Capítulo 42

O Arquivo Não Sai

17 min de leitura

Na manhã seguinte, quando eu atravessei o pátio, um homem que eu não conhecia bateu três vezes com os nós dos dedos na borda do poço.

Tac-tac-tac.

Não olhou para mim. Continuou puxando o balde. Mas a mulher do lado dele riu baixo, e um menino que carregava lenha parou para ver, e, quando eu cheguei ao Salão, alguém lá dentro bateu três vezes na mesa com o cabo de uma colher, e a conversa parou, e depois voltou, mais alta.

Eu não sabia se era deboche. Brann, sentado com o pão na mão e a cara ainda cinza de fuligem nas dobras do pescoço, me explicou sem levantar os olhos.

— É assim que eles dizem eu vi. — Mastigou. — Ontem você virou alguma coisa para eles, garoto. Ainda não decidiram o quê.

— E se decidirem errado?

— Aí eles param de bater. — Ele empurrou a tigela de mingau para mim com o dorso da mão. — Come. A Orlen está te esperando na porta do Arquivo desde que o sol bateu no paredão. Ela não diz, mas está.


Nessa estava de pé, o que já era uma notícia.

Estava encostada na pedra ao lado de uma porta baixa, nos fundos do Salão, onde o Salão acabava e começava o paredão, com uma muleta debaixo do braço esquerdo. A muleta era de osso e madeira escura, com uma travessa forrada de couro trançado em três cores, e eu soube de quem era o couro antes de perguntar.

— A Dita — disse Nessa, vendo para onde eu olhava. — Ela disse que, se eu usasse o cabo de vassoura da casa de febre mais um dia, ia me bater com ele.

Ela estava magra. Mais do que na caravana, mais do que no navio. As maçãs do rosto tinham ficado com a forma do osso, e o cabelo, que ela prendia antes num coque arrumado de quem trabalha num posto da Guilda, agora estava amarrado de qualquer jeito com uma tira de pano. Mas os olhos estavam iguais. Curiosos. Ocupados. Olhando a porta como quem olha um presente embrulhado.

Debaixo do outro braço, apertados contra o corpo, ela tinha o livro da 33ª e o caderno de mapas.

— O Oren deixou — disse ela. — Eu pedi na semana passada. Os mapas da água. Os Lagos, os rios das Coroas, para onde vai tudo. Ele disse que o Arquivo não é dele, é do Wessel, e que, se o Wessel quiser, eu leio. — Ela me olhou. — Eu disse que ia levar um ajudante para carregar os livros, porque eu não posso carregar nada com isto. — Bateu a muleta no chão. — Ele perguntou quem. Eu disse.

— E ele?

— Ficou um tempo calado. — Nessa encolheu um ombro. — Depois disse: "O Wessel decide."

Ela não perguntou o que eu ia procurar. Não precisava. Desde Varnhal, desde que eu perguntei da vigésima sétima na frente da expedição inteira, todo mundo sabia. Só me olhou mais um instante, como se medisse alguma coisa, e depois bateu com os nós dos dedos na porta baixa.

Uma vez só.


O homem que abriu a porta tinha um olho branco.

Inteiro branco, de leite, sem a parte do meio, como o olho de um peixe cozido. O outro era pequeno e claro, apertado no meio de muitas rugas, e se mexia o tempo todo, depressa, como um passarinho dentro de uma gaiola. Era velho. Mais velho que Tobe da torre, eu achei, e mais seco, magro como uma vara, com uma camisa de lã sem cor abotoada até o pescoço e as mangas dobradas com muito cuidado até o cotovelo. As mãos eram a coisa mais limpa que eu tinha visto em Última Luz.

— Orlen — disse ele. Não era pergunta.

— Senhor Wessel.

— Wessel. Senhor é a Guilda. — O olho bom passou para mim. Ficou. Desceu até a minha mão enrolada no pano e subiu de volta. — E o ajudante.

— Kest — eu disse.

— Eu sei quem você é. Ontem eu estava no pátio. — Ele se afastou da porta para nos deixar passar. — Aqui dentro, ninguém bate em nada. Nem três vezes nem uma.


O Arquivo era um corredor que entrava no paredão.

