Capítulo 46

Sujeira de Terra

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— Kest — disse Wessel, do fundo do corredor. — Aqui dentro, ninguém bate.

Eu levantei a cabeça do diário. Não sabia do que ele estava falando.

Depois olhei para baixo.

A minha mão esquerda estava em cima da mesa, do lado da folha de Doran, e os dedos estavam batendo na madeira. Não forte. A ponta do indicador e do médio, juntos, como quem bate numa porta de longe. Tum. E uma pausa. Tum. E uma pausa mais comprida. Tum. Tinham feito isso sozinhos, sem eu mandar, sem eu saber, havia quanto tempo eu não fazia ideia. Eu estava lendo a lista pela vigésima vez. Corda, quarenta braças. Sebo para as botas. E a mão, lá embaixo, contando outra coisa.

Onze. Catorze. Nove.

Fechei a mão. Os dedos ficaram quietos dentro do punho, mas eu os sentia ainda, querendo, como uma perna que treme depois de correr.

— Desculpa — eu disse.

Wessel não respondeu. Eu ouvi os passos dele voltando para o escuro.

E só então percebi que Nessa não estava lendo.


Ela estava do outro lado da mesa, com o caderno de mapas aberto na frente e a décima sétima do lado, os rios das Coroas, a lista do Rio do Corvo, Rio Branco, o Fundo. Tinha passado a manhã inteira ali, copiando de cabeça para o caderno os traços dos rios, com o carvão que Wessel deixava usar porque carvão não pinga. Agora o carvão estava parado na mão dela, em cima do papel, sem encostar.

Ela estava olhando para a minha mão fechada.

Estava branca. Não pálida, como ficava de febre. Branca, como as paredes de gelo da fenda, como quem viu uma coisa atrás de mim e não tem coragem de dizer o quê. Eu cheguei a virar a cabeça. Atrás de mim só havia as prateleiras e o escuro.

— Nessa?

Ela não respondeu. Pôs o carvão na mesa, devagar. E então, sem tirar os olhos da minha mão, pôs a mão dela na madeira, do lado do caderno, com a palma para baixo.

E os dedos dela começaram.

Tum. Pausa. Tum. Pausa comprida. Tum.

Não estavam iguais aos meus. Estavam mais lentos, desajeitados, como quem tenta lembrar uma canção que só ouviu uma vez, de longe, numa outra casa. Mas eram os mesmos números. Eu contei. Não queria contar e contei. Onze. Catorze. Nove. E ela parou ali, no nove, com os dedos levantados, tremendo um pouco, como se tivesse esquecido o resto.

Dezesseis, eu pensei. O que vem agora é o dezesseis.

Ela olhou para a própria mão como se não fosse dela.

— Eu já fiz isso — disse. Muito baixo. — Não fiz?

Eu não consegui responder.

— Eu não lembro de ter feito. — A voz dela estava estranha, firme demais, a voz da lista, a voz das fichas. — Eu não lembro de nada. Eu lembro de cair. Do frio. Do bloco. Depois lembro de acordar na maca com a Comandante do lado. O meio é um buraco, eu te disse. Você disse que eu chamava a minha mãe. — Ela levantou os olhos para mim. — Mas a minha mão lembra, Ilian. A minha mão conhece isto. Eu olhei para a sua e a minha… — Ela engoliu. — A minha quis ir junto.

— Nessa…

— Você mentiu. — Não era acusação. Era uma conta que fechou. — Quando eu perguntei da Porta. Eu não chamava a minha mãe.

Do fundo do corredor, Wessel não fazia nenhum barulho. O que, em Wessel, era o mesmo que ouvir com as duas orelhas.

Eu fechei o diário da 27ª. Com cuidado, pelas bordas, como ele mandava.

— Aqui não — eu disse.


O poço dos fundos ficava atrás da Parede, numa dobra do paredão, onde a pedra lisa fazia uma curva para dentro e o sol só entrava uma hora por dia. Ninguém ia lá de manhã. A água tinha gosto de ferro e as mulheres de Última Luz preferiam o poço do pátio, e os da 33ª ainda não tinham descoberto que aquele lugar existia, menos eu, que tinha carregado oito baldes dali para Irena no dia do coice da cabra.

