Capítulo 21
A Porta Sepultada
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Meu pai nunca esteve na Porta Sepultada antes de desenhar aquela espiral. Eu sei disso. Ele escreveu que tinha sonhado com ela, e meu pai podia ser muita coisa, mas não mentia no papel. Então ela estava ali, riscada em pedra, esperando, havia mais tempo do que existe gente para contar. E ele sonhou com ela numa cama em Pedravento, com a minha mãe dormindo do lado.
Levei o dia inteiro para chegar até ela. E, quando cheguei, desejei não ter olhado.
Crane pôs o osso de Nessa no lugar antes de o dia clarear.
Chamou Brann com dois dedos e disse onde segurar: o joelho dela, com as duas mãos, e o peso todo em cima. Mandou Pell segurar os ombros. A mim, não mandou nada. Eu fiquei com a mão dela.
— Morda — disse ele, e pôs entre os dentes dela uma tira de couro dobrada.
Nessa estava meio acordada. Olhou para mim, sem óculos, apertando os olhos para achar o meu rosto. Os óculos tinham ficado lá embaixo, em algum lugar da fenda, debaixo da neve. Aquilo me pareceu mais triste que a perna.
— Olha para mim — eu disse. — Só para mim.
Crane puxou.
Ela não gritou. Fez um som por trás do couro que eu nunca vou esquecer, um som de bicho, baixo e comprido, e as unhas dela entraram na minha mão até sangrar. O osso branco sumiu para dentro da pele com um estalo molhado que eu senti nos dentes. Depois o corpo dela amoleceu, e os olhos viraram, e ela desmaiou de novo.
— Melhor assim — disse Crane, calmo, já limpando as mãos num pano. — Não vai sentir a tala.
Amarrou a perna entre duas ripas de madeira que Custódio arrancou do que sobrava de uma caixa de ferramentas, e cobriu a ferida com um emplastro verde-escuro que cheirava a erva amassada e a vinagre. Trabalhava depressa, com os dedos compridos e limpos. Eu não conseguia deixar de olhar para as mãos dele. As mesmas mãos que tinham fechado a maleta no navio, no meio da chuva, depressa, antes que eu visse mais.
— Ela vai ficar boa, doutor?
Ele amarrou o último nó antes de responder.
— A perna, talvez. — Tirou os óculos, olhou através deles para o fogo, pôs de volta. — É a febre que mata, Kest. Não o osso. O osso é só a porta por onde ela entra.
Veyra deu a ordem de marcha com o dia ainda cinzento.
Eu tinha passado a madrugada ensaiando o que dizer se ela deixasse Nessa para trás. Não precisei. Veyra olhou a maca que Brann e Custódio estavam montando com duas lanças dos soldados e a capa de Brann, e disse só:
— Revezem de quatro. Quem cansar, avisa antes de cair.
E foi para a frente da coluna, sem olhar para mim.
Pegamos a maca eu, Brann, a Cabo Marn e um soldado chamado Oskel, que tinha as mãos do tamanho de pás. Na primeira troca, Dita apareceu do meu lado. A cara dela ainda tinha o corte da rajada, do olho ao queixo, fechado numa linha escura e inchada.
— Eu pego a sua ponta — disse ela.
— Você está com o tornozelo…
— Eu devo. — Ela já estava segurando a lança. — Então eu pago.
Deixei.
Depois da Lapa, a Garganta foi abrindo. As paredes se afastaram uma da outra, devagar, como duas pessoas que brigaram e não querem admitir. O céu apareceu, primeiro um fio, depois um céu de verdade, branco, baixo, pesado de neve que não caía.
E o vento não voltou.
Contei a manhã inteira, esperando o sopro de vinte e dois e a pausa de quarenta. Não veio. Lá atrás, na Racha, alguma coisa velha e enferrujada tinha ido embora voando, e levado o vento com ela, e a Garganta tinha ficado muda como uma casa depois de um enterro.
Ninguém falava do Lenz. Ninguém falava das carroças. Ninguém falava da comida, que agora era o que cada um tinha nas costas, e que Brasa, andando do lado da maca com o avental cheio de neve, já tinha contado duas vezes e não quis me dizer o número.