Não muito largo. Dois homens lado a lado, se fossem magros. O teto era baixo, e alguém, muito tempo antes, tinha escavado a pedra lisa e escura em arco, com paciência, e deixado as marcas das ferramentas no alto, uma do lado da outra, como escamas. O ar era seco e frio. Não frio de inverno: frio de dentro de pote, parado, que não se mexia nem quando a gente passava. Cheirava a couro velho, a poeira e a uma coisa doce e azeda que eu demorei a reconhecer, e reconheci. Papel. Muito papel. Mais papel do que eu tinha visto junto na vida inteira, mais que no posto de Três Pontes, mais que na sala de mapas de Varnhal.

Das duas paredes, de um lado e do outro, saíam prateleiras de madeira negra do Cinzal, do chão até o teto, e as prateleiras iam embora para dentro do paredão até onde a luz das lamparinas deixava ver. E, nelas, os livros.

Não eram livros como os da Guilda, de capa igual e letra dourada. Eram tudo. Cadernos de lona costurados à mão. Maços de folhas soltas amarradas com barbante. Rolos dentro de canudos de osso. Pranchetas de madeira com papel pregado. Um livro grosso como um tijolo com capa de couro de monstro, escamado, verde. Uma pilha de tabuinhas de cera. Uma bota. Uma bota de couro, velha, preta, com o cano cheio de papel enrolado.

Em cada trecho de prateleira, pregada na madeira, havia uma plaquinha de osso com um número entalhado. VII. VIII. IX. Os números iam subindo para dentro do corredor, como os mastros do Cemitério.

— Do sete para cá — disse Wessel, que tinha visto para onde eu olhava. — Antes da sétima, não tinha Última Luz. Não tinha onde guardar. Das primeiras, o que existe é o que alguém achou no vale e trouxe. — Ele apontou com o queixo, sem se virar, para o começo da prateleira, perto da porta, onde havia uma caixa pequena de madeira fechada. — Um caderno da quinta, sem capa, que molhou. Uma carta da segunda que nunca foi mandada. Um pedaço de mapa da quarta que eu não sei de que lado se segura. O resto, o vale comeu.

Ele parou no meio do corredor, onde havia uma mesa. Uma só. Comprida, de madeira grossa, encostada na parede, com duas lamparinas de vidro fechado em cima e dois bancos.

— As regras — disse.

Nessa já estava com o caderno aberto e a caneta na mão. Wessel estendeu a mão limpa para ela, com a palma para cima.

— A caneta.

— Eu só ia anotar…

— Aqui não tem tinta. Tinta derrama. Tinta pinga. Tinta faz a mão querer copiar, e a mão que copia quer levar. — Ele esperou. Nessa pôs a caneta na mão dele. Ele a guardou no bolso da camisa, com cuidado, como quem guarda uma coisa emprestada. — Quando você sair, devolvo. Você lembra do que leu com a cabeça. Para isso ela serve.

Ele levantou um dedo, como Oren à mesa.

— Lê sentado, aqui, nesta mesa. Em pé, ninguém lê. — Outro dedo. — Um de cada vez. Você pede, eu trago. Você termina, eu levo. Ninguém põe a mão na prateleira. — Outro. — Mão limpa. Lá no fundo tem uma bacia. — Outro. — E o Arquivo não sai. — Ele fechou a mão. — Isso vocês já ouviram. Mas ouviram do Oren, que é o conselho. Agora ouvem de mim, que sou o Arquivo. Nenhuma folha. Nem um canto de folha. Quem leva, não entra mais. Teve um que levou. Uma página, dentro da camisa. Faz vinte anos. Eu sei o nome dele, e ele sabe que eu sei.

— Como o senhor sabe que levou? — perguntou Nessa. E depois, mais baixo, porque o olho bom tinha virado para ela: — Wessel.

— Porque eu conheço cada livro daqui pelo peso. — Ele não sorriu. — Este olho foi embora faz onze anos. O outro está indo. Quando eu não enxergar mais nada, eu vou continuar sabendo onde está cada um. A mão lembra.

— Como o senhor perdeu o olho? — eu perguntei.

Saiu sem eu querer. Nessa me chutou de leve no tornozelo com a ponta da muleta.

Wessel não se ofendeu. Ficou um tempo com o olho bom em mim, parado pela primeira vez, sem passarinho.

— No ano em que o céu encheu — disse.

E não disse mais nada, e foi lavar as mãos na bacia do fundo, e eu entendi que aquilo era tudo que eu ia ter.


Nessa pediu a décima.

— A que mapeou os Lagos — disse. — E, se tiver, qualquer coisa que fale de água. Rio. Degelo. Para onde corre.

