Capítulo 45
O Homem que Arrancou
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Oren estava na muralha quando eu o achei, e não largou a pedra para me ouvir.
Era cedo. O sol ainda não tinha passado do paredão, e o pátio estava cinza e frio, e os fogos das torres pareciam maiores do que eram, como sempre parecem antes do dia. No trecho escorado, onde eu tinha carregado pedra três dias antes, o velho dos dois dedos a menos estava de cócoras com a alavanca, e Oren, do lado dele, segurava uma pedra preta do tamanho de uma cabeça de Aptonoth contra o peito, esperando o encaixe, como um homem segura uma criança dormindo.
Subi a escada. Parei a dois passos dele.
— Vask.
Nunca tinha chamado ele assim. Todo mundo dizia Oren, ou o conselho, ou não dizia nada. Ele não se virou.
— Kest — disse.
A quarta vez. Lio ia querer saber. Eu não ia contar.
— Alguém cortou o diário da vigésima sétima.
O velho da alavanca parou. Olhou para mim, olhou para Oren, e encontrou uma coisa muito interessante para ver no outro lado da muralha, no Cinzal, onde não havia nada.
Oren pôs a pedra no buraco. Ela não entrou. Ele a tirou, virou, e pôs de novo. Entrou, com um barulho seco de dente mordendo osso. Ele passou a palma em cima dela, para sentir se estava firme. Só então olhou para mim.
— Muita gente corta muita coisa aqui, rapaz. — A voz grossa, gasta, sem levantar. — Corda. Carne. Cabelo, quando dá piolho.
— Com faca. Rente. De uma vez. Cinquenta e uma folhas. Dentro do Arquivo.
— O Arquivo é do Wessel.
— O Wessel disse que não foi ele.
— Então não foi ele. — Oren limpou as mãos na calça, devagar, a frente e as costas, como quem tem todo o tempo do mundo. — O Wessel não mente. Não sabe. Nunca aprendeu. Ficou velho demais antes.
— E o senhor?
O velho da alavanca tossiu. Oren não.
Ficou me olhando. Era a cara do pátio, do dia do fogo. A de quem ouve uma palavra numa língua que não fala faz muito tempo. Mas, agora que eu estava perto, eu vi outra coisa embaixo dela. Uma coisa cansada, gasta, como a voz, como o casaco que tinha mudado de cor. Uma coisa que não era raiva.
— Eu conheci um Kest — disse ele.
Assim. Sem eu perguntar. Como quem põe uma pedra no buraco depois de virar ela três vezes na mão.
Eu não consegui dizer nada. A muralha estava muito alta, de repente. O Cinzal muito longe lá embaixo.
— Faz muito tempo — disse Oren. — Ficou aqui umas semanas. Comia com a gente. Ria pouco, falava menos. Tinha o seu jeito. — Ele olhou para a pedra que tinha encaixado. — De ficar ouvindo o chão. Deitava de cara na terra, no pátio, de noite, e ficava. A gente achava que era bêbado. Não era. Não bebia.
— Era o meu pai.
— Eu não sei de quem você é filho, rapaz. Eu sei que eu conheci um Kest.
— O senhor sabe.
Oren se abaixou e pegou outra pedra do monte que o velho tinha subido. Pesou na mão.
— Vai embora — disse.
— O senhor cortou.
— Vai embora, Kest. — Ele não levantou a voz. Não precisava. — Tem pedra para subir e você está na frente dela.
Eu fiquei. Fiquei um tempo que me pareceu muito e devem ter sido três respirações, parado na frente de um homem de sessenta anos com uma pedra na mão, e eu com uma espada nas costas, e ninguém se mexendo. O velho da alavanca olhando o Cinzal. O sol batendo, enfim, na ponta do paredão lá em cima, e escorrendo para baixo, devagar, como água.
Depois desci a escada.
Ele não disse mais nada. Só, quando eu já estava no pátio, ouvi o barulho seco da pedra entrando no buraco. Dente mordendo osso.
Brasa estava na cozinha descascando raiz, e me olhou entrar como quem olha chuva entrando por uma janela aberta.
— Pela cara — disse —, você brigou com alguém maior que você. De novo.
— Com o Oren.
— Ah. — Ele pôs a raiz na bacia, tirou outra do saco, e a faquinha dele começou a girar em volta dela, fina, sem parar. — Então perdeu.
— Ele conheceu o meu pai.
A faquinha parou.
