Capítulo 41

O Ninho de Brasa

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A cabra que tinha me dado um coice na canela gritou uma vez, no meio da noite, e depois não gritou mais.

Eu estava acordado. Estava deitado de cara no chão do barracão, com a mão mordida latejando e a frase de Veyra na cabeça, até você me dizer, e ouvi o grito vindo dos fundos, da horta, curto, alto, cortado no meio como uma corda. E depois o barulho de alguma coisa grande passando pela rachadura da escora, raspando madeira. E depois nada.

De manhã, havia sangue na cinza do beco, e pegadas de três dedos com unha, grandes, maiores que a minha mão aberta, e uma trilha de arrasto que saía pela escora quebrada e entrava no Cinzal.

E Irena estava de pé no meio da horta, com a outra cabra presa pela corda nas duas mãos, olhando para o canteiro das sete sementes. O bicho tinha passado por cima dele.

Nenhuma tinha brotado ainda. Agora não ia dar para saber se alguma ia brotar.


— Um Great Jagras — disse Sila, agachada no beco, com os dedos a um palmo das pegadas. — Novo. Não é grande ainda. Mas está com fome, e aprendeu hoje que atrás daquela madeira tem cabra.

— Vai voltar — disse Oren.

Ele estava de pé do lado dela, seco como uma árvore negra, com as mãos atrás das costas. Veyra estava do outro lado do beco. Os dois não se olhavam. Desde o portão, eu tinha ouvido, eles não se olhavam.

— Vai voltar — concordou Veyra. — Hoje à noite. Ou amanhã.

— Então vocês vão hoje — disse Oren. — Antes de ele voltar. Os seus e os meus.

E foi assim que montaram o grupo, no beco, em cima do sangue da cabra, sem que ninguém me perguntasse nada. Sila, porque Sila lia rastro melhor que qualquer um que não fosse eu. Os gêmeos Dace, Tor com as duas lâminas curtas e Mira com a glaive e o besouro dela, o Kinseto, que ficava pendurado no braço como um broche vivo e zumbia quando ela ficava nervosa. E Kellan, porque Oren disse o nome dele, e porque Kellan conhecia a borda do Cinzal desde que sabia andar.

Eu estava do lado da parede do Salão, onde Brann tinha me posto com um olhar. Não abri a boca.

Sila passou por mim quando o grupo saiu do beco. Parou meio passo. Olhou para a minha mão enrolada no pano.

— Gato? — disse.

— Gato.

— Hum.

E foi.


Quem me mandou para a muralha foi Oren.

Veyra tinha me suspendido das saídas. Todas. Eu ia passar o dia no barracão, ou no Salão, ou na cozinha com Brasa, que me olhava de lado desde a véspera como quem olha uma panela que queimou. Mas, quando o grupo já tinha saído pelo portão e a Comandante tinha subido a escada da torre do meio, Oren parou na minha frente no pátio.

— Kest — disse.

A terceira vez que eu o ouvia dizer o meu nome. Lio ia querer saber.

— Senhor.

— A Comandante manda nos seus fora da muralha. — Ele apontou com o queixo para o alto, para o trecho escorado com toras, onde os homens de Última Luz subiam pedra desde que chegamos. — Aqui dentro, manda o conselho. O conselho precisa de pedra lá em cima. Você tem duas mãos. Uma delas funciona.

Olhei para a torre. Veyra estava lá em cima, de costas, olhando o Cinzal. Não olhou para baixo.

— A Comandante…

— A Comandante suspendeu você das saídas. — Oren já tinha se virado. — A muralha não é saída, rapaz. É trabalho.

Brann, que estava encostado no poço, riu sem som.

Carreguei pedra a manhã inteira. Pedra preta, de cinza cozida, do tamanho de uma cabeça de Aptonoth, de um monte no pé da escada até o alto do trecho escorado, onde um velho de Última Luz com dois dedos a menos as encaixava no lugar com uma alavanca e um xingamento para cada uma. Brann carregou comigo, duas de cada vez, uma debaixo de cada braço, sem suar. A mão mordida doía. As costelas avisavam. Eu não parei.

