Capítulo 43

Fichas dos que Voltaram

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A ficha de Veyra Holt pesava menos que a minha.

Eu não teria percebido. Foi Nessa. Ela estava sentada no banco do Arquivo, com a muleta encostada na mesa e o estojo de oleado aberto no colo, tirando as fichas da 33ª uma por uma e empilhando na madeira, e de repente parou com duas delas nas mãos, uma em cada palma, como uma mulher de feira pesando duas cebolas.

— Wessel — disse. — O senhor tem uma balança?

— Tenho a mão — disse Wessel, do fundo do corredor.

— Então pesa estas.


As fichas eram culpa minha, de um jeito.

Na véspera, quando eu devolvi o diário da 27ª e saímos para o pátio com os fogos já acesos, Wessel tinha devolvido a caneta de Nessa na porta e dito, como quem lembra de cobrar uma dívida:

— Os papéis da trigésima terceira. Toda expedição que chega deixa os papéis aqui. A Holt sabe. Você é a da Guilda, Orlen. Você traz.

E Nessa trouxe. Na manhã seguinte, cedo, antes de o sol bater no paredão, ela estava de novo na porta baixa do Arquivo, de muleta, com um estojo comprido de oleado verde amarrado no ombro. Eu conhecia o estojo. Tinha visto em Varnhal, na mesa dela, no pátio das lousas, e depois no navio, e depois nas costas dela na Garganta, até ela cair, e depois amarrado na maca, debaixo da minha carta. Nunca tinha perguntado o que tinha dentro.

— As fichas — disse ela. — De todo mundo. A Guilda faz uma para cada um que assina. Nome, de onde é, quanto recebe, quem recebe se ele morrer. Eu preencho a parte de baixo. Elas ficam com a coordenadora até o fim da expedição. — Ela ajeitou o estojo. — Ou até a coordenadora morrer, e aí ficam com quem achar o corpo.

— Você nunca me disse que tinha uma ficha minha.

— Você nunca perguntou. — Ela sorriu de canto, o primeiro sorriso que eu via nela desde a Porta. — É chata. Diz que você é pastor, que sabe ler, e que não tem ninguém.

Eu não disse nada. Era tudo verdade.


Wessel veio do fundo, secando as mãos.

Pegou as duas fichas das mãos de Nessa sem dizer nada. Ficou com uma em cada palma, como ela tinha feito, de olho fechado, o bom e o branco, e eu vi as mãos dele descerem e subirem um fio de cabelo, cada uma de um jeito, como os pratos de uma balança de verdade.

— Esta tem menos — disse, e levantou a da direita.

— É a da Comandante — disse Nessa.

— E a outra?

— É a do Kest.

Wessel abriu os olhos e me olhou, e eu senti, sem saber por quê, que tinha perdido alguma coisa.

A ficha da Guilda era um caderninho. Quatro folhas dobradas ao meio e costuradas no vinco com linha encerada, com uma capa de papel mais grosso, cinza, com o sinal da Guilda impresso e o nome escrito à mão. Oito páginas. A minha, que Nessa abriu na mesa para eu ver, tinha as oito. Na primeira, o meu nome, Ilian Kest, na letra de um escrevente de Três Pontes. Pedravento. Pastor. Sabe ler: sim. Pagamento: o adiantamento, em branco, porque eu não tinha deixado para ninguém. Parentes: um risco. Na segunda, a altura, o peso, a cor do olho, uma marca de nascença no ombro que eu nem lembrava que tinha. Na terceira, o resultado da prova: aprovado, e a assinatura de Gault, tremida. E o resto em branco. Esperando.

— O que vai aqui? — eu perguntei, pondo o dedo numa página vazia.

— O que acontecer com você — disse Nessa. — Ferimentos. Doenças. Se você voltar, o que você fez. Se não voltar, como foi. Eu escrevo. Ou quem estiver no meu lugar.

— E se eu já tivesse vindo antes?

Nessa ficou quieta.

— Aí — disse ela, devagar — a Guilda manda a ficha velha junto. A Guilda faz duas de cada um: uma vai com a expedição e fica onde a expedição acabar; a outra fica no posto. Se você volta e assina de novo, a do posto vem costurada atrás da nova. Para quem estiver no meu lugar saber o que já aconteceu com você lá dentro.

Ela abriu a ficha de Veyra.


Tinha capa cinza, igual à minha. Veyra Holt. Primeira página: o nome, Varnhal, comandante, um pagamento alto que ela tinha mandado para uma irmã numa cidade de porto que eu não conhecia. Segunda página: a altura, o peso, a cicatriz de gelo da têmpora ao canto da boca, descrita em três linhas secas. Olho esquerdo, mais claro. Vê.