Nessa veio de muleta pela trilha estreita entre a Parede e o paredão, devagar, sem reclamar, passando pelas plaquetas, pelos pregos, pelo pente de osso dos pais de Lio, pela bota de criança, pela trança. Não olhou para elas. Olhava para o chão, onde a muleta ia.

Quando chegamos, ela sentou na borda de pedra do poço e esticou a perna esquerda no chão, como fazia sempre agora, como se a perna fosse uma coisa que ela carregava e precisava pôr em algum lugar.

Eu fiquei de pé. Não sabia onde ficar.

— Senta — disse ela. — Você fica parecendo a Comandante.

Sentei no chão, de costas para o paredão. A pedra estava fria. E, por baixo do frio, como sempre, como em todo lugar onde aquela pedra encostava em mim, a coisa batia.

— Começa pelo começo — disse Nessa. — Como eu disse para a carta do Custódio. Começa pelo nome.

— Não tem nome.

— Então começa por quando.

E eu comecei por quando.


Contei a fenda de gelo. A noite em que ela tremia do meu lado, enrolada na minha capa, e Pell tinha queimado o caderno para fazer fogo, e o fogo tinha acabado. Contei que eu tinha deitado de cara no gelo para não ver o rosto dela, e que, de cara no gelo, eu ouvi. Não com o ouvido. Com os dentes. Com o osso da cara. Uma coisa que batia lá embaixo, muito fundo, mais fundo que a fenda, mais fundo que a montanha. Tum. E depois de muito tempo, tum. Sem ritmo. Torta. Onze, catorze, nove, dezesseis, e depois outros números, que nunca se repetiam.

Contei que eu tinha seguido aquilo, no escuro, por uma fresta que não estava no mapa dela, e que tinha achado a saída por causa daquilo. E que, quando subimos para a luz, a coisa tinha sumido.

Contei a Porta. Ela, de febre, na maca, à sombra do arco cor de osso, segurando o meu pulso com uma força que não era dela, e batendo. Onze. Catorze. Nove. Dezesseis. Os números exatos. Que eu nunca tinha dito a ninguém. E continuando, depois do dezesseis, com outros, como se ela soubesse o resto.

Ela fechou os olhos quando eu contei isso. Não disse nada.

Contei a colina diante de Última Luz, deitado na pedra, a coisa mais perto, mais forte, uma presença que eu tinha que me esforçar para não ouvir. A casa de febre, encostada no paredão, onde ela vinha de logo embaixo, tão alta que eu achei que a base estava construída em cima dela. O leste, a Descida, onde ela batia pelo ar, pelo peito, onde eu não precisava encostar em nada.

E contei o dia do fogo. A mureta. O rosto na pedra. E, por cima da coisa que batia, as batidas de Mira, três e três, a meio dia de distância, entrando pela pedra como entram por um fio esticado.

— Não tinha como ouvir daqui — disse Nessa, de olhos fechados. Repetindo Mira.

— Não tinha.

— Mas você ouviu.

— Eu ouvi.

Ela abriu os olhos.

Eu não contei a espiral. Não contei o desenho da carta, nem a Porta com o dragão enrolado no peito, nem as três voltas riscadas na lista do meu pai. Não contei a placa de osso que esquentou na Forja. E não contei a madrugada em que a febre dela quebrou, e o que eu vi em volta da ferida, as linhas finas cor de cinza fria, como raízes, como as veias apagadas das árvores, sumindo para dentro da pele em três respirações.

Não contei, e ela não sabia que havia mais. Ou sabia. Com Nessa, eu nunca tinha certeza.


Ela ficou muito tempo quieta. O sol tinha entrado na dobra do paredão, enfim, a única hora que entrava, e batia de lado na água do poço, e a água devolvia a luz para o rosto dela em manchas que se mexiam.

— Eu achava que era sujeira — disse ela.

— O quê?

— A sua cara. — Ela quase sorriu. — Desde a Garganta, todo dia de manhã, você acorda com terra na cara. Num lado só. O esquerdo. Pó de pedra. Cinza. Na casa de febre era pó do chão. No barracão, terra. Eu pensava: esse rapaz não se lava. — Ela apontou para o meu rosto. — Tem agora. Da mesa do Arquivo, não, da muralha de ontem. Uma marca vermelha de pedra. Eu achava que você dormia mal. Que era costume de pastor, como você disse para a mulher da horta.

