Capítulo 20

Batidas

14 min de leitura

Ninguém mais ouviu. Nem Pell, que estava do meu lado. Nem Brasa, que ouve um peixe estalar na brasa do outro lado de uma cozinha. Só eu. E foi atrás do que só eu ouvia que eu carreguei Nessa para fora do gelo. Até hoje não sei dizer se aquilo me salvou ou se me chamou.


A primeira coisa que fiz foi obrigar Pell a queimar o caderno.

Não foi assim que eu disse. Eu disse: "Pell, você tem papel?" E ele entendeu na hora, e ficou mais branco do que já estava, e pôs a mão no bolso do casaco como quem protege um filho.

— São as minhas notas — disse ele. — Dois anos de notas. Os anfíbios do Charco. Os Seikrets de Varnhal. A…

— Ela parou de tremer.

Pell olhou para Nessa, enrolada no meu casaco entre nós dois, quieta demais. Olhou para mim. E tirou o caderno do bolso.

Era pequeno, de capa de couro gasta, cheio até a última página com uma letra redonda e caprichada que não se parecia nada com a de Crane. Pell arrancou a primeira folha com a mão boa. Hesitou. Arrancou a segunda. Depois não hesitou mais. Amassamos as folhas em bolas, e Brasa, que entende de fogo mais do que qualquer um de nós, arrumou as bolas num montinho em cima de uma pedra, com as mais amassadas no meio, e Pell bateu a pederneira do doutor Crane.

Na terceira faísca, o papel pegou.

Era um fogo ridículo. Do tamanho de uma mão aberta. Durava pouco, e Pell ia alimentando folha por folha, e cada folha que entrava levava embora uma parte de dois anos da vida dele, e ele não dizia nada. Mas era fogo. A luz subiu pelas paredes de gelo, amarela, quente, e pela primeira vez eu vi onde estávamos.

A fenda era mais comprida do que eu tinha pensado. Estreita, torta, com as paredes de gelo azul subindo lisas até o risco escuro lá no alto. Para um lado, o chão subia um pouco e acabava num paredão de gelo. Para o outro, a fenda seguia, fazendo uma curva, e sumia no escuro.

Encostei Nessa no fogo, o mais perto que dava. Esfreguei as mãos dela nas minhas. Enfiei as mãos dela debaixo da minha camisa, contra a barriga, e o frio delas me fez perder o fôlego. Brasa se enrolou no pescoço dela, como um cachecol de pelo laranja, e ficou ali, quieto.

— Ela vai… — começou Pell.

— Não sei.

Ele alimentou o fogo com mais uma folha. Vi, antes de a chama comer, um desenho a lápis de um sapo, com setas e números em volta. Depois, cinza.


Foi o Brasa quem notou primeiro.

— Chefe — disse ele, do pescoço de Nessa. — O queixo.

Olhei. O queixo de Nessa estava batendo. De leve. Os dentes, um contra o outro. Depois o ombro deu um tranco. Depois o corpo inteiro, de uma vez, sacudindo contra as minhas mãos.

Ela estava tremendo de novo.

Nunca fiquei tão feliz de ver alguém sofrer. Segurei as mãos dela com força contra a minha barriga, e ri, de novo, igual lá em cima, e Pell me olhou como se eu estivesse louco, e depois entendeu, e riu também, um riso rachado, com o nariz ainda sangrando.

— Está tremendo — disse ele. — Isso é bom?

— Isso é ótimo — eu disse. — Ela voltou a brigar.

Nessa abriu os olhos. Não me via direito, sem os óculos, com o fogo na cara. Mas viu que era eu. Os lábios dela se mexeram.

— Frio — disse ela.

— Eu sei.

— A perna.

— Eu sei. Não olha.

Ela não olhou. Fechou os olhos de novo e ficou tremendo, e eu fiquei segurando, e Pell foi arrancando as folhas do caderno uma por uma, até que só restou a capa.


Quando o caderno de Pell acabou, abri o bolso do meu casaco, que estava em volta de Nessa, e tirei a folha dela.

Tinha esquecido que estava ali. Lembrei com o fogo. A folha dobrada, com o sinal da mão de um lado e o mapa da Garganta do outro. Se a gente se separar, você vai precisar dos dois.

Desdobrei perto da última chama.

Estava tudo lá. A letra dela, pequena, arrumada. A Garganta, como um rio desenhado de cima, com as curvas e os alargamentos. O Degrau, lá embaixo. A Cornija. Os Degraus. A Sala dos Canhões, com um pequeno desenho de canhão. A Racha, marcada com um risco e uma nota: fresta lateral, 11ª e 22ª abrigaram-se aqui. E a Lapa, logo depois, com um círculo.