— Chefe — foi só o que ele disse. — Não pergunta hoje. Pergunta amanhã.
Perto do meio-dia, Nessa começou a falar.
Estávamos parados, trocando as pontas da maca num lugar onde o chão ficava plano por uns vinte passos. Eu tinha acabado de soltar a lança, com os braços tremendo, e me ajoelhei do lado dela para ajeitar o cobertor. Ela estava de olhos abertos. Olhando para o céu.
— Está torto — disse ela.
— O quê?
— O rio. — A voz dela estava clara, bem clara, a voz de quem explica. — Eu desenhei o rio torto. Tem que refazer. A Guilda não aceita mapa com rio torto. Onde estão os meus… — As mãos dela subiram até o rosto, procurando. — Os óculos. Ilian, você viu os meus óculos?
— Ficaram lá embaixo.
— Lá embaixo onde?
Não respondi. Pus a mão na testa dela.
Estava quente.
Não o calor bom de quem sai do frio para o fogo. O calor seco, errado, que a ovelha doente tem na orelha antes de deitar no pasto e não levantar mais.
Do outro lado da maca, Crane estava olhando. Não disse nada. Fez uma anotação no caderno.
— Doutor.
— Eu sei, Kest.
— O senhor disse que se viesse…
— Eu sei o que eu disse. — Ele fechou o caderno. — Falta pouco agora. Sigamos.
Pegamos a maca de novo. Nessa falou do rio torto mais um pouco, depois de uma tia que fazia pão de mel perto do porto, e se calou. O rosto dela estava vermelho nas maçãs e branco em volta da boca. Os lábios, rachados.
A Garganta parou de subir no começo da tarde.
Senti nas pernas: o peso da maca, que durante dois dias tinha puxado os meus ombros para trás, começou, bem de leve, a empurrar para a frente. Pela primeira vez desde o Degrau, lá no pé das Coroas, o chão estava descendo.
E, bem ali, no ponto mais alto, onde a Garganta virava e começava a cair para dentro do vale, estava a Porta.
Eu achei que era um pedaço da montanha. Todo mundo achou. Um arco de pedra saindo do chão, do lado direito da trilha, curvo, enorme, mais alto que a Sala dos Canhões, com a ponta lá em cima tão alta que tinha neve. Parecia uma costela. A costela de uma coisa enterrada, que saía da terra só pela metade de cima e deixava o resto lá dentro. Os pés do arco sumiam numa rampa comprida de cascalho, como se a montanha tivesse passado mil anos tentando engolir aquilo e ainda não tivesse conseguido.
Depois a gente chegou mais perto, e eu vi que não era da montanha.
A Garganta é preta. Toda ela: preta, úmida, de uma pedra que racha em lascas e corta a mão. A Porta era clara. De uma cor de osso velho, de dente, meio amarelada, meio cinza. E lisa. Lisa de um jeito que pedra não fica sozinha, a não ser no fundo de rio, depois de muito tempo. Mas não tinha rio ali. Nunca tinha tido.
E não tinha gelo.
Tudo na Garganta tinha gelo. As paredes, o chão, as nossas barbas, o cobertor de Nessa. Na Porta, não. A neve se acumulava na rampa de cascalho em volta, grossa, e parava onde a pedra clara começava, numa linha reta, como se a neve tivesse medo de encostar.
A coluna parou sem ninguém mandar.
— A Porta — disse a Cabo Marn, baixinho. — Santo fogo. É ela.
Ouvi Crane soltar o ar, curto e fundo, como um homem que bebe água depois de muito tempo com sede.
Os entalhes começavam no pé do arco e subiam.
De longe, a pedra parecia só gasta. De perto, os riscos viravam gente. Uma fila de gente, entalhada na face do arco, subindo pela curva em direção à ponta, um atrás do outro, em procissão. Homens. Altos, muito mais altos do que um homem deveria ser, e magros, com braços compridos demais, abertos, como quem recebe alguém.
E cada um deles estava vestindo um dragão.