Do alto da muralha dava para ver o Cinzal inteiro. As árvores negras, lisas, até onde a vista ia. A trilha de gente para o leste. E, mais para o norte, onde a borda descia para o riacho seco, uma linha de árvores mais baixas, cortadas a machado, por onde eu tinha andado com Sila e Brann, contando pegadas, cinco dias antes.

Eles tinham ido por ali. O arrasto da cabra ia por ali.


A fumaça subiu pouco depois do meio-dia.

Eu vi primeiro. Não porque eu olhasse melhor. Porque eu não tinha parado de olhar. Uma linha fina, cinza, subindo reta de algum lugar no meio das árvores, para o nordeste, na direção do riacho. Como a fumaça de um fogo de acampamento.

— Brann.

Ele olhou. Pôs as duas pedras no chão.

A linha engrossou. Ficou escura. E depois ficou laranja por baixo, e alguma coisa estalou lá longe, alto, como um galho seco se partindo, só que muitas vezes, muitos galhos, um atrás do outro, tac, tac-tac, tac-tac-tac-tac, cada vez mais depressa, como milho no fogo.

— Espectros — disse Brann. A voz dele mudou. — É um ninho.

— De quê?

— De Espectros de Cinza. Os lagartos que explodem. Eles fazem ninho dentro das árvores velhas, dez, vinte, cinquenta, um em cima do outro, lá dentro do oco. — Ele não tirava os olhos da fumaça. — Se um explode perto do ninho, os outros explodem juntos. E a árvore pega. E a do lado.

Lá longe, no nordeste, o laranja virou uma parede.

Não uma árvore. Muitas. As árvores negras do Cinzal, cheias de Seiva nas veias, pegaram uma na outra como palha, e o fogo delas não era como o fogo de lenha: era branco no meio, e subia reto, e a fumaça que saía de cima dele era preta como piche e se deitava para os lados, pesada, cobrindo tudo. Em pouco tempo não havia mais nordeste. Havia uma nuvem baixa, preta, grossa, rolando por cima das árvores, e dentro dela o laranja pulsando.

Na torre do meio, alguém tocou o sino. Três vezes. Depois mais três.

E, muito longe, fina, quase apagada pelo estalo das árvores, uma corneta respondeu. Uma vez.

Depois não respondeu mais.


Veyra desceu da torre correndo.

Em pouco tempo, o pátio estava cheio. Brann já tinha o martelo. Tami, com o arco. Dita, com cordas. Hadrek, com um machado. Kaspar, pálido, com a lança. Gente de Última Luz que eu não sabia o nome, com panos molhados amarrados no rosto. Oren, no meio, parado, com as mãos atrás das costas.

— Onde? — disse Veyra. Para todo mundo. — Onde foi a corneta?

— Nordeste — disse alguém.

— O nordeste inteiro está pegando fogo — disse Oren.

— Então eu vou para o nordeste inteiro.

— Com quem? — Oren não levantou a voz. — Você manda quinze para dentro daquilo e eles andam no escuro, na fumaça, sem saber para onde, até o vento virar. Aí você tem vinte na Parede em vez de cinco. — Ele olhou para ela. — Três fogos. Três dias. A gente não procura, Holt. Você sabe por quê.

— Eu não perco gente minha para uma regra sua.

— Não é minha. É do vale. Eu só escrevi.

Eles se olharam. No pátio inteiro, ninguém respirava. O sino da torre continuava batendo, de três em três.

Eu estava no alto da muralha. Ninguém tinha me chamado para descer. Eu estava com as duas mãos na pedra da mureta, olhando a nuvem preta, e as mãos estavam no lugar onde a muralha encostava no paredão. Onde a pedra da muralha acabava e começava a outra. A pedra do paredão, mais lisa, mais velha que pedra.

E eu senti.


Não pelo ouvido. Pelas mãos, primeiro. Pelas palmas, encostadas na pedra.

A coisa lá embaixo batia. Como sempre. Onze. Catorze. Nove. Mas por cima dela, pequena, fina, como uma mosca batendo num vidro, havia outra coisa. Uma batida curta. Seca. Três vezes. Tac-tac-tac. E uma pausa. E de novo. Tac-tac-tac.