E, embaixo da Racha, em tinta mais clara, uma linha fina que corria por baixo da Garganta. Uma fenda embaixo da fenda. Alguém, em alguma expedição, tinha caído ali, ou visto ali, e marcado. Tinha uma nota ao lado, e eu li duas vezes, porque não queria acreditar.

Fenda de gelo sob a Racha. Sem saída conhecida. (22ª: dois homens. Não voltaram.)

A linha terminava num paredão. Dos dois lados. Nessa tinha desenhado os dois paredões com cuidado, como desenhava tudo.

Olhei para um lado da fenda, o do paredão de gelo que eu via com os meus olhos. Olhei para o outro, o da curva que sumia no escuro.

No mapa, a curva também terminava num paredão. Mais adiante.

— O que diz? — perguntou Pell.

— Que não tem saída.

O fogo apagou.


Não sei quanto tempo ficamos no escuro depois disso. Uma hora. Mais. Eu tinha deitado de novo com Nessa, colado nela, com Pell do outro lado e Brasa enfiado entre nós. Ela tremia. Eu contava as tremidas, como contava tudo, para ter certeza de que não paravam.

Estava com o rosto encostado no chão. No gelo. Não por escolha. Era onde a minha cabeça tinha ficado, de lado, com a bochecha na neve dura e, por baixo da neve, o gelo.

E foi assim que eu ouvi.

No começo, achei que era o meu coração. Estava batendo alto, e eu estava com o ouvido no chão, e o ouvido no chão é traiçoeiro: faz você ouvir o próprio sangue. Esperei. Contei as minhas batidas, as do meu peito, e elas eram rápidas, curtas, um-dois, um-dois, como as de qualquer um que está com medo e com frio.

A outra não era assim.

Tum.

Veio de baixo. Muito de baixo. Mais fundo que o gelo, mais fundo que a pedra debaixo do gelo, mais fundo que qualquer fundo que eu conhecia. Não ouvi com o ouvido. Ouvi com os dentes. Com o osso do rosto encostado no chão. Com o peito.

Esperei. Contei.

Onze.

Tum.

Catorze.

Tum.

Nove.

Não era igual. Não tinha ritmo. Não era como o vento da Garganta, que eu tinha contado o dia inteiro, vinte e dois e quarenta, vinte e dois e quarenta. Aquilo era torto. Mancava. Um intervalo comprido, um curto, um comprido demais, como um homem que anda com uma perna ruim e às vezes para no meio do passo para ver se ainda aguenta.

Era o sonho. O coração debaixo da geada da Mesa.

Só que eu estava acordado.

— Pell — sussurrei. — Pell, encosta o ouvido no chão.

Ele encostou. Esperei. Dezesseis. Tum.

— Ouviu?

— O quê?

— A batida.

Pell ficou quieto um tempo. Eu ouvi a respiração dele, curta, no escuro. Contei mais duas batidas, lá embaixo, tortas.

— Não ouço nada, Kest — disse ele, afinal, e havia medo na voz dele, e não era medo do escuro. — Só a gente.

— Brasa.

— Não ouço, chefe. — Brasa tinha as orelhas grandes coladas no gelo. — Ouço a moça tremendo. Ouço o Pell. Ouço a água, lá longe. — As orelhas giraram. — Nada batendo.

Tum.

Brasa ouve um peixe estalar no fogo do outro lado de uma cozinha. Brasa ouviu a Pena gemer no estábulo de Varnhal através de uma parede de pedra. Brasa não ouvia.

E eu ouvia, e cada batida me entrava pelo rosto e descia pelo pescoço até o peito, e ficava lá.


Pensei no doutor Crane.

Na beira do Charco das Rãs, no dia do Chatacabra. Na voz macia dele, sorrindo, com o caderno na mão. Só os sapos? Não ouviu mais nada? Nenhum… outro som?

Pensei no capitão Orsolo, na popa do navio, coçando a barba amarelada de fumo. Disse que o navio tinha um coração, e que o coração estava batendo errado.

Um homem da vigésima sétima. Três noites com o ouvido no casco.

Senti os pelos dos braços se arrepiarem, e não era de frio.

Não sei explicar o que fiz depois. Não sei explicar nem hoje. Levantei a cabeça do chão. A batida sumiu. Encostei de novo, e ela voltou. Arrastei o corpo meio metro para o lado do paredão, e encostei o rosto no gelo, e esperei.

Tum. Mais fraca.

Arrastei o corpo para o outro lado. Para a curva. Para o escuro, onde o mapa de Nessa dizia que havia outro paredão e dois homens da vigésima segunda que nunca voltaram.

