Capítulo 33

Mãos de Terra

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Tor Dace tentou comprar uma garrafa com um dente.

Era um dente de Jagras, comprido, amarelado, com a raiz ainda suja de sangue seco. Ele tinha arrancado da boca de um dos pequenos, no leito seco, enquanto a gente enterrava Custódio, e guardado na bota. A bota furada. Tirou de lá na manhã do terceiro dia e ficou esperando a portinhola abrir com o dente na mão, como um menino esperando a hora de trocar figurinha.

— É um dente de caçada — disse ele, quando a mão com terra nas unhas empurrou a tábua das tigelas. — Primeira caçada no vale. Vale alguma coisa aqui, não vale? Vocês gostam de osso. Eu vi o telhado.

A mão parou.

— Uma garrafa — disse Tor. — Qualquer uma. Não precisa ser boa. Precisa ser líquida.

Silêncio do outro lado. E depois uma coisa que eu não esperava: uma risada. Curta, rouca, de quem não ri muito e se surpreende quando ri.

— Guarda o seu dente, rapaz — disse a voz. — Aqui, dente de Jagras a criança usa para furar couro. E bebida não entra na casa de febre. A última vez que entrou, o homem morreu achando que estava melhor.

A mão pegou as tigelas vazias da véspera e sumiu. A tampa bateu. Tor ficou com o dente na mão e uma cara de ofendido tão grande que Oskel, que não sorria, sorriu.

Foi a primeira vez que eu vi Oskel sorrir. Não durou. Mas eu vi.


As mãos dele estavam melhorando.

A mulher da portinhola tinha mandado, na véspera, junto com o chá de Nessa, um potinho de barro tampado com cera. Dentro, uma banha branca, grossa, que cheirava a bicho e a erva. Para o grandão das mãos, ela disse, sem que ninguém tivesse contado a ela das mãos de Oskel. Eu desenrolei os panos dele à noite, devagar, porque a pele tinha grudado, e passei a banha nas palmas com os dedos, e ele ficou olhando para o teto o tempo inteiro, sem gemer, com o queixo tremendo.

De manhã, os dedos dele fechavam. Não todos. Não direito. Mas fechavam.

Ele ficou fechando e abrindo a mão direita, sentado no catre, olhando para ela. Fechava. Abria. Fechava.

— Banha de cabra — disse Nessa, do catre dela, cheirando o potinho. — Com alguma coisa verde. Minha avó usava para rachadura de mão no inverno. Quem é essa mulher?

— Não sei.

— Você não perguntou?

Eu não tinha perguntado.

— Ilian — disse Nessa.

— Eu sei. — Eu sabia. Pergunta cedo. — Hoje eu pergunto.


Passei a manhã esperando a portinhola.

Não sei por quê. Ou sei. Era o jeito como a mulher tinha dito sua mãe era da montanha, sem perguntar, como quem reconhece um sotaque. E era outra coisa, que eu só percebi naquela manhã, sentado no chão perto da porta, prestando atenção de propósito na voz dela quando ela ralhou com Tor.

O jeito que ela falava.

Ela comia o fim das palavras. Não todas. Algumas. Dizia rapa' em vez de rapaz, e bebi'a em vez de bebida, e o r dela rolava no fundo da garganta, grosso, como pedra rolando em riacho. Não era o jeito de falar de Última Luz, que eu tinha ouvido nos gritos da muralha e na voz do guarda da porta, um jeito arrastado, cantado, cheio de palavras que eu não conhecia. Era um jeito de montanha. Não da minha montanha. De outra, mais a leste, mais alta. Eu conhecia aquele r. Tinha ouvido na Garganta, na primeira noite, um homem de mãos como raízes explicando aos carregadores que não se olha para trás.

Tomé falava assim.

Fiquei sentado no chão com aquilo na cabeça e não fiz nada com ele. Não fiz porque não fazia sentido. Tomé era de Ribeira Funda, lá do outro lado das Coroas, a um mês de navio e caravana. Muita gente devia falar daquele jeito. Muita gente de muita montanha. E a irmã dele, a que ele tinha vindo buscar, tinha ficado na Garganta, ele disse, ficou na Garganta, e na Garganta ninguém fica vivo.