— Quem te contou isso?

— A Irena. Ela gosta de você. — Nessa ficou séria de novo. — Você dorme de cara no chão para ouvir.

— Eu durmo de cara no chão porque, se eu não durmo, eu ouço do mesmo jeito, e é pior. — Eu não sabia que ia dizer isso até ter dito. — Deitado de costas, ela fica longe. Fica atrás, como alguém falando no quarto do lado. Aí eu fico tentando ouvir. A noite inteira. Se eu encosto, ela vem toda de uma vez, e eu consigo dormir por cima dela. Como quem dorme do lado de um rio.

Nessa me olhou um tempo.

— Isso é a coisa mais triste que alguém já me disse — disse.

— Não é triste.

— É. — Ela se inclinou para a frente, apoiada na muleta. — Ilian. Eu posso ouvir?


Eu não sabia o que responder. Disse que não sabia. Disse que ninguém mais ouvia. Que Brasa não ouvia, nem Pell, nem Brann, nem ninguém na muralha no dia do fogo. Disse que ela podia tentar.

Ela tentou.

Levantou-se com a muleta, foi até o paredão, ao lado de onde eu estava, e encostou a testa na pedra lisa. Depois a bochecha. Depois, com muito cuidado, por causa da perna, ajoelhou-se e encostou o rosto inteiro, o lado esquerdo, como eu fazia, e as duas palmas abertas, uma de cada lado da cabeça.

Fechou os olhos.

Eu fiquei olhando para ela. Não para a pedra. Para ela. Para o rosto apertado contra o paredão, a boca entreaberta, as pálpebras tremendo de tanto apertar. Esperando. Contando, eu sabia, como ela contava as folhas das fichas, como ela contava os rios.

Debaixo da minha própria mão, na pedra, a coisa batia. Onze. Catorze. Nove. Dezesseis. Sete. Vinte. Eu não precisava encostar o rosto para sentir. Estava ali, alta, perto, a meio braço da cabeça dela.

— Nada — disse Nessa. Com o rosto ainda na pedra. — Fria. Só fria.

Ela ficou mais um pouco. Depois mais. Eu vi a decepção chegar no rosto dela, devagar, como a sombra no pátio quando o sol passa do paredão.

E então eu vi a mão.

A mão direita dela, aberta na pedra, ao lado da orelha. Os dedos. Que se levantaram, sozinhos, um pouco, e desceram. E se levantaram. E desceram.

Não forte. Não do jeito certo. Desencontrados, como quem tropeça. Mas desceram quando a coisa batia. Eu senti a batida subir pela minha mão e vi os dedos dela descerem na mesma hora. Uma vez. E outra. Atrasados um nada, como o eco atrasa o grito.

Ela não sabia. Estava de olhos fechados, a testa franzida, procurando com o ouvido uma coisa que não estava no ouvido. E a mão dela, do lado, respondendo sozinha, sem ela.

Eu não disse nada.

Não sei se fiz certo. Pensei muito nisso depois, em muitas noites, de cara no chão. Mas, naquela hora, olhando os dedos dela descerem e subirem na pedra, eu pensei no Arquivo. Nas fichas. Nas folhas que sobem. Na costura bonita. E pensei que, se eu dissesse a sua mão está ouvindo, Nessa, ela ia querer saber por quê. E eu não sabia por quê. E a única pessoa no vale que talvez soubesse tinha posto um pó cinza no emplastro dela numa manhã na sombra da Porta e sorrido para uma coisa que não estava ali.

— Nada — disse ela de novo, e se afastou da pedra.

Os dedos pararam no mesmo instante. Como se nunca tivessem começado.


Ela voltou para a borda do poço e sentou. Esticou a perna. Ficou olhando a água um tempo.

— Eu acredito em você — disse.

Assim. Sem mas. Sem e se for febre, e se for o frio, e se for a pedra. Eu tinha esperado o mas desde o Arquivo e ele não veio.

— Por quê?

— Porque a minha mão sabe os números. — Ela olhou para mim. — E porque você salvou a Mira. E porque você nunca mentiu para mim sobre nada importante, Ilian, só sobre mim. — Ela deu um meio sorriso torto. — Você mente mal, sabia? Você olha para a esquerda e fica com a voz de quem está lendo.

