Capítulo 2

A Autenticidade

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Anselmo passou três dias fingindo que nada tinha mudado.

Chegava às sete, cumprimentava o porteiro e conferia inventários. Almoçava no pátio com Dalva, da seção de testamentos, que reclamava do joelho e da sobrinha. À tarde carimbava, arquivava e assinava. Ninguém notou nada.

À noite, quando o último funcionário saía, ele ia até o fundo da sala e abria a gaveta.

A pasta estava sempre lá. No segundo dia, ele tinha quase esperado que sumisse.


Na terceira noite, decidiu fazer o que sabia fazer: provar que era falsa.

Se conseguisse, tudo ficaria simples. Haveria um falsário em algum lugar, com habilidade fora do comum e senso de humor ruim, e Anselmo poderia queimar a pasta sem culpa.

Levou o documento para a mesa sete e posicionou o lampião à esquerda, para a luz rasar o papel.

Começou pela assinatura.

Pegou três registros de J. M. Varela, escolhidos de décadas diferentes, e pôs lado a lado com a declaração. Mediu com uma régua de latão a altura do V, o recuo do traço final e a distância entre as duas letras.

Eram idênticos.

Não eram parecidos, eram idênticos. Em trezentas assinaturas, nenhuma mão humana repete a mesma curva com essa exatidão. O próprio Anselmo, depois de onze anos, ainda errava em milímetros.

Anotou os números no caderno. Depois riscou, porque os números não ajudavam.


Foi atrás da tinta.

Anos antes, o arquivo tinha começado um projeto de autenticação, e Anselmo ajudara a organizar as amostras. Eram quarenta lâminas de vidro, cada uma com um risco de tinta de uma época. O projeto nunca foi concluído, porque a verba acabou. As lâminas ficaram numa caixa de madeira, no fundo do armário de ferro.

Ele tirou a caixa e limpou a tampa com o punho da manga.

Comparou lâmina por lâmina, sob a lupa, riscando uma linha ao lado da tinta da declaração. Tinta de ferro, tinta de galha, tinta de fumo. Preto de vinho, preto de osso. Nada.

Na lâmina quarenta, ele parou.

Alguém tinha escrito embaixo, em letra miúda, uma anotação: Não classificada. Provável erro de catálogo. Ele conhecia aquela letra, e era a dele. Mas não se lembrava de ter escrito aquilo, e a lâmina quarenta não tinha tinta nenhuma. Só vidro limpo.

Anselmo segurou a lâmina entre os dedos, sem se mexer.

Guardou-a e fechou a caixa. Não anotou nada no caderno.


Restava o papel.

Cortou uma tira da borda, do tamanho de uma unha, com o estilete mais fino. A tira se curvou na palma, reagindo ao calor da mão. Anselmo a segurou contra a luz.

Havia uma marca d'água, mas não era de marca nenhuma que ele conhecesse. Não tinha escudo, nome de moinho ou ano. Era uma linha ondulada, que parecia uma costela.

E o papel tinha estado molhado. Não agora, porque estava seco. Mas as fibras tinham o desenho de quem foi encharcado muito tempo, anos, talvez séculos, num clima mais úmido do que o da cidade dele. Como se o papel tivesse sido feito noutro lugar, e esse lugar tivesse vindo dentro dele.

Anselmo pôs a tira dentro de um envelope e fechou. Depois abriu de novo, porque queria ver se ainda se curvava.

Ainda se curvava.


— Você não dorme, Anselmo.

Ele levantou a cabeça. Era Dalva, de casaco e guarda-chuva, parada na porta com uma expressão de quem esquecera algo.

— Esqueci o xale — disse ela. — E você tem olheiras de defunto. Quando foi a última vez que comeu?

— Almocei com você hoje.

— Almoçou um pão. — Ela veio até a mesa, pegou o xale da cadeira e olhou, sem muito interesse, para a pasta aberta. — Papelada nova?

Anselmo cobriu a declaração com a mão, sem pensar. Foi um gesto rápido e ela viu. Nenhum dos dois disse nada.

— Herança antiga — disse ele. — Uma coisa confusa.

— Confusa é o normal por aqui. — Dalva deu de ombros e foi andando em direção à porta. — Vai para casa. O papel não foge.

Ela saiu.

Anselmo ficou pensando que, das duas frases, a segunda era a que mais o incomodava.


Quando ouviu a porta da rua se fechar, voltou à declaração.

Faltava uma coisa, e ele soubera disso desde o primeiro dia. Procurou no arquivo de pessoal o nome de J. M. Varela, o explorador, e foi lendo a ficha até o fim.

Varela, Júlio Mateus. Demarcador. Nascido em 612. Falecido em 640.

Duzentos e sete anos antes da data da declaração.

Os registros diziam que ele nunca tinha trabalhado no arquivo, mas todas as demarcações dele estavam arquivadas ali, porque os homens do arquivo as copiavam à mão. Anselmo tinha lido a assinatura dele em trezentas páginas. Cada uma era uma mão que continuava morta.

E, no entanto, alguém tinha assinado a declaração de 847, com a mesma mão e a mesma tinta, que tampouco existia nas lâminas.

Anselmo se encostou na cadeira.

Não havia falsário. Ele sabia disso desde a primeira noite, e passara três dias procurando um jeito de não saber.


A pergunta seguinte era se devia corrigir.

Era o que ele fazia. Quando um documento estava errado, ele consertava: mudava a data, apagava a duplicata, acertava o nome. Seria fácil riscar o ano, ou a cidade, ou o registrador. Meia hora de trabalho e a pasta seria só mais um papel com um erro de catálogo.

Pegou a pena, mergulhou no tinteiro e não escreveu.

Algo o impedia, e não era escrúpulo, porque falsificava havia onze anos. Era a sensação de que, se corrigisse, estaria cortando uma coisa que ainda estava ligada a outra.

Pôs a pena no suporte.

Voltou com a pasta ao fundo da sala e a guardou no setor esquecido. Quando a gaveta fechou, escutou um som que não deveria estar ali. Não foi o clique macio das outras vezes. Foi um tum fundo, como uma pedra batendo em água, vindo de dentro da parede.

Anselmo esperou. A parede não fez mais barulho.

Depois escreveu no caderno:

15 de outubro. Autenticidade confirmada. Assinatura idêntica à de um morto. Tinta inexistente. Papel inexistente. Gaveta fez um som novo. Não corrigi o documento. Preciso saber quem é a família.

Releu a última frase. Era a primeira vez, em três dias, que escrevia um plano.

A chuva voltou a cair.

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