Capítulo 22
O que Crane Raspou
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O dedo de Nessa bateu mais sete vezes no meu pulso e parou. Eu contei cada intervalo, e não sei mais quais eram, porque na hora eu estava com medo demais para guardar. Lembro só que nenhum era igual ao outro. E que, quando parou, ela suspirou, como quem termina uma frase, e dormiu.
Foi logo depois disso que eu vi o doutor Crane raspando a Porta.
A lanterna dele tinha ficado acesa lá em cima a noite inteira, pendurada no prego, um ponto amarelo no meio da pedra clara. Eu tinha me acostumado com ela. Por isso notei quando ela se mexeu.
Crane tirou a lanterna do prego e subiu mais um pouco pela rampa de cascalho, devagar, testando cada pedra com o pé antes de pôr o peso. Parou nos pés dos homens-dragão. Pôs a lanterna no chão, de lado, de modo que a luz ficasse baixa, rente à pedra, e o corpo dele tapasse o resto.
Depois tirou alguma coisa do bolso. Uma faca pequena, de lâmina curta e larga, como a que minha mãe usava para tirar escama de peixe. E um frasco.
E começou a raspar.
Não ouvi o barulho. Estava longe, e ele raspava devagar. Mas via o braço dele indo e voltando, curto, paciente, como quem tira a ferrugem de uma dobradiça sem querer acordar a casa. De tempos em tempos, parava, segurava o frasco embaixo da lâmina e dava umas batidinhas com o dedo, e alguma coisa caía lá dentro. Depois raspava de novo.
Ao pé da rampa, Kaspar estava sentado no cascalho, com a besta pesada atravessada nas pernas. Eu achei que ele dormia. Tinha dormido na guarda da Cornija, com a faixa varrida passando entre as botas dele. Então Kaspar virou a cabeça.
Para o nosso lado. Para a maca.
Fechei os olhos. Deixei a cabeça cair de lado no cobertor de Nessa, com a boca meio aberta, do jeito que os meninos de Pedravento fingiam dormir na igreja. Contei. Cheguei a oitenta antes de abrir de novo, só uma fresta.
Kaspar tinha voltado a olhar para o escuro. E Crane ainda raspava.
Crane desceu da rampa quando o céu começou a clarear, com a lanterna apagada e as mãos nos bolsos. Não foi deitar. Foi direto para a maca.
Eu estava sentado, esfregando o rosto, como quem acaba de acordar. Ele me deu bom-dia. Perguntou se ela tinha parado de suar. Eu disse que não. Ele disse: "Ótimo", e se ajoelhou do outro lado, e abriu a bolsa de couro dele, a de remédios, não a maleta.
Tirou uma tigela de lata, amassada. Um pote de pasta verde, o mesmo emplastro da véspera, cheirando a erva e vinagre. Um pano limpo. Tirou o emplastro velho da perna dela com cuidado, e eu olhei a ferida, e me arrependi. A pele em volta da ferida estava roxa nas bordas e vermelha brilhante mais para fora, esticada como pele de tambor, e um líquido amarelado vazava por um canto.
— Está feio, doutor.
— Está como deveria estar. — Ele limpou a ferida com o pano molhado em alguma coisa que fez Nessa gemer no sono. — O corpo está brigando. Isso é a briga.
Pôs uma colherada de pasta verde na tigela. Depois outra. E então, sem pressa, sem esconder, tirou do bolso do casaco um papel dobrado em quatro, pequeno, como os que os boticários de Três Pontes usam para vender pó de dormir. Abriu. Dentro havia um pó cinza, fino, quase branco.
Ele virou uma pitada do papel na tigela. Depois mais meia pitada. E mexeu com a ponta da colher, devagar, até o cinza sumir dentro do verde.
Eu não disse nada.
Eu queria dizer. Estava com a pergunta inteira na boca: o que é isso, doutor? Mas ouvi, na mesma hora, a voz de Pell no Degrau, no pé das Coroas, apertada, olhando para os lados. Não deixa ele saber que você lembra. Não é por mim. É por você.
Então eu fiquei quieto e olhei Crane passar o emplastro na perna de Nessa, com os dedos compridos e limpos, cobrindo a ferida inteira, e depois pôr o pano por cima, e amarrar.
— Você devia comer, Kest — disse ele, sem olhar para mim, fechando a bolsa. — Tem cara de quem não dorme há três noites.
— Duas.
Ele sorriu. Um sorriso pequeno, de professor que pega um aluno respondendo certo a uma pergunta que não era para ter resposta.
— Duas — concordou. E foi embora.
Brasa apareceu quando Crane sumiu atrás das pedras.
