Capítulo 40

O Estandarte da Primeira

14 min de leitura

A primeira regra que eu quebrei em Última Luz, eu quebrei de propósito, por causa de um botão.

Não foi a última.


Mãe Duna pegou a colher de volta com as duas mãos.

Foi na manhã seguinte, antes do sol, na cozinha ainda escura, com os três fornos acordando e o caldeirão frio. Brasa tinha dormido com a colher. Eu sei porque dormi do lado dele no barracão e ele passou a noite abraçado nela como a um cabo de vassoura, e às vezes, no sono, fazia o som comprido com o estalo no meio. Agora estava de pé no banquinho, do outro lado do balcão, com as patas estendidas e a colher deitada nelas, e não disse nada. Pela primeira vez desde que eu o conhecia, esperou.

Mãe Duna olhou a colher. Passou o polegar na ponta gasta. No cordão de fibra que ainda estava amarrado no cabo.

— Gato do mato — disse.

— Onze — disse Brasa. — Numa árvore caída. Eles penduram as colheres. Como sino.

— Eu sei como eles penduram. — Ela desamarrou o cordão com cuidado e o pôs no bolso do avental, não no lixo. — Eu fui lá uma vez. Faz muito tempo. Buscar outra colher. — Ela levantou os olhos pequenos e rápidos para Brasa. — Eles te deram nome?

Brasa ficou parado. As orelhas se levantaram devagar.

— Como a senhora sabe?

— Porque você está com cara de quem ganhou nome e não sabe o que fazer com ele. — Ela pôs a colher em cima do fogão, no lugar dela. — Diz.

Brasa disse. O som comprido, com o estalo no meio. Errou um pouco, como sempre errava. Mãe Duna fechou os olhos.

Ficou assim um tempo. Com a mão em cima do cabo da colher.

— O meu marido fazia colheres — disse ela, sem abrir os olhos. — Eu disse isso a alguém?

— A Lio — eu disse. — E ele me disse.

— Lio fala demais. — Ela abriu os olhos. — Ele veio de fora, o meu marido. Com uma das expedições. Eu era menina, ele era velho, e eu casei com ele assim mesmo, porque ele era a única pessoa em Última Luz que ria sem motivo. E ele fazia colheres. E os gatos do mato roubavam todas. E ele, em vez de brigar, começou a deixar colher do lado de fora da muralha. De propósito. Uma por semana. Durante anos. — Ela quase sorriu. — Quando ele morreu, eu fui lá buscar a última, a que ele fez para mim, que eles tinham levado. Eles me devolveram. E um deles pôs a pata no meu peito e fez esse som.

Brasa não se mexia.

— Era o nome que eles deram para ele — disse Mãe Duna. — Nunca deram para mais ninguém que eu saiba. Quer dizer, mais ou menos, do jeito que eles falam: o de fora que é de dentro.

A cozinha ficou quieta. Um dos fornos estalou.

Brasa desceu do banquinho. Não disse nada. Pegou uma raiz do cesto, pegou a faca pequena, sentou no canto dele, perto do forno do meio, e começou a descascar. De costas para nós. As orelhas baixas.

Mãe Duna olhou para ele um tempo. Depois olhou para mim.

— Deixa — disse, baixinho. — Tem coisa que um gato tem de descascar sozinho.

Três caçadores o tinham devolvido em Varnhal, por falar demais. Eu pensei nisso. E não disse nada também.


Veyra autorizou a segunda saída sem discutir, o que devia ter me feito desconfiar.

— A mesma coisa — disse, no pátio, sem tirar os olhos da muralha, onde os homens de Oren subiam pedra. — Até onde a torre do meio vê. Antes de o sol tocar o paredão. A Seikret vai.

— Sim, Comandante.

— Para quê, dessa vez?

— Pimenta — disse Brasa. — E peixe seco, que a Mãe Duna deu. É troca. Eles dão folha. Uma folha que eu não conheço.

Veyra olhou para ele. Depois para mim. Depois de novo para a muralha.

— Kest — disse. — Você viu alguma coisa ontem. Lá fora.

Não era pergunta. Eu senti o botão. Não no bolso, que eu não tinha o botão. Senti o botão na ponta do polegar, onde o 27 tinha ficado marcado em relevo de tanto que eu o apertei na borda do Cinzal. Senti como se ainda estivesse lá.

— Vi gatos, Comandante.

Ela não respondeu. Ficou olhando a muralha. Depois fez um gesto curto com a mão, vai, e eu fui, e senti os olhos dela nas minhas costas até o estábulo.


O do botão estava esperando no toco.