Não como a gente veste uma armadura de monstro. Vestindo inteiro. A pele do dragão caía por cima dos ombros de cada homem como uma capa, com as asas abertas pelas costas, e a cabeça do dragão ficava em cima da cabeça do homem, como um capuz, com a boca aberta e os dentes em volta da testa dele. E os braços do homem saíam por baixo das asas, abertos, e o rosto do homem aparecia dentro da boca do dragão, sério, tranquilo, olhando para cima.
Eu já tinha visto aquilo.
No navio. Na tempestade. Na maleta de Crane, aberta na minha mão, com a chuva batendo e o relâmpago acendendo o mundo. Um cristal do tamanho de um punho, cinza-azulado, com figurinhas riscadas em volta dele, finas como cabelo. Homens altos, de braços abertos. Com uma forma maior em volta de cada um. Que eu tinha achado, naquela luz, parecida com asas.
Eram os mesmos. Os mesmos homens. Os mesmos braços.
Virei a cabeça sem querer. Crane estava parado ao pé do arco, com a maleta na mão. Tinha carregado aquela maleta até na corda, na Racha, enquanto as carroças voavam. Os dedos estavam brancos em volta da alça. E olhava os homens de pedra com uma cara que eu não sabia ler. Não era espanto. Espanto é quando você vê uma coisa nova.
Era a cara de quem reconhece.
— Os Reis-de-Osso — disse Brann, do meu lado.
Tinha tirado o gorro. Olhava para cima, para a procissão de gente-dragão subindo pela pedra, e a barba dele ainda tinha gelo.
— Minha avó contava — disse ele. — Homens altos, de antigamente, que matavam dragão e vestiam o couro. E reinaram. Reinaram tanto tempo que esqueceram que eram homens. E aí o vale engoliu todos eles. — Coçou a barba. — Ela contava isso para a gente não sair de casa de noite. Nunca entendi o que uma coisa tinha a ver com a outra.
— É só uma lenda — disse Pell, atrás de nós. A voz dele saiu fina.
— Tudo é só uma lenda, doutorzinho — disse Brann. — Até alguém tropeçar nela.
Eu fui subindo com os olhos pela fila de homens, do pé do arco até lá em cima.
Alguma parte de mim já sabia, do jeito que o corpo sabe que o chão vai ceder antes de ceder. A procissão subia pela curva, e os homens iam ficando menores à medida que subiam, ou a pedra ia ficando mais gasta, ou as duas coisas, e todos eles olhavam para cima, para o mesmo lugar. Para a ponta do arco. Para o ponto mais alto, onde as duas metades da costela se encontravam.
Ali tinha outra coisa entalhada. Maior que todos os homens juntos.
Um dragão. Mas não um dragão vestido. Um dragão sozinho, enrolado em si mesmo, com a cauda dando a volta no corpo e a cabeça deitada por cima da cauda, de olhos fechados, como um cachorro que dorme perto do fogo. Enrolado num anel. E o anel tinha a forma de um vale, com as bordas altas e o meio fundo, e eu pensei nas Coroas Partidas vistas do dirigível, e depois não consegui mais deixar de pensar.
E, no peito do dragão, no meio do anel, onde todas as linhas do entalhe se juntavam, uma espiral.
Três voltas apertadas. Uma quarta mais larga. E pequenos traços saindo dela, curtos, em volta, como raios. Ou como costelas.
A carta estava no casaco, embaixo de Nessa, na maca. Não precisei dela. Eu tinha desenhado aquela espiral com graveto na terra de Pedravento. Com carvão nas paredes do celeiro da Maren. Na margem de todas as cartilhas até a professora desistir de mim. Eu sabia quantas voltas ela tinha, e de que lado a quarta volta abria, e quantos traços saíam dela: onze, e o sexto um pouco mais comprido que os outros, porque o meu pai tinha errado a mão ali, ou porque não tinha errado.
Contei os traços do entalhe, lá em cima, na ponta do arco, com a neve do céu começando a cair em flocos soltos na minha cara.
Onze. E o sexto mais comprido.
Minhas pernas foram embora. Não caí. Sentei. Sentei no cascalho, de uma vez, como quando alguém tira o banco debaixo de você, e fiquei ali, olhando para cima, com a boca aberta, e a neve caindo dentro dela.