Mãe Duna, que estava do outro lado da cozinha mexendo um caldeirão do tamanho de um barril com a colher de pau do marido, também parou. Só um instante. Depois voltou a mexer, mais devagar.
— Ele disse? — perguntou Brasa.
— Disse que conheceu um Kest. Que ficava ouvindo o chão.
Brasa me olhou um tempo comprido. Depois olhou para Mãe Duna. Ela não se virou. Ele pôs a faquinha na bacia, limpou as patas no avental de pano de saco que ela tinha amarrado nele, e veio sentar no banquinho do meu lado, no canto da mesa grande, onde as cebolas ficavam.
Não disse nada. Só encostou o ombro no meu braço. Como tinha encostado em Irena, na horta, no dia das sementes.
— Não adianta perguntar para mim — disse Mãe Duna, de costas, para o caldeirão. — Eu sei o nome de todas as bocas que comeram nesta cozinha. Das vivas e das mortas. A do seu pai também. — A colher parou. — Mas quem conta é ele. Não sou eu. Aqui, cada um conta os seus.
— E se ele nunca contar?
— Aí ele carrega. — Ela bateu a colher na borda do caldeirão, duas vezes, e a pendurou no prego. — O Oren carrega muito. Ele chegou aqui com vinte e seis anos e ficou no portão olhando a coluna dele ir embora. Nunca disse por quê. Desde então ele não para de carregar coisa. Pedra. Gente. Os nomes da parede. — Ela se virou, enfim, enxugando as mãos no avental. — Ele não arranca as coisas por maldade, menino. Quando o Oren arranca alguma coisa, é porque achou que aquilo ia machucar alguém. E na maior parte das vezes ele acertou.
— E na outra parte?
Mãe Duna pensou. Não respondeu. Foi até a prateleira, pegou uma tigela, encheu de caldo de raiz do caldeirão, pôs um pedaço de pão em cima e deixou na minha frente.
— Come — disse. — De barriga vazia você vai querer bater nele. E ele bate de volta. Já vi.
Comi. Brasa não voltou para as raízes. Ficou ali, de ombro encostado.
E foi Brasa, não eu, quem perguntou do estandarte.
Não sei por que perguntou. Ou sei. Brasa nunca tinha esquecido o cheiro do peixe no acampamento da 28ª, no dia em que a gente queimou tudo. Ele não tinha esquecido a pedra redonda no marco da Garganta, nem o vulto pequeno de pelo cinza que fez para mim o sinal de ele ouve e fugiu. E não tinha esquecido Irena, de joelhos na horta, perguntando pelo gato velho que cuidava da mesa.
— Mãe Duna — disse ele. — O pano da vinte e oito. No Cemitério. O da corda com o nó pequeno.
— O que tem?
— Quem trouxe?
Mãe Duna, que ia voltar para o caldeirão, ficou parada no meio da cozinha.
— Ninguém trouxe — disse.
— Alguém trouxe. Pano não anda.
— Este andou. — Ela sentou, devagar, na ponta do banco grande, do outro lado da mesa, de frente para a gente. Era a primeira vez que eu a via sentar. A madeira gemeu. — Faz catorze anos. Talvez quinze. A vinte e oito tinha passado pela Garganta e não tinha chegado aqui. A gente esperou. Três fogos, três dias. Depois mais um pouco, porque o Oren mandou, e o Oren nunca manda esperar mais que três dias. Depois a gente parou de esperar.
— E? — disse Brasa.
— E uma madrugada, no fim do Clamor daquele ano, o guarda do portão desceu da torre gritando. — Mãe Duna pôs as duas mãos grandes na mesa, uma em cima da outra, as queimaduras de forno viradas para cima. — O estandarte estava encostado no portão. Do lado de fora. Dobrado. Bem dobrado, como se dobra pano de altar. Com a corda ainda amarrada nele. Cortada rente, na ponta, com uma coisa afiada. Pequena.
— Pequena — repetiu Brasa.
— Corte de lâmina pequena. O Hadrek olhou. Disse que não era faca de gente. Era menor. Mais curva. — Ela deu de ombros. — Não tinha pegada. Tinha nevado de madrugada, e a neve estava lisa, sem nada, do portão até onde a vista ia. Nem pegada de gente, nem de bicho. Como se tivesse caído do céu. Ou como se quem trouxe tivesse ido embora andando de costas e varrendo o chão.
Eu senti Brasa ficar duro do meu lado. O pelo do braço dele se arrepiou contra a minha manga.