Não era o estalo das árvores. O estalo das árvores eu ouvia pelo ar, com os ouvidos, lá longe, desencontrado, como milho. Isto vinha por baixo. Pela pedra. E era contado. Três e pausa. Três e pausa. Alguém batendo alguma coisa dura em outra coisa dura, com as mãos, com paciência, de propósito.

Me deitei na mureta. Encostei o rosto na pedra lisa do paredão, como eu dormia no chão do barracão, como eu tinha deitado no gelo da Garganta. Fechei os olhos.

Tac-tac-tac.

Estava lá. Mais claro de olhos fechados. Vinha de longe, mas não de tão longe quanto o fundo, quanto o Coração, quanto a coisa que batia. Vinha da frente. Da esquerda da nuvem. Não do meio do fogo: do lado dele, mais baixo. De um lugar mais baixo que o resto do chão. Eu sentia isso do jeito que eu tinha sentido a fresta no fundo da fenda de gelo, do jeito que um pastor sabe de que lado do morro a ovelha berrou: não sabia explicar. Só sabia.

E eu conhecia aquele chão. Tinha andado nele. Tinha deitado nas pedras dele com um Jagras pendurado na bota.

Abri os olhos. Me levantei. Olhei para baixo, para o pátio.

— Comandante!


Veyra olhou para cima. Todo mundo olhou.

— O riacho seco — eu disse. Alto demais. A voz rachou. — Eles estão no riacho seco. No leito. Embaixo da ribanceira, perto da passagem entre as duas pedras, onde a gente caçou os Jagras. É mais baixo que o resto. A fumaça passa por cima. Eles estão lá.

— Como você sabe? — Não foi Veyra. Foi alguém de Última Luz, com o pano no rosto.

— Tem alguém batendo. Na pedra. Três e três. Eu estou ouvindo.

O pátio ficou em silêncio. Eu ouvi o sino, e o fogo lá longe, e mais nada. Eles também não ouviam mais nada. Vi nos rostos. Vi Tami olhar para Dita. Vi Kaspar olhar para o chão, como se o chão fosse responder. Vi o homem do pano rir, curto, sem graça.

— Ninguém ouve nada daqui, rapaz.

— Eu ouço.

Veyra não riu. Veyra ficou me olhando lá de baixo. A cicatriz de gelo, o olho mais claro. Eu vi a conta passar pelo rosto dela, inteira, sem pressa: a madrugada da febre, a maca da Orlen, a mentira na cara, o leste, o portão, você não me conta nada. E agora isto. Um rapaz deitado numa mureta dizendo que ouvia através de meio dia de Cinzal pegando fogo.

Ela olhou para Oren.

Oren não estava olhando para ela. Estava olhando para mim. Com uma cara que eu não tinha visto nele. Não era espanto. Era outra coisa. Era como se alguém tivesse dito, do nada, no meio do pátio, uma palavra de uma língua que ele não falava fazia muito tempo.

Ele não disse nada.

— Kovač — disse Veyra.

— Comandante.

— Pela trilha do riacho. Pano molhado no rosto de todo mundo. Cordas. Você, Tami, Dita, e os que o Oren quiser mandar. — Ela não tirava os olhos de mim. — Se no riacho não tiver ninguém, vocês voltam na mesma hora. Na mesma hora, Brann. Não procuram. Não andam para o fogo.

— E o rapaz?

— O rapaz está suspenso.

Brann olhou para mim. Depois para ela. E não discutiu. Ninguém discutiu. Em pouco tempo, estavam no portão, os panos molhados, as cordas, o martelo de Brann no ombro, e o portão abriu, e eles saíram correndo pela trilha de gente, para o nordeste, para a nuvem.

Veyra ficou no pátio. Levantou a cabeça para mim.

— Continua ouvindo, Kest — disse.

E eu deitei de novo na pedra.


Foi a tarde mais comprida da minha vida.

Fiquei deitado na mureta, com o rosto no paredão. Não sei quanto tempo. Às vezes eu abria os olhos e via a nuvem, maior, mais preta, rolando para o norte com o vento. Às vezes eu via o sol, que andava. Às vezes eu via Lio, que tinha subido a escada sem ninguém mandar e estava sentado do meu lado, quieto, abraçando os joelhos, olhando para mim e não para o fogo.