Não sei de onde veio. Brasa tem esse jeito: está longe, mexendo numa panela, e de repente está no seu cotovelo, como se tivesse brotado do chão. Pulou na beira da maca, com as orelhas para trás, e encostou o nariz no pano amarrado na perna de Nessa.
Ficou um tempo cheirando. Os bigodes tremiam. Depois olhou para mim, e eu nunca tinha visto aquela cara no Brasa. Nem na Cornija. Nem na fenda.
— Chefe — disse ele, bem baixinho. Brasa nunca fala baixinho. — Por baixo da erva.
— O quê?
Ele enfiou a pata no avental, no bolso da pimenta, e tirou o frasco. O frasco que tinha caído da maleta de Crane no navio, no meio da tempestade, e que ele guardava desde então. Destampou, cheirou, tampou de novo, depressa, como quem fecha uma porta para não deixar sair o frio.
— É o mesmo — disse ele. — Igualzinho. Cheiro de parede velha. De osso que ficou no fogo tempo demais. — As orelhas dele baixaram mais. — Ele pôs isso na moça, chefe.
Olhei para a Porta. Para os pés dos homens-dragão, lá em cima, onde Crane tinha passado a madrugada raspando. Com a luz do dia, dava para ver. Uma faixa mais clara na pedra, do tamanho de uma mão, onde a pedra cor de osso tinha ficado mais branca.
Como osso raspado.
Pell me achou atrás de um bloco de pedra, onde eu tinha ido mijar e acabei ficando, com a testa encostada na rocha fria, tentando pensar.
Não me achou por acaso. Estava me seguindo desde que Crane tinha ido embora da maca; eu vi o cabelo dele aparecer e sumir duas vezes atrás das pedras antes de ele ter coragem. Quando chegou, estava da cor da neve. O pulso esquerdo ainda estava enrolado num pano, e ele segurava o pano com a mão boa, apertando, como se doesse mais do que doía.
— Você viu — disse ele. Não era pergunta.
— Vi.
— Eu também vi. — Ele olhou para trás, para o acampamento. — Eu segurei a tigela para ele ontem de manhã, quando ele fez o primeiro. Não tinha pó. Era só erva. Hoje ele não me chamou.
— O que é o pó, Pell?
— Não sei.
— Pell.
— Eu não sei. — A voz dele rachou. — Ele não me deixa etiquetar os frascos. Ele etiqueta sozinho, numa letra que eu não leio, e os frascos cinzas ficam no fundo da maleta, e eu nunca abri a maleta, Kest, nunca, em dois anos. Eu só sei que ele tem mais de um tipo de cinza. E que ele pesa. Pesa tudo, até um grão. — Ele engoliu. — E que eu nunca vi ele usar em gente.
Fiquei quieto. Ele ficou quieto. Lá do acampamento, ouvi a Cabo Marn rindo de alguma coisa, aquela risada de trovão que tinha voltado depois da Lapa, e achei aquilo a coisa mais estranha do mundo.
— Em gente, não — repeti. — Em quê, então?
Pell fechou os olhos.
— Num Seikret. Em Varnhal. Um filhote com a asa quebrada que iam sacrificar. Ele pediu o filhote para o estábulo. Ficou com ele três semanas num galpão, e eu levava a comida, e ele fazia o curativo sozinho.
— E o filhote?
— Não sei. — Pell abriu os olhos. Estavam molhados. — Na quarta semana, ele me mandou para o Charco das Rãs contar sapo. Quando eu voltei, o galpão estava limpo. Ele disse que o filhote tinha ficado bom e que tinham devolvido ao estábulo.
— E tinham?
— Eu não perguntei. — Ele riu, um riso feio, sem ar. — Você entende? Eu não perguntei. Dois anos, e eu nunca pergunto nada.
Ficamos um tempo ali, atrás da pedra. Eu pensando no filhote de Seikret. Pell apertando o pulso.
Então ele disse:
— Ele me perguntou de você.
Senti o estômago cair.
— Quando?
— Ontem à noite. Quando eu subi com o carvão, a primeira vez. Ele estava medindo os homens de pedra, e sem virar a cabeça, do jeito dele, ele perguntou: "Pell, lá embaixo, no gelo, como foi que o Kest achou a saída?"
Não respirei.
— E você?
— Eu disse que você rezou. — Pell olhou para mim, e pela primeira vez desde que eu o conhecia, os olhos dele não fugiram. — Que você deitou no chão e rezou para a sua mãe, e que depois levantou e saiu tateando as paredes, e que foi sorte. Que os pastores têm sorte com buraco, porque vivem tirando ovelha de buraco. Foi o que eu disse.
— Ele acreditou?
— Ele disse: "Interessante." — Pell soltou o ar. — Ele diz "interessante" para tudo. Não sei.