Tum. Mais forte.

Mais meio metro.

TUM.

Era como achar ovelha perdida na neblina da Mesa pelo som do chocalho. Você não vê nada. Só ouve, e vai para onde fica mais alto. Eu tinha feito aquilo cem vezes, desde os onze anos.

— Pell — eu disse. — Me ajuda a levantar a Nessa.

— Para onde?

— Para lá. — Apontei para o escuro. Ele não via o meu braço. Eu não via o meu braço. — Para a curva.

— O mapa diz que…

— Eu sei o que o mapa diz.

— Kest. — A voz dele tremia. — Você está ouvindo uma coisa que ninguém ouve. No escuro. No fundo de um buraco. Você sabe como isso soa?

Eu sabia. Soava como os que vão para Kharvaal. Achei que era maluco. Os que vão para lá costumam ser.

— Sei — eu disse. — Me ajuda assim mesmo.

Ele me ajudou.


Carreguei Nessa nas costas, do jeito que os pastores carregam cordeiro com a pata quebrada: os braços dela por cima dos meus ombros, amarrados nos pulsos com a manga do meu casaco, e as pernas dela penduradas, e eu curvado para a frente, segurando as coxas dela por trás. A perna ruim batia na minha. Cada vez que batia, ela gemia no meu ouvido.

Pell ia na frente, tateando a parede com a mão boa. Brasa ia no chão, na frente de Pell, porque enxerga no escuro melhor que qualquer um de nós, e ia dizendo pedra, chefe, pedra; buraco, cuidado; sobe.

E eu parava de tanto em tanto, me ajoelhava com Nessa nas costas, encostava o rosto no gelo e ouvia.

Tum. Mais forte. Sempre um pouco mais forte.

A fenda fez a curva. Depois outra. O chão começou a subir. O frio mudou. Senti primeiro nas mãos: um ar diferente, que se mexia. Uma corrente, fraca, fria, vindo de cima, da frente.

— Brasa?

— Vento, chefe. — A voz dele veio do escuro, lá na frente. — Tem vento vindo de cima.

E então a voz de Pell, apertada:

— Kest. O paredão.

Tinha chegado nele. Senti com a mão. Gelo, liso, subindo reto. O paredão que Nessa tinha desenhado. O fim da fenda.

Me ajoelhei. Encostei o rosto no gelo, embaixo, no pé do paredão.

TUM.

Veio da esquerda. Não de baixo: da esquerda. Arrastei a mão pela parede, na altura do chão, para a esquerda. Gelo. Gelo. Gelo.

Nada.

Ar.

Um buraco. Baixo, na base do paredão, largo como os ombros de um homem, onde o gelo não chegava ao chão e deixava uma fresta. E, pela fresta, vinha o vento.

— Não está no mapa — disse Pell, com a mão no buraco, a voz quebrando. — Não está no mapa, Kest.

— Não — eu disse. — Não está.

Eu ainda ouvia a batida. Mas ela estava ficando para trás.


Rastejamos. Primeiro Brasa, depois Pell, depois eu, empurrando Nessa na minha frente, de barriga para cima, puxada por Pell pelos braços, com o meu casaco servindo de trenó. Ela gritou uma vez, quando a perna bateu no gelo. Depois não gritou mais.

A fresta subia. Estreita. Tão estreita que em um trecho eu tive de soltar o ar para passar. E depois se alargava, e subia mais, e virava pedra em vez de gelo, e eu ouvi, lá em cima, na frente, uma coisa que me fez parar.

Um grito. Um grito de Seikret.

— Pena? — Não gritei. Não conseguia. Só disse. — Pena?

O grito veio de novo. Estridente, aflito, o grito que ela dava no estábulo de Varnhal quando os cabos gemiam. E depois vozes. Vozes de gente, abafadas pela pedra, lá em cima. Uma delas grossa, rouca, que eu conhecia.

— …cavando a noite inteira, a bicha, a noite inteira, na parede do fundo! Varn, a luz, a luz, aqui!

Uma luz apareceu lá em cima. Amarela. Uma lanterna, balançando, entrando por uma fresta na pedra e iluminando o túnel onde nós estávamos. E, na frente da luz, uma cara.

Uma cara de Seikret, de crista branca eriçada, com os olhos arregalados e as garras enfiadas na terra que ela vinha cavando. Atrás dela, a cara de Sila Varn, com a lanterna na mão, olhando para baixo, para nós, e a boca dela abrindo devagar, sem som nenhum. E atrás de Sila, enchendo a fresta inteira, vermelho, com a barba cheia de gelo e os olhos inchados, Brann.