E eu ouvia.

Tac-tac-tac. Pausa. Tac-tac-tac.

Depois ficou mais espaçado. Três e uma pausa comprida. Três e uma pausa mais comprida ainda.

Depois parou.

Eu apertei o rosto na pedra até doer. A coisa lá embaixo batia, onze, catorze, nove, dezesseis, como sempre, indiferente, e por cima dela não havia mais nada. Nenhuma mosca no vidro. Nada.

— Parou — eu disse. Não sei para quem.

Lio pôs a mão no meu ombro. Não disse nada. Tinha um prego na outra mão. Eu vi e não perguntei para quê.

Fechei os olhos. Esperei. E esperei. E, quando eu já tinha começado a contar, sem querer, quantos pregos Lio ia precisar, veio de novo.

Não três. Muitas. Uma atrás da outra, desencontradas, fortes, tac, tac, tac-tac, tac, como alguém batendo numa porta com as duas mãos. E, por baixo delas, outra coisa, mais pesada, mais funda, que eu conhecia desde o navio. Que eu tinha ouvido na cinza do leito seco, quando o Great Jagras morreu.

O martelo de Brann. Batendo na pedra. Uma vez. Com força. Respondendo.

Eu me sentei. Não consegui falar. Lio me olhava com os olhos enormes.

— Achou — eu disse, enfim. — Brann achou.


Voltaram com o sol tocando o paredão.

Pretos. Todos. Pretos de fuligem da cabeça aos pés, com os panos do rosto carbonizados nas pontas, tossindo. Brann na frente, com Mira Dace nas costas como um saco de farinha. Tor atrás dele, andando sozinho, com o braço esquerdo enrolado em pano e uma queimadura do ombro ao cotovelo. Kellan, amparado por Dita e por um homem de Última Luz, sem o arco. E Sila por último, andando de costas, com uma flecha na corda, olhando para o Cinzal, como se o Cinzal pudesse vir atrás.

Ninguém faltava. Contei três vezes, do alto da muralha. Ninguém faltava.

Irena estava no portão. Não sei quando tinha chegado ali. Ela passou por todo mundo e foi direto até Kellan e segurou o rosto dele com as duas mãos rachadas, e ele deixou, e eu entendi que ela o conhecia desde menino, como conhecia todo mundo de Última Luz que tinha nascido depois dela.

Mira desceu das costas de Brann no pátio. Estava tossindo tanto que dobrava o corpo. Nas mãos dela, as duas, a pele estava em carne viva nos nós dos dedos, e a glaive estava amarrada nas costas com a ponta lascada, e o Kinseto, no braço dela, estava encolhido, sem zumbir.

— Foi ela — disse Brann, rouco, para Veyra. — Que batia. Com a ponta da glaive. Numa pedra do leito. A tarde inteira. — Ele tossiu. — Estavam todos embaixo da ribanceira, na passagem. A fumaça passava por cima. Como o garoto disse.

Mira levantou a cabeça. Olhou em volta. Achou Veyra. Depois achou a muralha. Depois achou a mim, lá em cima, sentado na mureta com Lio.

— Eu batia — disse ela, com a voz queimada — porque lá em casa, na mina, quando desabava, a gente batia. Três e três. Meu pai ensinou. — Ela tossiu de novo. — Ninguém nunca ouvia. A gente batia para não enlouquecer. Para ter alguma coisa para fazer com as mãos até morrer.

Ela ficou me olhando.

— Não tinha como ouvir daqui — disse.

Ninguém respondeu. Sila, do lado dela, também estava olhando para mim. Não disse nada. Não disse hum. Só olhou, muito tempo, com a flecha ainda na corda.


O Great Jagras tinha morrido no fogo. Brann contou depois, no Salão, quando todo mundo já tinha comido e Mãe Duna tinha posto pomada de banha de cabra nas mãos de Mira e no braço de Tor. O grupo o tinha achado no meio da tarde, perto do riacho, comendo a cabra, e Kellan tinha atirado cedo demais, antes de Sila dizer, para mostrar que atirava antes dela. A flecha pegou o bicho no ombro, e o bicho fugiu para o meio das árvores velhas, e passou por cima de um tronco oco. E o tronco oco era um ninho.