E depois, costurada na mesma linha, por trás, uma segunda ficha. Mais velha. A capa cinza tinha amarelado nas pontas e a tinta tinha ficado marrom. Veyra Holt. 30ª. Uma mulher de vinte e poucos anos, uma caçadora de lança-pistola, um pagamento pequeno para a mesma irmã.

E depois disso, nada.

Não nada escrito. Nada de folha. A ficha velha devia ter oito páginas, como a minha, como todas. Tinha duas. As outras seis não estavam lá.

Mas não estavam cortadas.

Eu pensei no diário da 27ª. Nas tiras rentes, os dentes quebrados saindo da lombada. Aqui não havia dente nenhum. Havia a costura. A linha encerada, que entrava e saía do vinco em pontos pequenos e iguais, tinha sido desfeita e refeita. Dava para ver, se você olhasse de perto, com a lamparina chegada: os furos antigos, vazios, do lado dos furos novos. Alguém tinha aberto a costura, ponto por ponto, tirado as folhas de dentro inteiras, sem rasgar nada, e costurado de novo o que sobrou. Com cuidado. Com a mesma linha. Com um nó igual ao primeiro.

Era um trabalho bonito. Era isso que me deu frio. Era bonito.

Nessa passou a unha pelos furos vazios. Uma vez. Duas. Não estava com cara de quem descobriu alguma coisa. Estava com cara de quem reconheceu.

— Eu sei fazer isto — disse.

Baixo. Não para mim. Para a mesa.

— Fazer o quê?

— Isto. — Ela não tirava a unha dos furos. — Abrir a costura sem rasgar. Tirar a folha. Costurar de volta com o mesmo nó. É a primeira coisa que ensinam no posto, antes de deixar a gente mexer em ficha de verdade. Uma semana inteira, com ficha velha de treino, até a mão não tremer. — Ela engoliu. — Porque tem folha que sobe.

— Sobe para onde?

— Para cima. — Ela levantou os olhos. — É o que dizem. Esta sobe. O chefe do posto marca a folha com um risquinho, e a gente tira, e põe num envelope, e o envelope fecha com cera, e alguém leva. E a gente costura de volta, bonito, para a ficha não ficar feia. Ninguém pergunta para onde. Eu fiz isso. — Ela respirou. — Em Varnhal. Duas vezes. Fichas de gente que eu não conhecia. Eu não li as folhas. Não pode ler. Era a regra.

Ela chegou a lamparina mais perto da costura da ficha velha de Veyra.

No nó, bem no nó, preso entre os fios de linha encerada, havia uma coisa pequena. Do tamanho de uma semente de mostarda. Eu achei que era sujeira. Nessa pegou com a ponta da unha, com muito cuidado, e pôs na palma da outra mão, e chegou a palma na luz.

Era um caquinho de cera. Seca, dura, velha.

Cinza.

Nenhum de nós dois disse nada. Eu pensei no envelope na mão de Crane em Varnhal, na noite das torres. No lacre cinza na caixa da 27ª, no Muro de Três Pontes, no primeiro dia de tudo. Depois da Garganta, doutor. Não antes.

Nessa fechou a mão.


— A do Ancel — disse ela. Para Wessel. A voz tinha voltado ao normal, normal demais, a voz de quem faz uma lista para não pensar. — Tomé Ancel. Ele é da trigésima terceira, mas já tinha vindo na trigésima segunda. Ele voltou. Atravessou a Garganta sozinho. A ficha dele deve ter a velha costurada.

Ela mesma achou, no estojo. Tomé Ancel. Carregador. Ribeira Funda. Na página das mortes, a letra dela, torta de febre, de algum dia em que ela já conseguia segurar a pena: Morto na Cornija, dia 29. Eu não sabia que ela tinha escrito aquilo. Não sabia que alguém tinha escrito.

Atrás, a ficha velha da 32ª. Duas páginas. Os furos vazios. O nó bonito.

— A trigésima — disse Nessa. — Wessel. A trigésima inteira. As fichas.

Wessel trouxe. Era um maço amarrado com barbante, e ele o pôs na mesa sem dizer nada, e ficou de pé atrás de nós, e eu sabia que o olho bom dele estava nos furos.

Sessenta e duas fichas. A 30ª tinha saído com sessenta e dois e chegado a Última Luz com quarenta e poucos, e voltado para fora com treze. Nessa as abriu uma por uma. Não lia. Contava as folhas com o polegar, depressa, como Wessel, e separava em dois montes.