Varrendo o chão. O acampamento da 28ª. O chão varrido de costas, numa faixa de um palmo, até o monte de pedras do fundo.
— O Oren foi lá fora sozinho — disse Mãe Duna. — Pegou o estandarte. Desdobrou no pátio, na frente de todo mundo. Viu o número. E não disse nada. Levou para o Cemitério, fincou o mastro com as mãos dele, e amarrou a corda de volta com aquele nó pequeno, porque a corda estava curta demais para o nó grande. — Ela olhou para as próprias mãos. — Depois foi para casa e não saiu por dois dias. A gente deixou a comida na porta.
— Por quê? — eu disse.
— Porque a vinte e oito tinha vindo buscar a vinte e sete. — Mãe Duna se levantou. O banco gemeu de alívio. — E ele achou que a culpa era dele.
Ela voltou para o caldeirão. Pegou a colher do prego.
— Isso eu posso contar — disse, de costas. — Isso todo mundo sabe. O resto, é com ele.
Brasa não disse nada. Mas, quando eu olhei para ele, ele estava olhando para mim. E os olhos dele diziam a mesma coisa que os meus. Que a gente sabia quem tinha dobrado o pano como pano de altar. Quem tinha uma lâmina pequena e curva. Quem varria o chão andando de costas.
E que nenhum de nós dois ia contar.
A briga foi no meio da tarde, no pátio, e todo mundo viu.
Eu estava no poço, tirando água para Irena, com Lio segurando a corda do outro lado e me contando, pela terceira vez, que tinha visto um Grimalkyne na borda do Cinzal com uma colher de latão na boca. Kellan estava sentado na escada do Salão com o braço enfaixado. A Cabo Marn passava com um maço de papéis. Os Dace, as mãos de Mira ainda em pano, o braço de Tor ainda enfaixado do ombro ao cotovelo, brigavam por uma pedra de amolar na porta da Forja.
E Veyra atravessou o pátio em linha reta até Oren, que vinha descendo da muralha.
— Os meus não são seus — disse ela.
Não alto. Mas o pátio de Última Luz era um lugar onde se ouvia uma colher cair. Lio largou a corda. O balde bateu no fundo do poço, longe.
— Bom dia, Holt.
— Dita. Oskel. Pell. Os carregadores. O Kest, três dias atrás, quando ele estava sob ordem minha. — Ela contava nos dedos, como Oren contava as regras à mesa. — Você põe a minha gente na sua muralha, carregando a sua pedra, e não me pergunta.
— Eu perguntei ao conselho.
— Eu não sou do seu conselho.
— Não. — Oren parou na frente dela. Era mais alto, mas não muito. — Você é a comandante de uma expedição que chegou aqui com cinquenta e oito bocas no começo do Clamor. A muralha precisa estar pronta antes das cinzas. Cinquenta e oito bocas comem. E as bocas que comem, carregam.
— A minha gente não veio para ser a sua mão de obra.
— A sua gente veio para morrer, Holt. Como a de todo mundo. — A voz dele não mudou. Essa era a pior coisa: não mudava. — Eu só estou tentando que ela morra depois. E do lado de dentro.
Eu vi a mão de Veyra fechar. A presa de Quell estava pendurada no cinto dela, e os dedos dela foram até lá sozinhos e apertaram.
— Oito anos atrás — disse ela, muito baixo, agora —, eu saí por aquele portão e disse que ninguém devia voltar.
— Disse. — Oren olhou para a cicatriz dela, a que ia da têmpora ao canto da boca. — E voltou. Com cinquenta e oito. E com o Kest.
Ele disse o meu nome de novo. A quinta. E, quando disse, não olhou para mim. Olhou para ela, como se o nome fosse uma coisa que ele estava pondo na mão dela. Uma pedra. Uma acusação. Eu não sei.
Veyra não respondeu. Os dois ficaram se olhando no meio do pátio, a comandante da 33ª e o homem da 26ª, com o sol de meio de tarde batendo de lado e todo mundo de Última Luz e da 33ª parado, de balde na mão, de pedra de amolar na mão, de papel na mão, esperando.
— Até as cinzas — disse Veyra, enfim. — A minha gente carrega até as cinzas. Depois, eu decido.
— Depois — disse Oren —, quem decide é o Clamor.
E foi embora, para a torre do meio, sem pressa.