— Cinquenta — disse Brann. — Talvez mais. Explodiram todos juntos. E o bicho no meio.

Kellan, na mesa da direita, não levantou os olhos da tigela a noite inteira. Sila, na nossa, não olhou para ele nenhuma vez. Mas, quando ele se levantou para ir embora, ela disse, sem virar a cabeça:

— Kellan.

Ele parou.

— A sua corda estava boa hoje.

E ele foi embora sem responder, e eu não sei se aquilo era perdão ou só verdade.


Hadrek me chamou na boca da Forja, tarde da noite, quando eu passava de volta para o barracão.

Estava sentado num caixote do lado de fora, com a mão sem pele enrolada no couro no colo e uma caneca de alguma coisa que fumegava. Não me convidou para sentar. Eu sentei.

— A espada — disse. — Me dá.

Tirei da calha. Dei. Ele a pôs no colo, atravessada, e passou o polegar bom no punho novo que ele mesmo tinha feito, no couro marrom em espiral.

— Os riscos — disse. — Na espiga. Os pequenos. Você perguntou o que eram.

— O senhor não disse.

— Ferreiro. — Ele bebeu da caneca. — Eu não disse porque não sabia. Hoje eu fui perguntar à Duna. Ela sabe tudo que eu esqueço. — Ele ficou olhando o punho. — O Bertram riscava na volta. Nunca na saída. Cada vez que ele trazia alguém de volta vivo, que sem ele não teria voltado, ele sentava aqui, onde você está sentado, e tirava o couro do punho sozinho, e riscava, e enrolava de novo. Não deixava ninguém ver. A Duna viu uma vez, porque foi ela que ele trouxe.

Eu não disse nada.

— Dezenove — disse Hadrek. — Em dois Clamores. O ruim de espada. — Ele riu, curto, de ronco, e a risada não tinha graça nenhuma. — A gente dizia que ele era bom de sobreviver. Não era isso. Ele era bom de fazer os outros sobreviverem. É outra coisa. Eu levei trinta e quatro anos para saber.

Ele me devolveu a espada. Pelo punho.

— Hoje foram quatro — disse. — Os Dace, a Varn e o Kellan. Mais os que foram buscar e voltaram.

— Não fui eu. Foi Brann. Foi a Mira, que batia.

— Foi. — Hadrek bebeu. — E foi você. Eu estava no pátio. — Ele olhou para a espada nas minhas mãos. — O punho abre. Eu fiz para abrir. Três voltas de couro e a cola solta com água quente. Quando você achar que precisa, me traz. Eu não pergunto.

Olhei para a espada de Bertram Sallow. Para o couro marrom, bem apertado. Pensei nos dezenove riscos lá embaixo, escondidos, e nos dois cruzados, e no espaço em branco que sobrava na espiga.

— Hoje não — eu disse.

— Hoje não — concordou Hadrek. — Quem risca cedo demais fica com a mão leve.


Veyra estava me esperando na porta do barracão.

Encostada no batente, de braços cruzados, com a lança-pistola nas costas e o rosto ainda sujo de fuligem do pátio. Não tinha ido ao Cinzal. Mas tinha ficado no portão a tarde inteira, disseram, sem sentar, sem comer, olhando para a nuvem.

Parei na frente dela.

Ela não disse nada por muito tempo. Olhou para a minha mão mordida. Para a espada nas minhas costas. Para o meu rosto, ainda com a marca vermelha da pedra do paredão numa bochecha, de tanto tempo que eu tinha ficado deitado nela.

Eu esperei a pergunta. O que você viu na madrugada da febre. Esperei e tive medo, porque sabia que, se ela perguntasse agora, naquela porta, naquela noite, eu ia contar.

Ela não perguntou.

— Eu não sei o que você é, Kest — disse. Baixo. Sem a voz plana do portão. Com outra, cansada, que eu não conhecia. — Mas sei para que você serve.

Ela descruzou os braços. Saiu do batente.

— Está autorizado.

E foi embora pelo pátio escuro, debaixo dos três fogos, sem olhar para trás.

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