que era bom. Que ela tinha esquentado. Que o casaco, e o meu corpo, e o Brasa, tinham conseguido. Senti o corpo dela ficar quieto contra o meu, e relaxei, e quase dormi.
Então lembrei.
Lembrei do inverno em que eu tinha doze anos, e da nevasca que pegou o rebanho da Maren no alto da Mesa, e das três ovelhas que achamos no dia seguinte numa ravina, encolhidas uma contra a outra, debaixo da neve. Duas estavam mortas. A terceira ainda respirava. E a Maren se ajoelhou do lado dela, pôs a mão no lombo, e ficou muito tempo em silêncio.
— Ela parou de tremer — disse a Maren. — Quando para de tremer, Ilian, é porque o corpo desistiu de lutar contra o frio.
A ovelha morreu antes do meio-dia.
Pus a mão no rosto de Nessa, no escuro. Estava frio. Frio como o gelo das paredes.
E ela não tremia mais.
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