Mas fiquei esperando a portinhola.


Ela abriu no meio da tarde. Não era hora de comida. A mão empurrou para dentro um balde de água limpa e pegou o balde velho.

— Senhora — eu disse, depressa, antes que a tampa fechasse.

A mão parou.

— Qual é o seu nome?

Silêncio do outro lado. Um silêncio diferente dos outros. Não de quem pensa. De quem se fecha.

— Aqui ninguém pergunta nome pela portinhola — disse a voz, enfim. Mais baixa. — Dá azar.

— Por quê?

— Porque quem está do lado de dentro pode não sair. E aí a gente fica com o nome. — Uma pausa. — Eu já tenho nome demais guardado, rapa'.

— Eu vou sair. Hoje. Não tenho febre.

— Então pergunta quando sair.

A tampa começou a fechar.

— A senhora é da montanha — eu disse. — Não daqui. Do leste. A senhora fala como um homem que eu conheci.

A tampa parou no meio.

Não vi o rosto dela. Nunca tinha visto. Só a mão, e agora nem a mão: só a tampa de madeira meio fechada, e um pedaço de escuro por trás, e uma respiração. Uma respiração que ficou presa um instante. Eu ouvi. Não com os dentes, não com o chão, não com nada estranho. Ouvi como qualquer um ouve uma pessoa prender o fôlego do outro lado de uma porta.

— Muita gente fala como muita gente — disse a voz.

E a tampa fechou.

Os passos foram embora. Mais depressa do que das outras vezes.

Nessa estava sentada no catre, me olhando.

— O que foi isso? — disse ela.

— Não sei — eu disse. E dessa vez era verdade.


— Três dias — disse o guarda do lado de fora, no fim da tarde. — Alguém com febre aí dentro?

— Não — respondemos os quatro juntos. Tor gritou mais alto que todo mundo.

— Manchas?

— Não.

— Tosse com sangue? Vômito? Olho amarelo?

— Não.

— Tirem a camisa e venham até a porta. Um de cada vez.

Tiramos. Um de cada vez, fomos até a portinhola aberta, e um homem do outro lado, não o guarda, outro, mais velho, com um pano na boca, olhou para nós pelo buraco quadrado. Olhou o peito, as costas, os braços, os olhos. Mandou abrir a boca. Mandou mostrar a língua. Olhou a minha mordida costurada por muito tempo, perto, com o nariz quase na portinhola, e cheirou.

— Quem costurou isto? — perguntou.

— O médico da expedição. Crane.

O homem ficou olhando mais um pouco.

— Costurou bem — disse. — Sarou depressa. — Não era elogio nem desconfiança. Era só o que ele via. — Próximo.

Oskel mostrou as mãos. Tor mostrou a perna e, sem ninguém pedir, a bota furada. Nessa não se levantou; o homem olhou para ela de longe, pela portinhola, e perguntou da perna, e ela disse que estava bem, e ele pediu que ela mostrasse, e ela levantou o cobertor até o joelho, com o emplastro de Crane ainda enrolado na canela.

— Não desenrola? — perguntou o homem.

— O médico pediu que ninguém mexesse — disse Nessa.

O homem ficou calado um momento.

— O médico pediu — repetiu. Sem entonação nenhuma. E depois: — Tudo bem. Podem sair.

A porta abriu.


O pátio de Última Luz no fim da tarde era dourado e cinza. O sol vinha baixo por cima da muralha e pegava a cinza no ar, a cinza fina que ficava suspensa sobre a base o tempo todo, e fazia ela brilhar. Havia gente por toda parte. Mais do que eu tinha visto pela janela. Gente trabalhando na muralha, gente carregando água, gente sentada na soleira das casas descascando alguma coisa numa bacia, crianças. E, no meio, a 33ª, espalhada, com cara de quem ainda não sabia onde pôr as mãos.

Brasa me achou antes de eu dar três passos.

Não sei de onde veio. Da direção da cozinha, acho, porque cheirava a cebola e a fumaça e tinha farinha no pelo da cabeça. Veio correndo, de quatro, como não corria nunca, porque dizia que correr de quatro era coisa de gato do mato, e pulou em mim e se agarrou na minha perna com as quatro patas e ficou lá.