Não sei por que desenhei isso. Sonhei com ela duas noites seguidas.
— Garoto. — A mão de Brann no meu ombro. — Ei. Garoto.
— Estou bem.
— Está branco feito leite.
— É o frio.
Ele me olhou do jeito que olhava as pegadas na lama no treino de Varnhal, quando sabia que eu tinha lido errado. Depois apertou meu ombro e soltou.
— Come alguma coisa — disse ele. — Ninguém sente frio de barriga cheia.
Ele foi ajudar a baixar a maca. Eu fiquei sentado.
E lembrei de outra coisa. Não quis lembrar, mas lembrei, do jeito que a gente lembra de uma pedra no sapato só depois que tira o sapato. A mesa do salão de Varnhal. O mapa das Coroas entalhado na madeira, com o anel de montanhas e o centro vazio. As manchas de vinho. E, debaixo da mancha maior, bem no meio, um risco fino, feito com ponta de faca. Uma linha curva que começava e se perdia no escuro da mancha.
Eu tinha achado que era um prego arrastado. O cotovelo de um soldado entediado.
E Veyra tinha posto a mão aberta em cima dele. Bem em cima. E deixado lá, como quem se apoia.
Procurei Veyra com os olhos. Ela estava do outro lado da trilha, longe do arco, de costas para ele, dando ordens para a Cabo Marn sobre onde montar o acampamento. Não olhava para a Porta. Em nenhum momento, desde que tínhamos chegado, eu a tinha visto olhar para a Porta. Olhava para as paredes, para o céu, para a trilha que descia. Para qualquer lugar, menos para cima.
Crane não comeu.
Acampamos na sombra do arco. Veyra deixou acender dois fogos pequenos com o último carvão, e Brasa fez uma sopa rala com a farinha de três mochilas e uma tira de carne seca cortada tão fina que dava para ler através dela. Meia tigela para cada um. Até os Dace ficaram quietos.
Crane não veio buscar a dele.
Estava no arco. Tinha subido pela rampa de cascalho até a altura dos primeiros homens, com uma lanterna pendurada num prego que Kaspar fincou na pedra solta, e estava de nariz colado nos entalhes. Media cada homem com a mão aberta, do polegar ao dedo mínimo, e anotava. Tinha mandado Pell buscar carvão do fogo, e Pell subia e descia a rampa com um pedaço de carvão embrulhado num pano, e Crane encostava uma folha de papel na pedra e esfregava o carvão por cima, devagar, até os homens aparecerem no papel, pretos, de braços abertos.
Kaspar ficou ao pé da rampa a noite toda, com a besta nas costas. De guarda. Não sei de quê.
— Não toca na pedra com a mão nua, doutor — ouvi Veyra dizer, lá de baixo, uma vez. Foi a única coisa que ela disse sobre a Porta o dia inteiro.
— Naturalmente, comandante — disse Crane, sem virar a cabeça. E continuou tocando.
A certa altura, olhou para cima. Para a ponta do arco, onde estava o dragão enrolado. Ficou muito tempo olhando. Depois pôs a mão na maleta, que estava do lado dele, no cascalho, e deixou a mão ali. Não abriu. Só pôs a mão, como Veyra tinha posto a dela em cima da mancha de vinho.
Pensei no Charco das Rãs. Na voz macia, sorrindo. Nenhum outro som? Pensei no envelope com selo de cera cinza, na noite em Varnhal, passando das mãos de um homem sem insígnia para as dele. Pensei no frasco de pó cinza e no cristal quente no meio do gelo.
E pensei no que Crane faria se soubesse que o desenho estava ali. Na carta do meu pai. No casaco embaixo de Nessa, a três passos da fogueira. Que um homem da vigésima sétima tinha sonhado com aquela espiral duas noites seguidas, numa cama a meio mundo de distância, antes de vir.
Crane mediria o desenho com os dedos, como estava medindo os homens de pedra. E anotaria. E depois viria me perguntar, com a voz macia, se eu também tinha sonhado com ela. Se eu também ouvia alguma coisa.
E eu não saberia mentir para ele. Não direito. Não duas vezes.
Então decidi.