Wessel trouxe a décima. Era um caderno de couro de cabra, grosso, com as páginas amareladas e onduladas de umidade antiga, e um cheiro de mofo seco que subiu da capa quando ela abriu. Nessa leu com o dedo, como as crianças leem, sem perceber que fazia isso, linha por linha, e de vez em quando parava e fechava os olhos e mexia os lábios, guardando.

Eu sentei do lado dela e esperei.

Não pedi. Fiquei com as mãos na mesa, olhando as prateleiras subindo para dentro do escuro, os números de osso. XXIII. XXIV. Eu não conseguia ler os que vinham depois. Estavam longe demais, depois da luz das lamparinas. Mas eu sabia que estavam lá. Sabia que, em algum ponto daquele corredor, havia uma plaquinha de osso com um XXVII entalhado. E, debaixo dela, alguma coisa.

E eu não pedi.

Não sei explicar. Eu tinha atravessado o mundo por causa daquela prateleira. Tinha largado o rebanho da velha Maren, a cama da minha mãe, o túmulo dela, a promessa. Tinha subido a Garganta e passado pela Porta e dormido de cara no gelo. Tinha visto Tomé morrer, e Custódio, e Lenz. E agora eu estava sentado a vinte passos dela, e as minhas mãos estavam em cima da mesa, quietas, como as de um menino na igreja, e eu não pedia.

Acho que era medo de que estivesse vazia. Acho que era medo de que não estivesse.

Nessa leu a décima inteira. Depois pediu a décima sétima. Depois a vigésima segunda, a que achou ruínas nos Picos. E foi nela, no meio da tarde, que ela parou.

Parou com o dedo em cima de uma linha e ficou parada tanto tempo que eu achei que ela tinha dormido sentada.

— Wessel — disse. — A décima. De novo. Por favor.

Wessel trouxe. Levou a vigésima segunda, trouxe a décima. Ela folheou depressa, depressa demais para alguém que lia com o dedo, até um ponto perto do fim. Leu. Fechou os olhos.

— A décima sétima.

Ele trouxe a décima sétima sem dizer nada, e eu vi que o olho bom dele estava nela agora, interessado.

Nessa achou a página. Pôs o dedo. E me olhou.

— Lê — disse. Baixo. — Aqui.

Era uma letra pequena, apertada, inclinada para a frente, de alguém que escrevia depressa e com frio. Uma lista de rios. Nomes que eu não conhecia, que alguém tinha dado a água que descia das Coroas, cada um com um risco do lado. Rio do Corvo. Rio Branco. O das Três Quedas. O Fundo. E, embaixo da lista, sozinha, uma linha:

Todos para dentro. Nenhum para fora. Para onde vai?

— Agora aqui — disse Nessa, e virou para mim a décima, aberta na página que ela tinha achado.

Outra letra. Redonda, grande, de alguém que tinha tempo. Um desenho de um lago, bonito, com as margens sombreadas a carvão, e setas de todos os lados apontando para ele. E, no canto, escrito com outra tinta, mais escura, como se tivesse sido posto ali depois, numa outra noite:

Entra tudo. Não sai nada. Para onde vai?

— E a vigésima segunda — disse Nessa.

Wessel já estava trazendo. Ela abriu numa página que já tinha marcado com uma tira de pano tirada do próprio cabelo. A letra era a pior das três, torta, quase ilegível, de quem escrevia com a mão machucada. Falava das ruínas nos Picos, de colunas, de uma escada que descia. E, no meio de uma frase sobre outra coisa, sem ligação nenhuma com o que vinha antes, como alguém que pensa em voz alta:

…e a água, sempre a água, de onde a gente estiver ela desce para o mesmo lado, e eu pergunto e ninguém sabe, para onde vai…

Fiquei olhando as três páginas abertas na mesa, uma ao lado da outra. Três letras. Três expedições. A décima, a décima sétima, a vigésima segunda. Quase cinquenta anos entre a primeira e a última.

— Eles não se conheciam — disse Nessa. A voz dela estava estranha, alta e baixa ao mesmo tempo, como quando ela delirava na Porta, mas os olhos estavam limpos. — Nenhum leu o outro. Ou leu, e não disse. Cada um olhou para a água e fez a mesma pergunta, sozinho. Do mesmo jeito. Com as mesmas palavras.

— É uma pergunta normal — eu disse. — Qualquer um que olha um rio pergunta para onde vai.