No mesmo toco, do lado da trilha, na borda. Como se não tivesse saído dali desde a tarde anterior. Quando nos viu, não se levantou. Olhou para Brasa, para a Pena, para mim, e depois virou a cabeça para o leste. Para a névoa.

E eu soube, antes de Brasa traduzir qualquer coisa, que eu ia.

— Ilian — disse Brasa.

— Eu sei.

— A torre.

— Eu sei, Brasa.

Olhei para trás. O fogo mais alto da torre do meio estava lá, por cima das árvores baixas. Dava para ver. Se eu andasse cem passos para o leste, não ia dar mais. Eu sabia disso porque tinha olhado na véspera, o tempo inteiro, como um menino olha para a porta de casa.

— Ele achou o botão lá — eu disse. — Um botão da vigésima sétima. Pode ter mais coisa. Pode ter…

Não terminei. Brasa me olhou com os olhos amarelos muito abertos.

— Você nunca me disse — falou ele — por que a vigésima sétima.

— Não.

— Mas é por isso que você veio. Para o vale.

Não respondi. Brasa ficou me olhando um tempo. Depois pôs a pata no bolso da pimenta, onde estava a brasa-guia, e deixou a pata lá.

— Eu vou na frente — disse. — Porque você não sabe falar com ele. E porque, se a Comandante perguntar, eu vou dizer que foi ideia minha, e ela não vai acreditar, e aí a culpa vai ser sua de qualquer jeito. — Ele suspirou. — Mas eu vou ter tentado.


Andamos três horas para o leste.

O do botão ia na frente, sem pressa, parando de vez em quando num toco ou numa raiz para esperar, com a cauda levantada. Brasa ia atrás dele. Eu, atrás de Brasa. A Pena, atrás de mim, de cabeça baixa, parando cada vez que o vento mudava.

O Cinzal, para aquele lado, era outro. As árvores ficavam mais altas, mais grossas, mais velhas, e mais afastadas umas das outras, e a cinza no chão ficava mais funda, até o tornozelo, depois até o meio da canela, fofa, quente por baixo, como a cinza de um fogão no dia seguinte. As veias das árvores, mesmo de dia, brilhavam fraco, alaranjadas, visíveis pela casca. E o chão descia. Não de uma vez. Um pouco, sempre, como uma estrada que vai para o rio.

E a coisa lá embaixo batia mais alto.

Eu não queria ouvir. Fazia dias que eu tinha aprendido a ouvir como quem ouve a chuva, sabendo que está lá. Mas ali, no leste, descendo, não dava. Ela subia pelas botas. Subia pelas canelas, pelos joelhos. Eu sentia nos dentes, como na primeira vez, deitado no gelo. Onze. Catorze. Nove. Dezesseis. E seguindo, sem se repetir, cada vez mais funda e cada vez mais perto.

— Você está pálido — disse Brasa, em algum momento.

— É o calor.

— Não está calor.

Estava. Mas não era o que me deixava pálido.


A floresta acabou num degrau.

Foi de repente. As árvores velhas pararam numa linha, como se alguém as tivesse plantado até ali e parado, e depois delas havia uma borda de pedra preta, lisa, e depois da borda não havia nada. Havia ar. Ar e, lá embaixo, muito embaixo, névoa.

Cheguei até a borda. Devagar. A Pena não chegou; ficou nas últimas árvores, de patas travadas, com a crista em pé.

Era uma descida. Uma encosta enorme, íngreme, de pedra e cinza e raízes queimadas, que ia para baixo, para baixo, até entrar numa névoa escura, cor de fumaça, que cobria tudo como a tampa de uma panela. A névoa não se mexia. Não tinha vento nela. E dela subia um calor que eu sentia no rosto, ali da borda, úmido, como o bafo de uma boca, com um cheiro que não era de fumaça nem de cinza. Um cheiro doce e podre, de fruta caída, de ferro, de alguma coisa que eu não conhecia.

Lá embaixo, na névoa, a coisa batia. Não mais pelas botas. Pelo ar. Pelo peito.

O do botão estava sentado na borda, do meu lado, olhando para baixo. Levantou a pata. Apontou para a névoa.

— Lá — disse Brasa, atrás de mim. A voz dele saiu pequena. — Ele achou lá. Na beira de baixo. Onde a névoa começa.

Eu olhei para a encosta. Havia um caminho. Não uma trilha: um jeito de descer, de pedra em pedra, de raiz em raiz, que um bicho pequeno faria e que talvez uma pessoa fizesse, com cuidado, com corda, com tempo.

Eu não tinha corda. Não tinha tempo. Tinha a espada de Bertram nas costas e um gato de avental.