O monte da esquerda cresceu. O da direita ficou pequeno.

No da direita, cinco fichas. Cinco que tinham, costurada por trás, uma ficha mais velha, de outra expedição, porque aquela gente já tinha estado no vale antes. E as cinco fichas velhas tinham duas páginas cada. Os furos. O nó.

Eu procurei um nome no monte grande e achei. Ademar Quell. Oito páginas, sem nada costurado atrás, porque a trigésima tinha sido a primeira vez dele. A segunda vez, a trigésima primeira, tinha ficado na roda, debaixo da Porta, no bolso de um homem congelado de olhos abertos. A gente tinha enterrado com ele. Ninguém ia abrir aquela costura nunca mais.

— E os outros? — eu disse. — Os do monte grande. Os que não tinham ficha velha.

Nessa abriu um. Abriu outro. Abriu um terceiro, de alguém que tinha morrido no segundo mês, e na página das mortes alguém tinha escrito Rio. Afogado. Corpo achado.

Oito páginas. Oito páginas. Oito páginas.

— Só nos que voltaram — disse Nessa.

Ela pôs as duas mãos em cima dos dois montes, uma em cada, como se segurasse alguma coisa que podia sair voando.

— Não é em quem morreu. Não é em quem ficou. É só em quem entrou no vale, e saiu, e entrou de novo. Neles, alguém abriu a ficha velha e tirou as folhas de dentro. — Ela me olhou. — As folhas onde a coordenadora escreve o que aconteceu com eles lá dentro.

— E não foi aqui — eu disse.

Não sei por que eu sabia. Olhei para Wessel.

— Não foi aqui — disse Wessel. — Estas chegaram assim. Eu conto quando chegam. As da trigésima, a Holt mesma pôs nesta mesa, há oito anos, antes de sair por aquele portão com os doze. As velhas costuradas já tinham duas. Eu anotei. — O olho bom dele foi da ficha para o diário vermelho da 27ª, que estava na outra ponta da mesa, onde eu tinha pedido para ele deixar. — As da vigésima sétima eu contei inteiras. E vi ficarem menores aqui dentro.

Ele não precisou dizer mais. Duas mãos. Uma lá fora, com linha e cera, bonita, que tira e manda para cima. E uma aqui dentro, com faca, de uma vez, que corta e guarda.

Nessa amarrou o maço da 30ª de volta, devagar, com o barbante, com um nó de posto. Depois pegou o estojo verde da 33ª no colo. Ficou olhando para ele.

— Todas elas vão subir também — disse. — As nossas. Quando a gente voltar. Se alguém voltar. Alguém vai abrir a costura da do Brann, e da Sila, e da Mira, e da minha, e tirar a folha onde eu escrevi o que aconteceu. Bonito. Sem rasgar.

Ela não disse e a sua. Mas olhou para a minha ficha, que era a de cima da pilha, e pensou, e eu vi que ela pensou na madrugada da febre, e na perna dela, e no que eu não tinha contado.

Depois ela fez outra conta. Eu vi a conta passar pelo rosto dela, como tinha visto passar pelo de Veyra na muralha.

— Wessel — disse. — A ficha da Comandante. A da trigésima. A daqui, não a do posto. A que a coordenadora dela escreveu lá dentro e que ficou nesta mesa.

Wessel não respondeu logo.

— Quantas folhas tem? — disse Nessa.

— Oito.

Ninguém disse nada. Nessa ficou olhando para a costura bonita da ficha velha, com os furos vazios, as duas folhas que a Guilda tinha deixado. E depois para o fundo do corredor, para o escuro, onde, em algum ponto, uma ficha igual tinha as outras seis.

— E não sai — disse Wessel.

Não era ameaça. Era a regra. Mas, pela primeira vez, eu entendi por que Oren tinha dito, à mesa, na primeira noite, principalmente para a Guilda.


Eu pedi o diário da 27ª de volta depois do meio-dia.

Nessa não estava mais na mesa. Tinha ido ao Salão com a muleta, dizendo que precisava comer, e eu sabia que não era isso, que ela precisava sair de debaixo da pedra e ver o céu. Wessel trouxe o diário sem perguntar. Pôs na minha frente. Lavou as mãos de novo e foi para o fundo.

Eu li o que sobrava.

Não era muito. Sessenta e uma folhas, das quais a metade eram dias do comandante, na letra quadrada, soltos, sem o antes e sem o depois. Dia trinta e um. Chuva. Ninguém sai. Dia trinta e oito. Os Vashti trouxeram carne e não quiseram nada em troca. Dia quarenta e quatro. Última Luz. Eles nos olham como se já soubessem. Uma página de nomes de plantas. Um desenho de um Aptonoth, mal feito, com as pernas erradas, e embaixo, em outra letra, uma piada sobre as pernas. Uma conta de comida, e outra, e outra, com a quantidade de farinha diminuindo de uma para a outra, até a última, onde alguém tinha escrito só chega.