— Três dias — disse ele, com a cara na minha calça. — Três dias, e ninguém me deixou chegar perto. Eu disse que era o seu Palico. Eu disse que Palico não tem regra de febre. Eles disseram que tem. Eles têm regra para tudo aqui. Regra para lenha, regra para água, regra para quem mexe na panela…

— Brasa.

— … e a cozinheira, a cozinheira grande, ela me tirou da cozinha pela nuca, Ilian, pela nuca, como um filhote, na frente de todo mundo…

— Brasa. Eu estou bem.

Ele parou. Levantou a cara. Me olhou de cima a baixo, com os olhos grandes, conferindo.

— Está — disse ele. E depois, mais baixo: — Está bem demais.

Não respondi. Ele não insistiu. Soltou a minha perna, ajeitou o avental, bateu a farinha da cabeça, e voltou a ser o Brasa.

— A Pena está no estábulo — disse. — Com os Seikrets deles. Cinzentos. Ela odeia todos. Está ótima.


Crane estava esperando Nessa na porta da casa de febre.

Não perto. A dez passos, encostado numa parede, com o caderno fechado na mão e Pell do lado com a maleta. Quando Oskel e o homem da cicatriz trouxeram Nessa para fora na maca, ele se aproximou devagar, sorrindo, e se agachou do lado dela.

— Srta. Orlen. Três dias. Como se sente?

— Com fome — disse Nessa.

— Excelente. — Ele pôs a mão na testa dela, com as costas dos dedos. — Sem febre. Excelente. Posso?

Apontou a perna.

Nessa olhou para mim. Não sei por quê. Eu estava ali do lado, com Brasa, e ela olhou para mim antes de responder, um olhar curto, e eu não soube o que fazer com a cara.

— Pode — disse ela.

Crane desenrolou o emplastro. Devagar. Com cuidado. Dobra por dobra.

A perna estava boa. Melhor do que eu tinha visto na madrugada em que a febre quebrou. A ferida estava fechada, uma linha rosada e funda onde o osso tinha rasgado a pele, com os pontos já frouxos, prontos para sair. A pele em volta estava lisa. Cor de pele. Sem inchaço. Sem vermelho. Sem mais nada.

Crane olhou para ela muito tempo.

Olhou de perto, como tinha olhado a Porta. Passou o dedo em volta da ferida, sem tocar nela, a um dedo da pele, seguindo uma linha que eu não via. Uma linha que talvez não estivesse mais lá. Seguiu a linha até onde, seis dias antes, eu tinha visto as veias cinza sumirem, e parou.

E sorriu.

Não o sorriso de professor. Outro. Um sorriso pequeno, para dentro, que durou um instante só. O sorriso de quem abre uma carta esperada e lê a primeira linha e vê que é a notícia que queria.

— Excelente — disse ele, baixinho. Mais para a perna do que para Nessa.

Enrolou um emplastro novo, limpo, sem nada dentro que eu visse, e se levantou, e bateu a cinza dos joelhos.

— Mais uma semana sem apoiar o pé, Srta. Orlen, e depois vamos ver. A senhora é muito forte.

E foi embora com Pell atrás. Pell olhou para mim por cima do ombro. Eu olhei para ele. Nenhum dos dois disse nada.

Nessa ficou olhando para a perna. Depois para as costas de Crane indo embora. Depois para mim.

— Ele gostou de alguma coisa — disse ela.

— Da perna. Está boa.

— Não. — Ela puxou o cobertor por cima do emplastro novo. — Ele gostou de alguma coisa que não está aqui.


No meio do pátio, perto do poço, havia uma carroça de mão cheia de armas.

As nossas. Eu reconheci o arco de Sila de longe, com a corda frouxa e a volta a mais que Tomé tinha ensinado. As duas lâminas de Mira, cruzadas em cima de tudo. A besta de Kaspar. A lança-pistola de Veyra, deitada de lado, com a boca do cano virada para a muralha.

E, do lado da carroça, um homem.

Era baixo e largo, com uma barriga redonda por cima de um avental de couro preto de queimado, e braços grossos como pernas de mesa. Careca. Com uma barba castanha trançada em duas pontas. E a mão direita, a que ele segurava a lista, não era mão. Era uma coisa enrolada em couro até o pulso, e o que saía do couro, na ponta, eram dedos sem pele, cor de osso velho, secos, que se mexiam, que seguravam o papel, que viravam a folha.