Pensei na noite anterior. Em mim, sentado do lado da maca, decidindo que não ia contar a ninguém. Pensando que Pell sabia demais e tremia quando Crane olhava para ele. E Pell, lá em cima, na mesma hora, mentindo por mim com a voz tremendo, para o homem de quem ele tinha mais medo no mundo.
— Por quê? — perguntei.
Ele demorou.
— Porque você me deixou queimar o caderno — disse ele, afinal. — E não disse nada. Não disse que era só papel. — Deu de ombros, com o ombro do pulso bom. — E porque, quando você disse "me ajuda assim mesmo", eu ajudei. E deu certo. Eu nunca tinha feito uma coisa que desse certo.
Não contei a Pell o que ia fazer. Fui lá e fiz.
Veyra estava na beira do acampamento, onde a trilha começava a descer, olhando para baixo. Dali, pela primeira vez, dava para ver alguma coisa além de pedra. Muito longe, lá embaixo, entre as paredes que iam se abrindo, uma mancha escura, larga, que podia ser nuvem, ou sombra, ou floresta. Ela tinha a mão direita no cinto, perto da lança-pistola, e a esquerda solta.
— Comandante.
Ela não se virou.
— Kest.
— O doutor Crane pôs uma coisa no emplastro da Nessa.
Agora ela se virou. O olho claro e o escuro. Esperou.
Contei tudo. Quer dizer: contei o que eu tinha decidido que podia contar. A lanterna na madrugada. A faca de tirar escama. A faixa clara na pedra, nos pés dos homens-dragão. O papel dobrado em quatro e o pó cinza sumindo no verde. Não falei do Brasa nem do frasco, porque o frasco era roubado, e Brasa já tinha sido devolvido três vezes. Não falei de Pell nem do filhote, porque Pell tinha mentido por mim e eu não ia entregar ele no mesmo dia.
E falei de Varnhal.
Não tinha planejado. Saiu. A noite no armazém de Varnhal, o homem de capa sem insígnia, o envelope passando para as mãos do doutor. O selo de cera cinza, igual ao da caixa lacrada da 27ª no escritório de Três Pontes. E a frase, dita baixo, antes de a capa sumir no escuro: Depois da Garganta, doutor. Não antes. Eu tinha guardado aquilo desde o primeiro dia, e só o Brasa sabia, porque estava lá. Não tinha contado nem a Nessa, e de repente estava contando à pessoa que menos confiava em mim na expedição inteira, na beira de um barranco, com o vale lá embaixo.
Não falei da espiral.
E só quando terminei de falar percebi onde a gente estava. No alto do passo. Onde a Garganta acabava.
Veyra me ouviu sem me interromper. Quando falei do selo, a mão esquerda dela, a solta, subiu devagar até o rosto e tocou a cicatriz, da têmpora até o canto da boca. Depois desceu.
— Terminou? — perguntou ela.
— Sim, senhora.
Ela olhou para o acampamento. Para a maca. Para Crane, que estava sentado numa pedra perto do fogo apagado, com o caderno aberto no joelho, escrevendo, com os decalques de carvão da noite enrolados do lado dele como mapas.
— Pesquisa — disse ela.
— Comandante…
— É pesquisa, Kest. Ele tem carta da Comissão, com carimbo. O que ele raspa, o que ele guarda, o que ele pesa, é da conta dele e da Comissão, não minha. Eu já disse no primeiro dia: não comando tudo o que anda nesta coluna. — Ela voltou a olhar para baixo, para o vale. — E ele é o único com mão de médico aqui.
— Ele pôs uma coisa que ninguém sabe o que é na perna de uma pessoa com febre.
— Ele pôs o osso dela no lugar ontem, no escuro, numa gruta, com as mãos geladas. Eu vi. Você viu. Brann não teria conseguido. Eu não teria conseguido. — Ela falava sem subir a voz. Cada palavra no lugar, como pedra de muro. — Se ele quisesse aquela moça morta, Kest, bastava não fazer nada. Bastava ter deixado o osso para fora e dito "que pena". Ninguém ia perguntar. Nesta trilha, a gente não pergunta.
Não tive resposta. Ela tinha razão. Eu odiei que ela tivesse razão.
— E o selo? — perguntei.
Ela demorou tanto para responder que eu achei que não fosse responder.
— Esquece que viu o selo — disse, afinal. — Não por ele. Por você.
A mesma coisa que Pell tinha dito no Degrau. Quase as mesmas palavras. Senti um frio que não era da Garganta.
— Você vai carregar a maca hoje — continuou Veyra, como se não tivesse dito nada. — A ponta da cabeça. E vai ficar do lado dela à noite. Se ela piorar depois desse emplastro, se mudar de cor, se mudar de cheiro, se parar de suar, você não chama o doutor. Você me chama. Eu.
— Sim, senhora.