Não teve trovão nem nada das histórias de Brann. Fiquei sentado ali, com a tigela vazia no colo, e decidi que não ia contar para ninguém. Nem para Crane. Nem para Veyra, que sabia de alguma coisa que não dizia. Nem para Brann, que ia querer ajudar e ia fazer barulho. Nem para Pell, que já sabia demais e tremia quando Crane olhava para ele. Nem para Brasa, que é o melhor Palico do mundo e não consegue guardar uma coisa dentro da boca por mais de meio dia.
Nem para Nessa. Principalmente para Nessa, que ia querer desenhar.
Era a primeira coisa que o meu pai me deixava, fora a carta. Uma espiral na ponta de uma porta enterrada. Eu ia guardar. Como ele guardou, talvez. Como ele devia ter guardado, antes de ir, sem saber o que era.
Hoje eu sei que foi a primeira de muitas coisas que eu não contei. E sei o que isso me custou depois. Mas naquela noite pareceu só o certo, e o certo, quando a gente tem dezenove anos, costuma ter o tamanho exato do que a gente aguenta carregar.
A febre subiu com o escuro.
Brann ficou com a primeira guarda da maca, eu com a segunda, e eu nem precisei acordar, porque não tinha dormido. Nessa tremia de novo, mas não era o tremor bom da fenda. Era outro. Um tremor miúdo, contínuo, com os dentes batendo e a pele pegando fogo, e o suor escorrendo pela testa e congelando no cabelo. Eu molhava um pano na neve e passava na testa dela, e o pano esquentava em duas contagens.
Crane tinha vindo uma vez, já tarde, com as mãos pretas de carvão até os pulsos. Pôs as costas da mão no pescoço dela. Levantou a ponta do emplastro e cheirou a ferida. Pôs o emplastro de volta.
— Mantenha-a coberta — disse ele. — E me chame se ela parar de suar.
— E se ela não parar?
— Então ainda está brigando. — Ele olhou para mim por cima dos óculos, um instante, com a lanterna atrás dele e a cara no escuro. — Você devia dormir, Kest. Amanhã vai carregar essa maca de novo.
Voltou para o arco. A lanterna dele ficou acesa lá em cima, pendurada no prego, a noite inteira. Um ponto amarelo, pequeno, no meio da pedra clara, perto dos pés dos homens-dragão.
Nessa começou a delirar depois da meia-noite.
Eram pedaços. O nome da tia do pão de mel. Uma palavra que eu não conhecia, repetida três vezes, com raiva. Depois ficou quieta, com os olhos semiabertos, olhando para cima, para onde ficaria a ponta do arco se desse para ver alguma coisa no escuro. E a mão dela saiu de baixo do cobertor.
Eu fui pôr de volta. Ela segurou o meu pulso.
Não com força. Os dedos estavam quentes, secos, leves como graveto. Ela segurou o meu pulso como quem segura uma coisa para não cair, e ficou assim, e eu deixei.
Depois o dedo indicador dela começou a bater.
No meu pulso. De leve. Uma batida. E um tempo. E outra batida.
Achei que era o tremor da febre. Mas o resto do corpo tremia miúdo, contínuo, e o dedo não. O dedo esperava. E batia. E esperava.
Eu comecei a contar sem querer. Do jeito que conto tudo. Do jeito que contei o vento da Garganta, e as tremidas dela na fenda, e as batidas, lá embaixo, com o rosto no gelo.
Toc.
Onze.
Toc.
Catorze.
Toc.
Nove.
Parei de respirar.
Toc.
Dezesseis.
Era a mesma. Não parecida. A mesma. Onze, catorze, nove, dezesseis, na ordem exata em que eu tinha ouvido no fundo da fenda, com o rosto no gelo e Pell dizendo não ouço nada, Kest. Uma sequência que eu não tinha dito em voz alta a ninguém. Que só existia dentro da minha cabeça.
E no dedo de Nessa, batendo no meu pulso, na sombra da Porta Sepultada.
Olhei para o rosto dela. Estava de olhos semiabertos, virada para o escuro onde o dragão de pedra dormia enrolado com a espiral no peito. Os lábios se mexiam, sem som.
E o dedo não parou.
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