Dei o primeiro passo para baixo.


Não cheguei ao terceiro.

No segundo, a pedra onde eu pus o pé estava quente. Não morna: quente, como a crosta da faixa. Senti pela sola da bota. E o ar, ali, meio corpo abaixo da borda, era outro ar. Mais grosso. Entrou na garganta e não quis sair, e os pulmões pediram mais e não acharam, e as costelas reclamaram, e a vista escureceu dos lados, como na Racha, quando o frio tinha me pegado.

E o do botão me mordeu.

Não forte. Na mão. Na mão que eu tinha apoiado na pedra da borda para descer. Os dentes pequenos fecharam na pele entre o polegar e o indicador, e apertaram, e soltaram. E ele ficou me olhando, da borda, com as orelhas deitadas para trás e o pelo cinza todo em pé, inchado, o dobro do tamanho. Fez um som. Um só. Duro.

— Não — disse Brasa. — Essa eu entendo, Ilian. Essa todo mundo entende. Sobe. Sobe.

Eu subi.

Me sentei na borda, na pedra lisa, com a mão mordida sangrando um pouco e o peito puxando ar, e o ar de cima era fino e seco e bom, e eu o bebi como água. A cabeça voltou. A vista voltou.

A névoa lá embaixo continuou parada. Não se mexeu. Não precisava.

— Desculpa — eu disse. Não sei para quem.

O do botão lambeu a pata. Depois, sem olhar para mim, se levantou, andou pela borda para a esquerda, para o norte, alguns passos, e parou. Olhou para trás. Esperou.

— Ele quer mostrar outra coisa — disse Brasa. — Eu acho. Ou quer que a gente vá embora por outro caminho. — Ele pôs a pata na minha cabeça, como Brann fazia com Lio, e a pata dele era pequena e quente. — Você é muito burro, Ilian.

— Eu sei.

— Só queria que você soubesse que eu sei também.


A pedra alta ficava a uns trezentos passos, na borda, onde o degrau fazia uma ponta para fora sobre a névoa.

Era uma pedra sozinha. Mais alta que duas pessoas, preta, lisa de um lado, com o outro lado virado para o vazio. E, no lado liso, pregado, havia um pano.

Eu soube o que era antes de chegar perto. Tinha visto a vela da ponta acesa no convés do Andorinha-Cinza. Tinha ouvido Brann dizer, ajoelhado entre as trinta e duas velas: a primeira. Ninguém sabe o nome do comandante.

Era um estandarte. Ou tinha sido. O pano estava tão velho que não tinha mais cor; era cinza como tudo, cinza como a pedra, e se desfazia nas bordas em fiapos que o calor da névoa levantava e baixava, devagar, como cabelo debaixo d'água. No meio dele ainda se via o contorno de um desenho. Um escudo? Uma torre? Não dava para dizer. E embaixo, costurado em linha que tinha sido branca, um algarismo. Um só.

1.

Mas não foi o pano que me fez parar. Foram os cravos.

Eram quatro. Um em cada canto do pano, cravados na pedra. Não pregos. Cravos, grossos como um dedo, compridos, que entravam na pedra preta e lisa até a metade, como se a pedra fosse madeira mole. Eram de ferro. Eu acho que eram de ferro. Escuros, sem ferrugem, e a cabeça deles não era redonda, nem quadrada, como a de um prego de Hadrek. Era torta. Retorcida em volta de si mesma, como um caracol, como um chifre de carneiro, como se alguém a tivesse torcido ainda quente com a mão.

Pus a mão aberta a um palmo de um deles. Não estava quente. Estava frio. No meio do bafo quente da névoa, na pedra quente, estava frio.

— Isso não é de ferreiro — disse Brasa, bem baixo. Ele sabia de forja o que sabia de tudo: um pouco, da avó. — Ferreiro não faz assim. Hadrek não faz assim. Ninguém faz assim.

Eu não disse nada.

Cento e quarenta anos. A sétima tinha achado o estandarte trinta anos depois da primeira sumir, pregado numa pedra no meio do Cinzal, por alguém que queria que fosse achado. Todo mundo contava assim. No meio do Cinzal. Mas não estava no meio. Estava na beira. Na borda da descida. Virado para quem viesse da floresta, de costas para a névoa.

Como uma placa numa estrada.

Como um aviso.

Ou como outra coisa, que eu não sabia, e que nenhuma das coisas que eu sabia servia para explicar. Fiquei olhando o pano cinza se mexendo no calor, e o algarismo, e os cravos torcidos, e não entendi nada, e guardei tudo.

O do botão estava sentado no pé da pedra. Olhando para mim. Não para o estandarte. Para mim.