Eu não disse nada.

— A Comandante sabe?

— Não. Ela sabe que tem alguma coisa. Não sabe o quê.

— O Brann?

— Desconfia. Não pergunta.

— O doutor?

Eu demorei a responder.

— Ele me perguntou, no Charco, se eu ouvia algum outro som. Antes de tudo. Antes do navio.

Nessa ficou quieta. Pensando. Eu a vi pensar no emplastro, na maleta, nos frascos, no sorriso dele para a ferida na casa de febre. Eu a vi decidir não dizer o que pensou.

Ela abriu o livro da 33ª no colo.

Eu conhecia aquele livro. Ela escrevia nele toda noite, desde a casa de febre. Uma página para cada um, os vivos e os mortos, o que tinham feito, o que tinham dito. Um livro é para lembrar que eles viveram. Ela folheou até uma página. A minha. Eu vi o meu nome no alto, Ilian Kest, na letra redonda dela, e embaixo umas linhas que eu não li.

Ela pegou o carvão. Ficou com ele parado em cima da página.

E não escreveu.

— Esta não sobe — disse.

Fechou o livro. Pôs a mão em cima dele, aberta, como Wessel punha a mão em cima dos livros que pesavam.

— É a primeira coisa que eu não escrevo — disse. — Desde Varnhal. Desde sempre. — Ela olhou para o livro. — É estranho. Parece que eu estou guardando um bicho dentro de uma caixa.

— É assim — eu disse.

— Você faz isso faz quanto tempo?

— Desde a fenda.

Ela balançou a cabeça. Ficamos quietos. A luz do sol saiu da dobra do paredão tão de repente quanto tinha entrado, e o poço voltou a ser cinza, e a água voltou a ser escura, e fez frio.

Pela primeira vez desde a fenda de gelo, eu não estava sozinho com aquilo. Era uma coisa física. Como tirar uma pedra da mochila no fim do dia e sentir os ombros subirem. Eu não sabia que estava carregando até pôr no chão. E, junto com o alívio, veio a outra coisa, que eu também não esperava: o peso não tinha sumido. Só estava, agora, em dois lugares. E um deles era ela.


Ela se levantou primeiro. Ajeitou a muleta debaixo do braço. Olhou para a trilha estreita entre a Parede e o paredão, para voltar.

E não foi.

Ficou parada, olhando para baixo. Para a perna esquerda. Para a canela, onde o bloco de gelo tinha caído, na fenda, e onde agora havia só uma faixa de pano limpo e, por baixo dele, eu sabia, uma cicatriz rosada, comprida, fechada. Fechada depressa. Mais depressa do que Crane tinha dito que ia fechar. Mais depressa do que qualquer coisa fecha.

Ela não estava olhando para a cicatriz como se olha uma ferida que sarou. Estava olhando como tinha olhado para a minha mão no Arquivo.

— Ilian — disse.

— Hum.

— Você ficou comigo. Na madrugada em que a febre quebrou. A Comandante disse. Você ficou acordado do lado da maca a noite inteira.

— Fiquei.

— Você viu alguma coisa na minha perna? — Ela não levantou os olhos. — Na madrugada?

Eu vi as linhas. Cor de cinza fria. Finas como cabelo, ramificadas, como raízes, como as rachaduras de um prato, como as veias apagadas das árvores do Cinzal, em volta da ferida, sob a pele. E vi quando elas recolheram, das pontas para o meio, uma, duas, três respirações, e sumiram para dentro, como água entrando na areia.

— Não — eu disse. — Você suou muito. Só isso.

Nessa ficou um tempo olhando a perna.

Depois levantou os olhos para mim. Não disse nada. Não precisava. Eu tinha olhado para a esquerda. Eu tinha ouvido a minha própria voz, a voz de quem está lendo.

Ela sabia.

E ela deixou. Foi isso que eu nunca esqueci. Ela me olhou, sabendo, e fez que sim com a cabeça, uma vez, devagar, como quem aceita uma moeda falsa de alguém que precisa muito que ela aceite. E foi embora pela trilha estreita, de muleta, entre a Parede dos mortos e o paredão que batia, sem olhar para trás.

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