— Estão aqui — disse Sila. Não para nós. Para trás, por cima do ombro, para alguém que eu não via. — Estão aqui. Os quatro. Estão vivos.


Era a Lapa.

A fenda de gelo corria por baixo da Garganta e saía no fundo da Lapa, onde a coluna tinha passado a noite. Numa rachadura atrás de umas pedras, no fundo da gruta, onde ninguém tinha ido porque ninguém vai ao fundo de uma gruta na Garganta à noite. Ninguém, a não ser uma Seikret assustadiça que tinha derrubado três cavaleiros em Varnhal, e que tinha fugido do rugido para dentro da Racha, e que tinha chegado com a coluna à Lapa, e que, segundo a Cabo Marn me contou depois, tinha passado a noite inteira arranhando aquela parede, gritando, sem deixar ninguém chegar perto.

Até que Brann, que tinha voltado duas vezes à Racha enterrada e cavado com as mãos até Veyra mandar parar, ouviu o que ela estava dizendo. E chamou Sila. E foram os dois, amarrados um no outro. Ninguém anda sozinho.

Me puxaram para cima pelos braços. Primeiro Brasa, depois Pell, depois Nessa, embrulhada no meu casaco, passando de mão em mão pela fresta, com Sila segurando a cabeça dela. Depois eu.

Quando saí, a Pena enfiou a cabeça no meu peito com tanta força que me derrubou. Fiquei no chão da Lapa, de costas, com uma Seikret em cima de mim, de crista eriçada, fazendo um barulho que eu nunca tinha ouvido ela fazer. Um ronco baixo, contínuo, como um gato.

Depois a Pena saiu, e Brann apareceu no lugar dela.

Ele não disse nada. Me levantou do chão pela frente do casaco, com as duas mãos, como quem levanta um saco, e me pôs de pé, e me olhou de perto. Os olhos dele estavam vermelhos. A barba estava cheia de gelo e de outra coisa.

— Nunca mais — disse ele. A voz saiu rouca, rasgada. — Nunca mais você corta uma corda minha. Está me ouvindo, garoto? Nunca mais.

— Sim, senhor.

— Eu devia te quebrar os dentes.

— Sim, senhor.

Ele me abraçou. Com tanta força que eu não conseguia respirar, e as costelas estalaram, e eu senti o peito dele sacudir contra o meu, e deixei. Por cima do ombro dele, vi a Cabo Marn de pé na entrada da gruta, com a lanterna na mão e a boca aberta.

— Devolveu — disse ela, baixinho, para ninguém. — A Garganta devolveu.

E, mais atrás, no escuro, vi Veyra Holt. Parada. Olhando para mim. Não disse nada. Não se aproximou. Ficou só olhando, por muito tempo, com o olho claro e o escuro, como se eu fosse uma coisa que ela não sabia onde guardar.


Nessa estava deitada perto do fogo quando voltei a pensar direito. Tinham acendido um fogo na Lapa, contra as ordens, com o que sobrou do carvão. Estava pálida. Tinham posto um cobertor em cima dela, e o meu casaco embaixo. Os lábios estavam roxos. Mas tremia. Tremia inteira.

O doutor Crane estava ajoelhado ao lado dela, com as mangas arregaçadas, olhando a perna.

Eu me ajoelhei do outro lado. Ela virou os olhos para mim. Sem óculos, apertando os olhos, com a febre ou o frio fazendo os dentes baterem.

— Ilian — disse ela. Tão baixo que eu tive de chegar perto. — No escuro. Você disse para o Pell. Que estava seguindo.

— Descansa.

— Você disse que seguiu o quê?

Abri a boca. Não sei o que ia dizer. Não sei se ia contar a verdade. Não tive de escolher: ela fechou os olhos antes de eu responder, e a cabeça caiu de lado no cobertor, e ela desmaiou.

Crane não tinha levantado os olhos. Estava olhando a perna dela à luz do fogo. Vi, por cima do ombro dele, o que eu não tinha deixado Pell iluminar lá embaixo. O osso branco saindo pela pele da canela. O sangue escuro em volta, grudado, congelado nas bordas.

Crane tocou a pele em volta do ferimento com dois dedos, muito de leve. Estava quente. Mesmo eu, do outro lado, via que estava quente, vermelha, inchada, num corpo inteiro que estava gelado.

Ele tirou os óculos, limpou as lentes na manga e os pôs de volta. Depois me olhou. Os olhos cinzentos dele estavam calmos. Educados. Tristes, quase.

— Se a febre vier — disse ele —, ela não passa da Porta.

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