— É. — Ela passou o dedo na linha da décima sétima, devagar. — Mas ninguém respondeu, Ilian. Em cento e tantos anos. Eu fiz mapa de rio em três postos da Guilda. Rio sempre vai para algum lugar. O mar. Um lago maior. Um buraco na terra. Para algum lugar. — Ela fechou o caderno. — Aqui, todos eles correm para dentro do anel. E ninguém nunca escreveu para onde.

Wessel estava de pé atrás de nós. Eu não tinha ouvido ele chegar.

— A trigésima também perguntou — disse ele. — Mas a da Holt escrevia pouco. E a vigésima nona… — Ele parou. — A vigésima nona não deixou nada aqui. Eles não escreviam. Eles tinham outras coisas para fazer.

— Que coisas? — perguntou Nessa.

Wessel pegou a décima sétima da mesa, com as duas mãos, e a levou de volta para a prateleira sem responder.


Quando ele voltou, eu pedi.

Não sei o que mudou. Talvez tenha sido a cara de Nessa, com as três páginas na frente, sabendo de uma pergunta que ninguém tinha respondido em cento e tantos anos e querendo a resposta assim mesmo, querendo tanto que a voz mudava. Talvez eu tivesse vergonha de estar com mais medo de um livro do que ela estava de um vale inteiro.

— A vigésima sétima — eu disse.

Wessel não se mexeu.

Ficou parado do lado da mesa, com as mãos limpas penduradas ao lado do corpo, e o olho bom ficou em mim do jeito que tinha ficado na porta, parado. Eu ouvi as lamparinas chiarem. Ouvi Nessa respirar.

— Faz tempo que ninguém pede essa — disse ele.

— Quanto tempo?

— Muito. — Ele inclinou a cabeça. — Você sabe o que quer achar nela, Kest?

— Não.

— Então é melhor. Quem sabe o que quer achar sempre acha outra coisa e fica bravo comigo. — Ele se virou. — Lava as mãos.

Eu lavei. Na bacia do fundo, na água fria que tinha gosto de ferro no cheiro, a mesma do poço dos fundos. Esfreguei os dedos com cinza, como Wessel me mostrou, e enxaguei, e esfreguei de novo, e a mão mordida ardeu debaixo do pano, e eu não liguei. Quando voltei, sequei as mãos na camisa, e Wessel me olhou como quem olha um homem que limpou a bota no tapete, e me deu um pano.

Depois ele foi para dentro do corredor, para o escuro, sem lamparina.

Eu ouvi os passos dele indo embora, devagar, firmes, sem tropeçar em nada, como alguém que anda no próprio quarto de noite. Ouvi os passos pararem. Ouvi um silêncio comprido. E ouvi, muito baixo, o barulho de uma coisa sendo tirada de uma prateleira. Madeira raspando em madeira.

E depois o silêncio continuou. Comprido demais.

— Wessel? — disse Nessa.

Os passos voltaram.

Ele saiu do escuro com um livro nas duas mãos, segurando como se segura um bicho pequeno que pode fugir, e o pôs na mesa na minha frente. E ficou com as mãos em cima dele um instante a mais do que precisava. Como se pesasse.

Depois tirou as mãos.


Era um caderno de capa de couro tingido de vermelho, que o tempo tinha deixado marrom, da mesma cor do estandarte da 27ª no Cemitério, segunda fileira. Grosso como dois dedos. A lombada estava costurada com tendão, à mão, com pontos regulares e pequenos de quem sabia costurar. Na capa, queimado no couro com ferro quente, um número:

27.

E, embaixo, menor, com a ponta de uma faca:

Para quem vier depois.

Eu fiquei olhando para aquilo sem tocar. Nessa não disse nada. Pôs a mão em cima da mesa, perto da minha, sem encostar. Wessel tinha ido para trás de nós, para a sombra, e eu sabia que ele estava lá porque não ouvi os passos dele indo embora.

Abri.

A primeira página era uma lista. Nomes, em coluna, numa letra firme, quadrada, de quem tinha aprendido a escrever em escola de verdade. Ao lado de cada nome, uma palavra. Caçador. Caçador. Carregador. Cozinheira. Pesquisador. Caçador. Ferreiro. Vinte e tantos nomes. Uma letra só. A letra do comandante, eu pensei, ou de quem anotava para ele. Ninguém escreve o próprio nome desse jeito, numa lista, com uma palavra do lado.

Desci o dedo pela coluna. Devagar. Como Nessa lia. Sem perceber que fazia isso.

Na décima nona linha, o dedo parou sozinho.

Doran Kest — caçador.

