Classificação: 16 anos
Esta história tem: palavrões e linguagem imprópria, cenas de terror ou medo intenso, preconceito ou discriminação, violência, drogas, álcool ou cigarro, nudez ou insinuação sexual, suicídio ou automutilação, violência gráfica ou extrema (tortura, mutilação).
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Capítulo 1
O Documento Impossível
5 min de leitura
A pasta chegou numa noite de chuva, e ninguém a entregou.
Anselmo Reis estava na mesa sete, de costas para os vitrais, conferindo um inventário de herança que já tinha conferido duas vezes. Levantou para acender outro lampião. Quando voltou, ela estava ali, em cima do inventário.
Era de couro amarelado, do tamanho de um livro de contas. Tinha uma etiqueta de papel colada na capa, com um número de registro à tinta: 4471-C.
— Quem deixou isso aqui? — perguntou.
A sala estava vazia. Os outros catorze funcionários tinham ido embora às seis. Lá fora, a chuva batia nos vitrais altos com o som de sempre, e o cheiro de ácido e poeira subia das prateleiras de madeira.
Ninguém respondeu.
Anselmo passou o dedo na etiqueta. Trabalhava no arquivo havia dezenove anos, e conhecia todas as séries. Havia o A para propriedades, o B para testamentos, o D para litígios. Nunca tinha existido um C.
Ele sentou, abriu o livro de entradas e procurou o número.
Não estava lá. Procurou nas listas de acesso, depois no índice de pastas emprestadas. Nada. Pela lógica do arquivo, aquela pasta não existia.
Mas pesava na mão.
A primeira folha era uma declaração de nascimento.
Estava escrita em tinta preta, numa letra firme, no formato que o arquivo usava havia dois séculos. Registrava o nascimento de uma menina, filha de Tomás e Ilda Varela, no ano 847, na cidade de Velha Creux.
Anselmo leu o nome da cidade duas vezes.
Não existia nenhuma Velha Creux. Não havia no mapa, nem nos registros de impostos, nem nas crônicas. Ele conhecia todas as cidades da região, e as mortas também.
Desceu o olhar até o fim da folha. O registrador tinha assinado: J. M. Varela, testemunha de demarcação.
Foi aí que o estômago dele se apertou.
Conhecia aquela assinatura de cor. Aparecia em trezentos e tantos documentos de propriedade das terras junto às ruínas, sempre no pé da página, sempre com o mesmo floreio no V. J. M. Varela tinha sido explorador. Fazia as demarcações antes que a prefeitura reconhecesse as ruínas como parte do território.
E tinha morrido mais de duzentos anos antes do ano 847. Antes de existir qualquer cidade naquela região, que dirá uma Velha Creux. Um morto não assina declaração de nascimento.
Anselmo não era um homem ingênuo. Era um falsificador.
Fazia isso havia onze anos, sem nunca ter contado a ninguém. Quando morria o chefe de uma família pobre, a casa podia ser tomada, porque os papéis estavam em nome do morto e o herdeiro não tinha dinheiro para o processo. Então, de vez em quando, uma data mudava num registro, uma assinatura ganhava companhia, e a viúva continuava no quintal.
Ele sabia como era um papel falso.
Sabia o cheiro de tinta fresca disfarçada com chá, e a hesitação da mão que imita outra. Sabia como o traço de um falsário treme no começo das letras, onde ele tem medo de errar.
Esse documento não tremia. A assinatura saía do V como saía nos outros trezentos, com a mesma pressão e a mesma inclinação. Aquilo não era imitação. Era a mão dele.
— Não é possível — disse, em voz baixa.
A voz dele soou estranha na sala vazia.
Pegou a lupa de metal que guardava na gaveta e examinou a tinta.
Era preta, mas não do preto das tintas de ferro dos registros antigos. Tinha um fundo diferente, quase marrom nas bordas, e perto dos traços mais grossos parecia mais fosca do que a luz justificava. Parecia feita de uma planta que não crescia ali.
Raspou um canto da folha com a unha, e a tinta não saiu.
O papel também estava errado. Não era pergaminho, nem algodão, nem a polpa industrial que amarelava em poucos anos. Era cor de marfim e quase transparente nas beiradas. Quando dobrou um canto, a dobra voltou sozinha, devagar, como pele.
Anselmo largou a folha.
Olhou as próprias mãos. Estavam secas, mas ele as limpou na calça mesmo assim.
Ele podia ter levado a pasta ao diretor. Era o procedimento. Um documento sem registro, assinado por um morto, referente a uma cidade que não existia, se encaixava em pelo menos duas categorias de fraude e uma de crime.
Mas pensou nas consequências.
Se alguém dissesse que aquilo era verdadeiro, se um conselho decidisse que Velha Creux tinha existido, então todas as terras junto às ruínas precisariam ser revistas. Todas as heranças e todos os títulos. Famílias que moravam ali havia três gerações podiam perder a casa por causa de uma folha.
E se dissesse que era falso, a pasta seria queimada.
Fechou a pasta e foi até o fundo da sala, onde havia uma gaveta embutida na parede, atrás da última prateleira. O setor esquecido. Ele a tinha encontrado anos antes, por acidente, e nunca soube explicar por que ninguém a abria. Dentro, só havia pó e uma folha de papel em branco.
Colocou a pasta ali. A gaveta fechou com um clique macio.
Voltou à mesa sete e acendeu uma vela. Não precisava dela, já havia lampiões. Mas tinha vontade de ver uma chama pequena.
Abriu o caderno particular, o que guardava em outra gaveta, longe dos registros do arquivo. Escreveu com letra cuidadosa:
12 de outubro. Pasta 4471-C, sem registro de entrada. Declaração de nascimento, Velha Creux, 847, família Varela. Assinatura de J. M. Varela, explorador, morto há duzentos anos. Tinta desconhecida. Papel desconhecido. Não é falsificação. Decisão: guardar, não corrigir, não denunciar.
Releu.
Embaixo, depois de pensar um pouco, acrescentou:
Não é falsificação. Eu saberia.
Fechou o caderno.
Lá fora, a chuva diminuiu.
Anselmo ficou na mesa sete até as primeiras carroças passarem na rua. Não era bem medo. Era uma coisa lenta, que ele sentia entre as costelas. Tinha a impressão de que, na hora em que abrira a pasta, alguma coisa tinha aberto do outro lado também.
Como se alguém, em outro lugar, tivesse parado de ler por um instante.
E voltado a ler.
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