— E, Kest.
— Senhora?
— Da próxima vez que você vir alguma coisa às três da manhã, você vem direto. Não espera clarear.
Ela voltou a olhar o vale. Eu entendi que tinha acabado.
A descida começou no meio da manhã.
Não era mais escadaria. Era rampa, comprida, de pedra solta e neve velha, e a maca pesava para a frente, e a gente tinha de segurar em vez de empurrar, o que é pior para as costas e muito pior para os braços. Eu ia na ponta da cabeça, como Veyra mandou, e de tanto em tanto baixava os olhos para o rosto de Nessa, que ficava bem ali, embaixo das minhas mãos, virado para cima.
Ela não melhorou. Também não piorou. Suava. Tremia miúdo. Duas vezes abriu os olhos e me olhou sem me ver. Uma vez perguntou pelos óculos, e eu disse que estavam comigo, e ela ficou satisfeita e dormiu de novo. Eu não sabia mentir para ninguém, e para ela menti sem pensar.
Olhei a perna muitas vezes. O pano do curativo continuava branco. Nenhuma mancha nova. Nenhum cheiro diferente, pelo menos não que eu sentisse. Brasa ia do lado da maca, e de tanto em tanto chegava o nariz perto, e me olhava, e balançava a cabeça: nada.
Eu não sabia o que queria. Queria que o pó não fizesse nada, e que Crane fosse só um velho estranho que coleciona pedra. Queria que o pó salvasse ela, e que eu estivesse errado sobre tudo. Não dava para querer as duas coisas. Eu queria as duas coisas.
Atrás de nós, quando a trilha fazia curva, eu via a Porta. Cada vez menor. A ponta do arco saindo da montanha, clara contra a pedra preta, sem neve nenhuma em cima dela, como um osso que a montanha não conseguia terminar de engolir. E, cada vez que eu via, sabia exatamente onde, lá em cima, estava a espiral, sem precisar enxergar.
Crane veio andar do meu lado no fim da tarde.
A luz estava indo embora. A trilha tinha alargado de novo, e a coluna se espalhava por ela em grupos, e o doutor apareceu do meu lado sem que eu o visse chegar, com o casaco comprido e os óculos embaçados, a maleta na mão esquerda. Andou um tempo sem dizer nada, no passo da maca.
Depois se abaixou e pôs as costas da mão na testa de Nessa, sem parar de andar.
— Igual — disse. — Bom. Igual é bom, por enquanto.
Eu não respondi. Ele não pareceu esperar resposta.
— A comandante me disse que você vai ficar com ela à noite — disse ele. — Faz bem. Ela gosta de você. Dá para ver, mesmo com febre. — Ajeitou a alça da maleta na mão. — Pell me disse que você rezou, lá embaixo. Na fenda.
Senti os braços endurecerem na lança.
— Rezei.
— Para a sua mãe.
— Sim, senhor.
— É bonito. — Ele disse aquilo com a voz macia de sempre, a voz de professor, sem nenhuma ironia que eu pudesse pegar. — A maioria dos homens, lá embaixo, reza para si mesmo. Pede para não morrer. Você pediu para achar a saída. É diferente.
Eu não tinha dito o que tinha pedido. Pell também não. Olhei para ele de lado.
Crane estava olhando para trás. Para a Porta, lá no alto, que àquela luz tinha ficado quase rosada, a última coisa clara no meio da montanha escurecendo. Olhava com a mesma cara da véspera, a cara de quem reconhece, e eu não sabia se ele estava vendo os homens-dragão, ou a faixa raspada nos pés deles, ou alguma outra coisa que eu não via.
Depois ele olhou para mim. Por cima dos óculos. Os olhos cinzentos, calmos, educados. Tristes, quase, como na Lapa.
— Conheci muitos homens com esse olhar, Kest — disse ele.
Esperei. Ele deixou o silêncio ficar comprido, como quem espera um aluno terminar a conta de cabeça.
— Esta trilha costuma ficar com eles.
Tocou a aba de um chapéu que ele não usava, um gesto velho, de outro lugar, e se afastou, apertando o passo, subindo a coluna até sumir entre os soldados da frente.
Fiquei com a frase. Carreguei ela o resto da descida junto com a maca, e pesava mais.
Podia ser só um velho que já tinha visto muita gente morrer falando com um garoto que ainda não tinha visto. Era o que Brann teria dito. Era o que Veyra teria dito, com a voz de pedra de muro: pesquisa, Kest; conselho de veterano. E talvez fosse.
Mas ele tinha dito muitos homens. E eu fiquei a noite inteira do lado de Nessa, trocando o pano da testa dela, pensando em quais homens. E onde ele os tinha conhecido. E em quantos deles tinham olhado para aquela Porta antes de mim.
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