Veyra ficou. Olhou em volta, para o pátio, para todos nós, parados. E, quando chegou em mim, no poço, parou.
Eu não desviei. Ela também não. Eu pensei que ela ia dizer alguma coisa sobre o Arquivo, sobre Oren, sobre o meu nome na boca dele. Ela sabia. Eu vi que sabia: alguém tinha contado a ela que eu tinha subido a muralha de manhã, e por quê.
— Kest — disse.
— Comandante.
— A Irena está esperando a água.
Só isso. E foi embora também, para o barracão, com a mão ainda na presa.
Lio puxou o balde de volta. Estava vazio. A corda tinha soltado do gancho lá embaixo.
À noite, eu subi a muralha de novo.
Não para falar com ninguém. Brann estava de guarda no trecho escorado, com o martelo encostado na mureta e a garrafa encostada no martelo, e me deixou sentar do lado dele sem perguntar nada, como fazia agora, desde a noite em que me contou da fuga. A gente ficou olhando o Cinzal escuro, as veias das árvores brilhando fraco lá longe, vermelhas, como brasa debaixo de cinza. O vento vinha do leste, morno. Eu não gostava daquele vento.
— Ele conheceu o seu pai — disse Brann. Não era pergunta. A base inteira já sabia.
— Conheceu.
— E não vai contar.
— Não.
Brann bebeu.
— Eu passei trinta e dois anos sem contar a ninguém a história inteira da Rathian — disse. — Nem do outro. Do que estava no fogo. — Ele limpou a boca com o dorso da mão. — Tem coisa que a gente não conta porque tem vergonha. Tem coisa que a gente não conta porque tem medo. E tem coisa que a gente não conta porque, se contar, alguém vai atrás. — Ele me olhou de lado. — Qual você acha que é a dele, garoto?
Eu não respondi.
Do alto do trecho escorado, se você olhasse para dentro, e não para o Cinzal, dava para ver o pátio inteiro. O poço. O Salão, escuro. A boca da Forja, com o vermelho do fundo. E, ao pé da torre do meio, encostada nela, uma casa de pedra baixa, sem enfeite, com uma janela de tábua que dava para o pátio.
A casa de Oren.
A janela estava fechada. Mas a tábua era velha e não fechava direito, e pela fresta de cima saía uma linha de luz amarela, fina como a lâmina de uma faca.
Eu fiquei olhando para aquela linha. Não sei quanto tempo. Brann bebeu e não disse mais nada.
E então a luz mudou. Ficou mais forte, mais baixa, como se alguém tivesse posto a lamparina no chão. E, pela fresta, em pedaços, eu vi.
Um ombro. O casaco de couro que tinha mudado de cor. Oren, de joelhos no chão da casa dele, de costas para a janela, curvado em cima de alguma coisa grande e escura que podia ser um baú. Eu o vi levantar uma tampa. Depois mexer dentro, fundo, com o braço inteiro. Depois uma coisa que fez um barulho que eu não ouvi, mas vi: as costas dele se encolhendo, como quando a gente força uma madeira que não quer sair.
E depois as mãos dele voltaram para a luz, e nelas havia um maço.
Papéis. Eu não sei se eram papéis. Era uma coisa clara, retangular, grossa como dois dedos, amarrada no meio com uma fita. A fita era escura. Na luz da lamparina, podia ser de qualquer cor. Podia ser marrom. Podia ser vermelha, que o tempo tinha deixado marrom.
Oren não desamarrou. Ficou com o maço nas duas mãos, de joelhos, imóvel, olhando para ele. Muito tempo. Do jeito que eu tinha ficado olhando para o diário da 27ª antes de abrir. Do jeito que Wessel tinha ficado com as mãos em cima dele, um instante a mais do que precisava. Como se pesasse.
Depois pôs o maço de volta. Fundo. As costas se encolheram de novo. A tampa desceu.
E a luz apagou.
— Garoto — disse Brann, do meu lado. — Você está apertando a pedra.
Olhei para as minhas mãos. Estavam em cima da mureta, no lugar onde a muralha encostava no paredão, as duas, os dedos brancos de tanto apertar. A mão mordida tinha aberto de novo debaixo do pano.
E, debaixo delas, na pedra lisa, mais velha que pedra, a coisa lá embaixo batia. Onze. Catorze. Nove. Dezesseis. Indiferente. Como sempre.
Eu tirei as mãos.
— Não vi nada — eu disse.
Brann bebeu.
— Eu também não — disse.
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