Foi a Pena que me lembrou do sol.

Ela deu um grito. Curto, agudo, lá das últimas árvores, onde tinha ficado. E eu olhei para cima, e o céu por cima da névoa já não era branco. Era cor de cobre. As sombras das árvores velhas estavam compridas, deitadas no chão de cinza, apontando para o leste, para nós.

Três horas de ida. Três horas de volta. No mínimo.

— Brasa — eu disse.

— Eu sei — disse ele. — Eu sei faz uma hora. Eu estava esperando você saber.

Voltamos correndo. Tanto quanto se corre na cinza até o meio da canela, com as costelas reclamando a cada passo, com a Pena na frente porque ela sabia o caminho de casa melhor do que eu. O do botão veio com a gente até onde a cinza ficava rasa de novo, e aí sumiu, sem se despedir, como eles sumiam.

O sol tocou o paredão quando ainda estávamos no meio do Cinzal. Eu vi, de longe, por entre os troncos, o risco de luz vermelha subindo a rocha, e depois apagando.

E aí a floresta acendeu.

De baixo para cima, como na primeira noite. As raízes, os troncos, as veias, a franja lá em cima. Tudo respirando luz ao mesmo tempo, clareando e escurecendo. Se eu não estivesse com medo, teria sido a coisa mais bonita que eu já tinha visto. Eu estava com medo. Não do Cinzal. De uma mulher com uma cicatriz de gelo no rosto.


Ela estava no portão.

Não na muralha. No portão. Do lado de fora, no campo limpo, de pé, sozinha, com a lança-pistola nas costas e os braços cruzados. Os três fogos acesos por cima dela. Atrás, na passarela, a Cabo Marn, e Brann, e o velho sem dentes da torre do meio, e mais gente que eu não quis ver.

Parei na frente dela. A Pena parou atrás de mim, de cabeça baixa. Brasa parou do meu lado, com o avental sujo de cinza até o peito.

Veyra não disse nada por muito tempo.

— Até onde a torre vê — disse, enfim. A voz não era alta. Era baixa e plana, como a pedra da borda. — Antes de o sol tocar o paredão.

— Comandante…

— O velho Tobe perdeu vocês de vista antes do meio-dia. — Ela nem apontou para a torre. — Antes do meio-dia, Kest. Seis horas. Eu mandei Sila até o toco da borda. Ela achou as pegadas indo para o leste e voltou, porque eu mandei voltar, porque eu não ia perder mais uma pessoa no Cinzal procurando alguém que foi para onde eu disse para não ir. — Ela descruzou os braços. — Onde vocês estavam?

— Foi ideia minha — disse Brasa.

— Cala a boca, gato.

Brasa calou.

— No leste — eu disse. — Numa borda. Tem uma descida. Tem névoa. E tem uma pedra, com o estandarte da primeira. Pregado. Eu vi.

Alguma coisa passou pelo rosto dela. Pela cicatriz. Durou um instante. Depois foi embora.

— E por que você foi para o leste?

Eu abri a boca. O botão. O 27. O meu pai.

Fechei a boca.

Veyra viu. Eu sei que viu, porque ela esperou, e esperou mais, e o rosto dela foi ficando fechado, pedaço por pedaço, como uma casa que alguém tranca janela por janela.

— É isso — disse ela. — Sempre isso. Você vê alguma coisa, e fecha a boca. — Ela chegou um passo mais perto. — Na Garganta, eu te pedi para vir direto até mim. Na maca da Orlen, eu te pedi. Você me mentiu na cara, e eu deixei, porque achei que um dia você ia confiar. Você não me conta nada, Kest. Nada.

— Comandante, eu…

— Então eu não te autorizo nada.

Ficou quieto. Na passarela, ninguém se mexia. O Cinzal respirava luz lá atrás de mim.

— Está suspenso das saídas — disse Veyra. — Todas. Muralha, poço, horta, pátio. Nem até a borda. Nem com o gato. Nem com Brann. — Ela se virou para o portão. Parou. Falou sem olhar para mim, de costas, com a mesma voz plana. — Até você me dizer o que você viu na madrugada em que a febre da Orlen quebrou.

E entrou.

Eu fiquei no campo limpo, debaixo dos três fogos, com a mão mordida latejando e a espada de Bertram pesando nas costas. Lá atrás, no leste, muito além de onde qualquer torre via, a coisa batia.

E, pela primeira vez, eu tive vontade de contar.

Entre para avaliar este capítulo.

Comentários (0)

Entre na sua conta para comentar e responder.

  • Seja o primeiro a comentar.

Digite pelo menos duas letras para buscar livros e capítulos.