Classificação: 16 anos
Esta história tem: palavrões e linguagem imprópria, cenas de terror ou medo intenso, preconceito ou discriminação, violência, drogas, álcool ou cigarro, nudez ou insinuação sexual, suicídio ou automutilação, violência gráfica ou extrema (tortura, mutilação).
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Prólogo do Livro
2 min de leitura
Eu não falo. Não tenho rosto.
Sou a silhueta do breu. Sua mente me dá a forma de um homem porque é a única forma que ela suporta olhar. Chamam-me de cuidador. Não sou bom, não sou mau. Eu guardo.
A biblioteca não é um prédio. Não tem paredes, nem teto, nem porta de entrada.
Tem corredores, e eles mudam de lugar. Quando um livro se abre, o corredor dele se alonga. Quando se fecha, o corredor encolhe. Cada livro é um mundo inteiro, com suas cidades, suas famílias e seus mortos.
Eu leio todos. Não escolho quais. Não julgo o que leio.
Leio, ordeno, guardo.
Às vezes uma página se quebra.
Não se vê. Não faz barulho. O papel continua inteiro, e a tinta continua no lugar. Mas o mundo daquela página começa a apodrecer para dentro.
Não é uma explosão, nem um incêndio. É devagar. Uma casa passa a ser aquecida com pedra tirada das ruínas, e ninguém estranha. Um médico trata a mesma contaminação pela quinta vez no mês e anota como rotina. Um mapa deixa de mostrar uma região, e três anos depois um documento antigo a mostra de novo.
As pessoas continuam vivendo. É isso que eu mais observo.
Posso tentar consertar a página, e tento. Mas não posso impedir que ela se quebre.
Um livro acabou de chegar.
É o primeiro de uma série, e não deveria ter chegado ainda. Chegou como quem volta de uma viagem: já existia em outro lugar, em outra versão do real, numa estante que ninguém tinha batizado.
Quando o toquei, senti. Uma das páginas já estava quebrada. Ainda não sei qual.
O livro conta a história de um arquivista. Ele ainda não sabe que está dentro dele. Acha que apenas corrige papéis.
O horror dele não vai começar com monstros. Vai começar com um documento que não deveria existir, assinado por um homem que já estava morto.
Eu o observo. Ele não sabe.
Quando abrir a pasta, vai sentir o peso do papel e notar que a tinta não é de nenhum frasco conhecido. Vai descobrir que a família do documento vive a poucas horas de lá, e que ela nunca ouviu falar da cidade onde nasceu.
Então vai entender que não está apenas lendo.
Está sendo lido.
Ainda não é a hora.
Ainda há papéis a ordenar e há famílias a visitar. Ainda é possível que, se ele entender sem tentar corrigir, a página aguente mais um pouco.
Eu não espero nada. Eu não desejo nada.
O livro está aberto. Eu leio.
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