— Hadrek — disse Brann, do meu lado. Não sei de onde tinha saído. — Mão-de-Brasa. O ferreiro. Não fica olhando, garoto. Ele não liga, mas eu ligo.

Parei de olhar.

Hadrek leu a lista em voz alta. Não gritava; a voz dele era um ronco grosso, que saía do peito e chegava longe, como a de Oren. E, a cada nome, a pessoa ia até a carroça, e ele tirava a arma, olhava, às vezes dizia alguma coisa, e entregava.

— Varn. Arco.

Sila foi. Ele segurou o arco dela na mão boa, olhou a madeira, a corda, a volta a mais na ponta.

— Quem ensinou essa volta?

— Um carregador. Morto.

Hadrek fez que sim e entregou o arco sem dizer mais nada. Sila pegou e ficou olhando para ele, surpresa, como se esperasse uma briga.

— Kovač. Martelo.

Brann foi. Hadrek pôs a mão boa no cabo do martelo, deitado no fundo da carroça, e puxou. O martelo não se mexeu. Ele puxou de novo, com o corpo, e levantou a cabeça do martelo um palmo, e largou, e o estrondo fez as crianças do poço pularem.

— Pega você — disse Hadrek.

Brann pegou. Com uma mão. Levantou da carroça como quem levanta uma pá e apoiou no ombro.

Hadrek ficou olhando para ele um tempo. Não disse nada. Mas a mão sem pele se fechou em volta do papel.

— Holt. Lança-pistola. — Veyra pegou sem olhar para ele. — Rhel. Besta pesada. — Kaspar pegou olhando para Crane. — Dace. Lâminas duplas. Dace. Insecto-glaive. Onde está o inseto?

— Dormindo — disse Tor, e bateu no bolso do gibão. — Aqui dentro. Não gosta de frio. Nem de ferreiro.

Hadrek não riu.

Um por um. Carregadores com facas. Soldados com lanças. Tami com o arco curto dela, que ela abraçou quando pegou, como quem abraça um bicho. Dita não tinha arma para pegar; ficou parada, perto de mim, olhando.

A carroça foi esvaziando.

— Kest.

Dei um passo à frente. Hadrek olhou a lista.

— Kest. Espada e escudo. — Olhou para a carroça. Olhou para o fundo dela, onde só havia palha e uma correia arrebentada. Olhou para mim. — Cadê?

— Perdi. — A minha voz saiu mais baixa do que eu queria. — O escudo quebrou. A espada ficou no Cinzal. Num leito seco.

Hadrek ficou me olhando. O pátio ficou em silêncio, ou eu achei que ficou, porque de repente me pareceu que todo mundo estava olhando. Os da 33ª, com as armas na mão. Os de Última Luz, das soleiras. Sila, com o arco. Tami, com o dela abraçado. Brann, com o martelo no ombro.

— Então não tem nada para você — disse Hadrek.

Não disse com maldade. Disse como o guarda da porta tinha dito a regra, e como o homem da portinhola tinha dito costurou bem. Como uma coisa que é.

Ele pegou um carvão do avental, com a mão sem pele, e fez um risco na lista, do lado do meu nome. Um risco só, curto, reto.

E chamou o próximo.

Fiquei ali parado. Com as mãos vazias. Com a faca da bota, que não contava, e o bordão de pau preto, que também não. E senti, pela primeira vez desde a prova em Três Pontes, desde o dia em que Gault me aprovou raspando e eu achei que tinha virado alguma coisa, que eu não era nada. Nem caçador. Nem pastor. Um rapaz de dezenove anos, com as costelas trincadas, parado no meio de um pátio estranho, com o risco de um carvão do lado do nome.

Dita, do meu lado, tocou o meu braço. Só tocou. E tirou a mão.

Olhei para o paredão atrás da base, alto, escuro, liso. Pensei na coisa batendo lá embaixo. Pensei no meu pai, que tinha passado por aquele mesmo pátio com uma espada no cinto, dezessete anos antes.

E pensei que ele, pelo menos, tinha chegado armado.

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