E então, no meio de duas tiras cortadas, sozinha, uma folha de outra letra.

Eu vi antes de ler.

Era uma letra torta. Não feia: torta. As linhas desciam para a direita, como se o papel estivesse inclinado, ou como se quem escrevia estivesse deitado de lado. Os a eram fechados demais, quase o. O K tinha a perna de baixo comprida, muito mais comprida do que precisava, como uma cauda.

Eu conhecia aquele K.

Eu conhecia aquele K do mesmo jeito que conhecia a minha mão. Tinha olhado para ele todas as noites de três invernos, desde que a minha mãe morreu e eu abri a caixa dela e achei a carta. Na carta, ele assinava D. K. E o K tinha a perna de baixo comprida assim, como uma cauda, que passava por baixo da última linha e quase encostava na borda do papel. A minha mãe ria disso. Dizia que ele escrevia como quem já está indo embora.

Era uma lista.

Para a subida, o que falta: Corda, quarenta braças (a de Ferro está podre). Sebo para as botas. Pederneira, três. Uma é pouco. Agulha de osso e tendão. Botões, meia dúzia. Selma perdeu os dela na Garganta e anda segurando o casaco com a mão. Sal. Papel.

Só isso. Uma lista de coisas. Nada importante. Nada sobre o vale, nem sobre o Coração, nem sobre o que batia debaixo de tudo. Corda, sebo, pederneira. A Selma que perdeu os botões. O papel, por último, porque ele escrevia e estava acabando.

Eu li sete vezes.

Depois fiz uma coisa que não tinha feito com a carta, nunca, em três invernos, porque a carta era da minha mãe antes de ser minha e eu tinha medo de gastá-la.

Pus o dedo na letra.

No K de Kest, não, porque ele não tinha escrito o próprio nome. Na primeira palavra. Para. O dedo em cima do P, e depois do a, que parecia um o, e eu fui seguindo, devagar, a linha torta que descia para a direita, como quem segue uma trilha de pegadas na neve. Senti a tinta. Era quase nada. Uma aspereza a mais no papel, onde a pena tinha apertado. Mas era a mão dele. A mão dele tinha estado aqui, deste lado do mundo, nesta folha, apertando a pena neste ponto, e o meu dedo estava no mesmo lugar.

Não esquentou. Não bateu. Não aconteceu nada.

Eu chorei assim mesmo. Sem barulho, com a cabeça baixa, para não molhar o papel, porque Wessel não ia perdoar. Chorei do jeito que eu não tinha chorado no túmulo da minha mãe, porque lá tinha gente olhando. Aqui só tinha o corredor, e as prateleiras, e um velho de um olho só no fundo do escuro que, se viu, fez de conta que não.


Quando passou, eu limpei o rosto na manga e li de novo, para guardar.

E foi aí que eu vi, embaixo da lista.

Depois de Papel, havia um espaço. Um espaço de dois dedos, em branco, até a borda de baixo da folha. E, no meio desse espaço, um borrão de tinta que eu tinha tomado por uma mancha. Uma pena que pingou. Uma mosca.

Cheguei a lamparina.

Não era borrão. Era um desenho, pequeno, do tamanho da unha do meu polegar, feito com a mesma pena, a mesma tinta. E, por cima do desenho, riscos. Muitos, cruzados, para a frente e para trás, com força, como alguém que desenha uma coisa sem querer e depois se arrepende e tenta apagar com a própria pena.

Mas a tinta dos riscos era mais fraca que a do desenho. A pena já estava secando quando ele riscou. E, debaixo dos riscos, ainda dava para ver.

Uma linha que começava no meio e girava para fora. Uma volta. Duas. Três.

E parava.

Parava no meio da quarta volta, aberta, como uma pergunta sem fim, como se a mão dele tivesse começado a fazer o desenho que eu sabia de cor, o desenho da carta, o da Porta Sepultada, o do peito do dragão enrolado, e tivesse parado ali, de repente, no meio do caminho, sem os onze traços, sem a quarta volta, sem nada.

Três voltas.

Eu fiquei olhando para elas até a lamparina começar a chiar de óleo baixo. E me perguntei, pela primeira vez, uma coisa que nunca tinha me perguntado em dezessete anos de pai sumido.

Não o que ele viu.

Do que ele teve medo.

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