Era só isso. Duas palavras e um risco. Numa letra que não era a dele. Escrito por alguém que não sabia, quando escreveu, que aquilo ia ser a coisa mais parecida com o meu pai que eu ia ver em dezessete anos. Alguém que escreveu o nome dele como escreveu todos os outros, sem apertar mais a pena, sem demorar mais na tinta. Doran Kest — caçador. Entre um Ferro Valden — carregador e uma Selma Rook — caçadora.

Eu passei o polegar em cima do nome. A tinta estava seca havia dezessete anos e o papel era áspero e não aconteceu nada. Não esquentou. Não bateu. Era papel.

Nessa olhou para a página e depois para mim e não disse nada, e eu agradeci por isso mais do que por qualquer outra coisa que ela tinha feito.

Virei a página.

A segunda era um mapa. Feito a carvão e tinta, com as Coroas, a Garganta, a Porta, o Cinzal, uma cruz onde ficava Última Luz. Setas. Uma linha pontilhada que saía de Última Luz e ia para o leste, para o fundo, para baixo. Uma linha que eu reconheci, porque eu tinha um desenho parecido no bolso de dentro do casaco, numa carta que eu sabia de cor, só que este era maior e mais certo e tinha nomes.

Virei a página.

A terceira era um dia. Dia um. Chegamos ao Degrau com o vento parado. E o dia dois. E o três. A letra quadrada do comandante. Descrevia a Garganta. Os marcos. A neve. Uma briga de dois carregadores por uma bota. Um Palico que caiu numa fenda e foi tirado com corda. O dia quatro. O dia cinco.

Virei.

E a página seguinte não estava lá.

Estava, mas não estava. O que havia era uma tira. Uma tira fina de papel, da largura de uma unha, presa na costura, saindo da lombada como um dente quebrado. Cortada reto. De cima a baixo. Rente.

Passei o dedo nela. A borda era lisa. Não estava rasgada, nem roída, nem molhada. Alguém tinha posto uma lâmina ali, bem junto da costura, e tinha descido de uma vez, com a mão firme.

Virei a tira.

Outra.

E outra. E outra. E mais cinco, juntas, um maço de dentes, tão rentes que dava para contar só pelo dedo, porque o olho não via. Depois uma página inteira, com um dia, dia trinta e um, uma linha sobre a chuva. Depois tiras de novo. Muitas. Uma fileira delas, uma atrás da outra, como as estacas de uma cerca queimada.

Eu folheei até o fim. Não li. Só folheei, depressa, sentindo as tiras passarem pelo polegar, tac, tac, tac, como pegadas. No fim do caderno, a capa de trás. E antes da capa, nada. Nenhuma última página. Nenhuma assinatura. A costura, e as tiras, e o couro.

Fechei o caderno.

O número queimado na capa. 27. E, embaixo, a ponta de faca. Para quem vier depois.

— Wessel — disse Nessa. A voz dela estava muito calma. Calma demais. — Quantas faltam?

Ele demorou a responder. Quando respondeu, estava mais perto do que eu pensava, logo atrás do meu ombro.

— Quando chegou aqui, tinha cento e doze folhas — disse. — Eu contei. Eu conto todos os que chegam.

Eu abri de novo, no meio. As tiras. Contei com o polegar, sem olhar, como ele fazia. Perdi a conta no vinte. Comecei de novo.

— E agora? — eu disse.

O olho bom de Wessel estava no caderno. Não em mim. No caderno, nas tiras, como se pudesse vê-las uma por uma no escuro.

— Agora tem sessenta e uma.

Ninguém disse nada. As lamparinas chiavam. Lá fora, longe, por trás de toda aquela pedra, o sino da torre do meio tocou uma vez, a hora de acender os fogos, e eu nem sabia que já era fim de tarde.

— Foi com faca — eu disse. Não era pergunta.

— Foi com faca — disse Wessel.

— Aqui dentro.

— Aqui dentro. — Ele estendeu as duas mãos limpas para o caderno, com as palmas para cima, esperando que eu o devolvesse. — O Arquivo não sai, Kest. Eu disse. Nenhuma folha. — Ele esperou. As mãos não tremiam. — Então quem cortou estas não levou nada para fora. Cortou aqui. E guardou aqui. Em Última Luz.

Olhei para as mãos dele. Para o olho branco. Para as tiras, rentes, retas, cortadas por uma mão firme, de uma vez, por alguém que sabia exatamente onde pôr a lâmina.

E pus o caderno do meu pai nas mãos do arquivista, porque era a regra.

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